Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MOSAICO > FOLHA DE S. PAULO

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 18/09/2007 na edição 451

13/9/07

Eram seis, já são oito os mentirosos

A Folha trouxe hoje na edição São Paulo, com oito altos de página, a mais informativa, consistente e interpretativa cobertura do triunfo de Renan Calheiros na votação secreta de ontem.

Manchete: ‘Senadores absolvem Renan’.

Primeira linha-fina: ‘Em sessão secreta, presidente do Senado escapa da cassação por 40 votos contra 35, com 6 abstenções’.

Segunda: ‘Ação de Planalto e PT foi decisiva para resultado; em nota, senador aponta ‘vitória da democracia’’.

Destacam-se na edição o novo questionário sobre os votos (‘Senadores voltam a mentir ao declarar voto em enquete’, pág. A8) e a reportagem ‘Pressão do Planalto foi decisiva para impedir cassação’ (pág. A9). Esta confirma a manchete da sexta-feira, ‘Planalto trabalha para salvar Renan’.

Eram 41 antes da decisão, foram 43 depois dela os parlamentares que afirmaram ter votado (antes, que iriam votar) pela cassação do mandato do presidente do Congresso.

São pelo menos oito os mentirosos (podem ser mais, caso algum parlamentar que tenha relatado voto pró-absolvição ou abstenção tenha sufragado a cassação, o que parece pouco provável). Nenhum dos seis ‘excedentes’ da véspera anunciou ter recuado da opção, embora alguns tenham deixado de declarar a escolha.

Só é possível afirmar hoje que há oito mentirosos no Senado porque a Folha teve a iniciativa de produzir os levantamentos. O jornal não se responsabilizou pelas respostas. Quem mente é parcela dos senadores.

Se a imprensa só fosse publicar declarações de políticos ancoradas nos fatos e na verdade, o Brasil conheceria a maior poupança de papel e tinta de sua história.

O listão da mentira deve incentivar a Folha a prosseguir na investigação do conteúdo dos votos, fiscalizando distribuição de verbas, cargos e favores pelos Poderes que patrocinaram a vitória de Renan.

Por exemplo, é possível que o senador Romeu Tuma tenha votado contra os interesses do Palácio do Planalto mesmo depois de um filho seu, dos dois que se descabelavam por um lugar ao sol, digo na administração federal, ser empossado como secretário nacional de Justiça. É possível.

Também é possível que o senador Paulo Paim, atendendo ao apelo dos gaúchos, como ele divulgou, tenha abraçado a cassação, contra a orientação partidária e do governo. É possível.

É possível que o senador Álvaro Dias tenha sido apenas realista ao jogar água no fogo das demais representações contra Renan, episódio observado pelo Painel na nota ‘Bandeiroso’. É possível.

É possível que o senador Magno Malta tenha de fato marchado com a cassação.

Possível (quase) tudo é.

Jornalismo não é Senado

A decisão do Senado não deveria ser considerada pelo jornalismo como fim do caso inaugurado com a revelação da revista Veja sobre o pagamento de despesas pessoais de Renan Calheiros por lobista de empreiteira.

Cabe persistir na apuração sobre os negócios do senador, inclusive aqueles que mereceram ‘absolvição’ dos seus pares. Uma função essencial do jornalismo é fiscalizar o poder, seja ele qual for.

O exercício pleno do jornalismo, em destaque o escrutínio do poder, deve independer da disposição dos Poderes de cortar ou não na própria carne.

Folha versus Folha

Título do alto da pág. A4: ‘PT e voto secreto absolvem Renan Calheiros no Senado’.

Título ao lado, da primeira nota do Painel: ‘Obra coletiva’. Abertura: ‘A oposição culpa o PT. O PT culpa a oposição. A salvação de Renan Calheiros, porém, foi um ‘Assassinato no Expresso Oriente’. Como no livro de Agatha Christie, diferentes personagens entraram na cabine para dar sua punhalada no pedido de cassação’.

Sem minimizar o papel determinante do PT, inclusive com seu senador que declarou ter votado ‘abstenção’, portanto pró-Renan, a abordagem do Painel parece mais realista.

Mais Folha versus Folha

O roteiro da sessão do Senado minuto a minuto foi outro diferencial positivo da Folha (‘Seis horas de tensão’, pág. A6).

