Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 04/01/2005 na edição 310

"29/12/2004


A tragédia na Ásia, mais uma pesquisa do IBGE e a morte de Susan Sontag são as notícias comuns nas capas dos três jornais. As manchetes:


Folha – ‘Epidemia deve duplicar mortos na Ásia’.


‘Estado’ – ‘Epidemias podem dobrar os 63 mil mortos do mar’.


‘Globo’ – ‘Mortes na Ásia já são 60 mil e podem dobrar com epidemias, alerta OMS’.


O ‘Globo’ divide o alto da capa com outra manchete: ‘Agronegócio cria novo fluxo migratório no país, diz IBGE’.


CPI do Banestado


O título ‘Fim da COI barra depoimento de Arcanjo’ A7) me pareceu impróprio. A reportagem não informa que o depoimento marcado pela Justiça uruguaia a pedido da CPI foi ‘barrado’. Pelo que entendi, o depoimento está mantido. A reportagem não deixa claro o que poderá ocorrer a partir de agora, sob o ponto de vista jurídico, com o fim da CPI. O jornal deveria ter ouvido a Justiça do Uruguai e o Itamaraty para saber que solução será dada para o problema.


Há uma discussão importante e nova sobre o valor legal do relatório da CPI do Banestado e dos votos em separado enviados ao MP sem que tivessem sido aprovados na Câmara. O jornal registra, na página A7 (‘Relatórios da CPI têm valor legal, diz OAB’), a opinião da OAB e do relator, José Mentor. O ‘Painel’ informa, nas suas primeiras notas (‘Sigilo eterno’), que a CCJ discute a validade das investigações em casos em que a CPI termina sem relatório, como a agora. O assunto merecia ter sido aprofundado ouvindo o Judiciário e o próprio Ministério Público.


A Folha informa que o relator, José Mentor, ainda ameaça entrar com mandado de segurança no STF para garantir a reabertura da CPI. O ‘Globo’, no entanto, informa que o PT, pressionado pelo PSDB e pelo PFL, que ameaçam obstruir a votação do Orçamento, desistiu ontem de recorrer ao STF.


Tragédia na Ásia


Leitores reclamam, com razão, do anúncio de uma agência de viagem no miolo das páginas A8 e A9. Cercados pelo noticiário trágico da Ásia, que ainda conta as vítimas das ondas gigantescas que varreram as costas de vários países e destroçaram vários destinos turísticos, turistas felizes se divertem numa praia. Falta de sensibilidade do jornal e do anunciante.


A propósito, o Bradesco resolveu tirar do ar a campanha que mostrava um casal sendo tragado por ondas gigantescas. Conseguiu emplacar a notícia, com a versão que desejava _a interrupção da campanha já estava prevista_, em várias colunas, como ‘Mônica Bergamo’, ‘Ancelmo Gois’ (‘Globo’) e ‘Marcia Peltier’ (‘JB’).


Pesquisas


Os jornais vêm publicando os resultados de pesquisas do IBGE quase todos os dias, e sempre com destaque. O leitor, nesta altura, já nem sabe mais o que é importante e o que é descartável. Que país saiu desta avalanche de números? A Folha poderia se preocupar em consolidar alguns destes dados e traduzi-los para o leitor.


Aviso


Amanhã e sexta não haverá Crítica Interna. Bom 2005 para todos.


28/12/2004


A tragédia na Ásia ainda é a manchete de todos os jornais, que têm números de mortos e desaparecidos atualizados.


Folha – ‘Vítimas na Ásia são mais de 23 mil’.


‘Estado’ – ‘Já são 24 mil os mortos pelas ondas gigantes’.


‘Globo’ – ‘Mortes em maremoto na Ásia sobem para 23 mil’.


Os jornais brasileiros destacam o drama da família da diplomata carioca Lys Amayo D’Avola, até ontem dada como desaparecida na Tailândia com o filho de dez anos. A morte dos dois foi confirmada hoje.


