Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

José Queirós

03/07/2012 na edição 701
“Fotografia: algumas questões éticas”, copyright Público, Lisboa (Portugal), 1/7/12.

Para o PÚBLICO, a foto­gra­fia não deve ser “um mero suporte ilus­tra­tivo” do texto — lê-se no Livro de Estilo deste diá­rio, onde se acon­se­lha que seja evi­tada a sua uti­li­za­ção “como ‘tapa-buracos’”. Admito que seja mais fácil dizê-lo do que fazê-lo. O modelo grá­fico do jor­nal impõe espa­ços para ima­gem (não neces­sa­ri­a­mente foto­grá­fica) nas matri­zes de pagi­na­ção e os pra­zos de fecho das pági­nas con­di­ci­o­nam mais do que deve­riam o duplo exer­cí­cio de rigor e ima­gi­na­ção neces­sá­rio para impe­dir o recurso a algum faci­li­tismo neste domí­nio. Quando isso acon­tece sur­gem solu­ções desa­de­qua­das, des­ti­na­das a “tapar o buraco”.

A ten­dên­cia que se observa, e que será por­ven­tura exa­ge­rada, de fazer acom­pa­nhar obri­ga­to­ri­a­mente de uma foto­gra­fia uma parte muito sig­ni­fi­ca­tiva das notí­cias na edi­ção on line — em que os pra­zos para publi­ca­ção se com­pri­mem ainda mais —, pro­pi­cia com maior frequên­cia esco­lhas inde­se­já­veis neste domí­nio. Não só algu­mas foto­gra­fias uti­li­za­das nada de útil acres­cen­tam aos tex­tos, como por vezes (já referi aqui um ou outro caso) a sua publi­ca­ção repre­senta um erro informativo.

Se é raro chegarem-me quei­xas sobre a qua­li­dade do foto­jor­na­lismo do PÚBLICO ou das esco­lhas de ima­gens de ori­gem externa que ilus­tram, por exem­plo, os gran­des acon­te­ci­men­tos inter­na­ci­o­nais — o que só abona a favor da qua­li­dade da edi­ção foto­grá­fica do jor­nal —, são fre­quen­tes, em con­tra­par­tida, os repa­ros de lei­to­res pro­vo­ca­dos por ima­gens que terão sido esco­lhi­das como “mero suporte ilus­tra­tivo”, espe­ci­al­mente quando não houve o cui­dado neces­sá­rio para evi­tar envol­ver, atra­vés da foto­gra­fia, pes­soas ou ins­ti­tui­ções alheias às notícias.

É desse tipo o pri­meiro caso que hoje me ocupa. No pas­sado dia 24 de Feve­reiro, foi publi­cada na edi­ção impressa uma notí­cia inti­tu­lada “Esco­las de con­du­ção e ACP tro­cam acu­sa­ções de sus­pei­tas de ile­ga­li­da­des e de cor­rup­ção”. Não se tra­tava de des­cre­ver um caso con­creto, mas de infor­mar acerca da polé­mica pro­vo­cada por decla­ra­ções do pre­si­dente do Auto­mó­vel Clube de Por­tu­gal, que teria con­de­nado a exis­tên­cia de cor­rup­ção no uni­verso dos esta­be­le­ci­men­tos dedi­ca­dos à for­ma­ção de auto­mo­bi­lis­tas. A peça, pagi­nada a qua­tro colu­nas, era acom­pa­nhada da ima­gem foto­grá­fica do que pare­cia ser uma aula sobre regras de trân­sito que alguém estava a minis­trar numa escola de condução.

Em Maio, um ins­tru­tor de con­du­ção devi­da­mente iden­ti­fi­cado escreveu-me, soli­ci­tando — pedido que trans­miti à direc­ção do PÚBLICO — um escla­re­ci­mento sobre a publi­ca­ção dessa ima­gem. “A pes­soa nessa foto­gra­fia”, expli­cava, “sou eu, e não me recordo de (…) ter sido tirada com a minha per­mis­são, nem tão pouco me foi pedida auto­ri­za­ção para a publi­ca­ção da mesma”. Argu­men­tando que não via motivo para a sua ima­gem ser “asso­ci­ada à notí­cia e exposta desta forma”, per­mi­tindo que “qual­quer cida­dão” o ligasse a uma polé­mica sobre cor­rup­ção, pedia que fosse publi­cada uma expli­ca­ção “em que se assuma que a foto­gra­fia (…) era ape­nas ilus­tra­tiva, nada tendo o seu pro­ta­go­nista “a ver com o tema exposto”.

