Sábado, 21 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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VOZ DOS OUVIDORES >

Carlos Eduardo Lins da Silva

21/07/2009 na edição 547

‘NA QUINTA-FEIRA , o jornal noticiou que o Senado havia aprovado em última instância projeto de lei que altera regras para a adoção de crianças. A mais recente menção da Folha ao assunto havia ocorrido em 21 de agosto de 2008. É como se dez meses atrás tivesse anunciado que Roberto Carlos faria um show no Maracanã e só voltasse ao tema na segunda para descrever o espetáculo.

Ou tivesse dito na quinta que o Cruzeiro perdera a final da Libertadores sem ter tratado do campeonato nos 300 dias anteriores.

Poucos discordarão de que a Lei Nacional de Adoção é um assunto relevante. Como a lei da gorjeta, a reforma eleitoral, a regulamentação dos mototáxis, as mudanças no processo de divórcio, só para citar algumas leis a respeito das quais o Congresso tomou decisões vitais recentemente e que foram apresentadas ao leitor como fatos consumados.

As atividades de trabalho do Legislativo (nos seus três níveis) são cobertas pobremente pela Folha. E não é por falta de gente nem de papel. Boa quantidade de árvores caiu para produzir a montanha de páginas usadas para os mil e um escândalos da Câmara e do Senado só neste ano.

É claro que denunciar malfeitorias com dinheiro público é uma das principais funções do jornalismo.

Mas o Legislativo produz mais do que crimes e fofocas, suas duas únicas criações que parecem mobilizar a reportagem deste jornal.

Mesmo nessas áreas, seu desempenho é fraco. As malversações em geral só aparecem quando algum político interessado em prejudicar adversários as joga no colo de um repórter. Durante anos o Senado teve mais de uma centena de diretores, cujos nomes e funções constavam de catálogos públicos. Mas só agora se tratou deles, por exemplo.

E a cobertura insiste em focar pessoas, não instituições. É mais fácil responsabilizar indivíduos do que explicar processos. Mas tal simplificação é perniciosa para a cidadania e para a sociedade.

O jornal precisa produzir e editar mais material do tipo que gerou o livro recomendado ao final desta coluna e menos do que tem sido o padrão do seu jornalismo político: textos previsíveis, redundantes, cifrados, superficiais, aborrecidos, moralistas e frequentemente a serviço conscientemente ou não de políticos ou individualmente ou em grupos.

Em entrevista que vai ao ar amanhã e está indicada abaixo, o jornalista Gay Talese diz que uma providência imediata para melhorar a qualidade do seu jornal, o ‘New York Times’, seria tirar de Washington a maioria dos jornalistas que compõem a sucursal na capital do país.

Talvez nem seja preciso tanto aqui.

Se os que estão em Brasília se dedicarem a informar o leitor sobre a tramitação de projetos de lei de importância, ajudando-o a engajar-se no debate público, o jornal será mais efetivo. Talvez então congressistas suspeitos deixem de se lixar para ele.

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PARA LER

‘Políticos do Brasil’, de Fernando Rodrigues, Publifolha, 2006 (a partir de R$ 33,92)

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PARA VER

Entrevista com o jornalista Gay Talese no programa ‘Roda Viva’ (amanhã, às 22h10 na TV Cultura em transmissão nacional)

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Favela não é caso de polícia

Há assuntos policiais que são episódicos: ocorrem, viram notícia por qualquer razão e acabam. E há os que decorrem de situações estruturais (sociais, urbanísticas, econômicas) e vão se repetir com gravidade e abrangência crescentes enquanto elas perdurarem.

Um jornal popular pode concentrar seus esforços naqueles. Um jornal de referência deve tratar pelo menos prioritariamente destes.

Nesta semana, a Folha esteve cheia de casos policiais episódicos (menina cai de prédio, mulher de boxeador é presa, ventania deixa desaparecidos, ossos roubados, Mercedes furtada é abandonada).

Na segunda e na quarta, tratou de casos ‘estruturais’, que envolviam duas favelas de São Paulo. Mas quase como se fossem dos outros. Não é assim que devem ser as coisas.

As favelas nas grandes cidades brasileiras precisam ser examinadas a fundo para que mudem e melhorem. Não podem mais ser tratadas pelo jornal como ‘caso de polícia’.

O jornalismo tem obrigações sociais e políticas das quais não pode abrir mão. Se mais não fosse, por mero interesse próprio. É do cumprimento dessas responsabilidades que depende a sua sobrevivência.

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ONDE A FOLHA FOI BEM…

PAI DE BORGES

Ótimo texto do escritor Alan Pauls joga luz sobre o até agora obscuro pai romancista de Jorge Luis Borges na Ilustrada de sábado

HONDURAS

Cobertura do golpe tem informações exclusivas e boas análises no domingo, terça e quinta

…E ONDE FOI MAL

RIO GRANDE DO SUL

Há meses o jornal trata mal da grave crise política do Rio Grande do Sul; quando abre espaço, na sexta, destaca apenas incidente de confronto da governadora com manifestantes

EMPREGOS

De novo, na sexta, edição prefere ressaltar só aspectos negativos -menos importantes e na contramão da tendência- de dados sobre geração de empregos no país

PEGADINHA

Reportagem se vale de recurso eticamente duvidoso na terça para conseguir declarações de psicóloga que poderiam ser obtidas de formas menos discutíveis

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ASSUNTOS MAIS COMENTADOS DA SEMANA

1. José Sarney

2. Honduras

3. Enem

PRÓ-MEMÓRIA

Nos primeiros sete meses de 2008, centenas de crianças morreram na maternidade da Santa Casa de Belém. Que fim levou o caso, a respeito do qual o jornal nada informa há pelo menos dez meses?’

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