Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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VOZ DOS OUVIDORES >

Carlos Eduardo Lins da Silva

17/03/2009 na edição 529

‘A principal notícia da semana foi a queda do PIB brasileiro no quarto trimestre de 2008, que colocou de vez o país entre as vítimas da crise econômica global.

Na quarta, a Folha tratou dela com prioridade em dois aspectos: comparação do resultado do desempenho da economia brasileira no último trimestre do ano passado com o de outros 36 países e ênfase no fato de o governo federal vir declarando que a crise teria efeitos menores aqui.

Foi um erro. A comparação com outros países pode ser importante para analistas e estudiosos, mas não é fundamental para o leitor.

Para o cidadão comum, não interessa muito se a crise aqui é maior ou menor do que na Cochinchina. O que mais lhe importa é saber se ele vai manter o emprego e a renda, se o ambiente econômico do setor em que trabalha está saudável ou não, quais são as perspectivas para o futuro.

Mesmo se fizesse sentido priorizar a questão sobre onde o PIB caiu mais ou menos, a Folha errou, como o próprio texto principal do caderno Dinheiro deixa claro.

Na capa do jornal e nos locais de destaque, insistiu-se na tese de que, por seu PIB ter tomado um dos maiores tombos entre as 37 nações listadas, o Brasil está entre os principais atingidos pela crise.

Não é bem assim. Foi porque o país cresceu mais que os outros no ano inteiro que o contraste entre o quarto e o terceiro trimestres de 2008 foi tão intenso.

Como diz o quinto parágrafo do texto da página B1: ‘E o fato de o Brasil ter sofrido uma retração maior do que nos outros países no último trimestre do ano não significa que a crise aqui seja maior’.

Além disso, chamada de primeira página e linha fina da manchete interna dão ao noticiário, que tem obrigação de ser isento, tom injustificável de editorial, com afirmações como ‘o país está entre os mais atingidos (…) ao contrário do que o governo vinha dizendo’ ou o desempenho do PIB ‘fez ruir o discurso oficial de que país seria pouco afetado’.

Se o jornal quer destacar que o governo errou em suas análises, publique objetivamente declarações antigas dos governantes e dados atuais.

E deixe o leitor decidir se eles fazem ruir o discurso, se o discurso era um castelo de areia, se foi a conjuntura que mudou ou se é obrigação de todo dirigente infundir otimismo na sociedade. Ou qualquer outra coisa que queira concluir. O leitor é inteligente. Não precisa dessas ‘mãozinhas’ retóricas.

A coisa vinha mal desde sábado, quando a manchete do caderno cometeu, no meu entender e de economistas consultados, erro factual ao afirmar: ‘Indústria tem pior resultado desde Collor’.

O que houve foi a variação anual mais negativa da atividade industrial em 19 anos, não o pior ‘resultado’, que significa o quanto foi produzido ou vendido, que evidentemente foi muito maior em 2008 do que em 1989.

O leitor não quer saber dessas picuinhas e suas implicações políticas. Quer é saber o que pode acontecer com a sua vida material. É nisso que o noticiário econômico deve se concentrar.’

***

‘De empastelamentos a reconhecimento de erros’, copyright Folha de S. Paulo, 15/3/09.

‘Não faz muito tempo, alguém que discordasse das opiniões expressas por um jornal podia juntar uma turba e destruí-lo fisicamente.

A isso se chamava ‘empastelamento’. Este jornal, quando era ‘Folha da Manhã’ e ‘Folha da Noite’, foi vítima de tal agressão em 1930.

No sábado, dia 7 passado, um grupo de 300 pessoas (segundo o jornal) ou pelo menos 450 (de acordo com os organizadores) realizaram manifestação de protesto em frente à Folha.

Elas se diziam indignadas com editorial publicado em 17 de fevereiro com menção à ditadura brasileira (1964-1985), chamada de ‘ditabranda’.

O ato, com número de participantes que evidencia tanto o poder de convocação dos promotores do evento quando a importância do jornal, foi pacífico. A Folha o noticiou no domingo e deu na íntegra manifesto lido ali.

Faz muito pouco tempo, veículos de comunicação nunca reconheciam seus erros. A Folha foi o primeiro no Brasil a ter seção fixa para eles.

No domingo, pela primeira vez que eu tenha memória, um jornal admitiu erro de opinião. Foi a Folha, neste episódio.

Isso demonstra como avançou a relação entre imprensa e sociedade neste país.

A propósito, leitores registram que a ‘Nota da Redação’ em resposta a carta de Fábio Konder Comparato em 20 de fevereiro continha erro factual.

É verdade: ela dizia que Comparato não havia ‘até hoje’ manifestado repúdio a ditaduras de esquerda como a de Cuba. Em 1º de junho de 2004, o ‘Painel do Leitor’ publicou carta dele com críticas ao regime cubano.’

***

‘Para ler’, copyright Folha de S. Paulo, 15/3/09.

PARA LER

‘Jornalismo Econômico’, de Suely Caldas, Contexto, 2003 (a partir R$ 21,24) – bom relato dos fundamentos dessa especialidade, entre os quais o de que ele deve dar prioridade ao interesse do cidadão comum, que é o leitor

PARA VER

‘A Felicidade Não Se Compra’, de Frank Capra, com James Stewart e Donna Reed, 1946 (a partir R$ 37,90) – maravilhoso dramalhão sobre os efeitos devastadores da falência de um pequeno banco sobre seu proprietário

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