Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 15/02/2005 na edição 316

"14/02/2005


O assassinato da irmã Dorothy Stang, sábado de manhã, no Pará, teve mais destaque nas capas da edição de DOMINGO do ‘Estado’ e do ‘Globo’ do que na da Folha. Não tenho dúvida de que deveria ter sido a manchete do jornal.


Na edição de hoje, os três diários dão visibilidade ao caso na primeira página. É a manchete da Folha (‘PF liga novo assassinato à morte de freira no PA’) e do ‘Globo’ (‘Decretada a prisão de três suspeitos da morte de freira’). O ‘Estado’ tem uma chamada curta no alto da capa (‘Juiz decreta a prisão de 3 por assassinato de freira no Pará’), mas a manchete trata do resultado das eleições no Iraque, ‘Aitolá tem vitória arrasadora’. A da Folha sobre o assunto é apenas informativa: ‘Xiitas obtêm 48% dos votos no Iraque’.


As manchetes de DOMINGO;


Folha – ‘Ministros embolsam diárias indevidas’.


‘Estado’ – ‘Subsídio agrícola dos EUA cresce US$ 14 bi’.


‘Globo’ – ‘Carnaval: prefeitura tem perda mas Liga fatura R$ 70 milhões’.


As revistas:


‘Veja’: ‘Revolução pela educação – A Coréia fez, o Brasil também pode fazer’.


‘Época’ – ‘Intuição – Por que essa característica é cada vez mais importante no trabalho e na vida pessoal’.


‘IstoÉ’ – ‘José Wilker – Felomenal’.


DOMINGO


Achei bem feita a reportagem que sustenta a manchete do jornal (‘Ministros embolsam diárias indevidas’). A apuração me pareceu completa. Acho apenas que o título dado pela editoria – ‘Ministros ganham diária de viagem irregular’ (pág. A10) – não está correto. As viagens dos ministros não eram irregulares. Como informa corretamente a primeira página, o problema está nas diárias embolsadas indevidamente.


Gostei também do cardápio variado de ‘Mundo’ e da reportagem de capa da revista, ‘Made in Bom Retiro’.


Esperava que o jornal enviasse um repórter para a reserva Caiuá, em Dourados, para investigar melhor a situação de desnutrição dos índios e a ineficácia dos programas sociais dos governos. Espero que a cobertura prioritária do assassinato da freira Dorothy Stang não prejudique o acompanhamento do drama dos índios do Mato Grosso do Sul.


Brasil profundo


A cobertura da morte da freira da CPT no Pará foi muito parecida nos três grandes jornais. O fechamento mais cedo de sábado não impediu que os diários dessem destaque para o caso, o que demonstrou uma agilidade nem sempre presente na nas Redações aos sábados, quando finalizam a edição de domingo.


O ‘Estado’ tem mais informações sobre a vida e o trabalho da religiosa (‘Mesmo jurada de morte, ela insistia: ‘não quero fugir’), mas o noticiário dos três é muito parecido e tem lacunas que indicam a dificuldade da cobertura a longa distância.


O assassinato deveria ter sido a manchete de domingo da Folha. Não vi nada no jornal mais relevante e impactante que a morte encomendada da freira. É um escárnio com os governos, a polícia e a sociedade. Um escândalo de repercussão internacional.


A Folha se recupera na edição de hoje ao dar manchete para o caso e editar uma cobertura bem mais variada do que a de seus concorrentes diretos. Mas ‘Estado’ e ‘Globo’ foram mais cautelosos ao noticiarem uma segunda morte na região. A Folha apostou na ligação entre os dois crimes, o que não está comprovado.


Checagens:


A Folha e o ‘Estado’ informam que a freira tinha 73 anos; segundo o ‘Globo’, eram 74.


A Folha e o ‘Estado’ informam hoje que a freira recebeu nove tiros; segundo o ‘Globo’, foram seis.


A Folha, mesmo na sua Edição SP fechada às 23h30, informa que não havia sido feita a necropsia no IML; segundo o ‘Globo’, o exame já havia sido feito e indicou a probabilidade de dois tipos diferentes de armas terem sido usados.


