Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 17/08/2004 na edição 290

"16/08/2004


Foi uma semana inteira farta de notícias, de casos polêmicos e, por parte da Folha, de informações exclusivas. Era de se esperar edições dominicais fortes, com novidades. Não foi o que ocorreu. Os jornais apenas repercutiram o noticiário da semana, sem conseguir fugir das obviedades, e têm poucos investimentos em assuntos novos ou com enfoques renovados. As manchetes refletem a falta de boas alternativas.


Folha: ‘PT quer federalizar eleição municipal’. ‘Estado’: ‘Aço tem superprodução, mas indústria precisa de mais’.


‘Globo’: ‘Gastos com vereadores desrespeita Constituição’.


As revistas, com exceção da ‘Época’, discutem a imprensa, na berlinda desde a apresentação do projeto do Conselho Federal de Jornalismo: ‘Veja’: ‘A tentação autoritária — As investidas do governo do PT para vigiar e controlar a imprensa, a televisão e a cultura’.


‘Istoé’: ‘Ibsen Pinheiro — Massacrado — Como o mau jornalismo transformou US$ 1 mil em US$ 1 milhão e levou à cassação de um forte candidato a presidente do Brasil’.


‘Carta Capital’: ‘O poder e a mídia — Conselho de Jornalismo, agência do audiovisual, lei da mordaça, sigilos quebrados: os mandachuvas dizem-se acuados pelo governo’.


‘Época’: ‘Você também está no Orkut? — Conheça o site de relacionamentos que conquistou o mundo e foi tomado pelos brasileiros’.


DOMINGO


Eleições


Com a informação de que o governo petista, animado com os indicadores econômicos, pretende ‘federalizar’ as campanhas eleitorais municipais, o jornal poderia ter trabalhado melhor o assunto, e não ficado apenas num texto inteirinho em off (‘PT federaliza horário eleitoral para ‘surfar’ onda econômica’, pág. A4), que registra uma decisão do governo, mas não mede as suas conseqüências.


A federalização, agora que o governo está sendo fortemente questionado por iniciativas consideradas de cunho autoritário, pode também interessar às oposições, como mostrou o artigo do José Serra na página A3 (‘Chutando a escada’). A reportagem que antecipa o conteúdo da propaganda eleitoral de Serra (‘Serra será âncora de programa na TV e terceirizará os ataques’) diz que o foco dos ataques do candidato do PSDB será ‘totalmente voltado’ à gestão da prefeita do PT. Mas o artigo dele de ontem vai na direção da federalização.


Banestado


A quebra do sigilo das contas CC5, em 1998, é a mãe de todas as investigações. Começou lá atrás, no Paraná, e foi dando filhotes. O mais recente é a CPI do Banestado.


O jornalismo brasileiro e o MP deveriam levantar um memorial e agradecer diariamente o fato porque daquela quebra de sigilo saíram as principais suspeitas e denúncias de corrupção, lavagem de dinheiro e outras falcatruas que têm alimentado as mega operações da PF, as ações do MP e o noticiário ao longo dos anos.


A Folha perdeu neste domingo uma boa oportunidade de contar esta história, que nasceu na própria Folha e em alguns poucos veículos que acompanharam o trabalho do procurador Celso Três ainda no Paraná.


A reportagem ‘Procurador acusa precariedade em apuração’ (A19) poderia ser o pretexto para contar a história, mas ficou um texto curto, confuso, baseado apenas em um requerimento e sem o contexto que ajudaria a entender o assunto.


O jornal ainda deve uma boa reportagem sobre a história da quebra do sigilo das CC5 e das dezenas de casos que surgiram a partir de então até a CPI do Banestado.


Venezuela


Achei bastante completa e equilibrada a apresentação (noticiário, análises e entrevistas) do plebiscito na Venezuela (capa e páginas seguintes de Mundo).


Era uma opção para a manchete do jornal.


Massacre


Exige mais de uma leitura, e ainda assim está incompreensível, o primeiro parágrafo da nota ‘Rebeldes hutus matam ao menos 159 tutsis em campo para refugiados no Burundi’ (pág. A28).


SÁBADO


Segundo o ‘Estado’, ‘Empresários e diretor do BC foram chantageados com CPI’ (do Banestado). Se comprovada, é a informação que faltava para implodir de vez a CPI. Mas parece ser daquelas notícias possíveis, mas não comprováveis. Já no domingo, o próprio ‘Estado’ trazia entrevista com o ex-diretor do BC, Luiz Augusto Candiota, único nome citado, negando ter sofrido pressão.


