Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Crítica interna

Por Marcelo Beraba em 15/03/2005 na edição 320

"11/03/2005


A Folha, que ontem havia destacado em sua manchete a nova norma do Ministério da Saúde liberando a exigência de boletim policial nos casos de aborto por estupro, dá hoje o mesmo espaço para a posição do presidente do STF sobre o assunto: ‘Médico será punido por aborto sem BO, diz STF’. O jornal agiu certo ao dar o mesmo destaque de ontem.


As manchetes de outros jornais:


‘Estado’ – ‘Lula: não haverá ‘farra do boi’no ano eleitoral’.


‘Globo’ – ‘Lula decreta ‘calamidade pública’ e faz intervenção na saúde do Rio’.


‘Valor’ e ‘Gazeta Mercantil’ chamam para os desdobramentos do rompimento do Citigroup com o Opportunity: ‘Citigroup assume gestão de empresas de R$ 10 bilhões’ (‘Valor’) e ‘Citigroup abre caminho para italianos na BrT’ (‘Gazeta’).


Acho que a Folha não dimensionou corretamente, na capa da Edição Nacional, a intervenção do governo federal no sistema de saúde da cidade do Rio.


‘Painel do Leitor’


Hoje é mais um daqueles dias em que o Painel não é do Leitor.


‘Brasil’


O jornal deve estar realmente com sobra de papel, como aventei ontem. Só assim se explica o espaço dado na Edição Nacional para os textos sobre a disputa pela presidência da Assembléia Legislativa de SP, ‘Tucano acusa o PT de se aliar ao PFL em eleição’ (pág. A8). Depois a gente se surpreende quando o leitor diz que não agüenta mais o noticiário político.


‘Mundo’


Boas as páginas sobre o primeiro aniversário do atentado terrorista em Madri. Todos os jornais investiram no assunto, mas o material da Folha me pareceu mais completo e planejado. O ‘Estado’ tem entrevista com o juiz Baltasar Garzón.


A Folha, enfim, chegou a La Paz.


‘Mercado Aberto’


Está incompreensível o resumo do livro ‘The Bottomless Well’ (pág. B2) na Edição Nacional. Não dá para entender de que forma os autores desmistificam a idéia de que o mundo caminha para uma crise de oferta de energia.


‘Cotidiano’


A reportagem ‘Um dos ‘10 mais’ do FBI é preso no Rio’ não explica como uma pessoa presa no Brasil pode ter sido deportada em menos de 48 horas. Não há uma linha sobre o processo de deportação. É comum deportação tão rápida? O que acelerou neste caso? Quem prendeu foi a realmente a polícia brasileira ou a americana? Os procurados pelo FBI têm recompensa. Quem vai receber? Esta história ainda está meio confusa.


A reportagem ‘Paraná decide filmar e fichar turista de SP’ (C4 na Ed. Nacional e C6 na Ed. SP), que trata de quadrilhas de SP que roubam Rolex em Curitiba, deveria de ter feito alguma referência às quadrilhas que atuam no aeroporto de Congonhas. Quase todos os taxistas têm histórias de roubo de Rolex ou laptop por motociclistas que abordam os táxis que saem do aeroporto. Ontem mesmo um leitor, morador do Rio, enviou carta, que foi direcionada para a Redação, contando seu drama em SP.


Parece desproporcional o jornal destinar meia página da Edição Nacional do seu caderno para a informação de que o vice-prefeito de São Paulo assumiu o cargo titular pela primeira vez (‘Kassab assume Prefeitura de SP pela 1ª vez’, pág. C7). Prova do exagero é a Edição SP, a que chega para os leitores da cidade. Nela, o fato mereceu um texto bem menor.


Está sobrando papel. Ou faltando pauta.


