Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FOLHA DE S. PAULO

Crítica diária

Por Mário Magalhães em 11/12/2007 na edição 463

6/12/07

Propor não é decidir

Há dois títulos hoje com uma característica que, a despeito de não parecer grave, expõe uma imprecisão recorrente no jornal.

São eles, ambos em altos de páginas: ‘CCJ impede promotor de investigar polícia’ (pág. A9); e ‘Vítima será avisada sobre libertação de preso’ (pág. C3).

Na verdade, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara não impediu nada, e o Senado não determinou aviso algum.

A CCJ aprovou um projeto que pode ou não entrar em vigor. E o Senado aprovou proposta que agora segue para a Câmara.

Como dito, é comum lermos enunciados impróprios, divulgando decisões, para reportagens que tratam de proposições.

Jornalismo previsível

É evidente que o tema da manchete (‘Ganho de bancos com tarifas aumenta 17%’) é importante e tem peso para merecer esse destaque. Fortalece-o o fato de autoridades anunciarem dias antes o cerco às tarifas. Enfraquece-o a repetição de conteúdo batido e rebatido pela Folha.

Não que o jornal não deva cobrir criticamente as casas bancárias, em geral tão favorecidas pelo jornalismo nacional.

Mas havia duas opções bem mais fortes, mais surpreendentes. Elas receberam chamadas na primeira página: ‘Corregedora não vê motivos para demissão no caso da garota do PA’ e ‘Relatório prevê colapso da Amazônia para 2030’.

Em relação a esta, parto do princípio de que o jornal não considerou a projeção um enunciado terrorista-marqueteiro sem base científica, embora a ótima reportagem do enviado à Conferência de Bali tenha alertado para as implicações e os interesses políticos no debate.

A história da delegada do PA é impressionante (parabéns à enviada especial).

Não é que tudo conspirasse contra a garota L. Tudo continua a conspirar.

Cartão de embarque – São Luís

Eliane Cantanhede lembra que o Maranhão, Estado do Brasil com o pior resultado no teste internacional de conhecimentos, inclusive sobre leitura, é o mesmo do literato José Sarney.

A cobertura da Folha ontem foi boa, da síntese dos dados à análise qualificada.

Falta agora ir a campo mostrar o que é a vida, também nas escolas, em um Estado cujos próceres mandam e desmandam em Brasília, mas continua a patinar na pobreza e na indigência.

Cartão de embarque – Natal

Ontem o jornal noticiou que Garibaldi Alves, candidato à presidência do Senado, tem um rolo com emissora de rádio em seu nome.

Hoje reporta que seu ex-vice no governo potiguar foi em cana.

Quem é Garibaldi Alves?

A pergunta não é retórica. Sei apenas que pertence a família de vasta influência na política do Estado. Imagino que boa parte dos leitores também queira saber mais sobre ele.

O jornalismo ganha quando se adianta aos fatos. É mais importante investigar agora o senador do que após uma possível vitória dele na eleição do Senado.

Palavrões

É sempre delicada a decisão de publicar palavrões.

Hoje a Folha publica em alto de página interna e em título na primeira página (‘Chávez afirma que oposição teve ‘vitória de merda’’).

O ‘Estado’ só publica dentro, com letra ‘m’ seguida de reticências.

O Manual da Folha afirma no verbete ‘palavrão’: ‘Evite. Só deve ser usado quando for relevante no contexto da notícia, sempre com consulta prévia à direção de Redação […]’.

Creio que era o caso, inclusive para o título na capa. A expressão de Chávez diz mais sobre o momento da Venezuela e seu presidente que muitos ensaios de fôlego.

Piorou

Há leitores achando que a onipresença de cartas de autoridades/personalidades/assessores no Painel do Leitor é uma provocação a quem se posicionou pela devolução do espaço a quem de direito (hoje os leitores comuns não tiveram nem metade da seção para eles).

Não é, respondo.

É decisão editorial, o jornal acha que está certo.

Jornalismo crítico

Receita de jornalismo: a cada anúncio de palanque, um texto crítico e fundamentado sobre as promessas oficiais.

