Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Ernesto Rodrigues

28/10/2008 na edição 509

Série ‘A vida íntima das obras-primas’

Compartilho hoje, com os telespectadores, das análises internas que fiz sobre dois documentários exibidos nos dias 12 e 19 de junho pelo programa Cultura Mundo. E o faço porque acredito que elas têm utilidade na reflexão de todos nós sobre sobre o conteúdo da programação noturna da TV Cultura.

O documentário da série ‘A vida íntima das obras-primas’, da BBC, sobre o quadro ‘13 de maio de 1808’, de Francisco Goya, é um paradoxo. Primeiro porque é uma aula de como fazer um programa inteiro de televisão – em termos de texto, edição, ritmo, recursos de narrativa, uso de entrevistas e videografismos, direção de fotografia e trilha sonora – a partir de uma tela de pintura, no caso o histórico quadro de Goya sobre a execução de rebeldes espanhóis por soldados de Napoleão.

Mas ‘13 de maio de 1808’ também é paradoxal porque, queiramos ou não, infelizmente tem baixa competitividade para o horário nobre em que foi exibido, se considerarmos não o público regular da BBC, claro, mas o perfil médio do telespectador brasileiro de TV aberta. Não adianta nós nos enganarmos, achando que o telespectador brasileiro vai reagir da mesma maneira que o britânico, e que basta empurrar o ótimo conteúdo goela abaixo dele. Não é assim que funciona. Os índices de audiência comprovam a inutilidade de decisões de programação baseadas apenas em altruísmo ou boas intenções.

‘Moulin de la Galette’, outro ótimo episódio da série que é uma espécie de mergulho na história do famosíssimo quadro de Renoir, o mais alegre emblema de Paris, foi mais um programa de televisão literalmente para inglês ver que necessitaria de uma adequação à TV aberta brasileira para ter um impacto além do que certamente provocou no reduzido contingente de aficcionados por artes plásticas.

Para que este conteúdo chamasse atenção de camadas menos preparadas do público telespectador, era preferível, por exemplo, substituir – sendo possível, contratualmente falando – as legendas por uma inspirada narração em português. Outra providência, incansavelmente sugerida aqui neste espaço, seria embalar o conteúdo com um apresentador brasileiro na abertura e nas passagens e aberturas de bloco, valorizando aspectos curiosos, interessantes e atraentes do documentário. Aspectos que aliás existem, escondidos no formatão sóbrio e quase tímido – e também clássico – do original da BBC.

E mais: fazer ajustes de tempo, contextualização e edição que tornassem esse programa menos imperceptível aos olhos do telespectador médio de São Paulo e do Brasil. E ainda buscar, na grade de programação da emissora, um horário menos competitivo no qual esta série tivesse um pouco mais de visibilidade para quem manda no controle remoto da casa. Afinal, estamos falando da maioria dos domicílios do país, com apenas um receptor de TV aberta.

O documentário original seria desfigurado com essas providências? Não necessariamente. Quantos telespectadores poderiam ter a curiosidade atiçada pela história do quadro de Renoir? Muitos mais, certamente, que os que foram impactados pelo original quase intocado da BBC.

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Conheça os pontos positivos e negativos da programação exibida na última semana. Saiba quais atrações da TV Cultura ganharam destaque e as que ainda podem melhorar.

Economia em alta

(Jornal da Cultura, 13 de outubro)

Primeiro, um bloco exemplar sobre a crise financeira, com paginação ágil, textos bem divididos entre os três apresentadores, matérias enxutas e informativas sobre o bilionário resgate dos bancos, uma constante preocupação de contextualizar, o registro das novas declarações do presidente Lula, a opinião dos oposicionistas em Brasília, a explicação das medidas adotadas pelo Banco Central e os videografismos mais modernos – ainda que distantes das melhores que vemos em outros canais – sobre os indicadores financeiros da recuperação da economia mundial. Depois, boas produções próprias do Jornal da Cultura sobre o impacto do dólar alto no preço do pão e a situação do crédito direto ao consumidor depois da crise das bolsas. Como fecho de um dia exemplar, a oportuníssima nota em que Heródoto explicou como funciona a armadilha da taxa de 0,99% oferecida por uma das montadoras brasileiras.