Lamen­tando que “a pes­soa retra­tada” se tenha sen­tido “inco­mo­dada”, a direc­tora do PÚBLICO explicou-me que se recor­rera a uma foto­gra­fia datada de 2008, arqui­vada como ima­gem de um cen­tro de exa­mes do ensino do Código da Estrada. “Em momento algum”, afirma Bár­bara Reis, “acre­di­tá­mos que a foto­gra­fia pudesse ser inter­pre­tada como algo mais do que uma foto­gra­fia gené­rica de esco­las de con­du­ção. Acre­di­tá­mos que nenhum lei­tor iria (…) pen­sar que a pes­soa retra­tada durante o que parece ser uma aula de con­du­ção seria vista como um sus­peito de cor­rup­ção”. “O homem”, argu­menta, “está pra­ti­ca­mente de cos­tas e mal se vê o seu rosto; não é claro se (…) é um aluno ou um professor”.

Por mim, creio que este caso ilus­tra o cui­dado suple­men­tar que deve exis­tir na uti­li­za­ção de ima­gens de arquivo em notí­cias deste tipo. É ver­dade que não se vê de frente o rosto do pro­fes­sor foto­gra­fado, mas seria pre­su­mí­vel que pudesse ser reco­nhe­cido, com maior ou menor grau de cer­teza, por fami­li­a­res, vizi­nhos, cole­gas ou alu­nos. Foi aliás o que pro­va­vel­mente acon­te­ceu, tendo em conta o tempo decor­rido entre a publi­ca­ção, de que alguém o terá infor­mado, e a queixa que recebi do ins­tru­tor em causa. A sua recla­ma­ção deve­ria ter sido sufi­ci­ente para que o jor­nal divul­gasse — o que não fez — o escla­re­ci­mento solicitado.

Outro cui­dado ético a ter na esco­lha de foto­gra­fias é o que se prende com o res­peito pela auto­ria, nome­a­da­mente quando se pro­cu­ram ima­gens na Inter­net. No dia 2 de Junho, uma notí­cia sobre o des­fe­cho do cam­pe­o­nato naci­o­nal de râguebi (“CDUL cam­peão naci­o­nal 22 anos depois”) foi ilus­trada com uma ima­gem acom­pa­nhada da men­ção “DR” (direi­tos reservados).

“Foi com alguma sur­presa que vi uma foto­gra­fia minha ser uti­li­zada nesta notí­cia”, escre­veu Miguel Rodri­gues, res­pon­sá­vel pelo blo­gue temá­tico cdul.blogspot.pt, do qual a ima­gem foi reti­rada. Acres­cen­tava: “Não sou fotó­grafo pro­fis­si­o­nal, não vendo foto­gra­fias e o que faço é para divul­ga­ção da moda­li­dade, mas exis­tem regras míni­mas quando se pre­tende uti­li­zar a foto­gra­fia de alguém — um con­tacto, uma men­ção ao autor ou sim­ples­mente ao blo­gue onde foram bus­car a fotografia”.

Sem dúvida. Era o que deve­ria ter sido feito, e Hugo Daniel Sousa, que asse­gura pro­vi­so­ri­a­mente a edi­ção da sec­ção de des­porto, reconhece-o: “Deve­mos um pedido de des­culpa ao lei­tor, por­que deve­ría­mos ter entrado em con­tacto com ele e feito men­ção ao seu nome na assi­na­tura da foto­gra­fia”. Essas des­cul­pas, informou-me, foram já apre­sen­ta­das, tendo sido per­gun­tado a Miguel Rodri­gues “se pre­fere que reti­re­mos a foto do site ou a assi­ne­mos com uma refe­rên­cia ao seu blogue”.