É o que a Folha fez hoje em ‘Manipulação de números dá aparência de megapacote’ (pág. A6).

Aparências

Ao noticiar hoje a reclamação de uma indústria que sustenta que seu antigo logotipo é semelhante ao novo da Vale (‘Empresa de Franca diz que logo da Vale é similar ao da sua marca’, pág. B3), o jornal perdeu a oportunidade de recuperar informação da semana passada.

Na sexta-feira, enquanto a Folha apenas reproduzia o anúncio da nova marca da companhia, o Globo mostrou como o novo logotipo é parecido com o do ABN Amro Real.

Resposta ao ombudsman

Recebi da editora de mundo, Claudia Antunes, por intermédio da secretaria de Redação, a mensagem abaixo.

Em relação à resposta do ombudsman aos meus comentários de ontem, reafirmo:

1) O texto da manchete interna da edição nacional que tenho em mãos, fechada às 21h22, já menciona em seu segundo parágrafo a agência Efe como fonte das pesquisas citadas, tal como está na matéria enviada pelo correspondente Fabiano Maisonnave. Obviamente não teria afirmado isso se não tivesse checado com o exemplar nas mãos. Diante da diferença em relação ao texto do exemplar consultado pelo ombudsman, consultei o histórico da reportagem e constatei que –por erro da redação, não do correspondente–, foi de fato baixado três minutos antes um texto sem a menção, que no entanto foi logo substituído.

2) Minhas respostas ao ombudsman se referiam sempre ao texto interno da editoria Mundo, e não à chamada na primeira página. Além da edição fechada às 21h22, fechamos uma edição à meia-noite (a SP) e outra à 1h34. Na da meia noite, reafirmo, nosso título interno era ‘Boca-de-urna indica vitória de Chávez, mas disputa é acirrada’. Nesta edição, a matéria interna já registrava, no segundo parágrafo, declaração de ministro de Chávez admitindo que apuração estava apertado. A reportagem interna fechada à 1h34 já registrava na linha fina, como afirmei ontem, que a oposição comemorava a vitória do ‘não’. A informação sobre a boca-de-urna ficou relegada à lupa e no pretérito mais-que-perfeito.

3) O ombudsman comete uma enorme injustiça quando compara o publicado na terça-feira pelo Estado de S. Paulo sobre a pesquisa falsa do Datanálisis com o material publicado pela Folha. O concorrente insistiu em reafirmar que ‘ao contrário do que indicavam as pesquisas de boca-de-urna’, Chávez perdeu. A informação sobre a falsa boca-de-urna saiu em texto pequeno, fora do material enviado de Caracas. Nós publicamos reportagem específica do nosso correspondente na Venezuela sobre a divulgação das pesquisas, inclusive a falsa, numa atitude de total transparência.

Comentário do ombudsman

Aproveito a oportunidade para tratar não apenas da cobertura do referendo da Venezuela, mas também das atribuições do ombudsman.

1) O contexto da discussão é uma cobertura que recebeu elogio na primeira e mais importante nota, ‘A virtude da cautela’, na crítica diária da segunda-feira. Apontei então o contraste entre a cautela da Folha, cuja manchete da edição final deixava em aberto o resultado, e o erro do Estado, que em ‘barriga antológica’ (assim escrevi) cravou o triunfo do ‘sim’ chavista.

2) Na terça-feira, acrescentei que o destaque da Folha na segunda a uma pesquisa inexistente era também barriga (na definição do ‘Manual’, ‘publicação de grave erro de informação’). Condenei a ausência de referência à Efe como fonte sobre o levantamento inexistente do Datanálisis. A agência só foi citada na hora (terça) de apontar o erro.

3) Ontem, a editora de Mundo afirmou que ‘ao contrário do que diz o ombudsman’, a Efe foi citada na edição Nacional. Tivesse checado o sistema de edição (ao qual o ombudsman não tem nem deve ter acesso) antes de rebater, saberia que uma parte da tiragem da edição Nacional circulou sem menção à Efe. E a edição São Paulo omitiu o nome da agência, embora a pesquisa fosse citada na abertura da chamada da manchete do jornal. Ou seja, era uma informação da maior relevância na cobertura.