Resposta da Redação


Recebi do editor de Brasil, José Fernando de Barros e Silva, via Secretaria de Redação, a seguinte observação a respeito da nota que publiquei na Crítica Interna de ontem sobre os laudos divulgados pelo ‘Estado’ no caso Celso Daniel:


‘A reportagem publicada pelo Estado em 10/03 não é nova. As divergências apontadas no laudo foram publicadas pela Folha em 24/01/2002. Esse laudo de 2002 não foi anexado pela Polícia Civil ao processo. Por isso, o juiz que cuida do caso pediu que o mesmo laudo fosse anexado, o que aconteceu em junho do ano passado. Cópia desse laudo foi distribuído à imprensa novamente e divulgado pelo ‘Estado’, que também já havia publicado a reportagem. A Folha publicou mais de uma vez, ao longo dos últimos meses, essa informação em artes que resumiam o caso’.


O editor tem razão. As conclusões destes laudos são conhecidas desde 24 de janeiro de 2002.


10/03/2005


O Conselho Nacional de Saúde aprovou o aborto em casos de anencefalia. É a manchete da primeira edição do ‘Estado’ (‘Conselho de Saúde apóia aborto de feto sem cérebro’) e chamada no ‘Globo’. A Folha também tratou do assunto, mas com uma informação exclusiva: ‘Mulher não precisa mais de BO para fazer aborto’. Norma do Ministério da Saúde dispensa o boletim de ocorrência em casos de estupro.


A manchete do ‘Globo’ também trata de saúde, mas da confusão que virou o sistema no Rio: ‘União rompe com prefeitura e estado pode assumir saúde’.


A Folha trocou, na Edição SP, a foto do incêndio de uma camionete do Incra em Maceió (‘Fogo sobre terra’) por novo flagrante de um grupo fumando crack com o título sugestivo: ‘Como dantes’.


A foto principal do ‘Estado’ mostra crianças indígenas desnutridas.


‘Painel do Leitor’


Hoje é daqueles dias em que o Painel não é do Leitor.


Questão indígena


O entendimento do texto sobre os gastos da Funasa fica prejudicado por um detalhe importante: as informações que permitem o leitor acompanhar os cálculos feitos pelo jornal – quanto a Funasa já gastou e quanto disso foi gasto em saúde – estão no pé da matéria (‘Funasa gasta R$ 87,9 mil em churrascaria’, pág. A10 da Ed. SP).


Nem o quadro ‘Principais gastos do programa’ traz o total de gastos para que o leitor possa conferir se a principal informação – ‘Programa da Funasa gasta 5% com saúde’, título da Ed. Nacional – está correta.


E o outro lado? A Funasa está ouvida em relação à reportagem que a Folha publicou no domingo, mas não em relação aos dados divulgados hoje.


Brasil


Com a reforma ministerial indefinida e o presidente mudo, o noticiário político de hoje está bem fraco e algumas reportagens tiveram mais espaço que mereciam. Também no noticiário nacional (‘Juiz determina que Bida seja julgado em processo separado’, ‘Governo exige atestado de ameaçados’, ‘Polícia e lavradores entram em conflito no MA’ e ‘Sem-terra queimam carro do Incra em AL’) fica a sensação de que os textos foram estendidos por falta de assuntos melhores. Parece que está sobrando papel.


Segundo o ‘Estado’, ‘Laudos reforçam suspeitas contra empresário na morte de Celso Daniel’. Dois laudos foram divulgados ontem. Não vi na Folha.


Impressão


A impressão da Folha hoje, pelo menos na edição que recebi no Rio, não permite perceber semelhanças entre o afegão que aguarda para fazer um teste e o cientista Albert Einstein, como pretende a foto da página A16 de ‘Ciência’, ‘Treinando para Einstein’.


Aviação


A cobertura da Folha ainda está mais focada nos interesses e promoções das companhias aéreas do que nos passageiros. O ‘Estado’, que ontem também só teve olhos para o marketing das companhias, hoje registra a frustração de passageiros que não conseguem se beneficiar das tarifas mais baixas e foi ouvir a Associação Nacional em Defesa dos Direitos dos Passageiros do Transporte Aéreo e o Instituto de Defesa do Consumidor.


