Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 28/12/2004 na edição 309

"27/12/2004


O terremoto no oceano Índico e a devastação das costas de vários países asiáticos são as manchetes de praticamente todos os jornais de hoje.


Folha – ‘Maremoto mata 12 mil na Ásia’.


‘Estado’ – ‘Terremoto deixa 12 mil mortos e 2 milhões de desabrigados na Ásia’.


‘Globo’ – ‘Ondas gigantes matam 12 mil em 7 países da Ásia’.


Os jornais do Rio deram destaque para mais um episódio da guerra do tráfico:


‘Globo’ – ‘Tráfico queima rivais no Centro’ –é isso mesmo, queimar no sentido de colocar fogo; no Centro da cidade.


‘Extra’ – ‘Invasão ao Morro da Mineira causa pânico e mata um’.


‘O Dia’ (que traz fotos na capa do corpo incendiado) – ‘Queimado no asfalto’.


As manchetes de DOMINGO:


Folha – ‘Aprovação a Lula sobe dez pontos em quatro meses’.


‘Estado’ – ‘Pobreza cai 25% no País, mas resiste nas metrópoles’.


‘Globo’ – ‘Falta de médico não deixa rede de hospitais crescer’.


DOMINGO


A Folha de DOMINGO vale pelas duas páginas de entrevistas com Chico Buarque na ‘Ilustrada’.


Mesmo com a ausência do ‘Mais!’ e da ‘Revista’, o jornal está surpreendentemente bom para o domingo pós-Natal sem notícias. Além da entrevista e da reportagem com Chico Buarque, destaco a continuação das investigações do Banco Santos (‘BC apontou problema no Banco Santos já em 2001’).


A pesquisa Datafolha que avalia o governo federal (‘Aprovação a Lula sobe dez pontos em quatro meses’) e o ranking dos clubes brasileiros (‘Ranking 2004’), embora façam parte do previsível calendário de final de ano, são dois esforços planejados para oferecer um jornal com algum conteúdo.


Uma observação em relação à entrevista com Chico Buarque. Na página E5, o compositor se refere a ‘um pessoal na altura do Jardim de Alá que desce ali e ocupa a praia’. O jornal tentou explicar do que se trata com uma informação equivocada: ‘…[moradores de um cortiço na rua do canal que divide Ipanema e Leblon]…’. Não há cortiço ali, mas um conjunto habitacional popular, conhecidíssimo, com nome e sobrenome, Cruzada São Sebastião.


Coincidência ruim: a página A2 tem artigo (‘O direito à verdade no regime republicano’) e carta (‘Lição’) de Fábio Konder Comparato.


Tem problemas a entrevista da pág. A11 com o governador de Minas, ‘Aécio defende unidade para derrotar o PT’. Como não está em forma de pingue-pongue, o texto poderia ter sido contextualizado e deveria ter inserido questionamentos em alguns trechos da entrevista.


O governador diz, por exemplo, que ‘as eleições deixaram o PSDB fortalecido como nunca havia ocorrido desde a sua fundação’. E as duas eleições presidenciais que o partido venceu com Fernando Henrique Cardoso? Segundo Aécio, o PSDB não é um partido dividido. Não? O próprio jornal fez reportagens recentes mostrando as divisões do partido. Quando o governador se refere ao ‘primarismo político’, que seria tratar da disputa para o Planalto em 2005, o jornal deveria lembrar a disputa interna do PSDB, com o lançamento da candidatura do governador Geraldo Alckmin.


E a entrevista não faz qualquer referência à estratégia de mídia do próprio governador de Minas.


A entrevista apenas reproduz o que o governador quis dizer, sem o enriquecimento jornalístico que o leitor merecia.


A entrevista com o ator Erland Josephson (pág. E12) é ilustrada com uma foto em que ele não aparece.


Banco Santos


A série (bem feita) de reportagens que a Folha vem trazendo sobre a situação do Banco Santos antes da intervenção deveria suscitar uma reflexão jornalística.


O ‘Manual da Redação’ orienta corretamente para que o jornal não publique informações que possam colocar em risco empresas ou a vida de pessoas. Boatos sobre a fragilidade financeira de bancos estão cobertos por este verbete, e nem a Folha nem qualquer outro jornal publicaria uma informação não comprovada que pudesse ameaçar uma instituição financeira, provocando uma corrida aos caixas. Dito isso, vamos à reflexão.