A denúncia deve continuar repercutindo hoje no Congresso e é munição para os dois lados, governo e oposição.


SEGUNDA


CPI


Está confusa a reportagem da pág. A4 de hoje sobre a CPI do Banestado, ‘Banco confirma peça-chave em apuração sobre Maluf’. Reconheço que o assunto é complicado, cheio de minúcias. Por isso mesmo, deve haver um esforço maior do jornal em traduzi-lo. O primeiro parágrafo é genérico, não vai direto ao ponto. Fala em ‘transações financeiras’ que confirmariam ‘parte de um depoimento de uma peça-chave nas investigações’ sobre Maluf.


O leitor só vai ficar sabendo da importância do tal depoimento no quinto parágrafo. Até lá, tem de fazer um esforço grande para ir juntando as peças.


Kroll


Desaparecido na Folha, o caso Kroll ressuscita hoje no ‘Estado’, em entrevista de página inteira com o presidente da Kroll do Brasil, Eduardo Gomide.


Congonhas


Começou a funcionar ontem os novos terminais de passageiros em Congonhas, depois de 16 meses de reformas. O ‘Estado’ foi verificar se o novo esquema, que promete mais conforto para os passageiros funcionou bem. O jornal aprovou. Não vi nada na Folha. Acho que o jornal bobeou, porque é o tipo de assunto que interessa a uma boa parte dos seus leitores. Serviço e curiosidade.


Olimpíada


Não sei se é preciosismo, excesso de didatismo, mas acho que os resultados da ginástica de ontem mereciam um pouco mais de explicação. Por que as três ginastas brasileiras foram para as finais mesmo o Brasil tendo ido mal no conjunto? O ‘Globo’ fez um ‘Entenda a classificação’ que deixa mais claro como funciona a ginástica olímpica.


O ‘Estado’ começou a circular seu caderno sobre Atenas com data errada: terça-feira, 10 de agosto de 2004.


Desculpas


CPI


Nas críticas que fiz, sexta-feira, à edição do material sobre a minuta que proíbe funcionários públicos passarem informações sobre investigações para a imprensa cometi um erro. Diferentemente do que registrei, a Folha deu a declaração de Genoíno discordando da minuta. Acho que foi mal editada, em retranca errada. Mas, enfim, foi dada.


13/08/2004


Folha e ‘Estado’ abrem espaço nas suas capas para boas fotos da Olimpíada, que começa oficialmente hoje.


As manchetes dos jornais noticiam as investigações e os enfrentamentos que o país vive.


Folha: ‘Vazamento emperra CPI do Banestado’. É um título fraco, quase codificado, que não reflete a repercussão que a informação exclusiva do jornal teve nem o clima instalado em Brasília.


‘Estado’: ‘Mordaça em servidor tem oposição no próprio governo’. ‘Globo’: ‘PF faz devassa em papéis da presidência da Caixa’.


Hoje, como ontem, a Folha tem informações exclusivas na sua primeira página: ‘Banco dos EUA atribui a Maluf depósito de US$ 406 mil’, ‘Presidente é informado de que PIB subiu até 5% no ano’ e ‘Banqueiros enviaram R$ 1,7 bilhão ao exterior’.


CPI


Acho que a Folha trabalhou mal, tanto na primeira página como internamente, o material que dispunha, exclusivo, sobre a CPI do Banestado. As informações mais relevantes — a repercussão da fita com indiscrições do PT, o total de remessa dos banqueiros para o exterior e informações mais detalhadas sobre a convocação, abortada, de FHC — estão dissociadas, sem a mínima preocupação de uma amarração de edição.


Na Edição Nacional (pág. A6), o noticiário sobre a fita (‘Vazamento de diálogo causa racha entre líderes partidários no Senado’) está perdido na página, subordinado à reportagem sobre os banqueiros. O jornal não tem sequer a preocupação de editar novamente os diálogos da fita, em formato de arte, o que valorizaria o ‘furo’ da véspera e demonstraria algum cuidado no acabamento. Os textos estão jogados, e não editados. A foto do presidente da CPI, na Edição Nacional, é completamente dispensável, ainda mais naquele tamanho. Na Edição SP, a repercussão da fita ganhou um alto de página (pág. A7), mas foi jogada, sem edição.


É uma pena, porque nem sempre o jornal tem tantas informações novas, exclusivas e relevantes.


