Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 23/01/2007 na edição 417

19/01/07

A reunião da Cúpula do Mercosul está nas manchetes dos principais jornais, com exceção da Folha. O jornal deu destaque para a reunião (‘Lula faz apelos a Kirchner e a Chávez’), mas manteve o foco no acidente do metrô em São Paulo – ‘Resgate corta van e retira 3 corpos’.

O ‘Estado’ juntou o noticiário de Caracas com o início da cúpula: ‘Chávez ganha superpoder e ataca ‘Mercosul neoliberal’’.

‘Globo’ – ‘Declaração do Mercosul vai pedir respeito à democracia’.

‘Valor’ – ‘Disputas esvaziam agenda dos parceiros do Mercosul’.

‘Gazeta Mercantil’ – ‘Lula aceita construir gasoduto de Chávez’.

‘JB’ – ‘Chávez age como filhote de Fidel e desafia Lula’.

A Folha chama o veículo tragado pelo desmoronamento do metrô em Pinheiros ora de microônibus, ora de van, como se fossem a mesma coisa. Pela descrição do próprio jornal, o termo certo é microônibus. O uso de van facilita a redação da manchete, por ser uma palavra curta, mas não parece apropriado.

Mercosul

A Folha inverteu a pauta: encolheu a cobertura da disputa pela presidência da Câmara e abriu, enfim, espaço para a Cúpula do Mercosul, iniciada ontem no Rio. Ainda assim, é o jornal, entre os três grandes, com menos espaço para o acompanhamento da reunião.

O principal editorial da Folha é bastante duro com o Mercosul. Considera o bloco decadente, em ‘derretimento’, que ‘vai degenerando num clube de falastrões, no bloco da parolagem’. A cobertura jornalística, no entanto, tem pouco espaço para análises, seja para as que embasem as críticas, seja para as que defendem o bloco. Há o ponto de vista do Itamaraty espalhado pelas reportagens e dois textos com análises superficiais na página A6 (‘Com Venezuela, grupo amplia sua importância’ e ‘Brasil tem de crescer para ‘puxar’ bloco’, títulos da Edição SP). E nada mais.

Há um erro no texto ‘Brasil passa a privilegiar acordos bilaterais’, na página A7 da Edição Nacional: o presidente do Uruguai é Tabaré Vasquez, e não Nicanor Duarte (presidente do Paraguai).

Metrô

O ‘Estado’ tem uma entrevista interessante com o operador da grua que foi desestabilizada com o desmoronamento – ‘Na grua, ele evitou tragédia maior’.



18/01/07

Os grandes jornais seguem acompanhando os assuntos locais:

Folha – ‘Corpo de motorista é retirado da cratera’.

‘Estado’ – ‘Terceira vítima é resgatada na cratera’. O jornal tem uma segunda manchete, para a cúpula do Mercosul, que começa hoje no Rio: ‘Argentina contesta Brasil e veta vantagens para Bolívia’.

‘Globo’ – ‘Estado cortará ponto de quem não voltar ao posto’.

A Folha optou, em relação à tragédia do metrô, por manchetes sóbrias, apenas informativas, sem qualquer tom editorial. Talvez esteja certa, por se tratar de um drama que não deve ser explorado com sensacionalismo. Mas, em termos de notícia, a mais importante das que foram para a capa do jornal de hoje é, sem dúvida, a de que o ‘Consórcio [que constrói o metrô] teve 10 minutos para alertar a vizinhança’ e não o fez. Esta providência teria evitado as mortes. A responsabilização do consórcio, neste caso, nem exige perícia prolongada.

Embora tenha sido corrigida internamente na Edição SP, a Primeira Página manteve a informação de que os fundadores da Renascer foram transferidos para o Centro de Detenção Krome. Segundo a Edição SP (A7), Sônia Hernandes foi transferida para uma prisão em West Palm Beach, também em Miami.

