Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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VOZ DOS OUVIDORES >

Ernesto Rodrigues

08/09/2009 na edição 554

‘Depois de experiências recentes do projeto Direções que se mostraram no mínimo inadequadas, em formato e linguagem, para o ambiente em que a comunicação efetivamente se realiza na TV aberta – TV aberta brasileira, é sempre bom lembrar – é gratificante constatar que a minissérie ‘Trago Comigo’, dirigida por Tata Amaral, recolocou o programa no que este ombudsman e, com certeza, boa parte dos telespectadores consideram ser uma absoluta sintonia com o objetivo expresso do programa de buscar um novo caminho na teledramaturgia.

O roteiro instigante, a produção esmerada, a fotografia sensível, a qualidade do áudio e o ritmo de edição – aspectos tão negligenciados em tantos programas pretendentes à condição de arte, dentro e fora da TV – fazem da viagem dramática do ex-militante Telmo Marinicov ao passado através do teatro um legítimo conteúdo de televisão. Mesmo quando a diretora e o elenco liderado por Carlos Alberto Ricelli se lançam ao enorme desafio que é, para qualquer realizador, reconstituir, com teledramaturgia, o terror dos porões da ditadura.

Nem sempre o elenco dá conta desse desafio, principalmente quando o público é levado a uma comparação das dramatizações e monólogos com os relatos estarrecedores de ex-militantes de verdade cujos depoimentos pontuam a minissérie. São, no entanto, detalhes que não comprometem a vocação da minissérie para a TV e para o horário em que ela foi exibida. Nem nos impedem de sentir o notório compromisso dos realizadores de levar, junto com eles, nessa viagem, os telespectadores que tiveram a idéia – e, no caso – a sorte de sintonizar o Direções III.

***

Quem? Quando? Onde? Como?, 3 de setembro

O programa Móbile continua sendo um emblema do baixo ou inexistente índice de preocupação, de boa parte dos responsáveis pelo conteúdo da programação adulta da emissora, com um mínimo de inteligibilidade e de contextualização – artística, musical ou jornalística, não importa – para os telespectadores que não tiveram ou não têm o privilégio de uma educação e uma formação cultural de maior qualidade.

Não é difícil imaginar que a maioria dos ‘sem-berço’ que eventualmente sintonizaram o Móbile exibido no dia 2 de setembro tenha ficado sem saber quem foi Jaime Ovalle, o biografado do escritor e entrevistado Humberto Werneck. Faltou ainda, para os não iniciados, além do áudio das perguntas – como sempre – um mínimo de informação sobre Vladimir Herzog, cujo assassinato foi lembrado no comovente relato da viúva Clarice, e Teotônio Vilela, homenageado por Fafá de Belém em seu depoimento. Para não falar de entrevistados virtualmente desconhecidos do grande público como Newton Moreno, Diogo Franco, Mário Manga e Lavínia Pannunzio, que precisavam e mereciam pelo menos serem apresentados.

As exceções aconteceram com o entrevistado Eduardo Tolentino que, instado por uma pergunta mais uma vez inaudível, mas generosa, fez o favor de contar, logo no início da conversa, um pouco dos 30 anos de história do grupo Tapa de teatro, e na iniciativa do programa de legendar um clipe de Lily Allen. A ironia, neste caso, é que o título do clipe, corretamente traduzido nos créditos como ‘Foda-se’, transformou-se num enorme título em inglês – ‘FUCK YOU’ – na última imagem do programa, antes dos créditos finais da equipe.

Alguns poderão dizer que o Móbile, como sugere o texto de abertura repetido nas voltas dos intervalos, é mesmo feito para iniciados. E ponto.

Outros, no entanto, poderão argumentar que os iniciados não precisam de uma emissora pública para um deleite ao mesmo tempo tão exclusivo e tão deliberadamente afastado dos milhões de telespectadores ‘sem-berço’ da TV aberta.

O que será?

Transcrevo email recebido do telespectador Antonio Cezar Tramontini por entender que o problema que ele relata não deve ser apenas dele e também por acreditar que a área técnica da emissora possa explicar e ajudar a resolver:

‘Ao Ombudsman:

Algo de errado acontece com os vídeos do sítio da Cultura. Som entrecortado (pipocado). Assisto a todos os vídeos de outros sítios perfeitamente, com raras exceções. A porcentagem de carregamento da imagem corre sem parar.

Abraço’

***

Clarice para todos, 2 de setembro

Em sua luta diária com outros eletrodomésticos e estímulos pela atenção e pela fidelidade dos donos da casa, a televisão costuma funcionar mais quando combina assuntos, personagens, conflitos, desejos, dúvidas e aflições mais próximas e urgentes do telespectador. Às vezes, ela cumpre esse ‘destino’ com arte e talento, como no episódio da série ‘Tudo o que é sólido pode derreter’ em que a temática e personagens ‘telegênicos’ foram somados ao primoroso roteiro inspirado no livro ‘Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres’, de Clarice Lispector, e a uma ótima interpretação do elenco.

‘A verdade é que eu não tenho cara de ver o João depois de ter ficado com ele.’ Esta frase, já no primeiro minuto, certamente estabeleceu uma empatia imediata do telespectador jovem com a descoberta do mundo de Clarice Lispector por Thereza, quando ela encontra trechos de uma entrevista da escritora num vídeo da família. A partir daí, dificilmente os jovens sintonizados tiram os olhos da telinha, principalmente na espécie de ‘making of’ dos sentidos que foi no encontro de Thereza, maquiada e suada, com João, o rapaz com quem ela tinha ‘ficado’ na noite anterior, e na seqüência final do encontro dos dois, quando uma frase de Thereza sintetizou o acerto absoluto desse encontro entre a literatura de Clarice Lispector e a teledramaturgia:

‘Foi aí eu entendi porque o livro tinha aprendizagem no nome. Era sobre a gente aprender a ser quem a gente é. Ser e renascer dentro da gente mesmo’.

É por este e outros episódios que é uma pena, pena mesmo, que a série tenha sido tão curta.

Sensibilidade histórica

Além de fazer uma abertura em que o assunto eleito como o principal do dia foi a presença das feridas ainda existentes entre poloneses, russos e alemães na cerimônia que lembrou os 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, o Jornal da Cultura resgatou – no caso, com muita propriedade – através da reportagem de Carmen Souto, um importante ‘cacoete’ dos tempos ‘analíticos’ do telejornal: além de dar o factual do aniversário da guerra, a matéria contou com uma entrevista do ex-pracinha Jairo Junqueira da Silva, dando a perspectiva brasileira no conflito, foi enriquecida com a contextualização feita pelo historiador Osvaldo Coggiola e ainda trouxe à luz, dos arquivos da emissora, nas palavras – infelizmente apenas legendadas e não creditadas – de Joseph Goebbels, o ministro da propaganda nazista, uma impressionante antevisão do genocídio que se seguiria ao dia 1º de setembro de 1939: ‘Um dia nossa paciência chegará ao fim e então a boca atrevida e mentirosa dos judeus será calada’.

Faltou explicar

Por uma questão de clareza, principalmente em função do teor potencialmente controverso da tese em que relaciona o recorde de furtos e roubos em São Paulo com o desentendimento entre policiais civis e militares durante a greve da Polícia Civil ocorrida no final de 2008, o entrevistado José Vicente, identificado pelo Jornal da Cultura como ‘especialista em segurança pública’, bem que poderia ter sido creditado como José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública no governo Fernando Henrique Cardoso.

Caberia a cada telespectador – e a ninguém mais – decidir se a participação do coronel no jornal foi técnica ou político-partidária.’

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