Ques­tão a mere­cer alguma refle­xão é a que foi colo­cada pelo lei­tor Vítor Videira a pro­pó­sito da publi­ca­ção no Público Online, no pas­sado dia 12 de Maio, de uma foto­gra­fia de Hugo Chá­vez, que enci­mava a notí­cia do regresso a Cara­cas do pre­si­dente vene­zu­e­lano, após uma esta­dia em Cuba para um ciclo de tra­ta­mento a um can­cro. Chá­vez, dizia-se na peça, “mostrou-se opti­mista” sobre a evo­lu­ção da doença e “can­tou frente às câma­ras após um dis­curso de 20 minutos”.

O lei­tor estra­nhou a ima­gem esco­lhida para ilus­trar o regresso ao seu país do pre­si­dente vene­zu­e­lano: uma foto­gra­fia da agên­cia Reu­ters de Setem­bro ante­rior, em que Chá­vez apa­rece sem cabelo, como efeito — na altura — dos tra­ta­men­tos a que foi sub­me­tido para com­ba­ter a doença onco­ló­gica. Explica ter visto ima­gens da “can­to­ria” pre­si­den­cial nesse dia de Maio, e que não era essa “a figura actual do senhor”. Na sua opi­nião, a foto­gra­fia esco­lhida é “ina­de­quada em ter­mos de trans­pa­rên­cia infor­ma­tiva”. Ape­sar de a data de cap­ta­ção da ima­gem ter sido devi­da­mente assi­na­lada na legenda, inclino-me a con­cor­dar. Tratando-se pre­ci­sa­mente de uma peça que refe­ria a evo­lu­ção da doença, teria sido pre­fe­rí­vel a opção por uma ima­gem actu­a­li­zada de Chávez.

Tam­bém rela­ci­o­nada com a foto­gra­fia, chegou-me há dias a queixa de uma lei­tora que pre­ten­dia ver os seus dados e decla­ra­ções reti­ra­dos do blo­gue “O desem­prego tem rosto”, uma ini­ci­a­tiva aco­lhida nos “blo­gues do PÚBLICO” (aces­sí­veis na edi­ção on line), em que ima­gens e tex­tos são da res­pon­sa­bi­li­dade do foto­jor­na­lista Daniel Rocha. Trata-se de um ambi­ci­oso e opor­tuno pro­jecto foto­grá­fico, ini­ci­ado em 1 de Maio pas­sado, em que o autor se pro­põe mos­trar ao longo de um ano os ros­tos, retra­ta­dos em grande plano, de 365 cida­dãos desem­pre­ga­dos, sob o lema “Para lá de núme­ros ou estatís­ti­cas, é de pes­soas que fala­mos quando o assunto é o desem­prego”. Cada retrato é acom­pa­nhado de uma ficha de iden­ti­fi­ca­ção da pes­soa retra­tada e das suas res­pos­tas a per­gun­tas sobre “o que mudou na sua vida desde que ficou desem­pre­gado” e quais as “pers­pec­ti­vas de futuro”.

Daniel Rocha explicou-me que encon­tra as pes­soas retra­ta­das a par­tir de con­tac­tos ou procurando-as à porta dos cen­tros de emprego, e que a publi­ca­ção de todas as ima­gens, decla­ra­ções e ele­men­tos iden­ti­fi­ca­ti­vos é objecto de expresso con­sen­ti­mento pré­vio des­sas pes­soas. Foi o que acon­te­ceu com a lei­tora que quer ver reti­rada do blo­gue a entrada que lhe diz res­peito, ale­gando que “o que está escrito não cor­res­ponde ao que disse”.

Julgo que o PÚBLICO não deve aten­der a exi­gên­cia, aliás acom­pa­nhada de ame­aça de recurso a “meios legais”. Pude ouvir a gra­va­ção da sua con­versa com o autor do blo­gue e veri­fi­car que, salvo ínfi­mas adap­ta­ções pró­prias da trans­cri­ção de um dis­curso oral, a entre­vis­tada disse exac­ta­mente o que foi publi­cado. Como já aqui defendi, “decla­ra­ções pres­ta­das livre­mente, publi­ca­das de boa fé e cor­rec­ta­mente trans­cri­tas” não devem ser apagadas.

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