Cartola, no bom sentido

(Mosaicos, 12 de outubro)

O ‘Mosaicos’, exibido em 12 de outubro para celebrar o centésimo aniversário de Cartola, foi um emocionante dueto dele – em imagens e sons preciosos do arquivo da TV Cultura – com a nata do samba e da música popular brasileira. Com narração perfeita de Rolando Boldrin, o programa teve momentos emocionantes como a participação de Ney Matogrosso, a interpretação de Dudu Nobre para o clássico ‘Tive sim’, os comentários da biógrafa Marília Barbosa, Nelson Gonçalves cantando ‘As rosas não falam’ e, entre outros pontos altos, Elton Medeiros e Zé Renato interpretando ‘O sol nascerá’, um dos grandes hinos do samba de todos os tempos.

Xô!

(Metrópolis, 13 de outubro)

Paulo Vinicius deu uma prova da importância de o âncora ir além do teleprompter em programas como o Metrópolis: ao ser surpreendido por três notas consecutivas que, lidas por Domingas e ele, registravam as mortes da bailarina Berta Rosanova, do ator Guillaume Depardieu e do fotógrafo WilliamClaxton teve uma reação – uma espécie de estrebucho para afastar pensamentos de morte – que certamente foi entendida (e aprovada) por muitos telespectadores. Durou um segundo, mas teve o peso de um editorial. Chama-se ancoragem…

Aprender sorrindo

(Almanaque Educação, 14 de outubro)

O programa continua com uma característica marcante: o uso inteligente do humor em formatos apropriados à televisão, como no quadro ‘Pílulas do saber’ – uma crônica sobre a invenção da secretária eletrônica – e no ‘Telejornal’, com suas ‘reportagens’ sobre a mulher multada a 750 quilômetros por hora e o indiano considerado o pior aluno do mundo.

No foco

(Nossa Língua, 16 de outubro)

O Nossa Língua, ainda que mantendo um cenário, um formato e uma concepção visual de telecurso em pleno horário nobre, voltou a trilhar o caminho que lhe confere identidade, ao entrevistar o publicitário Washington Olivetto, um dos craques da propaganda mundial e, até por esse motivo, uma autoridade num determinado tipo de uso da língua portuguesa. O professor Pasquale, apesar de às vezes se render à tentação de talk-show genérico, soube explorar a experiência de OIlivetto com as transformações da língua brasileira e com a introdução do coloquialismo na publicidade.

Desequilíbrio

(Jornal da Cultura, 17 de outubro)

No Jornal da Cultura, a declaração de 2 minutos e 51 segundos do governador José Serra, que se seguiu à reportagem sobre o conflito na frente do Palácio do Governo, independentemente do conteúdo, merecia, em nome de um mínimo de equilíbrio jornalístico, algum contraponto de informação sobre a posição do comando da greve dos policiais civis, por mais notórios que tenham sido os ingredientes político-eleitorais do confronto. O desequilíbrio da cobertura, por conta da gigantesca declaração, foi evidente e lamentável.

Falta de sincronia

Sinal da TV Cultura na NET

Há uma desconfortável falta de sincronia entre áudio e vídeo para quem assiste a TV Cultura pela NET. Quando o conteúdo é uma fala mais longa ou uma reportagem sobre música – mostrando performances vocais e instrumentais, por exemplo – o problema passa a ser irritante, comprometendo completamente a comunicação. Será que nada pode ser feito?

Clandestinidade

Ombudsman

No balanço de seis meses, nos quais este ombudsman analisou 562 edições de 56 programas diferentes da grade da TV Cultura, o frustrante foi o baixíssimo retorno dos responsáveis pelos programas: 17, um número equivalente a 3,02% das análises. Este quadro de virtual clandestinidade dá razão aos que dizem que o principal desafio da TV Cultura é superar o elitismo e a soberba burocrática que ainda parecem fazer parte do DNA organizacional da emissora. E aos que dizem que o telespectador, decisivo, estratégico e fundamental nas emissoras comerciais, na TV Cultura parece representar apenas um detalhe secundário.