4) O ombudsman não analisa apenas o ‘texto interno da editoria Mundo’, mas o jornal que chega aos leitores. E no jornal que chegou a leitores de São Paulo a pesquisa fantasma era citada, repito, na primeira frase da chamada mais importante da capa. Era claro, portanto, que pelo menos em Mundo deveria haver referência à Efe, ainda mais em uma eleição polarizada e conturbada, na qual a informação é um elemento decisivo da disputa.

5) A editora afirmara ontem que ‘a Folha foi o único jornal a ir atrás da origem da informação sobre bocas-de-urna transmitida pelas agências no domingo, descobrindo que o governo tinha passado e/ou confirmado os levantamentos às agências’. Limitei-me a registrar que o Estado também tratou do assunto, com texto da Efe. Mas sublinhei: ‘A Folha foi melhor’.

6) Por mais antipático que seja à Redação, o trabalho do ombudsman é esse mesmo: criticar o jornal, na esperança de que seus comentários contribuam para que a edição de amanhã seja melhor que a de hoje –é esse o interesse dos leitores. Em um paralelo com a Justiça, entretanto, o ombudsman não ‘julga’, ele dá ‘parecer’. E a opinião de cada jornalista da Redação é tão legítima quanto a do ombudsman e de cada leitor da Folha.

7) Por mais duro que eventualmente seja, o ombudsman pega mais leve com o jornal do que o jornal pega com muitas pessoas e instituições que ele analisa e fiscaliza. Vale reflexão. Chama a atenção o fato de que às vezes os jornalistas são mais intolerantes às críticas do que aqueles que são objeto das críticas do jornal.

8) Repito: ombudsman não julga nem é dono da verdade. Podem estar erradas tanto as minhas restrições à divulgação de pesquisa inexistente na Venezuela como os elogios que recentemente fiz à cobertura de repórteres da Folha na Venezuela, na Bolívia e na Rússia.

5/12/07

A história oficial

Embora a reportagem não subscreva a versão de Romário, a primeira página da Folha na edição São Paulo se associa ao relato do jogador. Título: ‘Romário é pego no antidoping por usar tônico capilar’.

O ‘Globo’ fez o mesmo, na capa: ‘Doping – Romário foi pego no exame antidoping por usar um remédio contra a calvície’.

Idem o ‘Jornal do Brasil’: ‘Doping pela calvície’.

E o ‘Agora’: ‘Romário é pego no antidoping por uso de tônico capilar’.

O ‘Diário de S. Paulo’ foi mais cauteloso: ‘Baixinho Romário é pego no antidoping – Craque diz que usou remédio para combater queda de cabelo’.

O ‘Estado’ não deu chamada na primeira página.

Como a Folha e outros jornais podem assegurar que a versão do jogador corresponde à verdade?

Fosse de outro futebolista o positivo, haveria tamanha boa-vontade, abrindo mão do recomendável ceticismo jornalístico?

Não cabe ‘condenar’ ou ‘absolver’ Romário, mas contar o que ele diz, o que constatam exames e o que afirmam os médicos.

Jornalista não fica bem no papel de advogado. Nem no de promotor.

Kia, de volta

São tantas as omissões no texto ‘Kia diz que clube vivia na ‘Idade da Pedra’’ (pág. D1) que sua leitura deixa mais perguntas que certezas.

Foi a Folha que procurou Kia Joorabchian para uma entrevista ou ele tomou a iniciativa?

De onde ele deu a entrevista?

Onde o iraniano mora?

Qual a sua situação legal no Brasil? Por quê?

Por que a Folha ainda chama o antigo esquema mafioso em torno do Corinthians de ‘parceria’, um eufemismo que o jornalismo tolerante com a jogada se fartou de empregar?

O ‘Estado’, que também publicou pingue-pongue com o ex-presidente da MSI, esclareceu que ele falou por e-mail, vive em Londres e tem prisão decretada no Brasil.

