Terça-feira, 25 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Carta Capital

21/04/2009 na edição 534

TELEVISÃO
Carlos Leonam e Ana Maria Badaró

Astigmatismo publicitário

‘Dá no nervo óptico perceber aquela zona astigmática na tela da tevê. É uma zona turva, toda vez que, por acaso, uma marca ou logotipo de empresa aparece. É o mesmo efeito aplicado, com procedência, ao rosto de menores de idade ou de pessoas que não devem e não podem aparecer publicamente. Vamos ao caso do jogador de futebol que assassinou a ex a facadas, mudou de camisa e, depois, levou o filho para a Bahia, como quem carrega uma mochila, sem nenhum peso na consciência.

Ao ser preso, o criminoso usava um boné com o logo da Caixa Econômica, como tantos usam em ‘n’ circunstâncias, por exemplo, a camisa do Flamengo, até bem pouco tempo com o logo da Petrobras. Ou do Fluminense ou do Corinthians, com seus patrocinadores explícitos no peito ou nas costas (ultimamente também na parte de trás do calção).

No caso do homicida, a imagem distorcida sobre a marca podia parecer um exemplo de cuidado para não associar uma instituição federal a uma imagem negativa. Mas não. O imbróglio visual tinha razões comerciais. Quer dizer, a Caixa era rival de uma instituição financeira patrocinadora da rede.

Semana passada, no programa da Gimenez, especializado em pseudossociologizar os fenômenos de peitos bizarros e bundas hortifrúti, como jaca, moranguinho e outras, apareceu tremelicando a marca quase invisível da balança que pesou melancias para saber quantos quilos da fruta a calipígea carregava em forma de nádegas. O recurso de vídeo chamava mais atenção do que se a pequena marca estivesse ali, quase imperceptível. E, francamente, com tanta bunda quem ia se interessar por uma reles balança?

Exemplos desse astigmatismo publicitário são comuns na tevê, que aproveita todos os espaços possíveis para esfregar (às vezes é assim mesmo) a propaganda na cara do telespectador quando é de seu interesse e dever contratual. O BBB por si só é uma aula disso. E tudo se justifica porque é business.

Mas, pela fidelidade aos fatos, soa estranho maquiar as marcas que aparecem ao acaso num assassino ou num torcedor feliz. A maioria das pessoas veste e usa coisas sem se importar com marcas e até briga para ter uma camiseta ou um boné grifado, seja lá com que produto for. Se é grátis… Afinal, camisetas promocionais às vezes são a roupa de quem não tem grana para comprar nenhuma.

Quando as empresas distribuem t-shirts, bonés, bolsas e canetas como brinde, sabem do risco de ter sua marca associada ao imponderável. Mas é claro que a exposição massiva de um logo traz mais benefícios que prejuízos.’

 

DANIEL DANTAS
Leandro Fortes

Sobre jornalistas e sabujos

‘Se alguém tinha alguma dúvida sobre o consórcio midiático montado para desqualificar o trabalho do delegado Protógenes Queiroz e livrar a cara do banqueiro Daniel Dantas, basta chafurdar na série de recentes posts de blogueiros da linha auxiliar do esgoto, escalados para não contaminar as páginas com o lixo que realmente interessa aos jornais e revistas envolvidos nessa estratégia. A cobertura feita pelos jornalões do depoimento de Protógenes na CPI dos Grampos, na quarta-feira, dia 8 de abril, é o resumo dessa posição definitiva contra os efeitos da Operação Satiagraha, cujo emblema é a salvação não só de Daniel Dantas, mas da elite econômica e política ligada a ele. Contam, para tal, com a conivência obsequiosa do governo federal.

