Terça-feira, 23 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1047
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Ernesto Rodrigues

10/03/2009 na edição 528

‘Há um tipo de telespectador da TV Cultura – que lê jornal, tem acesso à Internet, possui TV por assinatura com canais internacionais de informação, lê publicações especializadas, frequenta cinema, vai de vez em quando ao teatro e viaja com regularidade – para quem o atual formato do Jornal da Cultura pode não oferecer grandes novidades ou atrativos. Esses telespectadores, integrantes de um contingente expressivo do público atual da TV Cultura, mas percentualmente minoritário no universo dos que assistem TV aberta, não deixam de ter razão, portanto, quando dizem que o Jornal da Cultura não ‘aprofunda’ os assuntos e fica parecido com os telejornais de outras emissoras.

Essa categoria de telespectador, no entanto, começa a perder a razão quando ignora duas premissas importantes. A primeira é a de que um telejornal, no Brasil ou em qualquer lugar, não pode ser nem um simpósio audiovisual diário sobre determinado assunto da atualidade, nem também uma revista eletrônica cheia de curiosidades divertidas, superficiais e sem relação com a realidade social, econômica e política.

A segunda premissa é a de que, no Brasil, os telejornais de todas as emissoras, somados, formam, juntamente com os programas jornalísticos do rádio, a única fonte de informação para milhões de cidadãos. Não é difícil, portanto, chegarmos à conclusão de que a TV Cultura, em sua missão de habilitar e dar instrumentos ao telespectador para o exercício da cidadania, deve levar mais em conta, na formulação do seu telejornal, as necessidades dos menos assistidos e não as dos que já estão razoavelmente bem-informados.

A edição do Jornal da Cultura de 4 de março, por exemplo, independentemente de seus momentos felizes ou não de texto, paginação e hierarquização, refletiu a prioridade para a maioria – os que só têm a TV aberta como fonte de informação. Tinha matérias que misturavam denúncia e serviço, como a que alertava sobre a gasolina adulterada vendida em São Paulo, a do sumiço dos ventiladores em meio ao calorão atual, a dos compradores compulsórios e a dos perigos de certos cosméticos sob o efeito do sol. Tinha também reportagens sobre a cena brasileira, como a do casal do Rio que foi jogado ribanceira abaixo depois de um assalto e a da denúncia de venda de cargos nas delegacias de Sao Paulo.

Tinha ainda o esporte nosso de cada dia, com a rodada de gols pelo mundo, a estréia de Ronaldo com a camisa do Corínthians e a sina de maus resultados do Palmeiras na Copa Libertadores. E o noticiário político, com a condenação do governador Jackson Lago e a chegada de Fernando Collor a uma presidência de comissão no Senado, e as últimas da crise econômica mundial. Tinha, finalmente, um flagrante espetacular que correu o mundo: o do guarda ferroviário que escapou milagrosamente da morte, ao ser atropelado por uma carreta.

Deixar a tarefa de informar os fatos importantes e interessantes do dia e os critérios editoriais implícitos da empreitada por conta das redes comerciais e seus telejornais, sob o discutível argumento de que ‘elas já fazem isso muito bem’ seria fugir de um dos principais compromissos da TV Cultura com os cidadãos de São Paulo. E, simbolicamente, entregar o conteúdo jornalístico do JC aos editores-chefes do Jornal Nacional, do Jornal da Record ou do Jornal da Band. Os três telejornais citados são muito parecidos, sim, entre si e com o atual Jornal da Cultura. As diferenças, no entanto, são preciosas, fundamentais e, principalmente, inegociáveis.

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Sr. Brasil, 3 de março

Não poderia haver, pelo menos na teoria, mistura mais arriscada, em termos de televisão: um palco de auditório longe das câmeras e meio na penumbra, uma tela relativamente pequena acoplada a um projetor conectado a um laptop, a pintura como tema e um público – no auditório e em casa – mais acostumado com MPB e música sertaneja do que artes plásticas. Apesar de todas essas contra-indicações de formato, o Sr. Brasil de Natal, reapresentado no dia 3 de março, foi um exemplo de como podem ser elásticos os formatos para a TV.