O jornal foi transparente ao contar que teve acesso a pelo menos parte da sessão pelo celular de (no mínimo) um dos presentes.

A contradição com declarações entre aspas de outros textos diminui, contudo, a credibilidade das citações literais.

No roteiro, Renan diz ‘Me respeite’.

No texto ‘‘Cassadores falam; defensores votam’, diz renanzista antes do resultado final’ (pág. A6), as aspas são outras: ‘Não admito falta de respeito’.

No roteiro, Demóstenes Torres retruca: ‘Foi pouco inteligente, então’.

No texto, vira ‘pouca inteligência’.

No roteiro, primeiro Renan manda Heloísa Helena lavar a boca com água oxigenada e depois ela rebate mando-o lavar com água sanitária.

No texto ‘Em discurso, Renan ameaça adversários’ (pág. A6), a ordem dos ataques na batalha aquática é inversa: Heloísa atirou antes, Renan em seguida.

Em outra página (A10), o jornal diz que a deputada Luciana Genro sofreu um machucado no pé. Ela diz que foi no tornozelo.

Famiglia

Está para ser contado o desempenho dos senadores José Sarney e Roseana Sarney na absolvição de Renan Calheiros e em tantos episódios da história recente do país.

Informação sonegada

Recentemente, o jornal destacou que um representante da OAB que assinou um documento sobre a ação das tropas brasileiras no Haiti integra o PSTU.

Hoje, registrou a opinião da presidente da UNE (‘Absolvição agride a ética e o bom senso, afirma OAB’, pág. A12) sobre a decisão do Senado, mas não informou que ela é militante do PC do B, partido que compõe a base governista e que apoiou Renan Calheiros (a despeito do senador Inácio Arruda não ter declarado o voto).

Pelo telefone?

A pequena reportagem ‘Reduto dos Calheiros festeja após resultado’ (pág. A12) se concentra em fatos passados no município interiorano de Murici (AL). Mas o crédito é ‘Da Agência Folha, em Maceió’. O repórter cobriu pelo telefone?

Na contramão

A Folha remou contra a corrente ontem, ao afirmar que o governador do Rio de Janeiro participara de um acordão entre o PMDB, Cesar Maia e Garotinho, com vistas à eleição municipal do Rio no ano que vem. Indicava que era factóide de Cabral o protesto contra a articulação.

Pelo que se começa a constatar em outros veículos, a Folha estava certa.

O leitor sem vez

Na edição de ontem, antecipei a possível carta da Prefeitura de São Paulo tratando de reportagem sobre os componentes da sopa do programa Sábado na Escola. O Painel do Leitor não deve ser Painel do Outro Lado, defendi.

Mais uma vez, em vão.

Hoje a previsível manifestação da Prefeitura, em vez de sair junto com reportagem sobre o assunto, foi impressa no Painel do Leitor.

O Painel do Leitor não foi feito para assessores de imprensa, mas para os chamados leitores ‘comuns’. Hoje 29% do espaço que deveria ser dos leitores foi subtraído para dar lugar a um assessor e à resposta a ele.

Barbárie

A despeito do título ruim, é boa a reportagem ‘Mídia se alia no caso Madeleine’ (pág. A16).

Compartilho uma dúvida, sem maior importância, diante da tragédia da menina: o jornal escreve ‘Madeleine, 4’; ela desapareceu quando tinha 3 anos, pode ter sido morta com essa idade; não tenho certeza sobre a fórmula mais indicada; talvez a melhor seja ‘Madeleine, que desapareceu em maio,às vésperas de completar quatro anos’.

Fraude jornalística

É corajosa a reportagem ‘Por marketing, PM repete invasão em favela’ (capa de Cotidiano). Ensina tanto sobre os propósitos da administração estadual como dos métodos de alguns jornalistas. A uni-los, uma relação promíscua que prejudica leitores e telespectadores. Enganados, estes julgaram ver uma autêntica operação policial na favela Alba, mas assistiram à encenação e fantasia.

O repórter(-fotográfico) que revela um caso desses se expõe aos mais diversos tipos de retaliação corporativa no dia-a-dia das coberturas. É um gesto de coragem pessoal e de cumprimento do dever com o leitor mostrar as coisas como elas são –a considerar o que li na reportagem.