A primeira página também poderia ter arrumado melhor o noticiário sobre a CPI, valorizando mais a manchete e o levantamento das remessas dos banqueiros. Não foi só o título que ficou ruim, mas a edição sem criatividade deste material.


Enviei ontem para a Redação, mas seguiu tarde e talvez não tenha havido tempo para lê-la, uma observação de um leitor que, na minha opinião, procede: o jornal não deve continuar escrevendo que a CPI pretende ‘queimar’ ou ‘incinerar’ ou ‘devolver ao Banco Central’ os sigilos fiscais, bancários ou telefônicos. Estes sigilos foram quebrados, ou seja, deixaram de existir, quando a CPI recebeu as informações solicitadas. O que ela pode fazer agora é devolver ou queimar estas informações, mas não o sigilo, que não é material.


Mordaça


A Folha investiu na CPI do Banestado e deu pouco espaço para outro assunto polêmico, a minuta que proíbe funcionários públicos passarem informações sobre investigações para a imprensa. O ‘Estado’ deu manchete e abriu seu noticiário nacional com o assunto.


Os dois jornais interpretam de forma oposta a mesma entrevista dada ontem pelo ministro da Justiça. Na Folha, ‘Bastos repudia ‘carapuça de censor’ e afirma que projeto não é mordaça’ (pág. A8). No ‘Estado’, ‘Bastos e Genoíno rejeitam censura a servidores’. Na Folha, Bastos defende o projeto; no ‘Estado’, é contra.


A Folha não teve as declarações de Genoíno, presidente do PT, no Rio, em que discorda da minuta e diz que precisa ser melhor discutida.


A pág. A8 é outro exemplo de edição mal resolvida e da dificuldade que a editoria tem de trabalhar com uma página com anúncio no meio. A página é aberta com uma reportagem sobre a proposta do governo de ampliar os casos de quebra de sigilos, segue em baixo com a reportagem sobre a mordaça para os servidores e volta em seguida para a questão dos sigilos. São assuntos diferentes misturados.


Na Edição Nacional, o anúncio programado não deve ter chegado a tempo e entrou um calhau da própria Folha. O leitor que não conhece a produção e horários do jornal deve se perguntar por que um anúncio do próprio jornal corta duas páginas ao meio e dificulta sua edição.


CFJ


É uma piada o projeto do deputado Russomanno criando a Ordem dos Jornalistas do Brasil (pág. A9).


Ciência


Achei meio despropositado o título que abre a página de Ciência: ‘Onda de calor será mais intensa em 2080’. É uma projeção, aplicada apenas para o hemisfério norte, sujeita, portanto, a confirmação ou não daqui a 76 anos! 2080? Não teremos tempo para um ‘erramos’.


Dinheiro


A capa de Dinheiro, com a foto da manifestação do MST bem ‘horizontalizada’, demonstra que é possível uma boa edição mesmo com as limitações dos anúncios.


Texto


É difícil, mas temos de tentar fugir dos clichês e das soluções óbvias de abertura de texto. É desnecessário e pobre abrir uma reportagem sobre escavações (‘Obra desenterra peças do século 19’, pág. C4 da Edição Nacional e C3 da Edição SP) com ‘No meio do caminho havia um tijolo. E também utensílios (…)’. Não precisa.


Olimpíada


Os três grandes jornais lançaram seus cadernos especiais ao longo da semana. Hoje, quando tem a abertura oficial, a Folha tem cinco páginas e meia de material jornalístico; o ‘Estado’, seis; e o ‘Globo’, sete e meia.


Os cadernos ainda estão tomando jeito. A Folha ainda está preocupada com números e crises, mas tem personagens, como a arqueira alemã grávida.


‘Globo’ e ‘Estado’ publicam os textos da Dorrit Harazim, que têm sempre um enfoque diferente.


A competição apenas começou.


12/08/2004


Um dia de crises e notícias fortes na área política: CPI do Banestado (que se transformou numa bomba atômica), ampliação da quebra do sigilo bancário, mordaça nos funcionários públicos, envolvimento do presidente do INSS com o crime organizado, prisão de políticos locais importantes no Amazonas, mais evidências contra Waldomiro Diniz e a polêmica em torno do CFJ. Mas não foram estas as manchetes dos grandes jornais. Folha: ‘Dobra número de civis mortos no Iraque’. ‘Estado’: ‘Milhares de presos serão soltos se lei do crime hediondo acabar’. ‘Globo’: ‘Câmara aprova confisco de terras com trabalho escravo’.