Eleição na Câmara


O jornal apresentou ontem quatro candidaturas para a presidência da Câmara. Na edição de hoje acrescenta o deputado Jair Bolsonaro. Mesmo assim, o quadro de apresentação da página A10 só tem informações sobre quatro candidatos.


Religião


A morte da irmã Lúcia Maria aos 97 anos merecia mais espaço do que uma ‘Panorâmica’ (‘Testemunha da aparição da Virgem de Fátima morre’, pág. A13 de ‘Mundo’).


Fátima teve grande importância no enfrentamento que a Igreja Católica travou contra o comunismo, e o santuário se transformou num dos mais concorridos do mundo. A nota da Folha sequer informa sobre os três segredos que teriam sido anunciados aos pastores.


11/02/2005


Os jornais de SP deram mais destaque para o anúncio da bomba atômica da Coréia do Norte; os do Rio, para o crescimento da produção industrial. A Folha, que adora uma manchete com levantamentos do IBGE, desta vez não deu importância para os números da economia e editou a chamada no pé da capa, apesar do recorde anunciado: ‘Indústria cresce 8,3% em 2004, maior alta em 18 anos’. O ‘Estado’ foi o único dos grandes que acomodou as duas notícias no alto da primeira página.


As manchetes:


Folha – ‘Coréia do Norte diz ter arma atômica por causa de Bush’.


‘Estado’ – ‘Coréia do Norte anuncia que tem bomba atômica’ e ‘Indústria nunca cresceu tanto desde o Cruzado’.


‘Globo’ – ‘Recorde da indústria já indica melhora na renda’.


‘JB’ – ‘Produção recorde em 18 anos faz indústria investir na expansão’.


Os jornais econômicos também ignoraram os dados da produção industrial em suas manchetes:


‘Valor’ – ‘Sojicultores vão questionar na OMC subsídios dos EUA’.


‘GM’ – ‘Caterpillar Brasil entra no clube do US$ 1 bilhão’.


Retomada


Sou dos que acham chatas as freqüentes manchetes da Folha baseadas em indicadores econômicos, principalmente as que ressaltam dados parciais que sequer indicam uma tendência. Por isso, torço sempre para que o jornal consiga escapar da armadilha dos levantamentos abundantes e inconclusos e dê espaço para boas histórias ou fatos relevantes. O leitor merece, os jornalistas também.


Mas acho que hoje o jornal exagerou ao jogar para o pé de sua capa o resultado consolidado da produção industrial de 2004, o melhor desempenho desde 1986. O jornal já deu manchetes para levantamentos econômicos muito menos importantes. Por isso, não entendi a opção. Acho que a informação deveria estar acima da dobra, como fez o ‘Estado’.


Não sei se houve uma mudança editorial e o jornal já não dá tanta importância aos números da economia, se houve um cochilo e a primeira página não soube avaliar o peso da notícia, ou se o jornal decidiu não dar visibilidade para um número extremamente favorável da economia. Em qualquer hipótese, penso, houve um erro.


Não encontrei na Folha os comentários do ministro Palocci comemorando o resultado da produção industrial. Li no ‘Globo’ e no ‘Estado’.


Questão indígena


Esperava que o jornal trouxesse hoje reportagem quente em Dourados, na aldeia dos índios, mostrando o que aconteceu com a menina morta, as condições de vida da sua família, os programas (ineficazes, aparentemente) de ajuda.


A suíte de hoje é a mais oficial possível: o governo fazendo novas promessas de programas sociais.


É o tipo do caso que o jornal tinha tudo para ir muito bem mas se dispôs a ficar a reboque da televisão.


Violência


Fez bem o jornal ao trazer para a capa de ‘Cotidiano’ da Edição São Paulo a chacina ocorrida numa favela de São Paulo.


Estranho, no entanto, não haver uma repercussão maior e mais consistente do caso. Por que o secretário de Segurança não foi ouvido? E o governador? E as entidades que estudam e acompanham a violência em SP?


Aliás, o secretário e o governador deveriam ter sido ouvidos também pelas duas outras notícias que compõem o painel de violência em SP na edição de hoje: ‘SP tem 140 seqüestros relâmpagos por mês’ e ‘Ambulantes montam segurança própria’.


10/02/2005


Folha, ‘Estado’ e ‘Valor’ deram destaque para a nova Lei de Falência, sancionada ontem. O ‘Globo’ e os jornais do Rio deram mais importância para os resultados do Carnaval fluminense.