Outro drama, a guerra do tráfico no Rio que já incendiou oito pessoas, não teve espaço nas capas dos jornais de SP.


Redundância


São redundantes o editorial ‘Tragédia na Ásia’ e a coluna ‘Terra em transe’, certamente escritos pelo mesmo jornalista. Não é a primeira vez que ocorre.


A pesquisa histórica e o enfoque filosófico justificam um artigo e a chamada na primeira página do jornal, mas não a repetição.


Tragédia na Ásia


A Folha informa que Lia Amayo Rodrigues de Jesus, tia da diplomata Lys Amayo desaparecida na Tailândia, é atriz e participa da novela da Globo ‘Senhora do Destino’. ‘Globo’ e ‘Estado’ informam que a mãe da diplomata, Tereza Amayo, é que é atriz e trabalha na novela.


A Folha informa que a família de Lys no Rio passou o dia evitando a imprensa, mas ‘Globo’ e ‘Estado’ trazem aspas da mãe da diplomata.


Folha e ‘Estado’ têm análises diferentes sobre as conseqüências da tragédia na economia da região atingida: na Folha, ‘Impacto econômico na região será pequeno’ (A9); no ‘Estado’, ‘Desastre natural é catástrofe econômica’ (A15). É possível que os dois tenham exagerado.


Banco Santos


A Folha continua melhor na cobertura dos desdobramentos da intervenção no Banco Santos e no histórico de seus problemas e irregularidades. O ‘Estado’, no entanto, informa hoje que ‘Congresso pode investigar o Banco Santos’ e que ‘CVM anuncia abertura de inquérito’.


A coluna do Luís Nassif, ‘O Banco Santos e o BC’, aponta mais caminhos para a cobertura da Folha.


‘Dinheiro’


Segundo o ‘Estado’, ‘Nova tabela do IR prevê corte de até 6,8% na alíquota’.


‘Esporte’


Segundo o ‘Globo’, Romário anunciou que pára de jogar: ‘O adeus de Romário: ‘Parei’.


27/12/2004


O terremoto no oceano Índico e a devastação das costas de vários países asiáticos são as manchetes de praticamente todos os jornais de hoje.


Folha – ‘Maremoto mata 12 mil na Ásia’.


‘Estado’ – ‘Terremoto deixa 12 mil mortos e 2 milhões de desabrigados na Ásia’.


‘Globo’ – ‘Ondas gigantes matam 12 mil em 7 países da Ásia’.


Os jornais do Rio deram destaque para mais um episódio da guerra do tráfico:


‘Globo’ – ‘Tráfico queima rivais no Centro’ –é isso mesmo, queimar no sentido de colocar fogo; no Centro da cidade.


‘Extra’ – ‘Invasão ao Morro da Mineira causa pânico e mata um’.


‘O Dia’ (que traz fotos na capa do corpo incendiado) – ‘Queimado no asfalto’.


As manchetes de DOMINGO:


Folha – ‘Aprovação a Lula sobe dez pontos em quatro meses’.


‘Estado’ – ‘Pobreza cai 25% no País, mas resiste nas metrópoles’.


‘Globo’ – ‘Falta de médico não deixa rede de hospitais crescer’.


DOMINGO


A Folha de DOMINGO vale pelas duas páginas de entrevistas com Chico Buarque na ‘Ilustrada’.


Mesmo com a ausência do ‘Mais!’ e da ‘Revista’, o jornal está surpreendentemente bom para o domingo pós-Natal sem notícias. Além da entrevista e da reportagem com Chico Buarque, destaco a continuação das investigações do Banco Santos (‘BC apontou problema no Banco Santos já em 2001’).


A pesquisa Datafolha que avalia o governo federal (‘Aprovação a Lula sobe dez pontos em quatro meses’) e o ranking dos clubes brasileiros (‘Ranking 2004’), embora façam parte do previsível calendário de final de ano, são dois esforços planejados para oferecer um jornal com algum conteúdo.


