Domingo, 15 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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Cuidado com o que se fala – e com o que se escreve

26/05/2009 na edição 539

Ari Fleischer, ex-secretário de Imprensa da Casa Branca, serviu de tema para a coluna de domingo [24/5/09] do ombudsman do Washington Post, Andrew Alexander. Depois que deixou o cargo no governo, em 2003, Fleischer não costuma ser visto na mídia. Por isso, Alexander ficou surpreso ao receber um e-mail dele pedindo ao Post para corrigir um comentário de quase oito anos atrás. O ex-secretário, que atualmente atua como consultor de mídia esportiva em Nova York, disse que a colunista do Post Dana Milbank havia repetido uma ‘história falsa’, transformando-a em ‘lenda urbana’.

A questão refere-se a uma coluna de Dana, publicada em 12/5, sobre o ego inflado do comentarista Rush Limbaugh. Depois de citar a reprovação do atual secretário de Imprensa Robert Gibbs sobre uma piada envolvendo Limbaugh e os terroristas do 11/9, Dana escreveu que a situação ‘foi um infeliz eco da denúncia do secretário de Imprensa de George W. Bush, Ari Fleischer, sobre o comediante Bill Maher após os ataques do 11/9’. Na ocasião, o então secretário teria dito que americanos ‘devem prestar atenção ao que falam’. Fleischer imediatamente mandou um e-mail para Dana. ‘Você não é a primeira pessoa a escrever que eu disse isto sobre Maher – mas, na realidade, não foi o que eu falei’, afirmou na mensagem.

A transcrição da coletiva de imprensa da Casa Branca do dia 26/9/01 confirma que o então secretário fez o comentário e que este se referia sim a Maher. Por isso, Dana, que esteve no evento, está tecnicamente correta. No entanto, Alexander concorda que, jornalisticamente, ela cometeu um erro. O contexto é importante e uma leitura completa da transcrição mostra que o comentário sugere, no mínimo, ambigüidade.

Contexto maior

Naquele momento, a nação estava se recuperando de um terrível ataque terrorista. Em meio a expressões de patriotismo, havia preocupações sobre uma reação anti-muçulmana. Alguns dias antes, o republicano John Cooksey, que deixou o Congresso, falou em um programa de rádio que qualquer um usando ‘uma fralda na cabeça’ deveria ser investigado para saber se tinha relação com os ataques.

Na coletiva do dia 26/9/01, Fleischer foi questionado se Bush tinha uma ‘mensagem para os políticos e membros do seu partido’ em relação aos comentários de Cooksey. Ele teria respondido que a mensagem do presidente era para todos os americanos: ‘é importante para todos lembrarem que as tradições de nosso país que nos tornam fortes e livres são tolerância, abertura e aceitação’. No mesmo evento, Fleischer foi questionado sobre Maher, apresentador do programa de TV Politically Incorrect, que causou polêmica quando disse que era impreciso caracterizar terroristas como ‘covardes’ porque eles têm desejo de morrer por uma causa. ‘Nós somos os covardes, fazendo lobby para mísseis, isto é covardia’, disse.

O então secretário teria respondido que isto ‘era algo terrível e infeliz de se dizer’. ‘E é por isso – e houve uma questão anterior sobre a mensagem do presidente aos membros de seu partido – que é preciso lembrar a todos os americanos que eles têm de prestar atenção ao que dizem e fazem. Não é hora de comentários como este, nem nunca foi’, afirmou Fleischer.

A relação com Cooksey dilui as críticas exclusivas a Maher, diz o ombudsman do Post. E não está óbvio que o comentário sobre ‘prestar atenção ao que se fala’ seja uma ameaça velada com o objetivo de restringir a liberdade de expressão, em vez de um pedido para uma conduta mais sensível. O que ficou claro para Dana, no entanto, é que ele estava dizendo: ‘estamos em guerra, portanto, calem a boca’.

Na realidade, muitos interpretaram desta maneira. Muitos criticaram Fleischer, especialmente depois que se tomou conhecimento de que suas palavras iniciais foram omitidas da transcrição oficial (um erro inocente de transcrição, alegou a Casa Branca). Ao longo dos anos, diversas matérias citaram o comentário de Fleischer.

Alguns jornalistas, entrentanto, admitiram na época que o ex-secretário não foi interpretado de maneira precisa. Christopher Hitchens chegou a escrever na Slate que os comentários de Fleischer foram imprecisos, porém inocentes. ‘Este mal-entendido deve ser deixado de lado’, escreveu. O mesmo falou Ted Koppel, no programa Nightline, da ABC. ‘Visto no contexto, não soa como um alerta ou ameaça da Casa Branca’.

Esta semana, Fleischer admitiu que usou palavras que poderiam ter sido mais bem escolhidas. ‘Eu quis falar basicamente sobre tolerância’, alegou. Ainda assim, Dana não comprou a justificativa e alegou que ele está tentando ‘limpar sua barra’. Na conclusão da situação, Alexander relembra uma regra básica do jornalismo: não devemos presumir o que as pessoas quiseram dizer.

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