Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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VOZ DOS OUVIDORES >

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 14/11/2006 na edição 407

09/11/06

Folha fez bem em dar visibilidade, na Primeira Página e internamente, sem histeria, para a quebra dos sigilos do telefone do jornal em Brasília e do celular da repórter. Mesmo que não tenha havido a intenção de violação do sigilo da fonte ou de intimidação, o fato é que houve a quebra dos sigilos. Não é um problema só do jornal nem somente da garantia da liberdade de imprensa. É mais um caso a demonstrar como o recurso de quebra de sigilo virou rotina (e não apenas da Polícia Federal, mas das polícias estaduais) e vem sendo mal utilizado, às vezes de forma criminosa _como já vimos acontecer em casos em que, sob o pretexto de monitorar criminosos, a polícia espionou cidadãos comuns.

O assunto principal dos grandes jornais foi o resultado das eleições nos Estados Unidos, e não poderia ser outro o destaque.

Folha – ‘Caos no Iraque derrota Bush; secretário da Defesa renuncia’.

‘Estado’ – ‘Bush é derrotado e Rumsfeld cai’.

‘Globo’ – ‘Ação de Bush no Iraque é reprovada e Rumsfeld cai’.

A manchete do ‘Valor’ esquece o mundo e é para iniciados: ‘Vitória democrata facilita a renovação do SGP’. Aliás, uma avaliação diferente da feita pela Folha: ‘Democratas podem dificultar comércio com o Brasil’.

Os dois jornais econômicos têm destaques na capa que ajudam a entender o resultado das eleições brasileiras: no ‘Valor’, ‘Estados do Sul começam a sair da crise econômica’; na ‘Gazeta Mercantil’, ‘Relatório da ONU mostra Brasil menos desigual’. [A ‘Gazeta Mercantil’ e o ‘JB’ quebraram o embargo pedido pela ONU para a divulgação do relatório anual do Pnud.]

O ‘Estado’ deu bastante visibilidade para mais uma ação criminosa em Gaza: ‘Ataque de Israel mata 18, a maioria mulheres e crianças’. A Folha deu apenas o registro de um título, sem texto: ‘Israel mata 8 crianças em Gaza, e Hamas dá fim a cessar-fogo’. As mortes exigiam mais destaque.

Folha

A repercussão ‘Ex-ministros contestam a polícia e a Justiça’ (pág. A8) informa que foram ouvidos três ex-ministros da Justiça, mas só cita dois, Paulo Brossard e José Paulo Cavalcanti Filho.

Parece haver um erro de datas neste trecho, que reconstitui os telefonemas da Folha: ‘A Folha ligou para o telefone celular de Gedimar somente a partir do dia 21, ou seja, dois dias depois da última ligação da Editora Abril. Dois dias antes, no dia 23, a Folha também ligou para o telefone de Gedimar por meio de dois outros números do jornal, mas esses não tiveram o pedido de quebra feito’.

O jornal podia lembrar outros casos em que, no meio de pedidos genéricos de quebra de sigilo telefônico, foram quebrados os sigilos de pessoas que nada tinham a ver com a investigação. Parece claro que nem sempre a Justiça solicita à Polícia todas as informações necessárias para avaliar se deve ou não autorizar a quebra do sigilo.

Ministério

O jornal afirma, na Edição Nacional (‘Lula deve ser reunir com Gerdau para discutir ministério’, pág. A10), que Fernando Haddad já está confirmado no Ministério da Educação no próximo mandato. O ‘fico’ do Lula pareceu dúbio, como o próprio jornal explica na página A5 quando informa que Lula explicou que foi uma brincadeira. A ver.

Publicidade

O jornal deu bem, na Edição SP, as conclusões do relatório do TCU sobre gastos com publicidade oficial (‘TCU vê prejuízo em gastos com publicidade’, pág. A11). Uma observação: como o relatório se refere ao período de 2000 a 2005, é importante que também sejam ouvidos os responsáveis pela propaganda do governo FHC.

É impressionante que os governos tenham gasto no período mais de R$ 5 bilhões em ações publicitárias. Há uma discussão de fundo, sobre a limitação de verbas para propaganda do governo, que o jornal deveria trazer para as suas páginas.

Como a reportagem só saiu na Edição SP, imagino que amanhã estará também na Edição Nacional e com novas informações.

Estados Unidos

Está boa a cobertura da Folha, com muitas informações, análises, projeções e repercussões.

