Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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ENTRE ASPAS >

Ernesto Rodrigues

24/03/2009 na edição 530

‘Mais do que nos trazer de volta momentos reveladores da personalidade de Elis Regina e o forte contraste entre a estrela brilhante e a mulher sofrida, o Especial Cultura exibido no dia 19 de março mostrou que certos formatos do passado poderiam ser retomados. Os trechos exibidos do programa Vox Populi gravado com Elis nos anos 70 são uma prova de que é possível fazer uma entrevista que, além de inteligente, abrangente e respeitosa, contenha todas – ou quase todas – as perguntas indigestas ou delicadas que devem ser feitas aos entrevistados.

Apesar da cenografia algo esquisita para os padrões de hoje – um entrevistador de óculos escuros, diante de monitores com a imagem da entrevistada no switcher da emissora – Elis foi colocada diante de questões polêmicas através de perguntas feitas por gente da rua, jornalistas e artistas. Por conta desse formato, ela revelou, sem retoques, suas desavenças com outros músicos, seus desafetos e, por exemplo, a opinião devastadora que tinha sobre os musicais de TV da época.

Isso tudo sem que o programa deixasse de ter, também, ao lado de algumas interpretações históricas da cantora, momentos hilariantes. Um deles foi a interminável gargalhada de Elis diante da mulher que, entrevistada na rua, quis saber se os dentes dela eram verdadeiros ou se ela usava dentadura. Quem, no estúdio, teria coragem de fazer uma pergunta dessas à cantora?

O espírito livre e eclético do Vox Populi continua sendo, por essa e por outras, uma referência e uma inspiração para quem quiser criar conteúdos de qualidade para televisão.

Para todos

O episódio da série ‘Cultura é currículo’ sobre a Estação Pinacoteca , uma competente viagem de câmera, edição e texto que mostra tudo que esse espaço oferece aos paulistanos sobre arte e História do Brasil – incluindo o Memorial da Resistência – não usou o recurso da dramatização, presente em outros momentos do projeto. Por isso, talvez tenha sensibilizado um número maior de telespectadores. O tom mais de documentário em pílulas – e menos de programa didático voltado para o público infanto-juvenil – tem uma vantagem: atinge aquela parcela do público adulto que teve educação precária ou inexistente, sem deixar de despertar o interesse em boa parte dos jovens.

***

De tribo em tribo, 20 de março

‘A educação é a melhor alternativa pra se comunicar e para se defender’. A abertura de Marcos Palmeira, com uma flecha em uma mão e uma caneta na outra, fazendo uma comparação entre as duas ‘armas’ de que os índios brasileiros dispõem para defender sua própria integridade, não foi apenas exemplo perfeito do que poderia ser feito com mais frequência no início de vários programas da TV Cultura. Foi também uma sinalização muito benvinda de que o que estava para ser exibido era um documentário que iria além da visão de ‘jardim antropológico’ que permeia muitos trabalhos e que tanto afasta, da causa indígena, importantes setores da população brasileira.

O documentário ‘Educação escolar indígena’, produzido por Lucy e Paula Barreto, da LC Barreto com patrocínio da Petrobras, não tem, notoriamente, ambições estéticas ou narrativas revolucionárias. E seu conteúdo – a luta dos índios por uma educação que não os massacre culturalmente – não é novidade para os militantes e simpatizantes mais intensamente envolvidos com a causa indígena. Em compensação, a corretíssima captação de áudio, a direção de fotografia profissional, a preocupação didática, os depoimentos enxutos, a existência de uma narração quase sempre em português que dispensa o fardo das legendas, o uso de imagens de arquivo marcantes relacionadas aos índios brasileiros, a trilha sonora quase sempre envolvente e o roteiro seriamente preocupado com o ritmo e a gramática da TV aberta, tudo isso certamente contribuiu, salvo se este ombudsman for categoricamente desmentido pelo Ibope, para que o A’Uwe ampliasse um pouco mais o seu público.

Isso significa, como devem temer os especialistas da causa, que o A’Uwe teria de seguir sempre essa cartilha mais pragmática de documentário em seus temas e formatos? Na opinião deste ombudsman, não necessariamente. Como em muitos outros processos da vida, o que funciona, na conquista do público de TV aberta, pelo menos no Brasil, é um movimento pendular, uma alternância de avanços, ousadias e complexidades com temas e formatos mais comprometidos com o ecletismo e a conquista e consolidação de novos públicos.