Uma das informações mais impressionantes é que os repórteres não trabalham com coletes à prova de balas em cobertura de ações policiais em áreas nas quais pode haver tiroteio. Foi a PM que distribuiu os coletes. É dever das empresas jornalísticas oferecer esse equipamento de segurança em São Paulo, como ocorre no Rio de Janeiro.

Há um erro grave: os jornais ‘O Estado de S. Paulo’ e ‘Diário de S. Paulo’ e as emissoras de TV Bandeirantes e SBT deveriam ter sido ouvidos para o outro lado. O que a Folha contou foi que os quatro veículos participaram de uma empreitada ilusionista contra consumidores de notícia. Eles tinham direito de se pronunciar. Hoje, ‘Estado’ e ‘Diário’ publicaram as tais fotos armadas.

Dando sopa

As boas reportagens de ontem e anteontem sobre merenda e distribuição de sopa pela Prefeitura de São Paulo apresentaram deficiências e impropriedades, também presentes na edição de hoje (‘Kassab defende Nestlé e diz que mudança em sopa foi ‘técnica’’, pág. C6).

O texto de hoje repete afirmações semelhantes às de carta no dito Painel do Leitor. Além do problema essencial, já comentado em nota anterior, há outro: a repetição tira espaço de mais informações.

A reportagem de ontem (‘Nestlé pede, e Kassab reduz carne em sopa’, título da edição São Paulo) não informou fato relevante, para dar ao leitor mais condições de avaliar as intenções da Prefeitura: o ‘pedido’ ou ‘proposta’ da Nestlé de diminuir a quantidade de carne e hortaliças em certa sopa do programa Sábado na Escola podia ser encontrado por qualquer cidadão em site da administração municipal. Ou seja, a sugestão não foi feita às escondidas.

Pior, hoje o jornal relata que ‘Kassab declarou’ que a consulta pública foi feita na internet. Ora, a Folha não pode esclarecer? Foi feita ou não? Por que cala?

O leitor é informado que Kassab ‘disse que nem todos os pedidos dela [Nestlé] foram aceitos e que outras empresas se manifestaram’. É verdade ou não? Por que não responder ao leitor?

O título de hoje não está incorreto, mas o foco do prefeito é a defesa das ações do seu governo, não da Nestlé.

Na resposta à carta do assessor de imprensa da Secretaria Municipal de Gestão, os repórteres afirmam que ‘a secretaria foi insistentemente procurada no dia anterior, mas não quis manifestar sua opinião’. Curiosidade: a que horas a secretaria foi procurada? A partir de determinado horário, não adianta ‘insistir’. Por que a Folha não informou em que horários tentou ouvir a secretaria?

Na reportagem de anteontem (‘Merendeiras dizem receber prêmio para racionar comida em escolas’), o jornal deveria ter contado que em unidades visitadas pela Folha não foi constatada irregularidade, como a Prefeitura cobrou em carta. O fato não invalida as outras informações, mas, em benefício da transparência, não poderia ter sido omitido.

Haverá prejuízo aos futuros beneficiados pela sopa: a qualidade nutricional será inferior à prevista pelas nutricionistas do município. Não é por isso que o noticiário deve ser desequilibrado.

Informação escondida

Considero ser novidade o grampo em que Kia Joorabchian diz que iria terminar com ‘situação de lavagem de dinheiro’, furo da TV Globo ontem. Não é à toa que a Folha o noticiou ‘Grampo: Kia cita lavagem de dinheiro’ (pág. D1).

Noticiou em nota de rodapé de página.

Durante anos e anos se suspeitou que a operação da MSI no Corinthians era para lavagem de dinheiro. Muito papel se gastou para as negativas do iraniano, seus assessores, sócios e aliados.

Pois no dia em que se ouve sua voz reconhecendo a lavagem de dinheiro, a Folha escondeu a frase histórica.

Repito: histórica.

Novelinha enfadonha

Basta o título: ‘Guga estabelece prazo para voltar a jogar bem’ (pág. D3).

Ética

A Folha faria bem se divulgasse aos leitores, com transparência, a mudança de redação do verbete ‘ética’ do Manual da Redação.

