Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

José Queirós

23/10/2012 na edição 717
“Reflexões suscitadas por uma greve, seguidas de um desafio aos leitores”, copyright Público, Lisboa (Portugal), 21/10/2012

“A edi­ção de ontem ficará na his­tó­ria do PÚBLICO. Ape­sar da ele­vada ade­são (mais de 80% do corpo redac­to­rial) a uma greve levada a cabo em pro­testo con­tra a anun­ci­ada inten­ção da empresa de des­pe­dir 48 tra­ba­lha­do­res, os lei­to­res pude­ram encon­trar o jor­nal nas ban­cas, como resul­tado de um esforço cer­ta­mente excep­ci­o­nal dos res­pon­sá­veis edi­to­ri­ais e de alguns jor­na­lis­tas que terão enten­dido — como se lia numa nota da Direc­ção — que a sua publi­ca­ção cons­ti­tuía uma ‘obri­ga­ção para com os leitores’.

Como se reco­nhe­cia na mesma nota, não se tra­tou de ‘uma edi­ção como as outras’. Mostrava-o a notó­ria quan­ti­dade de tex­tos de auto­ria não iden­ti­fi­cada — nunca uma edi­ção deste jor­nal se terá afas­tado tanto do ‘prin­cí­pio geral’ enun­ci­ado no seu Livro de Estilo, de que ‘todos os tex­tos do PÚBLICO são assi­na­dos, à excep­ção das bre­ves’ —, bem como a pre­do­mi­nân­cia de foto­gra­fias de arquivo e outros sinais que não terão esca­pado aos lei­to­res mais aten­tos. O pro­duto final revela o que já se sabia: que é sem­pre pos­sí­vel a um punhado de pro­fis­si­o­nais publi­car, sem gran­des pre­juí­zos no plano infor­ma­tivo, um jor­nal afec­tado por uma para­li­sa­ção de um dia, tal como é insus­ten­tá­vel fazê-lo, sem per­das gra­ves de qua­li­dade e infor­ma­ção pró­pria, por um período mais alar­gado, sem o con­tri­buto glo­bal de uma redac­ção dotada de todas as suas valên­cias e especializações.

No res­caldo deste con­fronto labo­ral sem pre­ce­den­tes, será pouco útil dis­cu­tir quem, entre ade­ren­tes ou não à greve, melhor enten­deu o sen­tido do seu com­pro­misso com os lei­to­res. Os gre­vis­tas tor­na­ram claro que, do seu ponto de vista, estava em causa não só a natu­ral soli­da­ri­e­dade com quem vê ame­a­çado o seu posto de tra­ba­lho, mas tam­bém a con­vic­ção de que a forte redu­ção anun­ci­ada no qua­dro redac­to­rial ame­a­ça­ria o futuro do jor­nal como diá­rio de refe­rên­cia. É tam­bém a defesa dessa ‘posi­ção de refe­rên­cia’ que a admi­nis­tra­ção do PÚBLICO invoca para, em nome da ‘sus­ten­ta­bi­li­dade’ do pro­jecto edi­to­rial, jus­ti­fi­car as ‘medi­das difí­ceis’ que, segundo afir­mou em comu­ni­cado, lhe ‘são exigidas’.

Seja qual for a pers­pec­tiva com que para ele se olha, esse é o pro­blema que mais inte­res­sará aos lei­to­res, como se depre­ende das men­sa­gens que che­gam por estes dias, mani­fes­tando pre­o­cu­pa­ção pela sobre­vi­vên­cia do jor­nal que esco­lhe­ram e pela manu­ten­ção da iden­ti­dade edi­to­rial que os levou a essa esco­lha. É ou não pos­sí­vel com­pa­ti­bi­li­zar qua­li­dade e sus­ten­ta­bi­li­dade? Sendo esse o debate que importa, ‘é tal­vez che­gada a hora’, como escrevi há uma semana, de os lei­to­res ‘serem cha­ma­dos a ter uma voz neste debate’. As notas que se seguem visam con­tri­buir para essa dese­já­vel discussão.

Em pri­meiro lugar, o pano de fundo. Vive-se em mui­tos paí­ses uma crise do jor­na­lismo, ou, mais pre­ci­sa­mente, uma crise da indús­tria jor­na­lís­tica, e nome­a­da­mente das empre­sas pro­du­to­ras do jor­na­lismo de qua­li­dade, que se mani­festa na cres­cente insus­ten­ta­bi­li­dade finan­ceira das edi­ções em papel, que per­dem a mai­o­ria dos novos lei­to­res para as pla­ta­for­mas digi­tais e outros meios ten­den­ci­al­mente gra­tui­tos de acesso à infor­ma­ção. À perda de audi­ên­cias e con­se­quente perda de recei­tas dos jor­nais impres­sos soma-se a difi­cul­dade de cons­truir mode­los viá­veis de negó­cio para as edi­ções on line.

