Domingo, 08 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1066
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ENTRE ASPAS >

Entre o perigo e a missão de informar

22/09/2009 na edição 556

Na noite de 9/9, militares britânicos invadiram uma área dominada pelo talibã no norte do Afeganistão para resgatar http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=554MON015o repórter britânico Stephen Farrell, que trabalha para o New York Times, e seu intérprete afegão Sultan Munadi. Ao fim da troca de tiros, o repórter estava são e salvo, e o intérprete havia morrido, assim como um soldado britânico, uma mulher afegã e militantes talibãs.

As críticas chegaram rapidamente após o desastrado episódio. O governo britânico foi criticado pela ação ofensiva enquanto negociações ainda eram feitas para libertar Farrell e Munadi, sequestrados quatro dias antes, quando cobriam um bombardeio da Otan que teria matado mais de 100 afegãos. Mas a maior parte das críticas indignadas, segundo o ombudsman do NYTimes, Clark Hoyt [20/9/09], foi direcionada a Farell, por ter se arriscado em um território tão perigoso em nome de uma matéria jornalística.

O secretário das Relações Exteriores do Reino Unido, David Miliband, disse que Farrell ignorou os ‘fortes conselhos’ de não viajar para a região. Já Susan Chira, editora de notícias internacionais, conta que após o seqüestro do repórter David Rohde em novembro do ano passado, o jornal enviou um consultor a Cabul para revisar os procedimentos de segurança para a atuação de correspondentes no país. Rohde foi capturado junto com seu intérprete a caminho de um encontro com um líder talibã. Mais de sete meses depois, os dois conseguiram escapar do cativeiro. O editor-executivo do diário, Bill Keller, completa que as regras para viagens ao Afeganistão estão mais rígidas agora.

Membros do jornal se recusam a criticar a decisão de Farrell de ir ao local de um bombardeio que matou, além de talibãs, dezenas de civis. ‘Não estava lá e não me sinto qualificado para criticar suas decisões’, diz Keller. ‘Mas não vi evidências de que sua missão fosse irresponsável’.

Experiência

Farrell é experiente em cobertura de guerras e afirmou que, antes de ir para Cabul, teve intensas e longas conversas com Richard Oppel, correspondente do NYTimes no Afeganistão. Além disso, dois motoristas locais conversaram com moradores que conheciam o trajeto e concordaram que era possível fazê-lo. O plano era dirigir até um destino relativamente seguro, o hospital em Kunduz, onde os feridos estavam sendo tratados. A viagem estava sendo tão tranquila que Munadi sentiu-se confiante para parar no caminho, perto da cidade onde o bombardeio ocorreu, para pedir informações. Mais tarde, ao entardecer, eles passaram por uma blitz da polícia afegã. Segundo Farrell, o único alerta dado pelo policial era para não se aproximar da área do bombardeio, pois estava escurecendo.

Depois de entrevistar pacientes no hospital, o correspondente conversou com James Bays, repórter britânico que trabalha para o serviço em inglês da al-Jazira, que havia ido aquela tarde ao lugar para onde os corpos estavam sendo levados. Ele contou a Farrell que a área era ‘potencialmente perigosa’. Por isso, Farrell optou por evitar as cidades vizinhas e ir para o local do bombardeio, a uma distância razoável. Quando os talibãs se aproximaram, a equipe correu, mas não conseguiu escapar.

Riscos

Para Hoyt, trabalhar sob circunstâncias de guerra é perigoso e o risco razoável pode se tornar trágico de um momento para outro. O NYTimes ganhou um prêmio Pulitzer este ano por sua cobertura do Afeganistão e do Paquistão. Durante o trabalho nestes dois países, um repórter e um fotógrafo foram detidos por forças talibãs por dois dias.

Depois do resgate de Farrell, um debate instaurou-se na imprensa britânica sobre se não teria sido melhor ter tomado um trajeto mais seguro, junto com tropas americanas ou britânicas. Ainda assim, acompanhar militares não significa necessariamente eliminar riscos. O episódio fez o diário revisar suas operações no país, com aspectos como treinamento da equipe, estrutura clara de decisões em operações de risco e ligação da sucursal com uma rede de consultores de segurança que compartilham informações sobre ameaças em tempo real.

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