Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 16/11/2004 na edição 303

"12/11/2004


Como os principais jornais brasileiros sintetizaram a cobertura da morte de Iasser Arafat:


Folha – ‘Morre Arafat, ícone palestino’;


‘Estado’ – ‘Morto Arafat, Abbas assume. E quer eleição’ (edição das 20h55) e ‘Sucessor de Arafat pode ser eleito em 60 dias’ (edição de 0h15);


‘Globo’ – ‘Morte de Arafat mergulha o Oriente Médio na incerteza’;


‘Valor’ – ‘Nova etapa de incertezas com o fim de Arafat’;


‘JB’ – ‘Morte de Arafat move xadrez político do Oriente Médio’;


‘Correio Braziliense’ – ‘Como fica o mundo sem Arafat’;


‘Zero Hora’ – ‘O futuro do Oriente Médio depois de Arafat’.


Arafat


A Folha faz uma cobertura extensa, bem planejada e equilibrada da morte de Iasser Arafat.


O caderno ‘Palestina órfã’ está bem editado, com análises e artigos que mostram as diversas faces do líder palestino. Destaco os relatos e entrevistas colhidos em Ramallah e Tel Aviv, as artes das páginas centrais com a biografia de Arafat e a evolução do conflito no Oriente Médio, e os artigos, análises e entrevistas que ajudam a entender o momento da região. O artigo ‘Um relicário palestino’ é um presente para os leitores.


A vantagem que a Folha vinha levando na cobertura, com relatos diretos de Ramallah, deixa de existir na edição de hoje: o ‘Estado’ também enviou seu jornalista para a cidade palestina. Este é um diferencial importante dos dois jornais, que investem em informações próprias e que escapam, assim, dos relatos das agências estrangeiras de notícias. Tanto nas eleições nos EUA como agora a Folha demonstra a disposição de ter informações exclusivas e enfoques diferenciados.


São ruins as manchetes da primeira página do ‘Estado’. Na da edição das 20h55, ‘Morto Arafat, Abbas assume. E quer eleição’, há uma precipitação (a idéia de que Abbas já é o sucessor de Arafat) e uma imprecisão (a eleição em 60 dias está prevista nas leis palestinas; se irá ocorrer ou não é outro problema). E a manchete definitiva, ‘Sucessor de Arafat pode ser eleito em 60 dias’, não quer dizer nada. O ‘pode’ liquida com a informação.


O ‘Estado’ tem alterações curiosas entre as duas edições. Na que começa a circular, a biografia de Arafat é escrita por Michael Binyon (‘The Times’) e tem um título negativo para o líder morto: ‘Um estadista fracassado – Arafat foi um administrador fraco e incapaz de abandonar a ameaça de retomar a violência’. Este artigo é substituído na edição final do jornal por um de Judith Miller (‘The New York Times’) com um título mais indulgente: ‘O pai do nacionalismo palestino – Arafat era visto como herói romântico, mas seu brilho e reputação foram se apagando com passar do tempo’.


Substituíram, também, na segunda edição, um artigo do israelense David Grossman (‘Arafat moldou a nação e lhe impôs a tragédia’) por um do professor de origem libanesa Fawaz Gerges (‘Eleição pode revelar novas lideranças’).


O ‘Estado’ dá destaque para o mistério em torno da doença e morte de Arafat (a Folha também trata do assunto, mas sem título; o ‘Globo’ especula que pode ser púrpura idiopática); para os recursos financeiros que sustentam a OLP e as denúncias de corrupção; e para o casamento de Suha e Arafat. São aspectos da cobertura que mereciam a atenção da Folha.


Detalhes:


O jornal informa, na primeira página da Edição Nacional, que Arafat foi confinado em Ramallah por Israel desde 2001; o texto interno e a Edição SP informam que foi desde 2002.


Incompreensível a legenda para uma das fotos da página A20 da Edição Nacional, ‘Cadeira vazia designada ao líder palestino em missa de Natal’. Missa? Natal? Onde? Quando?


A entrevista, interessante, com o filósofo Tariq Ramadan (‘Líder cometeu erros políticos, diz filósofo’, A20), usa o verbo renunciar de uma forma que não deixa claro do que se trata, como no caso ‘Os estados árabes renunciaram, assim como a comunidade internacional’. Renunciaram a quê? Imagino que seja no sentido de terem desistido de apoiar a posição de Arafat.