No hori­zonte visí­vel, que não é o fim do mundo a des­co­brir, anuncia-se o desa­pa­re­ci­mento de mui­tos títu­los do jor­na­lismo de qua­li­dade (ou pelo menos das suas edi­ções em papel), de pro­du­ção bem mais dis­pen­di­osa do que o seg­mento da imprensa dita popu­lar. Ou, em alter­na­tiva não menos penosa para os lei­to­res exi­gen­tes, a cres­cente desis­tên­cia da qua­li­dade infor­ma­tiva em nome da sobre­vi­vên­cia empre­sa­rial — que é ao que con­du­zi­rão, na falta de uma visão estra­té­gica con­se­quente, mui­tas das medi­das de con­trac­ção de des­pesa que têm vindo a multiplicar-se no sector.

Têm razão os que vêem nesta crise uma ame­aça real à saúde das demo­cra­cias moder­nas, em que o jor­na­lismo livre e inde­pen­dente desem­pe­nha hoje um papel tão indis­pen­sá­vel quanto o das ins­ti­tui­ções que garan­tem a repre­sen­ta­ção e o equi­lí­brio de pode­res. Vale a pena reflec­tir no que nos dizem dois tre­chos, que repro­duzo nesta página, do recente mani­festo inti­tu­lado ‘Pelo jor­na­lismo, pela demo­cra­cia’. São ver­da­des a subli­nhar nos tem­pos que cor­rem, de desin­ves­ti­mento na infor­ma­ção, des­pe­di­men­tos e pre­ca­ri­e­dade pro­fis­si­o­nal nas redac­ções e anún­cio da venda de títu­los his­tó­ri­cos a figu­ras de que não se conhece rosto nem agenda. Não devem ser vis­tas como pre­o­cu­pa­ções cor­po­ra­ti­vas, mas como apelo à cidadania.

Quanto ao pro­blema espe­cí­fico deste jor­nal, que o con­flito interno tor­nou mais visí­vel, julgo que importa ter em conta o seguinte:

— Qua­li­dade, diver­si­dade temá­tica, iden­ti­dade edi­to­rial e inde­pen­dên­cia foram razões mai­o­res que leva­ram à fide­li­za­ção de lei­to­res e são as que deve­rão atrair outros no futuro. Erros que pos­sam ser per­ce­bi­dos como lesões a esses atri­bu­tos (como já algu­mas vezes acon­te­ceu) pro­vo­cam sem­pre afastamentos.

— A redu­ção exces­siva de meios huma­nos e mate­ri­ais ame­aça a qua­li­dade. A perda da abran­gên­cia pró­pria de um jor­nal gene­ra­lista (veja-se por exem­plo o con­tí­nuo enfra­que­ci­mento da infor­ma­ção de pro­xi­mi­dade, nome­a­da­mente nas gran­des cida­des) põe em causa a diver­si­dade e a fide­li­dade de seg­men­tos espe­cí­fi­cos de lei­to­res. Osci­la­ções ou opções ina­de­qua­das quanto às pri­o­ri­da­des edi­to­ri­ais afec­tam o sen­ti­mento de iden­ti­fi­ca­ção dos lei­to­res com o jor­nal. O dese­qui­lí­brio finan­ceiro é uma ame­aça à inde­pen­dên­cia, tal como o é o cres­ci­mento da inse­gu­rança pro­fis­si­o­nal nas redacções.

— Nas edi­ções on line poderá vir a estar, mas não está ainda, uma parte subs­tan­cial da solu­ção dos pro­ble­mas finan­cei­ros das empre­sas do sec­tor. Importa é que não se esqueça que, se a qua­li­dade edi­to­rial não depende do suporte em que se apre­senta, o bom jor­na­lismo tem sem­pre um preço, e não pode esperar-se que seja um ser­viço gra­tuito. Con­virá ainda ter em conta que o lei­tor típico do PÚBLICO se reco­nhe­cerá ainda hoje prin­ci­pal­mente na edi­ção em papel.