Aconteceu na bela homenagem de Rolando Boldrin à vida e à obra de Cândido Portinari. Quem estava em casa, mais do que os que assistiram ao vivo, diga-se, no auditório do Sr. Brasil, fez uma emocionante viagem sensorial pela obra de Portinari, através do mergulho da câmera (provavelmente de um documentário) nos detalhes de dezenas de quadros e painéis do artista, com a ajuda de uma ótima trilha sonora e dos comentários entusiasmados feitos no palco, em torno de uma mesa singela, por João Cândido Portinari, filho do pintor e convidado de Boldrin.

Em dois momentos do programa – antes e depois da apresentação do cantor Luís Melodia, estrela da noite – muitos telespectadores do Sr. Brasil que nunca foram a um museu ou jamais folhearam livros de arte tiveram uma real oportunidade de saborear e se emocionar com aqueles cangaceiros, índios, crianças, vaqueiros, peões, palhaços, circos, praças, coretos, igrejas e sertanejos retirantes que já fazem parte da história da pintura latino-americana e mundial. E que são, como lembrou João Cândido, citando Carlos Drummond de Andrade, ‘testemunho e resgate’ do Brasil.

Quem disse que o popular e o erudito são incompatíveis? Quem disse que uma tv pública não pode ser uma ponte entre esses dois mundos?

Publicidade

Os adversários radicais da presença de qualquer tipo de publicidade na televisão poderiam prestar atenção na peça que o Instituto Akatu está veiculando na TV Cultura. A embalagem do anúncio é típica da propaganda barulhenta e pouco sofisticada de varejo, muito comum no horário nobre, mas o que se vê é iogurte vencido, mamão mofado, peixe fedido, maminha estragada e mexerica passada, tudo seguido de um hilariante jingle que diz que ‘um terço de tudo que você compra vai direto para o lixo’. Dificilmente outro formato de comunicação causaria tanto impacto para conscientizar o telespectador sobre as possibilidades de redução do desperdício de alimentos.

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Noites Clássicas, 3 de março

Para os telespectadores iniciados em música erudita, a estréia do programa Noites Clássicas, com o concerto da Orquestra Acadêmica, sob regência do maestro Ronald Zollman, em gravação realizada no auditório Claudio Santoro, em julho de 2008, durante o Festival de Inverno de Campos do Jordão, foi uma benvinda retomada de um tipo de conteúdo do qual uma fração atuante do público da TV Cultura vinha sentindo muita falta e, aliás, deixando esta reivindicação muito clara em vários email enviados a este ombudsman.

Já para aquele telespectador apenas potencialmente interessado em música clássica – como muitos de nós fomos em algum momento da vida – a forma com que o Noites Clássicas entrou no ar – uma vinheta clássica, seguida da Suíte Romeu e Julieta, de Sergei Prokofiev – foi muito pouco estimulante. Faltou um rosto conhecido que, com duas ou três frases de apresentação, chamasse a atenção desse telespectador não muito disciplinado para a importância do novo programa.

Faltou também uma contextualização do concerto da noite, que poderia ser feita com outras duas ou três frases de especialistas em música clássica como, por exemplo, os jurados do programa Prelúdio, facilitando, seduzindo e puxando pela mão os telespectares mais hesitantes diante da viagem musical erudita. Até porque havia uma primeira audição mundial de um encontro da música com a literatura machadiana – ‘Olhos de Capitu’e ‘Modinha para Machado’, de João Guilherme Ripper – sobre a qual os telespectadores só foram informados no início do segundo bloco, por meio de caracteres.

É claro que tais providências não transformariam o Noites Clássicas num fenômeno de audiência. Todos sabemos que o tipo de conteúdo do programa não é para muitos, definitivamente. O que se propõe aqui é que a emissora pelo menos facilite e incentive a iniciação de quem contempla essa possibilidade e está com um controle remoto à mão. Afinal, ninguém, incluindo os iniciados que hoje não precisam desse tipo de mão estendida, nasce pronto para saborear, sinceramente, um concerto de música clássica.’

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