Câmara

Plínio Fraga talvez tenha exagerado quando escreveu, na coluna de hoje (‘Lula dá o que dele não é’, A2), que ‘quanto menos ler e se informar sobre o tema [a disputa pela presidência da Câmara dos Deputados], melhor você estará’. Talvez tenha exagerado, mas não muito. A edição de hoje se estende por três páginas sem notícia. A rigor, todas as informações ‘novas’ (enquete da Folha, formalização de novos apoios para os candidatos, bastidores irrelevantes, posicionamento indeciso do presidente) poderiam ter sido editadas em um único texto.

A reportagem mais importante – ‘Aliados rifam cargos do governo Lula’ , A5- carece de mais informações e casos. É o tipo de reportagem que deve ter continuidade para que o inventário seja completo e comprovado.

Aliás, a reportagem informa que ‘a segurança de comandar o Ministério dos Transportes estaria fazendo engordar a bancada do PR’, mas só cita um deputado (Maurício Quintella) que teria migrado para o partido. Não se pode definir uma única troca como engorda.

Mercosul

Prolixa, a cobertura da novela da disputa pela presidência da Câmara dos Deputados mereceu mais espaço na Folha do que o início da cúpula do Mercosul, marcada por fortes divergências entre Brasil e Argentina (assinaladas na segunda manchete do ‘Estado’) e pela presença de vários presidentes.

A cobertura na Edição Nacional (A8) praticamente ignora a reunião da cúpula. A manchete de página é quase um release do Itamaraty, a começar pelo título (‘Mercosul promete acordo com árabes’), e os problemas enfrentados pelo bloco não mereceram mais do que uma pequena nota – ‘Bolívia: encontro de bloco começa com divergência interna’. Não há a mínima preocupação de informar, contextualizar e analisar o que será a reunião. Chega a ser um desrespeito com o leitor da Edição Nacional (mais da metade dos leitores da Folha, é bom lembrar).

Quem estiver interessado no assunto é melhor procurar outras fontes de informação.

É Cúpula do Mercosul ou cúpula do Mercosul? O jornal precisa padronizar. A Edição SP está uma confusão.

Fotos

A legenda da foto do alto da página A6 da Edição Nacional não informa quem é Zeca Dirceu, o filho de José Dirceu que foi recebido pelo presidente Lula.

O presidente olha e ri para um homem de costas. É ele? A legenda da Edição SP não melhora a situação. Ela informa que Zeca Dirceu está ao lado de Lula, mas… à direita ou à esquerda?

Na página A10, a foto mostra dois homens, mas a legenda informa que Daniel Claros é o que está no centro.



17/01/07

Sem um grande assunto nacional ou internacional, os principais jornais brasileiros se voltam para os problemas locais:

Folha – ‘Bombeiros retiram 2º corpo da cratera’.

‘Estado’ – ‘Busca recomeça e mais um corpo é retirado do metrô’ [a previsão anunciada pela Folha de ontem era de que as buscas só seriam retomadas em três ou quatro dias].

‘Globo’ – ‘Tráfico desafia polícia com tiroteio e ataques a ônibus’.

‘Correio Braziliense’ – ‘Um crime a cada 4 minutos no DF’.

‘Zero Hora’ – ‘Pacote do Planalto prevê socorro a calçadistas’.

‘Jornal do Commércio’ (Recife) – ‘Eduardo só garante pagamento da Folha’.

‘O Povo’ (Fortaleza) – ‘Estado descarta risco de desabamento [no metrô de Fortaleza]’.

‘Estado de Minas’ – ‘Chuva volta a matar em MG’.

Segundo o ‘Estado’, o governador José Serra suspendeu o pagamento de janeiro do trecho das obras do metrô onde ocorreu a tragédia de sexta-feira.