CPI


A Folha tem um belo furo na sua Edição SP: ‘PT discutiu tática na CPI para preservar compadre de Lula’ (pág. A4). É mais uma fonte de vazamento de informações, agora a TV Senado. Cada dia aparece uma nova. O governo bem que tenta ‘disciplinar’ e ‘organizar’ os servidores públicos, a imprensa, o MP, as polícias, a Justiça. Mas está difícil!


Furos


O jornal tem outra informação relevante que não encontrei no ‘Estado’ nem no ‘Globo’: ‘Presidente do INSS recebeu dinheiro de Arcanjo, diz PF’ (pág. A10).


Verbos e verbos


O governo, segundo a Folha, propõe ‘flexibilizar sigilo de pessoas e empresas’ (título da pág. A4, de Brasil). ‘Flexibilizar’, no caso, é tucanês, como diria o nosso José Simão, e não quer dizer nada. A notícia é que o governo está criando novas regras para ‘facilitar’ (como está na primeira página) a quebra do sigilo fiscal das pessoas e das empresas. Ou para ‘ampliar’ a quebra do sigilo, como prefere o ‘Estado’. Imagino que o jornal tenha usado ‘flexibilizar’ porque deve ter sido o termo pinçado pelo governo no decreto. Se foi assim, deveria ter vindo entre aspas, como o jornal fez na reportagem ao lado sobre as restrições que o governo pretende impor aos funcionários públicos: ‘Servidores serão ‘disciplinados ‘ ao falar com a mídia’.


Janio


O erro publicado na Edição Nacional do jornal de ontem (‘Justiça cassa candidatura de ex-ministro’, pág. A6), e registrado hoje na coluna do Janio de Freitas (nota ‘Viva o leitor’, pág. A5), merece uma correção formal do jornal na coluna ‘Erramos’. A sentença diz que ficou provado que o ex-ministro tem união estável com a atual prefeita porque os dois têm ‘residência sobre o mesmo teto’, ou seja, vivem no telhado. Se estava errado na sentença, ao reproduzi-la o jornal tinha obrigação de consertar o erro ou apontá-lo; se não, é erro do jornal mesmo e deve corrigi-lo.


CFJ


A Folha mantém, em relação ao Conselho Federal de Jornalismo, a mesma postura: só dá destaque para as manifestações contrárias. No texto de hoje (‘Juízes condenam conselho de jornalismo’, pág. A7), informa que mais uma associação de magistrados e o PFL são contra o projeto. A defesa do projeto, feita ontem pela Fenaj, e duas manifestações favoráveis ao conselho (OAB e Tarso Genro) foram relegadas para o pé do texto. Ao menos a linha fina sobre o título (‘Anamatra pede retirada do projeto do Congresso; PFL compara órgão a instituição criada pela ditadura de Vargas’) poderia ter contemplado a divergência.


Trabalho escravo


A Folha vem investindo com sucesso na cobertura das ações do governo contra o trabalho escravo. Ontem à noite, a Câmara aprovou em primeiro turno a emenda constitucional que permite a desapropriação de terras onde foi flagrado trabalho escravo. O jornal deu apenas uma curta nota na pág. A8 da Edição São Paulo. O ‘Globo’ deu manchete.


Iraque


O título ‘EUA preparam ataque contra milícia em Najaf’ (pág. A11 de Mundo) não condiz com a abertura da reportagem, que informa que , depois de passar um dia inteiro planejando o ataque, as forças americanas voltaram atrás temporariamente.


Caça-níqueis


Achei a reportagem que deu início ao caso, manchete de domingo, ainda inconsistente. Mas as revelações de hoje (‘Pedido para liberar caça-níqueis era falso’, capa de Dinheiro) mostram que este caso pode estar apenas começando e que as desconfianças em relação ao processo de classificação das máquinas procedem. Mas o caso ainda está naquela categoria das suspeitas.


Olimpíada


A Folha destina sua capa para uma reportagem que mostra divergências na equipe masculina de vôlei quanto à premiação no caso de medalha. Título: ‘Quer pagar quanto? Logo no primeiro dia de treinos, o vôlei não se entende sobre premiação’. O ‘Globo’, no entanto, informa que os jogadores e os dirigentes chegaram a um acordo, 40 mil dólares para cada jogador. Se o assunto era a capa do jornal, e com um enfoque de crise potencial, o jornal deveria estar mais bem informado. Se é que a informação do ‘Globo’ está correta."

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