Crianças de academia

Entrelinhas, 12 de outubro

A pauta atenta ao chamado gancho jornalístico da atualidade – no caso, o Dia da Criança – resultou em programa dedicado à literatura infantil, mas, na matéria de abertura, uma entrevista de Manuel da Costa Pinto com Arthur Nestrovski, ganhador do Prêmio Jabuti, sobraram momentos de conceituação mais ao gosto dos acadêmicos e conhecedores de sua obra e faltaram citações de alguns trechos para o telespectador médio que não a conhecia. A falta de preocupação com os não iniciados também esteve presente no perfil do poeta Alberto Martins, principalmente quando ele falava de seu personagem (um cachorro vira-lata) que passeia pelo Brasil colonial retratado por Debret. E continuam inexplicavelmente pobres – e jurássicas, se comparadas ao requinte do padrão gráfico predominante nas edições do Entrelinhas – as artes do quadro ‘Lançamentos’.

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Diálogos sustentáveis

(Repórter Eco, 23 de outubro)

Na análise do Repórter Eco do dia 11 de junho, critiquei o fato de o programa tentar sensibilizar o telespectador – fazendo-o se sentir um criminoso de alta periculosidade ambiental – com estatísticas que considerei questionáveis e assustadoras, como a de que uma pessoa gastará, comendo um bife de carne bovina por dia e vivendo 70 anos, nada menos do que 80 milhões de litros de água. Também critiquei o que chamei de tom catastrófico do programa. E questionei a utilidade desse tipo de estatística num momento em que o noticiário está saturado de alertas e dedos em riste para nossas consciências.

Washington Novaes, responsável pela supervisão editorial pelo Repórter Eco, enviou mensagem neste 22 de outubro dizendo que ‘não há catastrofismo na informação de que uma pessoa, ao longo de 70 anos, pode usar 80 milhões de litros com a carne bovina que consumirá’. A informação, segundo ele, é do estudo ‘Water for People, Water for Life’, preparado por 29 agências da ONU para o Fórum Mundial da Água 2002. O estudo informa que para produzir um quilo de carne bovina são necessários 15 mil litros de água, em todas as fases: preparação e manutenção do pasto, produção de rações, dessedentação do animal, limpeza dos estábulos e dos frigoríficos etc.

Em resposta a Washington, afirmei que não questiono os números ou a fonte da matéria. O que continuo questionando é a utilidade desse tipo de argumentação, principalmente considerando o objetivo do programa, que suponho ser o de sensibilizar os telespectadores menos entusiasmados com a sustentabilidade. A própria conta que tentei fazer – aplicando a estatística a 60 milhões de brasileiros – ficou impossível, na calculadora e na planilha de Excel, porque não há zeros suficientes para seu resultado astronômico.

Na mesma resposta, defendi abordagens como a que o mesmo Repórter Eco fez na edição de 28 de maio, destacando o possível exagero na estatística sobre o número de anfíbios em extinção e o interesse de certas ONGs de usar esses números para forçar a obtenção de financiamentos. Esse tipo de postura, na minha opinião, é raro no debate atualmente carregado de emoção e extremismos, e certamente aumentou a credibilidade do Repórter Eco, mesmo entre os céticos e os que não fazem do ambientalismo uma questão prioritária.

Em novo email, Washington discordou, forneceu outras estatísticas – que não questiono – relacionadas à emissão de gás metano pelos bovinos e insistiu que os números ‘são absolutamente necessários para provocar a consciência do público – sociedade, governos, jornalistas – a respeito da gravidade dos problemas e da urgência de mudanças de comportamento’. Suas palavras: ‘Não há tarefa mais urgente que a de mostrar que estamos vivendo de forma incompatível com os limites do planeta, 25% além de sua capacidade de reposição de serviços e recursos naturais. É uma crise de padrão civilizatório. Não há tempo a perder’.

Respondi, finalmente, que não existe nada melhor do que diálogos como este que tivemos para que o telespectador, meu ‘patrão’, enriqueça suas reflexões sobre o assunto.

Vida que segue…

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Data venia

(Roda Viva, 20 de outubro)

O Roda Viva com o juiz espanhol Baltasar Garzón foi mais uma prova de que não se deve guardar uma entrevista por muito tempo. Os dois meses que se passaram entre a gravação, no dia 18 de agosto, e a exibição, nesta segunda, dia 20, obrigaram a equipe do programa a produzir uma nova abertura com Lilian Witte Fibe na qual ela explicava que parte do conteúdo já estava comprometida pelos fatos recentes enolvendo a abertura de investigações sobre os crimes de lesa-humanidade ocorridos na Guerra Civil Espanhola e durante o franquismo.