12/9/07

O leitor sem vez

A Folha publica hoje três minúsculas cartas de leitores ‘comuns’ —os que não são celebridades, políticos, empresários, artistas ou assessores.

Duvido que algum diário do país tenha editado seção de cartas com espaço tão reduzido para quem de direito. No Estado, foram 12 mensagens. No Globo, 31. Mesmo o Valor, em centimetragem, superou a Folha.

Ontem, o ‘Painel do Assessor’, como alguns leitores batizaram a seção, teve 67% da sua extensão tomada por assessores de imprensa e, nas respostas, jornalistas da Folha. Hoje políticos, jornalistas e um assessor ocupam 84%.

Em proporção: de cinco edições do Painel do Leitor, reservou-se apenas uma (16%) àqueles que fazem a fortuna de toda empreitada jornalística bem-sucedida, os leitores. Mesmo assim, uma fração da única edição (em cinco) aberta aos leitores ‘comuns’ também seria ocupada por personalidades e seus porta-vozes.

A Folha erra ao ignorar os protestos dos leitores contra a subversão da natureza de um pedaço nobre de página. Não basta ao jornal se corrigir mais que os outros, manter um ombudsman e pregar transparência.

Se ele, na prática, restringe a manifestação dos seus leitores, não é transparente nem plural. Fere a sua Constituição, o Manual da Redação.

O verbete ‘transparência’ do Manual (Publifolha, 2001, pág. 49) diz que ‘a Folha procura manter uma atitude de permanente transparência diante dos seus leitores. Essa disposição se expressa em diversos procedimentos: […] editar as cartas de leitores que contenham críticas ao jornal com o mesmo destaque das que trazem elogios’.

Hoje saiu uma carta elogiando colunista. Nenhuma criticando o jornal.

Em um dia de relevo histórico do Congresso Nacional, apenas duas manifestações, bem curtinhas, trataram do caso Renan.

Reafirmo: é direito de quem se sente prejudicado pela Folha ter suas opiniões e versões divulgadas. Isso deve ocorrer na editoria que veiculou as informações contestadas. Não necessariamente como carta, mas como declaração entre aspas.

Ainda mais desagradável que o ombudsman bater com insistência na mesma tecla, cumprindo escrupulosamente o seu papel, é a Folha insistir em subtrair dos leitores um espaço que deveria ser deles.

Painel do Outro Lado

Procuradas pela Folha, a Secretaria Municipal de Gestão da Prefeitura de São Paulo e a Nestlé se recusaram a se pronunciar sobre o conteúdo da reportagem ‘Empresa pede e Kassab reduz carne em sopa’ (pág. C4).

O silêncio é um direito.

O jornal deve insistir em ouvir o ‘outro lado’.

Mas que as manifestações não saiam no Painel do Leitor, e sim em Cotidiano.

O Painel do Leitor não deve ser, como infelizmente tem sido, Painel do Outro Lado.

Bom trabalho

A manchete ‘Maioria diz que vota pela cassação de Renan hoje’ é um bom serviço que a Folha presta aos leitores.

O levantamento do jornal revela que 41 senadores, número suficiente para a cassação do mandato, anunciam publicamente essa decisão.

O resultado previsto para logo mais não colocará em questão a reportagem, e sim a palavra dos senadores (como se sabe, o voto é secreto).

Com seu esforço para ouvir os seletos eleitores, a Folha foi além das outras publicações, que se limitaram a ecoar previsões alheias.

Isto é Brasília

Vale tudo para aparecer.

A baixaria na entrada do Senado já na manhã de hoje, com cenas de pugilato e pastelão, exige vigor redobrado na aplicação dos princípios editoriais da Folha, em especial os de jornalismo crítico, independente e apartidário.

Opinião deve ser expressa em espaço opinativo, e não no noticioso.

Madeleine

Ao contrário do que afirma (na edição Nacional) a reportagem ‘Portugal passa a juiz investigação policial sobre caso Madeleine’ (pág. A15), os pais da menina desaparecida voltaram ao Reino Unido no domingo, e não no sábado.