Pelo que percebi da cobertura da Folha, ela nem sequer foi a um dos aeroportos dar uma espiadinha, ver se as filas estão grandes, se os passageiros estão satisfeitos, se as promoções são para valer.


Mídia


Segundo o ‘Estado’ e o ‘Globo’, os jornais do Rio (‘Globo’, ‘O Dia’ e ‘JB’) foram multados por formar cartel. Não vi na Folha.


Reduto do crack


Ponto para o jornal, que passou a madrugada na ‘Cracolândia’ e produziu uma reportagem interessante. A arte, com fotos e mapa, está boa, embora a edição que chegou ao Rio esteja prejudicada pela impressão.


09/03/2005


A Folha tem três fotos muito boas na capa. São três flagrantes fortes de São Paulo. Uma diagramação que aproximasse as fotos das prisões dos meninos que fugiram da Febem (‘Rotina’) com a das prisões dos nigerianos (‘Terra estrangeira’) teria ainda mais força.


As manchetes:


Folha – ‘Juro afeta indústria e previsão de crescimento’.


‘Estado’ – ‘Severino barra ação contra Lula’ (edição das 20h40) e ‘Fortalecido, Mesa fica e prepara mudanças na Bolívia’ (edição de 0h15).


‘Globo’ – ‘Presidente da Alerj foi sócio de fiscal preso por fraude no INSS’.


‘JB’ – ‘Planalto fecha partilha do Ministério’.


‘Valor’ – ‘Nova lei vai adotar a asfixia financeira contra ‘lavagem’.


‘Gazeta Mercantil’ – ‘PIB só avança 3,5% este ano, prevê o Ipea’.


‘Diário de S. Paulo’ – ‘Três mil crianças ganham a vida nas ruas da Capital’.


Capa


É um vício freqüente dos jornais tratar as manifestações de rua por seus inconvenientes. O maior deles, sempre, são os congestionamentos do trânsito. Às vezes, a notícia é essa mesma, o congestionamento; mas na maior parte das vezes, a notícia é a manifestação, e o engarrafamento apenas uma referência ou, quando justifica, um texto separado.


A Folha cai nesta armadilha na capa da Edição Nacional ao escolher, para a foto da manifestação das mulheres, ontem, em São Paulo, o título ‘Mulheres congestionantes’. Será que não havia alguma informação mais relevante?


Na edição SP o título é uma tirada bem-humorada: ‘Mulheres de parar o trânsito’.


Cursinho da Poli


Tomou um rumo inadequado a discussão no ‘Painel do Leitor’ a respeito do cursinho de pré-vestibular da Poli. A impressão que fica é que virou um caso pessoal do colunista Demétrio Magnoli. Ele abriu o assunto na sua coluna semanal (‘Tudo pelo social’, de 3/3), e as duas cartas que o jornal publicou contestando seu artigo (‘Poli’, em 4/3, e ‘Cursinho da Poli’, hoje) têm respostas suas que enveredam para o terreno pessoal: sua mulher trabalha no cursinho e ele próprio já deu aulas lá. Com tanto envolvimento, questiono ter usado sua coluna para tratar do assunto; poderia ter sugerido ao jornal uma reportagem, ou feito um artigo na página 3. Nem entro no mérito da discussão sobre o cursinho, mas acho que isso teria sido o mais correto.


De qualquer modo, o que temos agora é o seguinte: o leitor da Folha está sendo obrigado a acompanhar uma discussão sem o mínimo de objetividade e distanciamento que o caso exige. Ou seja, está faltando reportagem. O jornal deveria tratar jornalisticamente do assunto, e não permitir que o caso prossiga desta forma, no ‘Painel do Leitor’. Uma alternativa é abrir espaço na página 3 para um artigo dos que não concordam com Magnoli.


O colunista pode até ter razão nos seus argumentos, não sei, mas como está o debate está travado.


Reforma ministerial


Os três grandes jornais têm noticiário e análises semelhantes em relação ao estágio das discussões sobre a reforma ministerial. As últimas informações que têm, da reunião terminada às 23h30, são transmitidas com cautela, sem nenhuma segurança em relação ao desfecho da reforma.