As reportagens que a Folha tem publicado mostram que os problemas do Banco Santos são antigos. A reportagem de ontem –’BC via problema no Banco Santos desde 2001’, capa de ‘Dinheiro’– prova que o BC tinha conhecimento de operações suspeitas desde 2001, mas não agiu por formalismo. Ou seja, a fiscalização do BC é insuficiente para garantir a saúde financeira das instituições bancárias e a proteção dos investidores. Como os jornais não acompanham as gestões dos bancos (e das empresas em geral) e não dão a atenção devida aos problemas que vão surgindo, preferindo cobrir os balanços (sem descobrir que são maquiados) e os lançamentos de produtos, os bancos ficam protegidos (pelo BC e pelo silêncio dos jornais), mas os leitores/investidores ficam descobertos. No final, eles (leitores/investidores) arcam com os prejuízos sozinhos; supunham que estavam investindo com riscos sem saber que já não havia risco, mas perda certa.


SEGUNDA


Estão bem parecidas as coberturas do terremoto na Ásia nos três jornais. Não vi muitas diferenças, exceto em alguns relatos da tragédia. ‘O Globo’ deu mais espaço para a arte, o que se justifica em casos como este.


Somente na Edição SP, fechada às 22h59, a Folha informa que uma pessoa foi queimada no centro do Rio pelo tráfico. Embora o assassinato tenha ocorrido cedo, a Edição Nacional não traz a informação.




22/12/2004


Folha e ‘JB’ destacam nova pesquisa do IBGE, agora feita a partir do Registro Civil; ‘Estado’ e ‘Globo’ optam por juros e dólar.


Folha – ‘Brasileiro demora mais para casar e divórcios crescem’.


‘JB’ – ‘Brasileiro casa tarde e se divorcia cada vez mais’.


‘Estado’ – ‘Palocci descarta medidas para desvalorizar o real’.


‘Globo’ – ‘Palocci: ‘Juros não caem no grito, só com reformas’ ‘.


A Folha também entrevistou o ministro da Fazenda: ‘Palocci nega intervenção do governo no câmbio’.


Sob o selo ‘Verão’, o jornal repete, na primeira página de hoje, informação que já tinha publicado ontem: ‘Um Natal ensolarado será exclusividade de nordestinos e sulistas’.


Palocci


Folha, ‘Estado’ e ‘Globo’ trazem boas entrevistas com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O ministro se submeteu a longas sabatinas feitas por profissionais que conhecem o assunto.


Achei a da Folha muito bem conduzida. Estranhei apenas o tratamento informal.


Assalto


A Folha publica em Mundo (pág. A15) e em Dinheiro (pág. B2) a mesma informação do assalto a um banco em Belfast, na Irlanda do Norte.


Saúde


O ‘Estado’ informa que ‘avança na Câmara projeto que cria SUS de luxo’. É o tipo de proposta que vai provocar grande discussão sobre política de saúde.


Educação


O ‘Globo’ traz a relação de 36 cursos de pós-graduação que serão fechados pelo MEC por falta de qualidade. Vários estão em SP.




21/12/2004


O ‘Globo’ tem a melhor manchete porque desmistifica a mudança na tabela do Imposto de Renda anunciado pelo governo na semana passada: ‘Correção do IR não inclui deduções e cai para 7%’. Ainda segundo a manchete do jornal, ‘Benefício para muitos contribuintes será pouco ou nulo, dizem tributaristas’. Folha e ‘Estado’ optam pela queda do dólar, mas o título da Folha apenas constata a queda, enquanto o do ‘Estado’ acrescenta uma conseqüência importante:


Folha – ‘Dólar fecha a R$ 2,677, menor valor desde 2002’;


‘Estado’ – ‘Real forte vai derrubar saldo comercial em 37%’.


‘Cotidiano’


Não há edição no caderno ‘Cotidiano’ de hoje que circula no Rio (Edição Nacional, concluída às 20h17). Os problemas que vejo:


– As matérias estão simplesmente colocadas nas páginas, sem um apuro no acabamento, sem qualquer preocupação em buscar recursos gráficos que tornem as páginas mais bonitas e atrativas.