Há problemas de acabamento na Edição Nacional. Dois exemplos:

– A reação de Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, está em duas retrancas, na página A19 (‘Chávez comemora’) e na página A20 (‘Países pedem nova política ao Congresso americano’).

– Embora no curto perfil do senador eleito Bernie Sanders (pág. A16) esteja informado que ele será o único independente no Senado, o perfil de Joe Lieberman diz que ele foi eleito senador como independente. Neste caso, que se repete na Edição SP, acho que há um erro.

Embora o ‘Valor’ e a Folha tenham avaliações um pouco diferentes do que poderá ocorrer com o comércio exterior entre os Estados Unidos e o Brasil agora que os democratas terão maioria no Congresso, fica claro que os dois jornais ainda estão tateando, sem informações seguras, sobre o que deverá ocorrer.

Senti falta de um texto com informações oficiais e de bastidores sobre como o governo brasileiro e o Itamaraty estão interpretando a vitória dos democratas e a derrota de Bush. O ‘Estado’ avalia que a saída de Donald Rumsfeld da Defesa é boa para o Brasil. Será? Fará diferença?

Embora a chamada na Primeira Página faça referência ao envolvimento de Robert Gates, o novo secretário de Defesa dos Estados Unidos, no escândalo Irã-Contras, o pequeno perfil publicado em ‘Mundo’ (‘Ex-diretor da CIA toma lugar de Rumsfeld’, pág. A16) ignora o caso.

Oriente Médio

A atenção justificada do jornal nos resultados das eleições nos Estados Unidos resultou numa pouca atenção com o que ocorreu ontem na faixa de Gaza. O resultado trágico da ação militar e as reações que certamente ocorrerão justificavam mais espaço no jornal (‘Israel mata 8 crianças em Gaza, e Hamas cobra revide’, pág. A21).

Aviso

Participo amanhã de um seminário no Instituto Ayrton Senna, em São Paulo, e por esta razão não haverá Crítica Interna.



08/11/06

A Folha trocou a manchete na Edição São Paulo para dar mais destaque à previsão de queda do PIB neste ano. O jornal começou a rodar a sua Edição Nacional com o título ‘Anistia a empresas zera déficit de SP’, e a notícia sobre a produção nacional ficou sem visibilidade, abaixo da dobra da Primeira Página: ‘Indústria tem queda de 1,4% e puxa para baixo projeção do PIB’. Deve ter acendido um sinal amarelo na Redação e a projeção subiu para a manchete: ‘Queda da indústria reduz previsão do PIB’. As contas supostamente zeradas de SP sequer continuaram na capa do jornal.

O PIB também está nas manchetes do ‘Estado’ – ‘Produção da indústria cai e derruba previsão do PIB’ – e do ‘Valor’ – ‘Indústria patina e 3% viram ´teto` para PIB do ano’. O ‘Globo’ ignorou a notícia na capa.

A Folha mudou ainda a sua Primeira Página para inserir três novas notícias: ‘Darci Vedoin foi procurador de prefeituras em convênios’, ‘Caixa-preta do Boeing mostra silêncio na queda’ e ‘Rival admite vitória de Ortega na Nicarágua’. Em relação aos sanguessugas, acho que o título deveria informar que os convênios das prefeituras com o Ministério da Saúde foram assinados por Darci Vedoin e pelo então ministro Barjas Negri.

PT

O jornal adora a deputada Ângela Guadagnin. Só assim se explica as duas fotos dela na mesma edição. Na Edição SP, ainda se salva por um jogo de diagramação (página A5); mas, na Edição Nacional (páginas A5 e A6), ficam evidentes o exagero e a picuinha.

Partidos

O jornal continua a publicar seus levantamentos sobre os valores arrecadados pelos parlamentares recém eleitos (‘Eleitos por PT, PL e PTB têm receita maior que a de 2002’, pág. A5), mas segue sem informar o principal: quem os financiou durante a campanha eleitoral?

Sanguessugas

A informação de que ‘Barjas e Vedoin assinaram ao menos sete convênios juntos’ (pág. A8 da Edição SP) deixa o ex-ministro Barjas Negri em situação delicada. Como foi o principal fato do dia, deveria ter sido a principal reportagem interna sobre o tema, editada no alto da página ímpar (A9). Tanto é a notícia mais importante do dia que foi para a Primeira Página do jornal.

Gol 1907

O terceiro parágrafo da reportagem ‘Boeing não pediu socorro, indica caixa-preta’ (capa da Edição SP de ‘Cotidiano’) não informa quantas toneladas pesava a aeronave. O uso de pés para a altitude não está errado, mas o leitor está mais acostumado com metros e quilômetros.