Redundantes as duas frases que formam o primeiro parágrafo de ‘Arafat se encontrou com Lula e FHC’, pág. A22.


O ‘Estado’ tem uma foto aérea da Muqata e seu entorno (pág. H2) que passa uma idéia mais precisa e detalhada do QG de Arafat do que a arte que a Folha vem publicando (hoje na A14).


Outras notícias


A morte de Arafat e o espaço que ocupou na primeira página do jornal (justificado) ofuscaram algumas reportagens e entrevistas que merecem repercussão e continuidade:


– Está ótimo o relato do filme ‘Entreatos’, ‘Filme revela bastidores da campanha de Lula’ (A8);


– Não é exclusiva (vi no ‘Globo’ também), mas importante, e terá desdobramentos, a decisão do juiz de Taubaté, ‘Juiz manda abrir os arquivos da ditadura’ (A6);


– São fortes os termos que o presidente do BNDES usa contra o presidente do Banco Central em ‘Gestão de Meirelles é ´pesadelo´, diz Lessa’ (B4). Deve dar crise, mais uma.


Agenda da transição


Recebi do editor de Cotidiano, Rogério Gentile, via Secretaria de Redação, objeções à nota ‘Cotidiano’ da Crítica Interna de quarta-feira:


Em atenção às considerações sobre a edição de 10 de novembro do Cotidiano, gostaria de expressar minha profunda divergência. Realmente, as notícias sobre os atrasos nos pagamentos do município e do Estado receberam tratamento editorial diferentes. Mas por um motivo simples e estritamente jornalístico: são de relevâncias diferentes. Tanto dos pontos de vista simbólico (Marta está deixando o cargo para o sucessor, o que não é o caso de Alckmin) e legal (a prefeita em tese pode ser responsabilizada pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o que não é o caso do governador agora), como prático (os atrasos na prefeitura, diferentemente do Estado, fazem parte de um contexto no qual a administração da cidade está reduzindo serviços que afetam diretamente a população, vide os casos da varrição e do guinchamento). Além do mais, é necessário notar que os valores que respaldaram a crítica do ombudsman não podem ser comparados diretamente. No caso do Estado, a reportagem obteve o montante e a média de dias em atraso. No do município, em razão de um silêncio nada transparente da prefeitura, não foi possível publicar o total dos desembolsos em atraso, embora o Sistema de Execução Orçamentária tenha apontado, no dia 31 de outubro, que era de R$ 480 milhões a diferença entre o total de despesas autorizadas e o efetivamente pago. Mas, como a Prefeitura nega qualquer problema de caixa, só é possível comprovar o atraso quando o pagamento é lançado no sistema. Por isso, tivemos de recorrer a despesas feitas em determinados dias, das quais publicamos apenas alguns exemplos, para poder relatar que a prefeitura as tem feito com atrasos médios de 70 dias.


Reli as reportagens que critiquei. Sem entrar no mérito de informações que o editor agora nos fornece, mas que não estavam nas reportagens, continuo com a mesma impressão: há algo de errado na forma como foram tratados os casos de atrasos de pagamentos do Estado e da Prefeitura.


11/11/2004


A Folha, depois de longo e saudável jejum, volta aos índices: ‘Indústria desacelera após seis meses de alta’ é a manchete de hoje. O ‘Estado’ mostra as conseqüências da crise na base aliada ao governo federal: ‘Congresso parado retém R$ 19 bi’.


O ‘Globo’ continua a investir nos desdobramentos do caso da ‘máfia dos combustíveis’ na política e na administração fluminenses. O assunto volta a ser a manchete do jornal: ‘Escândalo dos combustíveis provoca devassa na Feema’.


Dos jornais que vi, apenas o ‘Extra’, do Rio, trazia a morte do líder palestino – ‘Arafat morre em Paris’ -, anunciada às 2h (horário de BSB).