Entrevistas

Ficaram boas as entrevistas com o ex-presidente do Corinthians Alberto Dualib e, especialmente, com a mãe de Ingrid Betancourt.

Vencendo pelo cansaço

Este foi o título da mensagem de um leitor, sobre o Painel do Leitor (hoje com a presença do presidente do BNDES e de um secretário estadual de Minas Gerais).

Ao ombudsman, o leitor escreveu: ‘Que você tenha paciência [e] não desista e lutar pelo (cada vez mais escasso) espaço do leitor na *Folha’.

Para a foto

Informa a reportagem ‘Renan deixa a presidência e é absolvido de novo no Senado’ (pág. A4): ‘Segundo aliados de Renan, ele entrou no plenário certo de que seria absolvido. Prova disso teria sido o fato de ter aberto mão de votar’.

A essa altura, o jornal ainda não entendeu que tanto fazia Calheiros votar ou não, votar contra a cassação ou se abster?

A conta era do outro lado, reunir 41 votos.

O ex-presidente do Senado fez uma encenação, e o jornal embarcou.

Dá um bom estudo de caso: excetuando a entrega de documentos sobre seus negócios rurais à TV Globo, que o desmascarou, Renan Calheiros deu um show de plantação de notícias e manobra da mídia a seu favor nos últimos meses.

Jornal é feito para o leitor

Não é que seja ruim a reportagem ‘Berzoini busca acordo para evitar 2º turno’ (pág. A11).

Mas ela parece se destinar a iniciados na vida petista, se assemelha a um relato para o aparelho.

As árvores, as articulações partidárias, ocultam a floresta, o balanço global.

Este indica, pelo que interpretei, que Lula foi o grande vitorioso do pleito interno, com dois candidatos fiéis a ele na dianteira.

E que a esquerda petista ficou ainda menor.

Êxodo

Sobre a reportagem do ‘New York Times’ de ontem publicada hoje pela Folha (‘Brasileiros ilegais começam a deixar EUA em massa’, pág. A16): ou o jornal americano tomou movimentos localizados como generalizados ou o jornalismo brasileiro comeu mosca, precisando ser alertado sobre um fato que não deveria lhe ter passado despercebido.

Esse é um país que vai pra frente

É essa a impressão de hoje da leitura de Dinheiro. Alguns títulos: ‘Construção prevê expansão recorde, apesar de gargalos’; ‘Sanduíche’ (lucro líquido da rede Bob’s disparou); ‘Utilização da capacidade instalada atinge pico, diz CNI’; ‘Venda de aço sobe 18% no mercado interno’; ‘Acesso à internet nas residências cresce 44%’.

Na rabeira do ensino

Pareceu boa, a melhor entre os jornais, a edição com o ranking dos alunos de vários países nas provas de matemática e leitura, com mais um vexame do Brasil, que já ficara mal em ciências.

O que dificulta a avaliação dos leitores a respeito do resultado é a ausência de informações sobre quais foram as escolas cujos estudantes participaram.

E sobre o formato dos exames.

E daí?

Título do texto principal da pág. E2: ‘Dunga: ‘Sou um empregado da CBF’’.

Qual é a novidade?

Resposta ao ombudsman

Recebi da editora de Mundo, Cláudia Antunes, por intermédio da Secretaria de Redação, a seguinte resposta, pela qual agradeço:

Ao contrário do que diz o ombudsman na coluna [crítica diária] de terça 4 de novembro, a Folha citou a agência espanhola Efe como fonte das três pesquisas de boca-de-urna na edição nacional, que saiu com o título interno ‘Boca-de-urna indica vitória de Chávez’ e citava na linha fina os números atribuídos ao Datanálisis, que realmente é o instituto de pesquisas mais respeitado da Venezuela.

Na edição São Paulo, a agência Efe não era citada, mas importância das pesquisas de boca-de-urna já estava relativizada, e saímos com o título ‘Boca-de-urna indica vitória de Chávez, mas disputa é acirrada’.