Bons trabalhos

A edição de hoje tem muitas reportagens de qualidade. Entre elas: ‘Físico pede boicote à Dell após veto a ‘eixo do mal’’; ‘PIB no 2º tri deve ficar pouco abaixo de 5,5%’ (na edição São Paulo); ‘Cortador de cana morre na região de Ribeirão’; ‘Anuário revela a miséria das estatísticas policiais no Brasil’; ‘Empresa pede e Kassab reduz carne em sopa’; ‘TAM e Gol usaram ‘norma falsa’, diz procurador da Anac’.

11/9/07

O pecado da maçã

Meia maçã, meia salsicha.

Avareza.

É ótima a reportagem da Folha sobre os procedimentos de empresas contratadas pela Prefeitura de São Paulo para servir merenda aos estudantes (‘Merendeiras dizem receber prêmio para racionar comida em escolas’, pág. C8).

Bem apurado, bem documentado e bem escrito, o relato é de dar engulhos.

Rendeu a terceira chamada mais importante da primeira página. Poderia ser manchete.

Retrata melhor o Brasil que muito tijolaço acadêmico ou jornalístico.

Uma sugestão: informar aos pais dos alunos o serviço ao qual eles podem denunciar restrições à alimentação nas escolas.

Dois pesos

Título do alto da pág. A11: ‘Promotoria do Rio investiga contrato de prefeitura do PT’.

Título do alto da pág. C8: ‘Merendeiras dizem receber prêmio para racionar comida em escolas’.

O projeto editorial da Folha predica um jornalismo independente, apartidário e equilibrado.

Ou se adota o padrão de informar o partido do governante em todos os títulos, para o PT, o DEM e todas as agremiações, ou se informa a filiação apenas no texto.

Fotojornalismo

Folha, Globo e Estado publicaram a mesma (boa) fotografia em suas primeiras páginas. Os dois primeiros manchetaram o ataque contra o ‘trem-bala’.

Foi do jornal O Dia, contudo, a melhor cobertura fotográfica dos tiros de traficantes contra um trem no qual dois ministros viajavam no Rio.

Taí

O Globo informa que exame antidoping da nadadora Rebeca Gusmão identificou testosterona fora dos padrões.

Painel do Assessor

Os leitores da Folha, uma vez mais, tiveram suprimido espaço que deveria ser seu, o do Painel do Leitor. De cada três centímetros, dois foram ocupados por assessores (ou coordenadores) de comunicação de instituições que divergiram de informações publicadas pela Folha (na conta entram as respostas dos jornalistas).

Ora, sua manifestação deve ser assegurada, mas nas editorias onde as informações foram originalmente veiculadas.

Exatos 67% foram tomados por leitores não ‘comuns’. Em proporção: de três edições do Painel do Leitor, sobrou apenas uma aos leitores.

Interesse público

Há interesse público em saber, na edição de quinta-feira, o que terá ocorrido na véspera na sessão do Senado que se anuncia secreta, para decidir sobre o mandato de Renan Calheiros.

Há meios legais e legítimos que podem permitir que se conheça mais do que muitos parlamentares querem.

Para a torcida

A Folha e o jornalismo em geral deveriam ser mais críticos em menos ingênuos em relação aos senadores que agora, em busca de holofotes, esperneiam contra a sessão secreta, mas que nada ou pouco fizeram antes para acabar com esse procedimento avesso à transparência.

O Estado expõe o contraste na abordagem. Vê ‘ameaça’ ao presidente do Congresso, conforme a reportagem ‘Movimento por sessão aberta no Senado aumenta risco para Renan’.

Já a colunista Dora Kramer, em artigo certeiro, indaga: ‘A gente olha a movimentação de alguns senadores imbuídos de ligeireza para mudar as regras em cima da hora a fim de permitir que seja aberta a sessão decisiva do caso Renan Calheiros, e vem a dúvida: suas excelências pretendem com isso enganar mesmo quem?’.

É publicidade

Desde a semana passada, depois de esta crítica diária pedir esclarecimento sobre a natureza dos testes de vestibular do Anglo, o Fovest imprime a tarja ‘Informe Publicitário’ no, agora se constata, anúncio.

Sugestão de leitura

É uma aula de jornalismo a reportagem de ontem do Valor sobre a expansão do porto de Rio Grande (RS) ao sul do Sul do Brasil.