– As fotos servem apenas para dizer que o caderno tem ilustrações. As fotos da Oca (C2), do enterro do deputado Albano Reis (C3) e da praia de José Menino (C3) são completamente dispensáveis, nada informam, não têm nenhuma qualidade especial que justifique a publicação, exceto a necessidade de ter de ilustrar. Mesmo a foto da capa, da carcaça do ônibus atingido por um caminhão no Rio Grande do Norte, não faz jus à Folha. Neste último caso, por exemplo, para o leitor do jornal que está às vésperas de viajar de férias seria mais importante o mapa do local do acidente com outras informações sobre a causa do acidente e as condições das estradas na região. E a foto poderia ter sido publicada menor.


– A reportagem principal (‘Caminhão tomba, atinge ônibus e mata 18’) é apenas descritiva do acidente. É um acidente grave, com um número de mortos que justifica um destaque do jornal. Mas para os leitores da Folha que estão espalhados pelo Brasil interessa, além dos detalhes do acidente, algumas informações a mais: foi por causa da estrada? Está tendo muitos acidentes esta época do ano nas estradas do Nordeste?


– Há alguma coisa errada no critério de avaliação do acidente. Na Edição Nacional, que circula no Brasil inteiro, com exceção da cidade de SP e de Brasília, a notícia ocupou a meia página livre da capa do caderno. Na Edição SP, no entanto, virou um mero registro (pág. C4). Ou o acidente foi superdimensionado na Edição Nacional, ou foi subdimensionado na Edição SP.


– O jornal criou um selo diferente para o noticiário sobre o verão. Ótimo. Todo ano ele tenta fazer uma cobertura sobre a estação de praias, viagens e férias. Mas para isso não basta o selo, é necessário investir em reportagens e na edição. Como está hoje no jornal, não faz qualquer diferença.


– Na página C4, a foto-legenda do pai do Robinho cai de pára-quedas, não tem nada a ver com o resto da página, que trata de saúde e educação. O noticiário policial está na página anterior.


– E o artigo da economista Sônia Rocha, que havia sido publicado ontem na Edição SP, está jogado na página sem um selo, sem uma indicação, sem nada que o diferencie dos outros assuntos da página, saúde e educação.


A Edição Nacional de ‘Cotidiano’ está com quatro páginas, enquanto a Edição SP está com oito. Esta diferença é lamentável, mas não pode justificar uma edição mal acabada.


‘Esporte’


A Folha informou ontem, na pág. D11 (‘Game abre festa do país no melhor da Fifa’):


‘Ronaldinho era tido como favorito ao prêmio de melhor jogador da temporada, mas ontem dois importantes dirigentes indicaram à Folha que o ucraniano Shevchenko será o vencedor’.


O vencedor acabou sendo Ronaldinho (‘Mágica supera gols e dá a Ronaldinho o trono da Fifa’, capa de ‘Esporte’), e com mais do que o dobro dos votos do ucraniano. Para quem, como eu, acreditou que a Folha estava bem informada, era de esperar que houvesse alguma menção hoje à informação errada passada pelos tais dois ‘importantes dirigentes’. Ou a votação é tão secreta realmente que ninguém consegue saber antes o resultado (e Ronaldinho, na reportagem, indica isso), o que é uma raridade, ou os tais ‘importantes dirigentes’ induziram propositalmente o jornal a erro. De qualquer forma, merecia uma menção do jornal. E como leitor espero que estes dois ‘importantes dirigentes’ estejam queimados como fontes.


Primeiro Emprego


Os ministros Ricardo Berzoini (Trabalho) e Gilberto Gil (Cultura) visitaram ontem uma favela do Rio, a Vila do João, na Maré, onde lançaram um programa governamental de qualificação profissional para jovens. A Folha apenas relatou a visita e deu informações sobre o programa (‘Trabalho prevê criação de 70 mil vagas’, pág. A6 da Ed. Nacional, reduzida a um texto-legenda na Ed. SP). O ‘Estado’ no entanto, tem informação mais importante: ‘Tráfico deixa Berzoini subir o morro’. Segundo o jornal, a ong que organizou a festa pediu a autorização via Associação de Moradores.


Todo mundo sabe que ninguém entra nas favelas do Rio dominadas pelo narcotráfico sem autorização dos traficantes. Mas o fato de ministros de Estado precisarem pedir licença ao tráfico para circular deveria ser considerado sempre um escândalo e, portanto, notícia."

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