Na última edição, que fechou à 1h30, o título foi ‘Ministro de Chávez admite na TV que disputa é acirrada’ e a linha fina continha a informação de que a oposição já comemorava a vitória. A informação das bocas-de-urna só estava na lupa, e no pretérito mais-que-perfeito.

O ombudsman deixou de notar que a Folha foi o único jornal a ir atrás da origem da informação sobre bocas-de-urna transmitida pelas agências no domingo, descobrindo que o governo tinha passado e/ou confirmado os levantamentos às agências.

Comentário do ombudsman

1) A edição Nacional da segunda-feira, concluída às 21h22, traz mesmo na pág. A10 a reportagem ‘Boca-de-urna indica vitória de Chávez’. Ao contrário do que afirma a editora, contudo, a agência Efe não é citada nominalmente, como registrei na crítica de ontem.

O exemplar da Folha está em meu poder, à disposição da editora.

2) Na edição Nacional, as três pesquisas de boca-de-urna fundamentam a chamada da primeira página (‘Boca-de-urna dá vitória a Chávez em referendo’), o título de alto de página mais importante e os quatro primeiros parágrafos da reportagem. Além da linha-fina (interna) desmentida pelos fatos ‘Abstenção alta na votação já mostrava que, como prognosticado por analistas, chavistas anti-reforma optaram por não votar’.

3) A editora afirma que ‘na edição São Paulo, a Efe não era citada, mas [a] importância das pesquisas de boca-de-urna já estava relativizada’. Estava? Não no jornal que eu li, concluído à 1h34. A manchete, feliz, era ‘Referendo na Venezuela tem disputa acirrada’. Abaixo dele, porém, a linha-fina dizia que ‘Pesquisas boca-de-urna indicam vitória de Chávez, mas governo evita comemorar antes do resultado final’. A chamada abriu assim: ‘Três pesquisas de boca-de-urna indicam que o presidente Hugo Chávez obteve a aprovação de sua reforma constitucional em referendo realizado ontem na Venezuela. Segundo as pesquisas, o ‘sim’ conseguiu de 53% a 56% dos votos’.

4) A edição de ontem também colocou em dúvida as outras duas pesquisas (a do Datanálisis não existiu). Hoje, porém, o jornal esqueceu o assunto, em vez de tentar esclarecê-lo.

5) A Folha foi melhor, mas o Estado também noticiou ontem o rolo das pesquisas, em texto, este sim, creditado à Efe: ‘Instituto desmente boca-de-urna que dava triunfo ao ‘sim’’.

4/12/07

Jogando a toalha

As últimas semanas deixaram clara a opção da Folha de abandonar qualquer ambição jornalística na investigação dos negócios de Renan Calheiros.

A edição de hoje evidencia que o jornal não considera o assunto relevante nem para merecer uma pequena chamada de primeira página.

Isso no dia marcado para o Senado julgar Renan naquele que seria o processo mais delicado para o ‘réu’.

‘Estado’ (no alto) e ‘Globo’ (no pé) deram chamadas em suas capas.

Não cabe à Folha promover campanha contra ou a favor de Renan, mas fiscalizá-lo, como o jornalismo deve fazer com o poder. O jornal já desistiu, jogou a toalha, de fiscalizar o senador.

É o que se conclui da leitura das últimas semanas.

A propósito de uma barriga

Abaixo da manchete ‘Venezuela nega mais poder a Chávez’, a Folha publicou hoje o título: ‘Governistas divulgam pesquisa falsa’.

O jornal deveria ter informado já na primeira página que embarcou na fraude.

A Folha deveria ter publicado Erramos para suas informações de ontem. Não publicou. Na edição Nacional, a chamada da primeira página fora ‘Boca-de-urna dá vitória a Chávez em referendo’. Sabe-se agora que pelo menos um levantamento não existiu.

Não é qualquer um, mereceu destaque em reportagem interna (‘Boca-de-urna indica vitória de Chávez’, pág. A10 de segunda-feira): ‘Segundo o Instituto Datanálisis, o [de] mais respeito da Venezuela, Chávez venceu por 56% a 44% dos votos’.