Sob pressão


O ‘Estado’ faz um amplo e minucioso levantamento dos projetos parados na Comissão Mista de Orçamento: ‘Paralisia no Congresso deixa União sem R$ 19 bi e prejudica investimentos – São recursos para a área de transportes e energia, pagamento de servidores e programas de transferência de renda para carentes’, informa o jornal. Se os dados estão corretos, são conseqüências graves. A Folha tentou, na arte ‘Câmara parada’ (A6), dimensionar o resultado da paralisação do Congresso por aliados do governo Lula e pela oposição, mas não fez um levantamento tão detalhado quanto o do ‘Estado’.


No capítulo das pressões, o ‘Estado’ acrescenta a dos secretários de Fazenda, que estiveram reunidos ontem em Brasília no Confaz. Segundo o jornal, ‘Estados querem R$ 9,1 bi para compensar perdas’.


Agenda da transição


O ‘Estado’ não se limita a informar que a prefeita Marta Suplicy pediu a prorrogação do pagamento das dívidas do município, uma solução para evitar o enquadramento do próximo prefeito na Lei de Responsabilidade Fiscal. O jornal publica várias outras reportagens que analisam a sugestão da prefeita: ‘Risco é efeito dominó, diz senadora do PT’, ‘Especialistas: benefício soa como privilégio’ e ‘R$ 1,2 bilhão tira o sono dos tucanos’.


Acho que o assunto, pela polêmica que suscita, merecia da Folha um tratamento mais analítico, e não apenas o registro do fato.


‘Ilustrada’


Muito bom o artigo de capa da ‘Ilustrada’, ‘Entretenimento compassivo’, um panorama do ambiente cultural nos EUA depois da eleição presidencial.


10/11/2004


São parecidas as manchetes da Folha e do ‘Estado’:


‘Governo solta verba para conter pressão de parlamentares’ (Folha);


‘Lula abre cofre para conter crise com aliados’ (‘Estado’).


O ‘JB’ também trata do assunto: ‘Planalto abre cofre para Congresso’.


O ‘Valor’ trata da agenda da equipe econômica para 2005 e 2006: ‘Palocci planeja corte gradual do crédito dirigido’. Segundo o jornal econômico, fazem parte da agenda outras iniciativas ‘politicamente delicadas’, como a autonomia do Banco Central e a desvinculação entre salário mínimo e benefícios da Previdência.


O ‘Globo’ mantém na manchete os desdobramentos da ação da PF contra a ‘máfia da gasolina’: ‘Empresário da Máfia da Gasolina trabalha na Alerj’.


Sob pressão


Acho que falta à Folha, e aos outros jornais também, mostrar para os leitores de que forma eles e o país estão sendo prejudicados com a paralisação dos trabalhos legislativos e com a retenção das verbas previstas nas emendas parlamentares.


O que está para ser votado na Câmara de interesse do país e não entra em votação por causa da birra e do jogo de pressão dos partidos? É relevante o que está sendo postergado? Tanto faz votar ou não votar? O que tem de mais importante a ser votado?


Quanto às emendas, o que interessa saber é se, independentemente das pressões, são importantes ou não para a população. Ou só interessam aos parlamentares que as aprovaram?


A Folha e os outros jornais dão ênfase, acertadamente, nas causas que estão por trás deste jogo de pressão (insatisfação das bases, rescaldo da campanha eleitoral, a polêmica reeleição das Mesas da Câmara e do Senado). Mas a cobertura ficaria completa, e a denúncia mais forte, se o leitor soubesse de que forma esta política rasteira e indecente o afeta.


A propósito da política rasteira, o ‘Estado’ informa que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara recebeu ontem o projeto da reforma política. Não vi na Folha. Embora haja um ceticismo geral em relação à disposição dos partidos e políticos em mudar as regras do jogo político, este é um assunto que permite uma grande discussão sobre que tipo de democracia está sendo construída. É o momento para o debate.


Sob pressão 2


Não entendi, na abertura da reportagem ‘Lula diz que tem dificuldades para fazer mudanças no país’ (A6), a referência explícita à mudança no Ministério da Defesa. O discurso do Lula, pelo que entendi lendo a própria Folha e outros jornais, se referia a dificuldades para fazer mudanças ‘em qualquer ramo das atividades econômicas’ e estava se referindo ao projeto da Ancinav. Pode ser que eu tenha perdido algum detalhe do discurso que permitia ao jornal ligar a referência de Lula ao caso dos militares, mas me pareceu mais uma dedução do jornal.