Apesar do prejuízo da ‘antiguidade’, acentuado por uma crise financeira que mudou para sempre não apenas a economia, mas a geopolítica mundial, a entrevista teve um início interessante, com os bastidores da espetacular prisão de Augusto Pinochet em Londres. Logo depois, no entanto, os entrevistadores convidados começaram a pedir explicações sobre o papel de Garzón no cenário jurídico internacional – e que poderiam estar num vt de apresentação – em vez de explorar os limites e contradições de sua atuação, como fez a jornalista Cláudia Antunes, infelizmente apenas no terceiro bloco. Cláudia quis saber sobre a relação entre justiça e poder, sobre os países que não aceitam as decisões do Tribunal Penal Internacional e sobre quais eram as possibilidade reais de, por exemplo, americanos serem levados à justiça internacional.

O próprio Baltasar acabou contribuindo para tirar o tempero da entrevista, ao fazer longas explanações jurídicas sobre o cipoal de instâncias, regimes, imprescritibilidades e conceitos que se entrecruzam no caminho dos que, como ele, tentam tornar os crimes contra a Humanidade efetivamente investigáveis e puníveis em qualquer país do mundo.

Pode ter sido interessante para juristas e estudantes de dirteito internacional, mas os telespectadores aos quais Garzón foi apresentado como ‘polêmico’, no início do programa, ficaram sem saber onde ficam a polêmica e também os críticos respeitados do juiz, na comunidade internacional.

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Entre o jornalismo e a histeria

(Jornal da Cultura, 20 de outubro)

O Jornal da Cultura fez o que o telespectador não hiptonizado pela histeria do Caso Eloá esperava. Primeiro, uma reportagem a cargo de Carmem Souto resumiu, de forma sóbria e equilibrada, o que nenhum telejornal brasileiro poderia ignorar na noite desta segunda-feira, 20 de outubro: o concorrido velório da adolescente, os desdobramentos das doações de seus órgãos pela família e as últimas informações sobre o andamento das investigações policiais.

Depois, em outra reportagem, esta a cargo de Laís Duarte, o jornal fez o que o telespectador da TV Cultura costuma pedir e apreciar nesse tipo de episódio: uma discussão sobre o comportamento da imprensa. A reportagem incluiu o registro das semelhanças do caso com o de O.J. Simpson, nos Estados Unidos, e com o recentíssimo Caso Nardoni, além de uma entrevista com o professor Laurindo Leal Filho, ouvidor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (TV Brasil), que identificou com precisão um comportamento ainda mais grave que o habitual desvio sensacionalista que casos como o de Eloá provocam: o fato de algumas emissoras terem entrevistado o sequestrador em paralelo, ainda durante a negociação com a polícia.

Laurindo foi feliz ao observar que, nessa conduta das emissoras, não estava presente nenhum dos pressupostos exigidos para a concessão de canais de TV aberta – educação, entretenimento e informação – mas intervenção no processo. O ideal, no entanto, era que ele – ou o texto da reportagem – citassem, se não as emissoras nacionais que cometeram o desvio ético, pelo menos as que recusaram este caminho, não importando, no caso, se por falta de oportunidade ou por orientação editorial pré-existente.

Finalmente, Renato Lombardi, o especialista da TV Cultura no assunto segurança, dissecou, uma a uma, as declarações do coronel encarregado da operação, questionando a permissão dada para que a amiga de Eloá voltasse ao apartamento, a invasão do local sem conhecimento prévio da existência do bloqueio da porta, e o fato de ter sido a PM, e não a Polícia Civil, a encarregada da negociação com o sequestrador.

Lombardi, no final, falou de um problema que, passada a histeria do Caso Eloá, continuará sendo uma grave ameaça para a segurança de todos os cidadãos de São Paulo e que, por esse motivo, é assunto obrigatório na pauta do Jornal da Cultura: a rivalidade entre as polícias civil e militar.’

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