Hoje o jornal já trata as três pesquisas como ‘supostas’. Ou seja, faltou ceticismo na edição de ontem. Embora a manchete (‘Referendo na Venezuela tem disputa acirrada’, na edição São Paulo) tenha sido correta, as ‘pesquisas de boca-de-urna’ foram citadas na linha-fina.

Hoje o jornal terceiriza a responsabilidade pelo engano (‘Governo soltou boca-de-urna que era falsa’, pág. A13): ‘A aparente manipulação induziu vários jornais do mundo ao erro, inclusive esta Folha, que publicou esses levantamentos tendo como base a agência espanhola Efe’.

Faltou citar a Efe, nominalmente, ontem.

A única barriga evidente da segunda-feira foi do ‘Estado’, bancando a vitória na manchete.

A Folha, cautelosa, escapou dessa. Mas publicou pesquisa inexistente, produzindo outra barriga, como hoje se soube.

A cautela deveria ter sido maior.

Os motivos

O ‘Valor’, em manchete, confere à inflação peso determinante na derrota de Chávez.

A coluna ‘Toda Mídia’ cita interpretação de Bob Fernandes, no Terra Magazine, sobre o resultado do referendo. Boa dica. Vale mesmo a leitura.

TV digital

É muito boa a reportagem sintetizada na chamada de primeira página ‘Linha de R$ 1 bi para TV digital anunciada por Lula não é nova’.

Ao contrário do que fez com as ‘pesquisas de boca-de-urna’ na Venezuela, bancando-as, ontem a Folha driblou a armadilha, deixando claro que a verba tinha sido anunciada pelo presidente da República. Não se associou ao anúncio, avalizando-o.

Legendas inesquecíveis

Uma foto enorme, impressa em cinco módulos, na capa do caderno Esporte da edição Nacional, mostra pichação no muro do Parque São Jorge.

A primeira frase: ‘Obrigado jogadores pelo ótimo Natal q[ue] nos deram!’.

Sabe como o jornal interpretou o protesto? De acordo com a legenda, como ‘palavras de apoio aos jogadores’.

Na edição São Paulo, a ficha caiu, e o ‘apoio’ transformou-se em ‘ironia’.

Sem cansaço 1

Está muito boa a entrevista com a atriz Maria Alice Vergueiro, 72, na pág. C7 (‘Atriz vive reviravolta da carreira aos 70’).

É a leitura mais interessante do dia na Folha.

Sem cansaço 2

Leitores seguem a protestar contra autoridades e personalidades no Painel do Leitor (sic).

Hoje, quase a metade do espaço é tomada por ‘outros lados’.

Como de praxe, as mensagens dos leitores ao ombudsman são encaminhadas à Secretaria de Redação.

3/12/07

A virtude da cautela

Chamada de duas colunas no pé da primeira página da Folha na edição Nacional concluída às 21h22: ‘Boca-de-urna dá vitória a Chávez em referendo’.

Manchete da Folha na edição São Paulo fechada à 1h34: ‘Referendo na Venezuela tem disputa acirrada’.

Manchete do ‘Globo’, pelo menos na segunda e na terceira edições: ‘Resultado apertado põe a Venezuela em alerta’.

Manchete do ‘Estado’ na edição das 21h35: ‘Referendo aumenta poderes de Chávez’.

Manchete do ‘Estado’ na edição de 0h45 de hoje: ‘Referendo aumenta poderes de Chávez’.

Ou seja, o principal concorrente local da Folha não mudou a manchete e manteve uma barriga antológica.

O principal título interno do ‘Estado’, pelo menos na primeira edição, ocupou seis colunas e duas linhas: ‘Chávez vence referendo e ganha superpoderes na Venezuela’.

Já na edição Nacional a Folha trouxe uma reportagem, ‘Em antigo reduto chavista, apatia foi maior’ (pág. A10; na São Paulo, pág. A12), que apontava para um cenário em que as coisas não iam bem para o presidente da Venezuela.