Resposta ao ombudsman

Recebi da colunista Mônica Bergamo mensagem, pela qual agradeço, sobre nota de ontem desta crítica:

‘Diferentemente do que pareceu ao ombudsman, a Folha lê a Folha com atenção: a notícia dada pela coluna no sábado não repete informações já publicadas, e sim acrescenta outras, novas e relevantes, a fato já revelado pela coluna Mercado Aberto do dia 14 de agosto. Naquela ocasião, o jornalista Guilherme Barros noticiou que a presidente do conselho da TAM fez carta de apoio ao presidente da TAM, Marcos Bologna. Lembrando que tal carta foi distribuída aos funcionários, a coluna informou que tal manifesto estava em publicação distribuída aos passageiros da empresa’.

Comentário do ombudsman

Em nome da clareza, eis a íntegra da nota ‘Manifesto TAM’, do sábado (pág. E2): ‘Depois de ter ‘roubado’ David Barioni, um dos principais executivos da Gol, a TAM está tentando convencer o mercado de que a ‘bola da vez’ nas mudanças na empresa não é o próprio presidente da empresa, Marco Antonio Bologna, que estaria de saída. Além de enviar carta interna aos funcionários, Maria Cláudia Amaro, presidente do conselho de administração da companhia, está divulgando um ‘manifesto’ esta semana em publicação que circula em todos os aviões da TAM’.

A nota seguinte, ‘Parente’: ‘No ‘manifesto’, ela diz que ‘vozes não identificáveis, e respondendo a interesses inconfessáveis, fizeram a opção de aproveitar esse momento de profundo pesar para especular através da imprensa de forma desconstrutiva sobre seus quadros dirigentes’. Diz que ‘a TAM repudia’ as informações ‘destituídas de fundamento’ e afirma que ‘Bologna, para nós, é um parente que nos honra com sua liderança, trabalho e competência’’.

Comento:

1) A nota ‘Manifesto TAM’ dá a entender que o suposto novo ‘manifesto’ é diferente da ‘carta interna aos funcionários’. Não é. A nota ‘TAM reafirma apoio a Bologna’ (Folha, 14 de agosto, pág. B2) já publicara, 25 dias antes, a íntegra da ‘carta’, que é idêntica ao ‘manifesto’.

2) Todos os trechos da nota ‘Parente’ constam da carta veiculada em 14 de agosto pela Folha.

3) O ‘mercado’ já conhecia o teor do ‘manifesto’. Em meados de agosto a TAM já estava tentando ‘convencê-lo’. O ‘mercado’ lê a coluna ‘Mercado Aberto’, da Folha, na qual saiu a informação mais de três semanas antes da republicação.

4) Como se vê, a nota de sábado repetiu ‘informações já publicadas’.

5) A nota ‘Manifesto TAM’ inverte a ordem dos acontecimentos, ao ver novidade no ‘manifesto’: a rigor, muito antes de anunciar a contratação do executivo da Gol a TAM reafirmava o apoio a Bologna, como comprova o texto divulgado em 14 de agosto na Folha.

10/9/07

‘A marcha dos acontecimentos’

Depois de amanhã o Senado deve decidir, com sessão e voto secretos, se cassa o mandato de Renan Calheiros.

Seguem notas sobre a cobertura da Folha, em especial dos últimos dias.

Lula fora…

‘Lula não se dispôs a entrar em campo para salvar Renan.’

‘Renan depende mais dele e do PMDB do que de Lula.’

‘Não houve ordem de Lula [em reunião com parlamentares petistas] para salvar Renan.’

(Trechos da reportagem ‘Renan vai ao ‘amigo Lula’ para pedir apoio’, 28 de junho, pág. A5.)

…Lula dentro

‘Planalto trabalha para salvar Renan’ (manchete da sexta-feira passada).

Outra coisa é outra coisa

A chamada da manchete da quinta-feira (‘Conselho recomenda cassar Renan’) afirma: ‘O senador, que deve ser julgado no plenário na próxima quarta, é acusado de ter despesas pessoais pagas por lobista de empreiteira e de usar laranjas para adquirir empresas de comunicação’.

A formulação induz a erro: na verdade, há outro processo, específico, sobre os negócios de mídia.

Este processo não será julgado nesta semana.

Pau a pau

‘Pelas contas de ontem, a situação é de empate _com tendência de derrota para Renan’ (nota ‘Te perdôo’, pág. E2 de quinta-feira).

