Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Carlos Eduardo Lins da Silva

02/12/2008 na edição 514

‘Três dos melhores trabalhos publicados por este jornal em 2008 se devem em grande parte ao Datafolha, que comemora o jubileu de prata.

A série DNA paulistano e os cadernos especiais sobre jovens e racismo são exemplos de debate aprofundado de temas de interesse público a partir de dados empíricos relevantes e confiáveis.

Quando foi criado, em 1983, o tipo de metodologia usado pelo Datafolha (chamado ‘survey’, pesquisa quantitativa baseada em questionários fechados) era objeto de grande debate na comunidade acadêmica do país.

Eram os tempos de chegada à democracia, e o espírito crítico andava aguçadíssimo. O bordão de Pierre Bourdieu (‘a opinião pública não existe’) para denunciar esses trabalhos estava em voga.

De fato, a pesquisa quantitativa não consegue dar conta de problemas sociais mais complexos. Tanto é verdade, que o próprio Datafolha desenvolve muitos trabalhos em que utiliza métodos qualitativos quando necessário.

O exagero com que se utilizavam as pesquisas de opinião fornecia munição aos inimigos. E a Folha ajudava. Encantada com o material que o Datafolha lhe fornecia, a Redação extrapolava na sua utilização.

Caio Túlio Costa, secretário de Redação na época e primeiro ombudsman deste jornal, chega a dizer que ele virou ‘uma espécie de refém das pesquisas’. É de Costa a blague de que se o mundo acabasse a manchete da Folha seria: ‘Mundo acaba; 50% discordam’.

Mas o nível de qualidade do trabalho do Datafolha é tão alto, que não há como discutir sua competência. Ele já produziu 3.445 pesquisas de opinião e de intenção de voto publicadas pelo jornal, e o índice de erro é irrisório.

Graças ao trabalho de sociólogos como Vilmar Faria, Reginaldo Prandi, Antônio Flávio Pierucci, Mara Kotscho, Antônio Manuel Teixeira Mendes, Gustavo Venturi e Mauro Paulino, o atual diretor, o instituto desenvolveu um modelo próprio, que se tem mostrado muito eficiente.

Além de ter acertado em cheio as intenções de voto em quase todas as eleições pós-regime militar, revolucionou a análise estatística de jogos de futebol, criou modo objetivo de avaliar salas de cinema e medir multidões e faz pesquisas de mercado muito requisitadas por grandes empresas. Em momentos de pico, chega a contar com o trabalho de 1.300 pessoas. Só uma empresa grande e forte é capaz de sustentar isso.

No Brasil, não há outro grupo de comunicação com seu próprio instituto de pesquisas. No mundo, são raros. O primeiro precursor foi uma revista semanal americana, ‘Literary Digest’, que circulou entre 1890 e 1938.

Sua experiência com pesquisa naufragou na eleição de 1936, quando previu que o candidato do Partido Republicano, Alfred Landon, derrotaria ‘de lavada’ o presidente Franklin Roosevelt, que se reelegeu com 60,8% dos votos. Com o Datafolha, isso seria impossível.’

***

‘Do cabelo azul aos piercings’, copyright Folha de S. Paulo, 30/11/08.

‘É difícil interpretar opiniões, desejos, gostos, atitudes de contingente tão grande e diversificado de pessoas como o dos leitores desta Folha.

Até o domingo, quando publiquei críticas à edição eletrônica deste jornal, só recebera mensagens contra ela.

Nesta semana, chegaram várias outras, bastante favoráveis à versão que aparece na internet. E só uma contrária.

Nenhum grupo é estatisticamente expressivo: cerca de uma dúzia cada um. Ou seja: a esmagadora maioria que não se manifestou pode pensar de um jeito ou de outro.

A conclusão: há pelo menos dois tipos de leitores da edição eletrônica. Um a acessa como fonte primária; outro lê o jornal impresso e vai a ela para ‘clipar’ matérias ou lhes dar alguma utilização na internet.

No primeiro, a tendência é não gostar da atual versão eletrônica; no segundo, a oposta.

Entre os apoiadores, destaco o leitor, muito crítico, Darlan Zurc: ‘A versão na internet é bem caprichada, é visualizada na linguagem de todo browser e é gostosa de ler’.

Zurc intui outra diferença entre essas duas turmas: a etária. Ao se referir ao leitor para quem o pessoal da Folha vai ter de pintar o cabelo de azul de tão velho que está, disse: ‘Aposto até que tal leitor tem doze anos e meio, só veste Prada e tem uns trinta e cinco piercings no olho direito’.

Um consenso: fazem falta na versão eletrônica artes, gráficos e fotos da impressa.’

***

‘Para ler’, copyright Folha de S. Paulo, 30/11/08.

‘‘Metodologia da Pesquisa-ação’, de Michel Thiollent, Cortez, 2005 (a partir de R$ 17,10) contém uma bem embasada crítica da metodologia de pesquisa de opinião feita com questionários

‘Precision Journalism’, de Philip Meyer, Rowman & Littlefield Publishers, 2002 (US$ 30,95, no site amazon.com) o melhor e mais completo livro sobre como o jornalismo pode se beneficiar de métodos quantitativos de pesquisa

PARA VER

‘Mera Coincidência’, de Barry Levinson, com Dustin Hoffman e Robert DeNiro, 1997 (a partir de R$ 19,90) inteligente sátira sobre um governo guiado por pesquisas de opinião pública

ONDE A FOLHA FOI BEM…

DESPEJOS AMERICANOS

Sete semanas após leitor ter perguntado, reportagem responde qual o número total de despejos na crise americana

CÂNCER DE PRÓSTATA

Tema foi bem acompanhado do início ao fim da polêmica sobre exame de toque

GUIA DA FOLHA

Guia de livros, discos e filmes é ótimo produto; pena que nem todos os assinantes e leitores o recebam

…E ONDE FOI MAL

MEIA-ENTRADA

O assunto só começou a ganhar destaque depois de decisão em comissão da Câmara

NÚMEROS DA CRISE

Na quarta, primeira página usa uma cifra como total de gastos do governo americano com a crise e editorial usa outra

APOSENTADOS

Jornal vem dando pouca cobertura a projetos de lei sobre aposentados que tramitam no Congresso’

RODAPÉ

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