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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Ataques de aviões não pilotados continuam sem respostas

16/10/2012 na edição 716
Sobre artigo de Margaret Sullivan, de Nova York (EUA); tradução de Jô Amado

Compreender os ataques de aviões americanos não pilotados (os chamados “drones”) é algo como uma versão mortal da velha brincadeira de telefone sem fio: você sussurra alguma coisa, alguém sussurra para você e, por fim, perde-se todo o significado das palavras, comenta, em sua coluna [14/10/12], a ombudsman do The New York Times, Margaret Sullivan. Você começa com alguma informação incerta de uma fonte duvidosa. Passa-a adiante, joga-a no liquidificador da mídia, acrescenta alguns especialistas e você tem o que pode ser, ou pode não ser, algo próximo da verdade.

Quantas pessoas foram mortas nesses ataques da CIA, por aviões não pilotados, no Iêmen e no Paquistão? Quantos dos mortos identificados como “militantes” seriam, na verdade, civis? Quantos seriam crianças? A organização sem fins lucrativos britânica The Bureau of Investigative Journalism avaliou que, nos primeiros três anos do governo de Barack Obama, entre 282 e 535 civis foram provavelmente mortos em ataques por aviões não pilotados – inclusive 60 crianças. O governo dos EUA diz que o número de civis mortos é muito inferior.

É difícil conseguir informações precisas. O governo Obama e a CIA são reservados em relação ao programa dos aviões não pilotados, que vem crescendo rapidamente. Os ataques no Paquistão vêm ocorrendo em áreas inacessíveis aos repórteres, ou de acesso extremamente perigoso. De qualquer maneira, tudo isso está acontecendo numa hora em que o público americano está cansado de ouvir falar desse lugar do mundo.

Quem critica ataques é “simpatizante de terroristas”

Como entra o NYTimes nesse quadro nebuloso? Algumas das reportagens mais importantes sobre os ataques de aviões não pilotados foram feitas no NYTimes, em especial o artigo sobre a lista de terroristas a serem mortos, escrito por Scott Shane e Jo Becker no mês de maio.

Embora original e inovador, esse artigo deixou várias perguntas sem resposta. O NYTimes e a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU, sigla em inglês), ONG que atua na defesa de liberdades conferidas na constituição americana, entraram com pedidos para saber mais sobre o programa de aviões não pilotados – até agora sem sucesso. O jornal e a organização também querem saber mais sobre a morte de um adolescente americano, Abdulrahman al-Awlaki, no Iêmen, por aviões não pilotados, que também vem sendo mantida em segredo.

Mas o NYTimes também errou. Desde o artigo no mês de maio, seus repórteres não questionaram agressivamente o que o governo descreveu como a morte de “militantes” – por si só, uma expressão vaga. O jornal também foi criticado por ter dado anonimato às autoridades do governo que sugeriram que quem critica os aviões não pilotados é simpatizante de terroristas.

“Nunca houve um debate sério sobre o assunto”

Segundo pesquisas, os americanos têm uma opinião positiva sobre os aviões não pilotados, mas os críticos dizem que isso é porque os noticiários não os informam direito. O uso de aviões não tripulados vem aumentando o ressentimento contra os EUA em várias partes do mundo e, potencialmente, sabota as democracias frágeis, disse Naureen Shah, que dirige a organização Human Rights Clinic, da Faculdade de Direito da Universidade de Columbia. “Eles apresentam o tema como se fosse localizar os vilões a partir de um avião”, disse ela. “Mas na realidade é vigiar comunidades inteiras, localizar comportamento que possa ser suspeito e atacar grupos de indivíduos com base nas informações do vídeo, que podem ou não ser corroboradas pela visão que se tem no solo.” No domingo (14/10), a organização de Naureen divulgou um relatório que levanta questões importantes sobre a exatidão das notícias em relação aos ataques de aviões não pilotados. Mas a exatidão foi apenas uma das preocupações que foram levantadas sobre a cobertura do assunto.

“A abordagem é muito estreita”, disse David Rohde, colunista da Reuters que foi sequestrado pelo Talibã em 2008, quando era repórter do NYTimes. “O que está faltando é o custo humano e um quadro estratégico ampliado.” Glenn Greenwald, advogado que já escreveu muito sobre o tema e agora está no Guardian, disse que vê “uma aversão por parte da mídia ocidental em focalizar as vítimas do militarismo americano”. Rohde levantou outra objeção: “Se um presidente republicano fosse responsável por todos estes ataques de aviões não tripulados de uma maneira tão sigilosa, haveria muito mais investigação”. Scott Shane, repórter do NYTimes, acha o tema espinhoso e o sigilo difícil de penetrar. “Esta categoria ainda é de informação pública secreta”, disse. “É impossível manter sigilosos os ataques propriamente ditos, mas nunca houve um debate público sério sobre o assunto no Congresso.” No mês passado, a ProPublica fez uma excelente abordagem da questão num artigo intitulado “Como o governo fala sobre um problema de aviões não tripulados do qual não reconhece a existência”.

Aprofundar a cobertura e pressionar por transparência

Quanto aos custos humanos, Sarah Knuckey, investigadora de direitos humanos que agora leciona na Faculdade de Direito da Universidade de Nova York, diz que sentiu muito medo diariamente durante os 10 dias que passou recentemente no Paquistão. “Fiquei impressionada com o medo que as pessoas têm da presença constante de aviões não tripulados”, disse. “Eles sentiam que podiam ser atingidos como danos colaterais a qualquer momento.” Ela também está preocupada com a falta de transparência do governo. “Os EUA estão criando um precedente ao realizarem esses ataques secretamente e sem que alguém se responsabilize”, disse. “E se todos os países fizessem o que os EUA estão fazendo?”

O Talibã e a al-Qaeda são problemas muito maiores para os paquistaneses e iemenitas do que os ataques dos aviões não pilotados americanos. Porém, o reconhecimento disso não responde às questões morais e éticas de um combate que se faz por pressão numa tecla e é conduzido sem qualquer prestação de contas ao público.

Com seu enorme talento e recursos, o NYTimes tem a responsabilidade de liderar o caminho na cobertura deste tema da maneira mais agressiva possível, assim como continuar pressionando por transparência de modo que os americanos possam compreender exatamente o que seu governo está fazendo.

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