Palpite…

‘Planalto busca votos para livrar Renan de cassação’ (título em duas linhas no alto da pág. A4 da sexta-feira).

…Duplo

Nota ‘Boa sorte’, no mesmo dia e na mesma página: ‘Em tempo de leitura de sinais, a base governista no Senado entendeu como um ‘liberou geral’ o fato de Lula sair para seu giro escandinavo na semana do epílogo do caso Renan Calheiros (PMDB-AL) sem deixar orientação nenhuma à tropa’.

Mistério…

A nota ‘Esfinge’ (pág. A4 da sexta) sustenta que Paulo Paim (PT-RS) é um dos dois senadores ‘considerados total incógnita, pois nunca tocaram no assunto’.

…Não tão misterioso…

Duas páginas adiante (‘PT se divide sobre a cassação de Renan; 6 senadores votariam pela absolvição’): ‘São apontados [nas planilhas de aliados de Renan] como votos seguros pela absolvição: […] Paulo Paim’.

…Ou mais misterioso ainda

‘O senador Paulo Paim (PT-RS) declarou seu voto anti-Renan e admitiu que o fez por pressões da base. ‘No Rio Grande do Sul esse debate é muito forte’, disse, na última sexta-feira.’

(Em ‘Pressões regionais devem influenciar voto sobre cassação’, pág. A8 do domingo.)

Viés de alta

‘Logo após o começo da ‘crise de Renan’, no final de maio, o governo chegou a avaliar que havia chance de ele ser cassado. Esse prognóstico mudou nos últimos dias, quando articuladores do governo no Senado apresentaram a Walfrido [dos Mares Guia] um quadro favorável a Renan em relação à votação da cassação no plenário da Casa.’

(Em ‘Planalto busca votos para livrar Renan de cassação’, pág. A4 da sexta-feira.)

Sobrando na turma

‘A Folha apurou que, nas contas de [Romero] Jucá, a oposição não conseguirá obter 33 votos pró-cassação. O Senado tem 81 membros, incluindo Renan. Para cassá-lo, a oposição tem de arregimentar 41 votos.’

(Em ‘Ministros de Lula negam ação pró-Renan’, pág. A8 do sábado.)

As aparências enganam

É um equívoco jornalístico a fotografia de Renan Calheiros olhando para um lado e José Sarney para outro, na pág. A4 do domingo.

A imagem dá a impressão de que eles têm interesses opostos, que se chocam.

Não é verdade.

Salvo surpresa, a coluna do ombudsman do próximo domingo será dedicada a um engano recorrente da Folha na cobertura do caso Renan: o fotojornalismo interpretativo que interpretou mal, mostrando desde o início imagens que reforçavam a impressão de isolamento e solidão do presidente do Congresso. Como se sabe, ele chega à semana decisiva sem entregar os pontos, ainda com aliados. Esse é o Senado real.

Em contraste, a foto em que aparentemente Lula passa a mão na cabeça do senador foi muito feli

Perguntar não ofende

Está claro que há jogo de cena, intrigas e mentiras. Mas não custa nada a Folha inquirir os 80 colegas de Renan Calheiros: como o ilustre senador votará na quarta-feira?

Alma de release

A ‘reportagem’ ‘Uma tarde com FHC’, publicada na pág. 8 de hoje do Folhateen, afronta todos os princípios editoriais da Folha expressos no Manual da Redação.

Não é crítica (pelo contrário), apartidária (um release da assessoria do ex-presidente não escreveria nada diferente) e independente (o jornal se limitou a divulgar as ‘lições’ do líder do PSDB).

A repórter teve a chance de fazer pergunta a Fernando Henrique. Perdeu a oportunidade de indagar sobre como o presidente compara o atual procurador-geral da República com o alcunhado engavetador-geral nomeado por ele.

O texto de hoje é uma peça de submissão jornalística que merece servir de exemplo de como a Folha não deve se comportar.

Como matar (ou quase) uma história

Com o título ‘Após 20 anos, vítimas do césio ainda enfrentam preconceitos’ (pág. C6 de domingo), não faltam histórias para contar e depoimentos para comover.