‘Educação escolar indígena’, apesar de sua duração ter aberto espaço para vários momentos repetitivos, se enquadrou na segunda categoria. Sua fluência predominantemente de TV aberta, no entanto, certamente contribuiu para que o barco do programa faça travessias temáticas e narrativas mais difíceis, levando, na viagem, um contingente cada vez maior de telespectadores.

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Piratas, sumiços e telespectadores, 20 de março

O Metrópolis de 18 de março teve dois momentos que certamente gratificantes para o telespectador. Primeiro, a façanha do grupo Massaroca, que, ao construir uma crônica certeira sobre a polêmica em torno da pirataria na Internet, não caiu nem no discurso oportunista e algo policialesco da indústria do entretenimento nem no convite inconsequente, irresponsável e também oportunista dos que defendem o download irrestrito e o salve-se quem puder, no que diz respeito aos direitos autorais. A síntese desse olhar agudo e ao mesmo tempo divertido dos massarocas foi o momento em que o personagem pirata adverte um interneteiro com o seguinte slogan: ‘Pirataria ilegal é crime’

O outro momento especial foi o belo perfil construído pela edição em torno da breve mas simpaticíssima entrevista de Liza Minnelli a Domingas Person. Estavam lá, junto com o registro da vida pessoal cheia de tombos e casamentos infelizes da cantora, a obrigatória citação de sua histórica performance no filme ‘Cabaret’, trechos de algumas de suas interpretações antológicas e a informação, certamente surpreendente para muitos, de que Liz é uma das poucas artistas do showbiz americano que levou para casa o Oscar, o Grammy, o Tony e o Emmy. O Metrópolis não poderia ter tido um ‘boa noite’ mais saboroso.

Ih! Sumiu!

Os telespectadores eventuais e a legião de fãs arrebatados do Pé na Rua mereciam – e continuam merecendo – um aviso prévio e uma explicação para a súbita mudança no horário de exibição do programa.

Momento ombudsman

O futuro da Tv Cultura virou assunto mais uma vez na mídia impressa paulista. A propósito, transcrevo um email que recebi do telespectador Victor Menezes. Não temos, é claro, de concordar com todas as opiniões que ele expressa e com as sugestões que faz. Mas Victor merece ser ouvido e lido por ser uma prova viva e inteligente de que o telespectador da TV Cultura – este ser em nome do qual tanto falamos e escrevemos aqui – também zela, e muito bem, pelos destinos da emissora. Ao email:

‘Olá! Escrevo para comentar a breve matéria que saiu hoje no jornal Folha de São Paulo a respeito da TV Cultura. Caro Ernesto, eu também tenho tido, enquanto telespectador, algumas críticas a respeito do canal, mas estou aqui também para ser solidário a uma emissora tão importante na minha formação como ser humano desde o Bambalalão. Não sou grande entendedor do assunto, mas gostaria de comentar algo, mesmo estando equivocado quanto aos mecanismos de funcionamento da diretoria. Em relação ao conselho, 47 conselheiros me parece um número grande mesmo e que talvez emperre um pouco a agilidade nas tomadas de decisão. Mas o que gostaria de saber e/ou sugerir é se há ou que haja alguns representantes civis, pessoas comuns que costumam assistir à programação da TV, assim como eu, pois somos nós que podemos opinar sobre o que funciona ou não ao nosso gosto de \’consumidores\’ de cultura.

Atualmente tenho sentido a TV Cultura um pouco elitizada, tanto que, quando vejo o anúncio do restaurante/café do Quintas do Museu, sinto que está bem a cara do canal nos dias de hoje. Mesmo havendo programas como o ‘Manos e Minas’, a Cultura tem me parecido um canal voltado para a classe média alta paulistana, os intelectuais, acadêmicos, artistas, empresários etc. da grande cidade, esquecendo muitas vezes que se trata de uma representante do estado de SP e que no interior também encontramos muitos formadores de opinião. Não digo que os programas têm que tratar mais do interior, não é bem isso, mas o foco tem de deixar de ser essa elite que na verdade sequer assiste realmente aos programas veiculados na TV. Por outro lado, ao contrário do que alega o Secretário de Estado das Relações Institucionais, José Henrique Reis Lobo, a questão da audiência é algo mais profundo, digamos. Não é a qualidade dos programas que não atrai o público.