O jornal deveria ter estampado na capa a assinatura dos três repórteres que cobriram o referendo em Caracas, e não apenas de um. É incompreensível a Folha não destacar a presença das outras duas repórteres, cujo trabalho foi muito bom. Escondeu um dos seus trunfos, a superioridade numérica em relação ao restante da imprensa brasileira.

Um dos principais desafios da edição de amanhã será interpretar o resultado e desenhar o cenário futuro sem ceder ao desequilíbrio editorial.

O campeão dos campeões

O balanço sincero da história evidencia que a Folha foi o órgão jornalístico mais crítico e cético em relação à associação do Corinthians com a MSI, a despeito de concessões informativas das quais uma análise de mais fôlego deve tratar.

Resistindo aos protestos de torcedores-leitores, o jornal alertou para os riscos de um negócio sombrio e danoso ao clube.

Enquanto boa parte da mídia nacional promoveu descaradamente aventureiros e mafiosos, a Folha se manteve no terreno dos seus princípios editoriais.

A cobertura de hoje sobre a queda para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro não tem brilho, mas é superior à do ‘Estado’.

Quando se contar a história do Corinthians, será impossível ignorar o extraordinário artigo de hoje de Juca Kfouri.

Há pouco um leitor comentou: agora, enfim, a Folha dará atenção à Segundona, competição ignorada pelo jornal em 2007.

Espero também que não se repitam os graves problemas e as limitações da cobertura deste ano.

Observação: nos últimos dias, ‘O Globo’, tradicionalmente discreto no noticiário sobre times paulistas, reservou amplo espaço à agonia corintiana.

Lugar-comum

Trecho da reportagem da capa de Esporte: ‘Quem se manteve em pé parecia não acreditar no que acabara de ocorrer’.

Para rir e chorar

Com o mesmo humor com que o diário esportivo argentino Olé trata o futebol brasileiro, dois jornais do Rio brincaram com o rebaixamento do Corinthians.

Manchete do ‘Extra’: ‘QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ, QUÁ – Corinthians é rebaixado e o carioca não pára de rir’.

Chamada na primeira página de ‘O Dia’: ‘Corinthians: de Timão a timinho de 2ª divisão’.

Enviado especial

A cobertura da reta final da campanha e da eleição na Rússia foi de altíssimo nível jornalístico.

A cada dia, uma aula sobre o país de Putin.

Parabéns.

Legendas inesquecíveis 1

Para a coletânea de legendas incríveis da Folha, no texto-legenda ‘A saga continua’ (pág. D10 de hoje): o pugilista ‘Julio Cesar Chavez Jr.’ é, quem diria, ‘filho de Julio Cesar Chavez’…

Legendas inesquecíveis 2

A revista Morar, que circulou na sexta-feira em parte do território nacional, saiu com a seguinte legenda, na pág. 29: ‘Mirante na Av. Oscar Niemeyer, de onde se avista a praia do leblon’.

A abreviação ‘av.’ fora do padrão e o nome do bairro com minúscula (‘leblon’) não são nada. O problema mesmo é que a av. Niemeyer não tem esse nome por causa do arquiteto Oscar, e sim do comendador Conrado Jacob Niemeyer.

Datafolha e reportagem

O que incomoda na manchete dominical da Folha, ‘65% rejeitam 3º mandato para Lula’, não é o seu destaque: quem tem alimentado a discussão sobre a possibilidade de renovação do mandato de Lula são aliados do presidente.

O problema é que o jornal se limita a reproduzir os números da pesquisa.

Era fundamental apurar quais são as intenções de Lula e dos seus círculos mais ou menos próximos em relação ao terceiro mandato. Mais uma vez, o Datafolha virou bengala do jornal.

Reportagens sobre articulações pró e contra LulaX3 e a respeito dos bastidores das disputas entre pré-candidaturas presidenciais teriam enriquecido jornalisticamente o levantamento do instituto.

Nada disso se viu.

Dois pitacos: a pesquisa sobre intenção de voto para 2010 parece importar mais a partidos e políticos que aos leitores; o nome de Lula deveria constar nos cenários apresentados aos eleitores para 2010 –há inegável interesse jornalístico nessa informação.