Basta ler o noticiário sobre a ida de Protógenes à CPI dos Grampos, onde o delegado deu um baile na bancada de Dantas e desmontou a estratégia de desmoralização do deputado Marcelo Itagiba, inocentemente montada a partir da exibição de um powerpoint com supostas contradições do delegado. Vaiado pela platéia e execrado pelos colegas, Itagiba foi obrigado a enfiar a projeção no saco e a ouvir, pela primeira vez, em público, uma verdade que ele só consegue manter em surdina por que tem o apoio cínico de quase toda a mídia: na campanha de 2006, ele foi financiado por Dório Ferman, executivo do Grupo Opportunity, do banqueiro condenado Daniel Dantas. Logo, está eticamente impedido de ser o chefe da cruzada dantesca, ora em andamento no Congresso Nacional. Quem jogou isso na cara dele, diante do mundo, foi o deputado Chico Alencar, do PSOL do Rio, mas quem quiser que tente se aventure a buscar a relevância desse fato nos jornalões ou nos portais corporativos da internet. Será uma garimpagem difícil.

Parte da imprensa e dos blogs de repetição montados nas redações tornaram-se porta-vozes da nova Polícia Federal comandada pelo delegado Luiz Fernando Corrêa, sobre quem paira uma denúncia gravíssima de tortura contra uma empregada doméstica no Rio Grande do Sul. Trata-se de assunto ignorado pela chamada ‘grande mídia’, cada vez mais um aglomerado de jornais e revistas decadentes onde não há mais espaço para a verdade, nem muito menos para a criatividade e o humor. Movidos por interesses outros, que não o jornalismo, os mandatários dos jornais brasileiros dedicam-se a um rancor reacionário contra Protógenes e a Satiagraha, doença infantil do elitismo nacional que se espalha como catapora pelas redações. E nisso reside um dado importante sobre a luta dos patrões contra o diploma de jornalista. Eliminado esse obstáculo, a formação dos jornalistas ficará a cargo desses cursinhos de redações, de verniz teen, mas velhíssimos na forma e nos conceitos, voltados para criar monstrinhos competitivos despojados de qualquer consciência crítica sobre o que escrevem, apuram e publicam.

Evolução do jornalismo ‘fiteiro’, como já bem conceituou o jornalista Alberto Dines, ao discorrer sobre a reprodução pseudojornalística de gravações e dossiês entregues sob encomendas às redações, a utilização dos espaços dos blogs para publicação de vazamentos seletivos é o mais recente movimento editorial da mídia brasileira. O inquérito do delegado Amaro Vieira, sobre vazamentos de informações da Satiagraha, adotou um procedimento programado de sangramento controlado, a ponto de se tornar, ele mesmo, o mais completo emblema sobre vazamento funcional da história recente do Brasil. É um triste expediente de desmoralização da PF cujo objetivo primordial é desconstruir, pedra por pedra, a memória da gestão do delegado Paulo Lacerda.

Afastado da PF e, depois, da Abin, Lacerda paga o preço por ter ousado retirar a Polícia Federal do gueto exclusivo da fracassada guerra contra as drogas, fonte permanente de corrupção e violência, e ter dado à corporação, nos limites das melhores doutrinas republicanas, status real de polícia judiciária da União. O processo que resultou no expurgo de Paulo Lacerda foi baseado num grampo telefônico jamais provado, publicado pela revista Veja e replicado, sem qualquer apuração suplementar, por dezenas de outros veículos de comunicação. É um estudo de caso de irresponsabilidade jornalística e inépcia policial. Passados sete meses desde a abertura do inquérito sobre o caso na PF, até agora o único resultado visível do processo foi a transferência de um dos delegados responsáveis pelo inquérito para Roma, talvez por bons serviços prestados.