O ‘JB’, ao contrário, é categórico: ‘Planalto fecha partilha do Ministério’. Segundo o jornal, PMDB fica com Previdência (Romero Jucá) e Integração, Roseana Sarney com Comunicações, Ciro Gomes com Saúde e o PP com Trabalho (Pedro Henry).


A conferir.


Na rinha


‘Justiça do Rio livra Duda Mendonça de processos’ (pág. A5) dá a entender que ele não responde mais a qualquer processo, o que não é verdade. Como o texto informa, ele continua a responder por maus-tratos aos animais.


Questão indígena


É impressionante que o ministro da Saúde tenha dito que as mortes das crianças indígenas em MS são normais (‘Número de mortes de crianças indígenas é normal, diz Costa’, pág. A11). Achei que o jornal pudesse ter exagerado. Mas o texto em aspas mostra que ele quis passar realmente a idéia de normalidade.


Mas a notícia mais importante, se confirmada, está no ‘Estado’: segundo dados do Siafi, a Funasa gastou em 2004 mais verbas em viagens do que em medicamentos para os índios. Bem mais. Não vi na Folha.


Bolívia


‘Estado’ e ‘Globo’ foram mais ágeis do que a Folha e já trazem nas suas edições de hoje relatos de seus enviados especiais a La Paz.


Memória


O texto sobre a morte do cientista César Lattes (‘Morre César Lattes, herói da física nacional’, pág. A16, em ‘Ciência’) está bem escrito, bem informado, didático, e foge, principalmente nos seus dois últimos parágrafos, do ‘padrão Folha’ de distanciamento e frieza. O tratamento de herói é sempre perigoso. Mas, neste caso, achei que coube.


Freada


A edição de hoje consolida a mudança de humor na economia. O que até agora era um clima de euforia, com um ou outro ‘porém’, agora parece que é de véspera de catástrofe. Na Folha: ‘Ipea reduz a 3,5% previsão de alta do PIB’, ‘Dólar baixo já causa demissões’, ‘Juro alto reduz atividade industrial, diz CNI’ e ‘Para Scheinkman, freio em janeiro na economia não é bom para o país’ (Ed. Nac.).


Aviação


Os jornais, a Folha inclusive, anunciaram ontem a abertura de nova guerra de tarifas aéreas a partir da iniciativa da Gol de baixar seus preços. Uma cobertura jornalística voltada para os interesses dos leitores (que viajam e querem passagens mais baratas) deveria contemplar, na edição de hoje, uma reportagem mostrando como foi a movimentação ontem. Houve mais procura pelas passagens da Gol? As passagens se esgotaram? As outras companhias já mexeram nos preços? A Varig anunciara tarifas melhores para a Semana Santa. Funcionou? Como os leitores podem comprar estas passagens?


Dos três grandes jornais, o único que teve esta preocupação com os leitores foi o ‘Globo’ (‘Site congestionado frustra consumidor’). Folha e ‘Estado’ ficaram na cobertura das negociações em torno da crise da Varig e na divulgação do balanço da Gol de 2004. Não pensaram no leitor/consumidor.


Juventude encarcerada


Tem vezes que palavras no plural inviabilizam um título. Mas isso não pode impedir que se busque uma formulação precisa. ‘Diretor vira refém em novo motim na Febem’ (pág. C3 de ‘Cotidiano’) está errado porque dá a entender que apenas um diretor foi feito refém, quando na verdade foram dois. O título correto seria algo como: ‘Diretores viram reféns em novo motim na Febem’. Não cabe? Tenta-se outro.


Reduto do crack


Como alguns depoimentos deixam claro, esta não é a primeira grande intervenção na chamada ‘Cracolândia’. O jornal deveria ter feito uma memória de outras intervenções que acabaram não dando em nada e analisado as causas do fracasso para que se possa avaliar se esta será diferente.


É boa a comparação que um entrevistado faz, ‘é a versão paulistana da ocupação do morro carioca’."

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