Mesmo assim, a reportagem abre como um relato noticioso sobre um dia qualquer na Bolsa ou no Pacaembu: ‘Vítimas do acidente com o césio-137 em Goiânia, que completa 20 anos nesta semana, dizem que até hoje sofrem preconceito na cidade pelo envolvimento na tragédia’.

Sem graça, sem encanto e inspiração, previsível, burocrático.

Até no domingo.

Só com lupa

Nos cinco meses como ombudsman, descobri que são numerosos os leitores de mais idade que reclamam do tamanho das letras impressas na Folha. Eles têm dificuldades para ler o jornal.

Pois um provável erro de formatação na entrevista com Luiz Gonzaga Beluzzo (‘Tenho medo de unanimidades que vemos na mídia’, pág. A14 do domingo) diminuiu ainda mais o corpo de algumas perguntas.

Os leitores foram prejudicados.

Manchete fraca

A de domingo, mais uma ancorada em levantamento Datafolha: ‘Metade do país não faz exercício, revela pesquisa’.

Havia opção melhor

Os grampos legais da Polícia Federal no submundo corintiano expõem lavagem de dinheiro, lobby no gabinete do presidente da República, negócios de um russo de projeção internacional, as coisas como elas são, registradas em áudio, não apenas supostas.

Um furo (em conjunto com a revista eletrônica Terra Magazine) de muito mais impacto jornalístico do que o levantamento sobre prática de exercícios.

O leitor que se vire

Não é papel do ombudsman elencar os incontáveis recursos editoriais disponíveis para ajudar o leitor a percorrer textos extensos.

A reportagem sobre as interceptações telefônicas nos subterrâneos do futebol merecia até mais do que a contracapa do caderno Esporte dominical (o texto menor da capa é pouco maior que um lidão).

No entanto, jogar 220 cm sem nem sequer um só intertítulo, para não falar em outras opções gráficas e didáticas, é impor aos leitores uma provação que, mesmo com assuntos bombásticos, o jornal deveria evitar.

A Folha e o affaire MSI

Com a reportagem de ontem, o jornal anotou um furo importante em uma cobertura de altos e baixos que deveria render um balanço histórico.

Foi na Folha, recordo, que o testa-de-ferro Kia Joorabchian recrutou um assessor: um jornalista que cobria a ‘parceria’ Corinthians/MSI.

A Folha lê a Folha?

As notas ‘Manifesto TAM’ e ‘Parente’, publicadas na pág. E2 do sábado, repetem informações que o jornal veiculou em 14 de agosto.

Nem reportagem nem reflexão

É uma pena que a Folha não tenha oferecido no fim de semana uma cobertura de fôlego, com enviado especial a Portugal, sobre a tragédia da menina Madeleine.

É também de se lamentar que o jornal não tenha aberto suas páginas à reflexão sobre os trabalhos jornalísticos feitos em Portugal e no Reino Unido, contando como são, discutindo-os, identificando os abutres.

No sábado assisti a uma iniciativa (para mim) inédita de uma emissora de TV portuguesa: depois de exibir a sua reportagem, lembrou que a abordagem britânica é diferente e, com legendas, mostrou a íntegra de uma matéria apresentada pouco antes por um canal inglês. Grande idéia.

Um personagem em busca de um repórter

Seja qual for ela, a história da nadadora Rebeca Gusmão e do seu esforço para se superar está por ser contada.

O ônus da ‘evidência’

A Federação Internacional de Automobilismo não anunciou ter recebido ‘novas evidências’ sobre a espionagem contra a Ferrari (‘FIA diz ter evidências em caso de espionagem’, pág. D1 da quinta-feira).

O que há são novas ‘provas’.

Como já escrevi nesta crítica, em textos sobre questões judiciais na maioria das vezes a tradução correta para a palavra inglesa ‘evidence’ é ‘prova’, e não ‘evidência’.

Quatro anos depois

Ao contrário do que afirma a reportagem ‘Beluzzo pede autonomia para conselho da TV pública’ (pág. A10 da quinta-feira), foi em 2006 (e não em 2002) que o economista ‘apoiou Serra na disputa pela candidatura presidencial do PSDB contra o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin’.

Éramos três

Uma leitora afirma que os tenores Plácido Domingo e José Carreras não estiveram no funeral de Luciano Pavorotti, ao contrário do que informou texto na pág. A23 dominical.’

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