Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Carlos Eduardo Lins da Silva

15/12/2009 na edição 568

‘UMA DAS reportagens mais interessantes de domingo passado é a que relata pesquisa acadêmica sobre como convicções ideológicas podem alterar a maneira de pessoas perceberem aspectos físicos da realidade. No caso, o tom da cor da pele do então candidato à Presidência dos EUA Barack Obama.

O trabalho de professores das universidades de Chicago, Nova York e Tilburg (esta na Holanda) mostra que, diante de um jogo de três fotos como as desta página, uma sem alteração e as outras acentuando ou atenuando o tom negro da pele, quem concordava com as posições políticas de Obama e tendia a votar nele achava que o verdadeiro era o mais claro e os que se opunham e iam votar no seu opositor o reconheciam como o mais escuro, em proporções estatisticamente significativas.

É fácil entender (embora muitos neguem, como se vê em polêmicas políticas, religiosas e esportivas) que a partidarização afeta as crenças.

Como argumenta o líder do grupo que fez esse estudo, Eugene Caruso, não é surpreendente que liberais e conservadores que tenham lido o mesmo texto da proposta de reforma do sistema de saúde dos EUA cheguem a conclusões muito diversas sobre seus méritos.

Muito mais impressionante é que adversários ideológicos olhem para uma só cópia material do projeto de lei e os que o combatem digam que ele é mais longo do que de fato é e os que o apoiam afirmem que ele é menos volumoso do que é na realidade (nos EUA, leis compridas são associadas pelo público com excesso de burocracia e intervenção estatal).

É isso que o resultado desse estudo sugere: nossas crenças afetam não apenas o modo como avaliamos valorativamente o mundo, mas até como percebemos concretamente pessoas e coisas no ambiente.

O partidarismo político motiva pessoas a olharem outras (e figuras públicas, sobretudo) de maneira consistente com suas convicções, em processo consciente ou não.

Diante da mesma mensagem ou até do mesmo objeto, cada um entende ou enxerga o que quer, consegue, pode ou deseja.

É claro que a realidade objetiva existe. As sombras do mito da caverna de Platão não passam de sombras. Mas, para efeitos práticos, podem ser dramáticas as consequências de contingentes enormes de cidadãos estarem convencidos de que as sombras são a verdade.

Também se deve considerar que o estudo trata de questão específica e muito intensa na sociedade americana, na qual foi realizado: as relações raciais (o livro e o filme aqui indicados expressam bem o problema). Mas ele não deixa de propor desafios a quem enfrenta situações similares em qualquer lugar.

A íntegra da pesquisa (em inglês) está em http://www.pnas.org/content/106/48/20168.full.pdf.

PARA LER

‘A Marca Humana’, de Philip Roth, tradução de Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, 2002 (a partir de R$ 47,16)

PARA VER

‘Revelações’, de Robert Benton, com Anthony Hopkins, 2003 (disponível em locadoras de vídeo)’

***

‘MEIO SÉCULO DE INTEGRIDADE NO JORNALISMO’, copyright Folha de S. Paulo, 13/12/09.

‘Uma tendência do jornalismo da Folha a que tenho feito restrições com muita frequência e convicção é a que vem levando a dar mais importância e atenção a personagens da notícia do que aos processos que a engendram (o político em vez da política, o artista em vez da obra, o jogador em vez do time).

Por coerência, tenho tentado nesta coluna e na crítica interna ser o mais impessoal possível, citar minimamente nomes individuais. Outra razão para tal procedimento é a compreensão de que o jornal é o resultado de trabalho coletivo, em que cada um certamente tem responsabilidades específicas, mas ninguém deve receber solitariamente créditos ou débitos.

Hoje e aqui, vou abrir exceção. A raridade do acontecimento, um dos critérios básicos para definir notícia, o justifica. Em 24 de outubro, fez 50 anos a publicação da primeira matéria assinada neste jornal por Julio Abramczyk.

Ele é não apenas o mais antigo jornalista em atividade ininterrupta na Folha como também o que mais tempo nela trabalhou em sua história. Domingos Ferreira Alves, que morreu no ano passado, em plena atividade, ficou 54 anos, mas vários deles passou em outros veículos da casa.

O ‘Doutor Júlio’, atualmente responsável pela coluna dominical ‘Plantão Médico’, Prêmio Esso de Informação Científica em 1970 pela primeira reportagem feita no Brasil sobre pontes de safena, é notável e consagrado médico cardiologista, além de jornalista íntegro, competente e confiável. Tem sido um exemplo para duas gerações de colegas. Que permaneça nessa condição por ainda muito tempo mais.’

***

‘Onde a Folha foi bem…’, copyright Folha de S. Paulo, 13/12/09.

‘ASSUNTOS MAIS COMENTADOS DA SEMANA

1. Declaração de Padre Marcelo

2. Coluna do Ombudsman

3. Flamengo hexa ou penta

ONDE A FOLHA FOI BEM…

ANTÁRTIDA

Ótima revista sobre o continente, editada em março, recebe justo reconhecimento ao ganhar o Prêmio Esso de Informação Científica, Tecnológica e Ecológica

…E ONDE FOI MAL

CAPA DE QUARTA

‘Confesso que a manchete me causou grande estranheza: pensei que se tratasse de um jornal velho, do dia anterior. Ora: passei o dia inteiro de ontem acompanhando, pela televisão e internet, o caos vivido em São Paulo. Sabia, desde a manhã de ontem, que as marginais haviam sido alagadas, e que São Paulo encontrava-se sitiada. Não seria o caso de a Folha pôr na sua parte mais nobre alguma novidade referente ao caso?’ (Do leitor Rafael Sapienza)

PRÓ-MEMÓRIA

Já que se fala tanto das operações Caixa de Pandora e Castelo de Areia, seria bom saber quem foi punido em outras, como: Anaconda, Vampiro, Navalha, Mecenas, Satiagraha, Vesúvio, Sanguessuga, Avalanche’

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