Oriente Médio


O envio de um jornalista para Ramalah diferencia positivamente a cobertura que a Folha faz da agonia de Arafat e do ambiente político provocado pela expectativa de sua morte.


China


Entrevistas por escrito, por não permitirem questionamentos e complementações, sempre acabam com um tom oficial de release. Mesmo assim, é melhor ter uma entrevista nestas condições com o presidente da China que inicia amanhã viagem ao Brasil do que não ter nada. Pela disposição que o presidente mostrou de responder às questões de forma detalhada, a entrevista (‘Presidente chinês vem pedir apoio na OMC’, capa de ‘Dinheiro’) acabou sendo interessante.


O jornal vem tratando bem a visita nas últimas edições, mas acho que faltou um texto complementar da correspondente que ajudasse a analisar o sentido da visita e a entrevista do presidente chinês.


O jornal informa que o governo chinês limitou o número de perguntas e pediu a substituição de uma ‘que não era diretamente relacionada à visita ao Brasil’. Que pergunta era essa? Acho que o leitor tinha o direito de saber. É uma informação relevante para se entender as preocupações de Pequim.


‘Cotidiano’


É importante que o jornal continue a cobrir bem a transição na Prefeitura e os problemas que o Estado e o município estão tendo, neste final de ano, para honrar seus compromissos financeiros. Mas é importante também que as notícias sejam bem dimensionadas e haja alguma hierarquia.


O jornal informou ontem que a Prefeitura tinha atrasado o pagamento de R$2,4 milhões com obras. Registrou também outros atrasos de valores semelhantes. E estes registros mereceram, com razão, a capa do caderno (‘Mareta atrasa os pagamentos em 70 dias’).


Hoje, o jornal informa que os atrasos do governo do Estado com obras são de 4 meses (os da Prefeitura eram de 70 dias) e no valor de R$ 70 milhões, portanto várias vezes os valores de atraso da Prefeitura. E o registro jornalístico (‘Alckmin atrasa pagamentos em 4 meses’) não mereceu o mesmo tratamento. Foi editado na pág. C3, e a capa ficou, mais uma vez, para um atraso da Prefeitura (‘Contrato acaba e SP reduz frota de guinchos’).


Insisto pela milésima vez: acho corretíssimo o trabalho de fiscalização que o jornal faz em relação à Prefeitura de SP, e que deveria ser feito por todos os jornais em relação aos municípios onde têm base física. Este acompanhamento com lupa é indispensável e é uma das funções dos jornais. Mas, no caso da Folha, o governo do Estado deve ter tratamento semelhante. Até porque, como mostra a reportagem ‘Estado e cidade de SP detêm 80% do estoura da dívida’ (A7), a situação das finanças estaduais é muito complicada.


Não é possível, sob o ponto de vista estritamente jornalístico, que uma dívida de poucos milhões e um atraso de 70 dias possam ter mais importância do que uma dívida de muitos milhões e um atraso de 120 dias. Há algo errado.


O mesmo cuidado o jornal deve ter para não acabar dando importância demasiada para questões menores da transição. Não tem importância nenhuma o governo municipal (e não o PT, como está no título ‘PT demora 19h para confirmar que recebeu pedido da equipe do PSDB’, também na capa de ‘Cotidiano’) demorar 19 horas para responder um ofício. É o detalhe do detalhe, sem repercussão prática para a transição e para os paulistanos. Valia no máximo um registro na reportagem ou uma nota do jornal, não um título.


Educação


Está bom o relato do debate sobre universidade editado na pág. C8 (‘Inclusão social restringe debate sobre ensino’). Os participantes assumem posições corajosas num debate delicado.


Mas não encontrei na Folha a cobertura sobre a reunião da Unesco em Brasília sobre educação no mundo.


Violência


Também não encontrei nada sobre a pesquisa da USP, com dados do SUS, sobre violência publicada pelo ‘Globo’.


Ilustrada


Está ótima a entrevista com Manoel de Barros, ‘Retrato do artista quando coisa’ (E4)."

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