As novas gerações de jornalistas brasileiros estão sendo desnutridas, dia a dia, de senso crítico e capacidade de contestação. A cobertura do depoimento do delegado Protógenes Queiroz gerou uma série de matérias absolutamente iguais, senão no conteúdo, na intenção. Ao ler os jornais no dia seguinte ao depoimento, tive a súbita sensação de ter participado de outro evento, embora tenha estado, por muitas horas, no mesmíssimo plenário do corredor das comissões da Câmara dos Deputados. Com pequenas variações sobre o mesmo tema, a mídia centrou-se deliberadamente no fato de Protógenes ter se negado a responder perguntas que não tivessem relação com escutas ilegais, objeto da CPI dos Grampos. O delegado negou-se a cair numa ratoeira preparada à luz do dia, enfeitada por um powerpoint de concepção primária, mas acabou, como de costume, condenado por isso. Perdeu-se, na bacia das alminhas pequenas da pautas pré-concebidas, a chance de contar uma boa história, dessas das quais são feitas o bom jornalismo. Restou aos leitores uma narrativa insossa e mal humorada, resultado da crescente burocratização da reportagem brasileira.

O elevado grau de sabujismo de repórteres brasileiros, hoje, na imprensa brasileira, me preocupa como jornalista e como professor de jornalismo. Não se trata, devo esclarecer, de uma crítica pontual a fulano ou a sicrano, mas de um fenômeno a ser considerado, estudado e definido como objeto de avaliação acadêmica e profissional, aí incluídas as participações dos sindicatos, da Fenaj e da ABI. Escudados pela desculpa da sobrevivência pura e simples, os repórteres estão indo às ruas com pouca ou nenhuma preocupação em relação à verdade factual, adestrados que estão por uma turma barra pesada que tem feito da atividade jornalística um exercício de servilismo muito bem remunerado, é claro.

As precoces reações corporativas, apoiadas incondicionalmente pelos suspeitos de sempre, contra a anunciada Conferência Nacional de Comunicação, são só um prenúncio da guerra que se anuncia toda vez que a sociedade reclama pela democratização da mídia e o pleno acesso à informação no Brasil. O primeiro movimento da reação já foi dado e é bem conhecido: a desqualificação dos protagonistas, como o que começou a ser feito em relação ao jornalista Franklin Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República. O passo seguinte será o de tentar passar para a sociedade a impressão de que os fundamentos da conferência ferem o sagrado direito de liberdade de imprensa e de expressão. E sabem quais são esses fundamentos? O controle social sobre a baixaria da TV, fiscalização severa sobre as concessões de telecomunicações e o fim das propriedades cruzadas no setor, o que irá asfixiar os oligopólios midiáticos que controlam jornais, rádios, portais de internet e emissoras de televisão. Oligopólios econômicos e políticos que estão na origem da degradação política brasileira, da ignorância e da miséria social da maior parte da população.

Resta saber de que lado nós, jornalistas, vamos estar nessa guerra.’

 

Redação CartaCapital

A vanguarda do atraso

‘Quase oito anos depois de denunciado por CartaCapital, um furto de cerca de 4 mil correspondências eletrônicas do empresário Luis Roberto Demarco, desafeto do banqueiro Daniel Dantas, finalmente será alvo de um processo penal.

A reportagem Dinheiro e ódio, a ciranda, publicada originalmente em 4 de julho de 2001, na edição 150 de CartaCapital, traz pela primeira vez a informação sobre os cerca de 4 mil e-mails furtados do computador pessoal de Demarco.

O furto, em maio de 2001m foi realizado a um pedido de Maria Regina Yazbek, ex-mulher de Demarco e, à época, ainda legalmente sua mulher, a José Luiz Galego Júnior, diretor de tecnologia de uma empresa controlada pelo empresário. Quem executou o crime foi Denys Rodrigues, técnico de informática, conforme instruções de Galego, que era seu chefe.

Maria Regina, Galego e Rodrigues foram denunciados pela promotora Alexandra Milare Toledo Santos, do Ministério Público do Estado de São Paulo, à 21ª Vara Criminal da Comarca da Capital. No pedido, a promotora justifica o pedido porque ‘em comum acordo e identidade de desígnios, interceptaram comunicações de informática, sem qualquer autorização judicial e com objetivos não autorizados em lei’.