— O mer­cado naci­o­nal para um jor­nal com as carac­te­rís­ti­cas deste tem reve­lado os seus limi­tes. Ape­sar de recuos com­pre­en­sí­veis nas ambi­ções ini­ci­ais do pro­jecto, o PÚBLICO con­ti­nua a acu­mu­lar pre­juí­zos. Ainda que a sua pre­sença nas ban­cas tenha sido asse­gu­rada até hoje em regime que quase se poderá clas­si­fi­car de mece­nato, o facto leva mui­tos lei­to­res a temer pela sobre­vi­vên­cia de um bem que já con­si­de­ram seu, ine­rente à sua qua­li­dade de vida e à sua cida­da­nia informada.

— À mar­gem de tudo o que possa ser feito, em qua­li­dade de ges­tão e de con­du­ção edi­to­rial, para ate­nuar a apa­rente incom­pa­ti­bi­li­dade entre a oferta de um jor­na­lismo de refe­rên­cia, rigo­roso e com­pleto, e a sus­ten­ta­bi­li­dade finan­ceira da empresa que o edita, é difí­cil fugir à con­clu­são de que um jor­nal como este, que tan­tos lei­to­res dizem não que­rer ‘per­der’, não poderá sustentar-se a prazo com resul­ta­dos comer­ci­ais como os que hoje apresenta.

— Quem mais pre­cisa do PÚBLICO é quem o lê todos os dias. Julgo por isso que, para além de outros estí­mu­los que pos­sam vir da soci­e­dade e das suas ins­ti­tui­ções (em nome da impor­tân­cia do jor­na­lismo para a saúde da demo­cra­cia), é sobre­tudo na comu­ni­dade dos seus lei­to­res que pode­rão ser encon­tra­das — assim o quei­ram e pos­sam — solu­ções dura­dou­ras para a sobre­vi­vên­cia do jor­nal sem perda de qua­li­dade. Trata-se afi­nal de ten­tar pre­ser­var um bem cul­tu­ral e cívico que, enquanto pro­duto no mer­cado, pedirá meças a qual­quer outro em ter­mos de rela­ção qualidade-preço.

Jor­na­lismo e cidadania

Dois excer­tos — que são um con­vite à refle­xão de todos — do mani­festo ‘Pelo jor­na­lismo, pela demo­cra­cia’, posto a cir­cu­lar na semana pas­sada por um grupo de pro­fis­si­o­nais da comu­ni­ca­ção social:

‘A crise que abala a mai­o­ria dos órgãos de infor­ma­ção em Por­tu­gal pode pare­cer aos mais des­pre­ve­ni­dos uma mera ques­tão labo­ral ou mesmo empre­sa­rial. Trata-se, con­tudo, de um pro­blema mais largo e mais pro­fundo, e que, ao afec­tar um sec­tor estra­té­gico, se reflecte de forma nega­tiva e pre­o­cu­pante na orga­ni­za­ção da soci­e­dade demo­crá­tica. O jor­na­lismo não se resume à pro­du­ção de notí­cias e muito menos à repro­du­ção de infor­ma­ções que che­gam à redac­ção. Assenta na veri­fi­ca­ção e na vali­da­ção da infor­ma­ção, na atri­bui­ção de rele­vân­cia às fon­tes e acon­te­ci­men­tos, na fis­ca­li­za­ção dos dife­ren­tes pode­res e na oferta de uma plu­ra­li­dade de olha­res e de pon­tos de vista que dêem aos cida­dãos um conhe­ci­mento infor­mado do que é do inte­resse público, esti­mu­lem o debate e o con­fronto de ideias e per­mi­tam a mul­ti­pli­ci­dade de esco­lhas que carac­te­riza as demo­cra­cias. O exer­cí­cio des­tas fun­ções cen­trais exige com­pe­tên­cias, recur­sos, tempo e con­di­ções de inde­pen­dên­cia e de auto­no­mia dos jor­na­lis­tas. E não se pode fazer sem jor­na­lis­tas ou com redac­ções redu­zi­das à sua ínfima expressão’.

‘Sendo glo­bal, a crise do sec­tor exige um empe­nha­mento de todos —empre­sá­rios, pro­fis­si­o­nais, Estado, cida­dãos — na des­co­berta de solu­ções.

A redu­ção de efec­ti­vos, a pre­ca­ri­e­dade pro­fis­si­o­nal e o desin­ves­ti­mento nas redac­ções podem pare­cer uma solu­ção no curto prazo, mas não vão garan­tir a sobre­vi­vên­cia das empre­sas jor­na­lís­ti­cas. Con­du­zem, pelo con­trá­rio, a uma perda de rigor, de qua­li­dade e de fia­bi­li­dade, que terá como con­sequên­cia, numa espi­ral reces­siva de cida­da­nia, a desin­for­ma­ção da soci­e­dade, a falta de exi­gên­cia cívica e um enfra­que­ci­mento da democracia’.”

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