Uma observação em relação à entrevista com Chico Buarque. Na página E5, o compositor se refere a ‘um pessoal na altura do Jardim de Alá que desce ali e ocupa a praia’. O jornal tentou explicar do que se trata com uma informação equivocada: ‘…[moradores de um cortiço na rua do canal que divide Ipanema e Leblon]…’. Não há cortiço ali, mas um conjunto habitacional popular, conhecidíssimo, com nome e sobrenome, Cruzada São Sebastião.


Coincidência ruim: a página A2 tem artigo (‘O direito à verdade no regime republicano’) e carta (‘Lição’) de Fábio Konder Comparato.


Tem problemas a entrevista da pág. A11 com o governador de Minas, ‘Aécio defende unidade para derrotar o PT’. Como não está em forma de pingue-pongue, o texto poderia ter sido contextualizado e deveria ter inserido questionamentos em alguns trechos da entrevista.


O governador diz, por exemplo, que ‘as eleições deixaram o PSDB fortalecido como nunca havia ocorrido desde a sua fundação’. E as duas eleições presidenciais que o partido venceu com Fernando Henrique Cardoso? Segundo Aécio, o PSDB não é um partido dividido. Não? O próprio jornal fez reportagens recentes mostrando as divisões do partido. Quando o governador se refere ao ‘primarismo político’, que seria tratar da disputa para o Planalto em 2005, o jornal deveria lembrar a disputa interna do PSDB, com o lançamento da candidatura do governador Geraldo Alckmin.


E a entrevista não faz qualquer referência à estratégia de mídia do próprio governador de Minas.


A entrevista apenas reproduz o que o governador quis dizer, sem o enriquecimento jornalístico que o leitor merecia.


A entrevista com o ator Erland Josephson (pág. E12) é ilustrada com uma foto em que ele não aparece.


Banco Santos


A série (bem feita) de reportagens que a Folha vem trazendo sobre a situação do Banco Santos antes da intervenção deveria suscitar uma reflexão jornalística.


O ‘Manual da Redação’ orienta corretamente para que o jornal não publique informações que possam colocar em risco empresas ou a vida de pessoas. Boatos sobre a fragilidade financeira de bancos estão cobertos por este verbete, e nem a Folha nem qualquer outro jornal publicaria uma informação não comprovada que pudesse ameaçar uma instituição financeira, provocando uma corrida aos caixas. Dito isso, vamos à reflexão.


As reportagens que a Folha tem publicado mostram que os problemas do Banco Santos são antigos. A reportagem de ontem –’BC via problema no Banco Santos desde 2001’, capa de ‘Dinheiro’– prova que o BC tinha conhecimento de operações suspeitas desde 2001, mas não agiu por formalismo. Ou seja, a fiscalização do BC é insuficiente para garantir a saúde financeira das instituições bancárias e a proteção dos investidores. Como os jornais não acompanham as gestões dos bancos (e das empresas em geral) e não dão a atenção devida aos problemas que vão surgindo, preferindo cobrir os balanços (sem descobrir que são maquiados) e os lançamentos de produtos, os bancos ficam protegidos (pelo BC e pelo silêncio dos jornais), mas os leitores/investidores ficam descobertos. No final, eles (leitores/investidores) arcam com os prejuízos sozinhos; supunham que estavam investindo com riscos sem saber que já não havia risco, mas perda certa.


SEGUNDA


Estão bem parecidas as coberturas do terremoto na Ásia nos três jornais. Não vi muitas diferenças, exceto em alguns relatos da tragédia. ‘O Globo’ deu mais espaço para a arte, o que se justifica em casos como este.


Somente na Edição SP, fechada às 22h59, a Folha informa que uma pessoa foi queimada no centro do Rio pelo tráfico. Embora o assassinato tenha ocorrido cedo, a Edição Nacional não traz a informação."

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