O teor da denúncia da promotora corrobora o tom da reportagem publicada em 2001, que motivou processo cível contra a revista, movido por Galego, e que deu ganho de causa a CartaCapital. Corrobora também a decisão da justiça das Ilhas Cayman, sede da CVC/Opportunity Equity Partners, que condenou, ainda em 2002, Maria Regina e Galego por roubo de documentos e de e-mails.

No despacho do MP à 21ª Vara Criminal também há referências à motivação por ‘interesses profissionais’ e também pelos ‘laços de amizade’ que Maria Regina mantinha com Dantas para que a invasão ao computador pessoal do ex-marido de Regina fosse realizada. Há indícios concretos do repasse das informações coletadas do computador de Demarco para Dantas e seus asseclas no Opportunity, já que muitas delas apareceram em meio aos documentos apreendidos nas empresas de Dantas durante a Operação Chacal, realizada em 2004 pela Polícia Federal. Ironicamente, DD, em depoimento à CPI dos grampos na quinta-feira 16, disse que nunca realizou ou contratou espionagem contra seus adversários.

A promotora baseia seu pedido de ação penal contra os três acusados em função das provas apreendidas em maio de 2001 por policiais federais na empresa Miracula, empreendimento em que Demarco e Galego eram sócios. Entre elas, ‘xerocópias de e-mails enviados e/ou recebidos por Luiz Roberto Demarco’ e ‘um telefone celular onde após periciado, restou comprovado o envio da mensagem de texto em que Denys informa a José Galego a combinação da senha pessoal da vítima’, código esse que permitiu a invasão do computador empresário.’

 

LITERATURA
Rosane Pavam

Bibliófilos no balcão

‘Dificilmente a história é escrita antes de seu fim. Áreas como futebol e música popular aguardam pesquisas, raras por se ligarem a interesses presentes, distantes da predileção dos historiadores. Os estudiosos apenas começam a investigar a história das livrarias nacionais, vivas ainda, mas atualmente ameaçadas pela comodidade das entregas via internet e pelos livros que logo serão engavetados em aparelhinhos como o kindle, de fácil manuseio e acesso digital.

Ubiratan Machado é um historiador de livrarias e do hábito de ler no Brasil. Ele próprio possui um acervo de deixar o bibliófilo José Mindlin com água na boca, em sua quase totalidade adquirido nos sebos do Rio. O autor publicou, em 2004, um estudo importante intitulado A Etiqueta de Livros no Brasil (Subsídios para uma História das Livrarias Brasileiras), que coleta as marcas com os logotipos das livrarias, antigamente fixadas nas primeiras páginas dos tomos. O estudo bem-sucedido resultou no projeto de uma nova pesquisa, publicada há um mês pela paulistana Ateliê Editorial.

A modesta edição de mil exemplares do Pequeno Guia Histórico das Livrarias Brasileiras (264 págs., R$ 46) ganha nesta semana uma segunda reimpressão em igual tiragem, fato inédito a ocorrer na editora em tão pouco tempo, para o qual há ao menos uma explicação. Quinhentos exemplares do primeiro lote foram comprados pela rede Siciliano, cuja história é descrita no volume. Isto demonstra o que pode fazer uma livraria pelo sucesso de um livro, mas não só.

O Pequeno Guia Histórico responde à necessidade que o leitor tem de conhecer as origens de um comércio do qual ainda participa. O volume partiu de uma iniciativa de Plínio Martins, dono da Ateliê.. Coordenador de Editoração na Universidade de São Paulo, diretor-presidente da Edusp e criador, ao lado da professora Jerusa Pires Ferreira, do Centro de Estudos do Livro, no mesmo campus. Martins julgou importante informar a seu leitor a trajetória das livrarias brasileiras proprietárias daquelas marcas. ‘Dei liberdade ao autor para incluir as lojas que quisesse’, diz. ‘Não sugeri nem mesmo a Livraria da Vila, em São Paulo, que revela, em tempo de megaespaços, um interesse maior pelo livro em si.’’

 

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