São Paulo

A tragédia na estação do metrô em Pinheiros deve provocar uma discussão sobre os rumos do crescimento de São Paulo. É uma excelente oportunidade para o jornal, além de manter a cobertura do acidente e de seus desdobramentos, abrigar a discussão. É um caminho para se fazer útil e se aproximar de seus leitores e dos moradores da cidade. Os dois textos de Gilberto Dimenstein no caderno ‘Cotidiano’ – ‘Um sonho perdido nas marginais’, C2, e ‘Por que me sinto desrespeitado’, C10 na Edição SP – apontam para um roteiro inicial do debate e da busca de idéias e soluções. Como ele lembra, o acidente coincide com o mês de aniversário da cidade.

FGTS

A se confirmar a informação da Folha de que pela primeira vez recursos do FGTS (R$ 5 bilhões) serão aplicados num investimento de risco (obras de infra-estrutura previstas no Plano de Aceleração do Crescimento), a notícia deveria ter sido dada com mais destaque do que o que mereceu na Primeira Página de hoje. Pelo volume de recursos e pelo número de trabalhadores que pode afetar, é notícia mais importante do que, por exemplo, o lançamento de um tucano para a presidência da Câmara dos Deputados. Um assunto é jogo partidário, ainda indefinido e, da maneira como está sendo tratado pelos partidos e pela imprensa, sem qualquer efeito prático na vida das pessoas; o outro (‘Fundo criado com FGTS arrisca patrimônio dos trabalhadores’, capa de ‘Dinheiro’),

Mexe com os interesses diretos dos assalariados e provoca o aprofundamento da discussão sobre o PAC.



16/01/07

Cada cidade com suas tragédias.

Folha – ‘Dois corpos são achados na cratera’.

‘Estado’ – ‘Resgate localiza primeiras vítimas na obra do metrô’.

‘Globo’ – ‘Força Nacional terá autonomia para agir – MP libera tropa para atuar sem avisar governo estadual’.

O desastre no metrô de São Paulo ainda encontra eco no jornal do Rio – ‘Serra responsabiliza empreiteiras pela tragédia’ –, mas o problema de segurança no Rio já sumiu das capas dos jornais paulistas.

O artigo de Maria Inês Dolci merecia um extrato na Primeira Página.

Outro assunto comum aos três jornais é a América Latina. Folha e ‘Globo’ destacam o discurso do novo presidente do Equador (na Folha, ‘Presidente do Equador quer renegociar dívida’), mas o ‘Estado’, que tem enviados especiais em Caracas e em Quito, mantém o foco em Hugo Chávez – ‘Venezuela reduz oferta para impor alta do petróleo’.

‘Painel do Leitor’

Não deveria ter este nome na edição de hoje.

Correções

A propósito de erros cometidos, o ‘Estado’ corrige, com nova reportagem, um erro que cometeu ontem. O erro está assumido sem subterfúgio na página C9 e com destaque – ‘Odebrecht não fez obra com problema’. Sem prejuízo da correção na seção ‘Erramos’, a Folha deveria usar este modelo com mais freqüência do que usa. As mensagens que abrem o ‘Painel do Leitor’ (‘Cratera no metrô’) de hoje poderiam ter sido absorvidas pelo caderno ‘Cotidiano’, o que deixaria espaço para os leitores se manifestarem sobre a tragédia.

Política

É difícil aceitar que a reportagem mais importante de política da Folha de hoje seja que o ‘Bloco liderado por PL decide apoiar Chinaglia na Câmara’ (abertura da página A4).

Em relação à crise do PSDB na disputa pela Presidência da Câmara, Folha e ‘Estado’ têm informações opostas. Na Folha, ‘Serra e Aécio apressam apoio a Chinaglia’ (A6); no ‘Estado’, ‘Aécio segue FHC e critica apoio a petista’.

Jungmann

O jornal deveria deixar claro para o leitor o que significa, sob o ponto de vista jurídico e sob o ponto de vista político, a possibilidade de renúncia anunciada pelo deputado Raul Jungmann (‘Jungmann diz que renuncia se provarem que desviou dinheiro’, A6).

Acabamento

Não foi a cabeça do meio-irmão de Saddam Hussein que foi decapitada. Ele (ou o seu corpo) foi decapitado (Primeira Página e A12). A cabeça foi cortada ou decepada.