Segundo o ‘Estado’, o relatório preliminar sobre as causas do acidente entre o Boeing da Gol e o Legacy deve sair nos próximos dias e deve apontar como fator determinante da colisão o desligamento do transponder. A ver.

Sumiu, na Edição SP da Folha, a informação de que a justiça do Mato Grosso do Sul bloqueou os bens dos pilotos e da proprietária do jatinho Legacy (pág. C3 da Ed. Nacional).



06/11/06

Folha e ‘Globo’ enfatizam a relação entre a condenação à morte de Saddan Hussein e as eleições parlamentares nos Estados Unidos:

Folha – ‘Saddan Hussein é condenado à forca’ e ‘Decisão pode ajudar Bush na urna’.

‘Globo’ – ‘Saddan é condenado à morte a dois dias de eleição nos EUA’.

O ‘Estado’ também deu manchete para a condenação, com menos destaque: ‘Saddan Hussein é condenado à forca’.

Segundo o ‘Valor’, o governo federal decidiu cancelar a licitação de 2005 para a transposição do rio São Francisco e lançará novo edital – ‘União cancela licitação do São Francisco e muda edital’.

A intervenção na operação-padrão dos controladores de vôo teve resultado e a volta do feriado foi tranqüila. Com isso, a crise nos aeroportos perdeu espaço nas Primeiras Páginas dos jornais. As causas da crise, no entanto, aparentemente ainda não foram solucionadas. Um aspecto que o jornal deveria continuar a destacar na Primeira Página é a orientação para os consumidores que se sentiram prejudicados.

Financiamento eleitoral

O levantamento feito pela Folha dos recursos obtidos pelos partidos de São Paulo para o financiamento das campanhas para a Câmara Federal – ‘Captação do PT-SP é 229% maior em 2006’, pág. A7 – é interessante, mas não traz a principal informação para o leitor: a identificação das fontes de financiamento dos deputados eleitos por todos os partidos. Só assim será possível conhecer parte dos interesses que serão defendidos no Congresso e começar a se delinear as formações das bancadas suprapartidárias, que atuam com mais força e coerência que os partidos.

Anúncio

O anúncio que corta ao meio da página A9 prejudica a leitura da coluna ‘Toda Mídia’.

Saúde

Segundo o ‘Estado’, o ministro da Saúde, Agenor Álvares, informou, ao desembarcar em Genebra para uma reunião da Organização Mundial de Saúde, que o Ministério da Saúde e o Ministério Público Federal investigam um novo escândalo de corrupção na saúde.

Petrobrás

O testemunho do ex-presidente Carlos Lessa a respeito do presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, tem mais importância pelo que contesta nos rumos da estatal do que acrescenta ao perfil de Gabrielli. É uma declaração, portanto, que faria mais sentido como um ‘outro lado’ do que como um ‘perfil’ (‘Executivo foi preso durante a ditadura’, pág. B4).

Como ‘perfil’, o texto é falho porque não se pode traçar o perfil de alguém tendo como único depoimento uma declaração de um adversário, como foi o caso.

E, como ‘outro lado’, o texto tem um problema sério: não permite que Lessa explique o que entende por ‘esforço [de Gabrielli] para descaracterizá-la [a Petrobras] como empresa pública’ e por que entende que ‘a política do petróleo [da Petrobras sob Gabrielli] é uma catástrofe’. Esclarecidas estas duas contestações, aí sim teríamos condições de avaliar a gestão de Gabrielli com base na entrevista e no seu contraponto.

Aeroportos

A Folha foi bem na cobertura do caos nos aeroportos no período do feriado prolongado. Mesmo com equipes menores, a cobertura foi extensiva e trouxe informações e serviços importantes. Refiro-me, principalmente, às reportagens que mostraram que só uma parcela das verbas para a segurança dos vôos havia sido liberada até agora e que a caixa-preta do Legacy revelou que houve erro no controle em São José dos Campos. O jornal deu destaque à orientação aos consumidores prejudicados pela operação-padrão, pelo governo e seus organismos e pelas companhias aéreas _como no artigo de Maria Inês Dolci (‘Aeroporto de filme’) e como na edição de hoje. E acompanhou de perto a crise aberta entre a Aeronáutica e o ministro da Defesa.

A ‘normalização’ do movimento nos principais aeroportos não significa que os problemas explodidos na última semana tenham sido resolvidos.

Aviso

Faço amanhã palestra para os trainees da Folha, em São Paulo, e por esta razão não farei a Crítica Interna.’

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