Folha – ‘Lula mantém saída para a Varig em Lei de Falências’.


O ‘Estado’ começou a rodar com uma especulação – ‘Alta dos juros projeta perda de US$ 16 bi no ano’ -, que mais tarde foi substituída por ‘Lula sanciona Lei de Falências e beneficia a Varig’.


‘Valor’ – ‘Lula sanciona Lei de Falências e ajuda aéreas’.


Os títulos do Carnaval do Rio:


‘Globo’ – ‘Beija-Flor é tri legal’ (manchete).


Folha – ‘Beija-Flor é tri e Portela escapa do rebaixamento’.


‘Estado’ – ‘Beija-Flor é tricampeã n o carnaval do Rio’.


‘Jornal do Brasil’ – ‘Tijuca, inovadora intrusa no reino da Beija-Flor’.


‘O Dia’ – ‘É TRI!’.


Outros assuntos comuns: aniversário do PT e a crise de disciplina, ataque do ETA em Madri, futebol e demissão da presidente da HP.


Questão indígena


É inacreditável que uma criança de quase quatro anos morra de desnutrição no Brasil. É a segunda que morre em terras indígenas do Mato Grosso do Sul este ano, segundo a Folha.


A nota do jornal (‘Índia de 3 anos morre de desnutrição em MS’, pág. A7 de ‘Brasil’) e a sua edição acanhada, sem chamada na primeira página, não refletem a indignação e a perplexidade que uma notícia como esta deveria provocar.


O que foi feito do dinheiro enviado para os diversos projetos sociais que deveriam amparar índios e populações pobres da região? Por que os programas dos governos federal e estadual não dão certo? Como um Estado rico em agricultura e pecuária como o Mato Grosso do Sul permite que crianças morram de desnutrição? Há algo de muito errado que o jornal não consegue explicar.


Mérito para o correspondente em Campo Grande, que já vinha alertando para a gravidade do problema com reportagens publicadas dia 25 de janeiro (‘Cresce mortalidade infantil indígena’) e 5 de fevereiro (‘Verba do Fome Zero para índio fica parada’). Estas reportagens deveriam ter acendido o sinal de alerta do jornal e a confirmação, ontem, de uma morte exigiria uma edição mais forte. Fica a impressão que a sede do jornal não soube perceber a tragédia que seu correspondente vinha anunciando.


O selo escolhido pela edição está errado; não é uma ‘questão indígena’, mas uma questão nacional.


Aniversário do PT


A cobertura do ‘Estado’ em relação ao aniversário do PT tem mais informações históricas (como a entrevista com Lula) e está mais analítica do que a da Folha. O material de ontem da Folha estava melhor do que o de hoje.


A fonte parece ser a mesma, o PT, mas os números são diferentes: segundo a Folha, o partido tem 821.437 filiados; segundo o ‘Estado’, são 840.108.


Carnaval


A Folha não faz referência, no noticiário a respeito do resultado das escolas, à força dos bicheiros. Este ano foi, mais uma vez, um escândalo. Tanto no desfile (noticiado pelo jornal), como na apuração. O ‘Globo’ é explícito na manchete que abre seu caderno ‘Rio’: ‘Mais um tri para o bicho’.


Aliás, faltou explorar a força do bicho também nas escolas de SP. Na reportagem de hoje (‘Casa Verde troca voluntário por assalariado’, pág. C6 da Ed. SP), um diretor da Império da Casa Verde nega que a grana que bancou a escola tenha vindo do jogo. O jornal dá espaço para as explicações oficiais, mas sem contraponto. É até possível que o diretor fale a verdade, não conheço. Mas o jornal não investiga.


Febem


O ‘Globo’ e o ‘Estado’ informam que houve mais uma rebelião na Febem e que um adolescente foi espancado e teve traumatismo craniano.


Ilustrada


Mais uma boa reportagem sobre os espólios do Banco Santos (‘Beleza confiscada’, capa da Ilustrada). Mas não fica claro no texto o que o banqueiro e seus advogados pretendem fazer para impedir o confisco das peças marajoaras. Aliás, não fica claro se o confisco é uma conseqüência inevitável da cassação da licença por parte do Iphan."

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