Ao contrário, acredito que a maior parte da programação é de alta qualidade, apesar de algumas reformas com as quais não compactuo muito, como no caso do Zoom que poderia ser como era antes e fazer deste novo formato um outro programa, uma revista de cinema, deixando o zoom ser o travelling in das produções independentes, mantendo o espaço para os novos. Mas como se pode medir a audiência em TVs a Cabo e parabólicas? No jornal, falam da audiência na grande SP e aí vocês têm uma maior diversificação de oferta de canais a cabo, coisa que não ocorre no interior, onde temos uma ou no máximo duas ofertas. Acredito eu que o problema é mais da educação do povo em geral que da programação da TV. Além disso, é uma questão de qualidade na imagem, detalhe em que poderia se haver mais investimentos, pois aqui no interior (eu moro em Jacareí, vale do Paraíba, cerca de 78km da capital) a qualidade da imagem é ruim, o canal às vezes sai do ar e sempre há uma interferência que aparece nas imagens.

Escrevo às pressas pois ainda vou levar minha filhinha à escola. Mas é mais ou menos isso o que gostaria de dizer a vocês. Parabenizar pela qualidade dos programas, mas criticar a elitização da programação. Comentar que, se o tempo é de crise e o governo quer cortar gastos, deveria pensar melhor de onde tirar verba, uma vez que a TV pública deste estado é um reflexo da qualidade do governo estadual, e pensar que há salários altos demais entre os representantes da população que ocupam os cargos executivos, legislativos e judiciários. Ah, antes de finalizar, Ernesto, gostaria apenas de deixar uma crítica: enquanto TV pública, acredito que a Cultura não deveria veicular missas católicas, pois é um canal feito para todos, sem distinções (ou não?). Ou transmite de todas as religiões existentes no país (o que seria inviável) ou então nenhuma, pois não vejo conexão entre uma missa católica e a proposta de uma TV pública séria(ou mista, que seja).

Quanto à Folha, acho até engraçado que, apesar de ser um jornal de iniciativa privada, mas antes conhecido pela formação de opinião desvinculada da direita, a matéria \’TV Cultura sob pressão\’ tenha a mesma quantidade de colunas redigidas que a propaganda da (eticamente questionável) Daslu. Essas são minhas opiniões, críticas e elogios. Obrigado pelo espaço. Abraço, Victor’

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Vitrines e navalhas, 18 de março

O making of da transmissão em tv digital do primeiro concerto da OSESP sob regência e direção do maestro Ian Pascal Tortelier teve um tom de expectativa que talvez tenha sido um pouco exagerado para uma abertura de temporada normal, o que evidenciou ainda mais a abordagem convencional que não combinou com o estilo criativo das matérias do Vitrine. A reportagem, a propósito, passou apenas perto do que poderia ser um enfoque raro: o registro e a explicação de como funciona, no switcher da transmissão, a direção musical do espetáculo. Aquela através da qual as câmeras e o corte do diretor de TV parecem seguir a partitura do concerto.

O quadro ‘Retrato’, com um ensaio de tv sobre o olhar do fotógrafo Aurélio Becherini para São Paulo, ‘a cidade da poesia de Mário de Andrade’, repetiu a receita – e o sabor – de outras retrospectivas fotográficas, com um pequeno reparo: a pressa com que algumas fotos foram mostradas na edição. O texto correto, a narração elegante e a passagem competente da correspondente Carol Campos no bem-editado perfil de Paulo Szot, o primeiro ator brasileiro a ganhar o Tony, o ‘oscar’ do teatro americano, deve ter deixado muito telespectador do Vitrine na expectativa de novas matérias novaiorquinas da repórter.

E Andréa Beltrão encheu de simpatia e simplicidade o último bloco do programa, na boa entrevista para Sabrina Parlatori.

A faca os gumes

A entrevista com o presidente da GM, Jaime Ardila, ao Roda Viva de 16 de março transcorreu quase toda num fio de navalha editorial. De um lado, deu oportunidade ao telespectador de ver como a gigante americana está tentando sobreviver às suas contradições e à crise, além de saber o que pode acontecer no mercado brasileiro de carros e empregos. De outro, abriu espaço para um ousado executivo que, longe de ser bobo, aproveitou a arriscada exposição para, literalmente, vender o peixe, os modelos, a qualidade e o futuro feliz que, segundo ele, espera os clientes da GM.

A boa audiência do programa – maior até que a do programa anterior, com o técnico Dunga – foi um indício de que valeu a pena correr o risco editorial. Até porque ninguém agüentaria ficar muito tempo assistindo – ou, no caso, ouvindo – propaganda de automóvel.’

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