É improvável que o senador Fernando Bezerra esteja passando férias ‘numa praia no interior do Rio Grande do Norte’ (‘Políticos sob suspeita não são localizados’, A9). A não ser que seja praia de rio.

O novo presidente da Nicarágua é Daniel Ortega, e não Noriega, como está em uma das perguntas dirigidas ao embaixador Antonio Patriota (A10).

Está errado, na Edição Nacional (B8) o cálculo do imposto por litro de cachaça pago pelos produtores artesanais. Não é R$ 2.200 por litro, mas R$ 2,20, segundo a Edição SP.



15/01/07

O desabamento na estação em obras do metrô de Pinheiros, em São Paulo, é o assunto mais importante dos jornais paulistas desde sábado. As manchetes da Folha foram sempre mais cautelosas do que as do ‘Estado’:

Folha – ‘Desastre no metrô abre cratera em SP’ (sábado), ‘Equipes buscam soterrados no metrô’ (domingo) e ‘Resgate localiza van nos escombros’ (hoje).

‘Estado’ – ‘Cratera engole veículos e deixa desaparecidos’ (sábado), ‘Pressa na execução da obre pode ter causado acidente’ (domingo) e ‘Achar sobreviventes é ‘pouco provável’’ (hoje).

Desastre

Achei a cobertura da Folha nos três dias bem feita e bastante completa. O jornal não foi tão incisivo quanto seu concorrente em apontar responsabilidade, mas as principais frentes da cobertura foram exploradas: o relato do acidente, o acompanhamento dos dramas das vítimas, as explicações oficiais, o questionamento com a ajuda de técnicos especialistas, os antecedentes do acidente, os direitos dos atingidos. O trabalho da Editoria de Arte merece um destaque positivo. O jornal agiu bem em trazer, já na edição de hoje, um editorial sobre o acidente, ‘Desastre no metrô’.

O jornal está agora diante do desafio de dar continuidade à cobertura com embasamento técnico para enfrentar a avalanche de desculpas e explicações ‘técnicas’ que já surgem. Alguns leitores e especialistas já ouvidos pela imprensa questionam as explicações dadas até agora pelos responsáveis pela obra e que atribuem o acidente à chuva e ao terreno, como se fosse inevitável a tragédia.

O ‘Estado’ me pareceu mais crítico em relação aos questionamentos dirigidos às autoridades estaduais. Segundo o jornal, ‘Assessoria tentou blindar Serra’ na sexta-feira, no dia do acidente.

Duas reportagens da Folha me incomodaram pelo tom que resvala num quase deboche ou numa tentativa (inoportuna) de fazer gracinha: ‘Vizinhos do acidente deverão ficar em hotéis até quarta-feira, pelo menos’ (C4 de domingo) e ‘No domingo de sol, cratera vira atração para dezenas de pessoas’ (C5 de hoje).

O último texto traz uma informação relevante, embora incompleta, que ajuda a entender (e não a justificar) como parte da imprensa é movida pelo sensacionalismo: o repórter da Folha registrou o momento em que um colega de outro veículo é instado pela Redação a buscar uma imagem de impacto – ‘Eles querem gente chorando’.

Está errada a legenda da foto principal da página C3 da Edição Nacional. O texto troca as identidades da mulher e da irmã do motorista da van desaparecido na cratera do metrô.

América Latina

É notável o esforço que a Folha faz para garantir, a partir da Redação, uma boa cobertura da América Latina. Mas não é suficiente.

O jornal tem hoje um repórter em Quito, para a posse do novo presidente do Equador, Rafael Correa, e vem publicando desde sábado entrevistas e análises sobre a Venezuela e a Bolívia. Ainda assim, as interrogações que ficam sobre os acontecimentos na Venezuela e a ampliação da crise na Bolívia mostram como este esforço já deveria ter sido ampliado com o envio de repórteres para Caracas e Cochabamba (ou La Paz).’

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