Dilma mineira

Ao contrário do que informa o texto ‘Governador de SP lidera até mesmo no Nordeste’ (pág. A9 do domingo), a ministra Dilma Rousseff é mineira, e não gaúcha.

A Folha se omite

É uma pena que a Folha tenha abandonado qualquer ambição de investigar os negócios de Renan Calheiros.

Coube ao jornal suitar ontem mais um furo da Veja, que fez e segue a fazer uma cobertura admirável sobre as jogadas do senador.

Alma de release

É inacreditável que, três décadas depois do seu redesenho editorial e 23 anos após a formalização do Projeto Folha, o jornal seja capaz de publicar uma reportagem tão submissa e bajuladora como ‘Eike Batista, 50, US$ 15 bi, mescla arrojo e reclusão’ (pág. B5 do domingo).

Talvez nem a assessoria de imprensa do empresário fizesse igual.

É texto em absoluta contradição com o que o jornal prega no jornalismo.

A minúscula retranca sobre ‘problemas na área ambiental’ (pág. B6) não relativiza o caráter adulador do perfil.

Não defendo uma cobertura ‘contra’ Eike Batista, mas que haja o mínimo de pluralidade e espírito crítico ao reportar seus e de qualquer empresário ou empresa feitos nos negócios.

Ao ler o material de ontem, perguntei-me: é mesmo a Folha?

Recorde igualado

A edição de sábado teve 200 páginas.

Igualou, portanto, a marca histórica para esse dia da semana, assinalada na primeira quinzena de novembro.

Leitores seguem a reclamar da disposição de anúncios que prejudica a leitura.

Pública ou estatal

O caderno Brasil 2, de sábado, trouxe um panorama interessante sobre a TV pública/estatal, completado com a entrevista dominical com a presidente da emissora, Tereza Cruvinel.

A edição, contudo, ficou enviesada, contra. Eis os títulos de alto de página (no sábado): ‘TV pública de Lula estréia amanhã com improvisos’; ‘Proposta inicial desagrada a TV Cultura’; ‘‘Não entendo nada de TV’, diz indicado ao conselho’; ‘‘Se enveredar pelo partidarismo, rede será desastre moral’’ e ‘‘TV não terá audiência e é dispensável’’ (essas duas dividem uma página).

Jornalismo pirandelliano (Assim é, se lhe parece)

A Folha deu um exemplo involuntário sobre a subjetividade da informação.

Publicou no sábado em parte dos exemplares de Brasil 2, sem querer, a mesma reportagem que havia saído em Mundo no dia 25 de novembro.

Em Brasil 2, o título foi ‘Cobertura de referendo está mais imparcial, revela estudo’.

Em Mundo, o título para o texto idêntico fora ‘Mídia venezuelana cobre mal referendo’.

À espera de uma correção

Quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso empregou a expressão ‘melhor educado’, a Folha afirmou que ele errara.

No sábado, reportagem mostrou que FHC não errou, embora sua opção não seja a predileta (‘Gramáticos preferem uso de ‘mais bem’ a ‘melhor educados’ de FHC’, pág. A7).

Preferência não é obrigação.

Falta um Erramos sobre a reportagem original.

Crédito

Fotografia publicada na pág. A7 do sábado traz o crédito ‘Paulo Whitaker/Folha Imagem’.

Que eu saiba, Whitaker é fotógrafo de agência internacional, e não da Folha.

Nossa razão de viver

É comovente a reportagem ‘Professora incentiva leitura de jornal com vaquinha para assinatura’ (pág. C4 do sábado).

A história da mestra e dos alunos que se uniram para ler a Folha todos os dias deveria inspirar quem labuta duro para fazer o jornal de amanhã melhor que o de hoje.

Pena, pena mesmo, que a apuração tenha sido feita por telefone. Assim, só foi ouvida a professora. Nenhum aluno falou.

Painel do Leitor (sic)

Os leitores seguem a protestar.

Não preciso explicar por quê.’

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