Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > TV CULTURA

Ernesto Rodrigues

26/08/2008 na edição 500

‘Nossa Língua, 21 de agosto

O programa Nossa Língua decidiu investir em entrevistados que contribuam para que ele seja uma experiência rica, saborosa e também única, na grade da TV Cultura, no que diz respeito aos segredos, desafios e prazeres da língua portuguesa. Em vez de jovens músicos do rock e da MPB, frequentadores já habituais do Metrópolis, do Vitrine, do Radiola, do Manos & Minas e do Alto-Falante, entre outros programas da emissora, o Nossa Língua agora tem convidado profissionais como o escritor e jornalista Laurentino Gomes e o roteirista Bráulio Mantovani. Entrevistados que, pelo menos potencialmente, têm muito a dizer sobre o uso da língua.

Corrigido o foco, vale sugerir que o programa agora cuide de evitar o que aconteceu na edição de 21 de agosto, quando o tom e o ritmo excessivamente acadêmicos de José Carlos Azeredo, professor-doutor em Língua Portuguesa da Uerj, ao falar sobre o acordo ortográfico, obrigou o professor Pasquale a fazer algumas intervenções para ‘traduzir’ o que ele dizia. Como, por exemplo, explicar a diferença entre as ortografias etimológica e fonética.

É preciso dizer, também, que o carisma, o senso de humor e o inquestionável domínio que o professor Pasquale revela, ao tratar da língua portuguesa, continuam não sendo suficientes para compensar algumas precariedades importantes do Nossa Língua, se considerarmos sua condição de conteúdo de TV aberta que é exibido às oito da noite, o horário mais intensamente disputado em termos de audiência.

Precariedades como o formato pouco competitivo de aula de telecurso e, como já salientei em análises internas anteriores, a falta de um mergulho mais criativo nos recursos e formatos que a gramática da televisão oferece, como os videografismos, a produção em campo, o uso intenso de arquivo jornalístico e as citações audiovisuais do cinema e do teatro. Os quadros ‘Desafio’, ‘De onde vem?’ e ‘Dúvida frequente’, por exemplo, têm conteúdos interessantes, mas são praticamente idênticos no formato e na aparência visual.

Talento e carisma à parte, haja professor Pasquale para compensar ou substituir tantas demandas. Por isso, sempre em nome de uma utilidade e um alcance maior do conteúdo da TV Cultura, algo precisa ser feito para que o programa prospere nesse horário impiedoso da TV aberta.

Altos e baixos

Conheça os pontos positivos e negativos da programação exibida na última semana. Saiba quais atrações da TV Cultura ganharam destaque e as que ainda podem melhorar.

Do Bope a Shakespeare

(Provocações, 15 de agosto)

Não poderia ser diferente: o encontro de Antonio Abujamra com Wagner Moura, respectivamente cardeal e estrela dos nossos palcos e telas, resultou em um Provocações divertido, bem-humorado e revelador tanto do entrevistado quanto do entrevistador. Como no momento em que ambos discordaram sobre o filme ‘Tropa de Elite’.

Flagrantes da guerra

(Jornal da Cultura, 14 de agosto)

Os flagrantes da violência dos soldados russos contra jornalistas e cidadãos georgianos – aproveitados em todo o seu potencial de áudio e vídeo pela equipe do Jornal da Cultura – são prova da importância da arriscada e sofrida presença da imprensa independente nos cenários de guerra. E de que o material das agências de notícias pode ser muito bem aproveitado pelos telejornais.

Coisas do João

(Metrópolis, 14 de agosto)

Com João Gilberto em São Paulo – e ainda sem ter imagens do show por causa de mais um atraso sensacional do ícone da Bossa Nova – foi ótimo que o Metrópolis tenha ido aos arquivos da TV Cultura para resgatar algumas das históricas saias-justas e também os sobe-sons geniais do mais imprevisível músico brasileiro depois de Tim Maia.

Massaroca

(Metrópolis, 13 de agosto)

A crônica do grupo Massaroca inspirada nas Olimpíadas de Pequim mostrou que a pegada dos criadores do quadro continua boa. Resta torcer para que eles a mantenham, agora toda quarta-feira, no Metrópolis.

Pais & Filhos

(Entrelinhas, 12 de agosto)

A matéria de abertura do Entrelinhas de 12 de agosto foi mais uma feliz mistura de sensibilidade jornalística com uma linha editorial comprometida com a desmistificação e a aproximação do sagrado ‘mundo literário’ do telespectador comum, sem medo e com prazer. A crônica sobre a relação de três filhos de escritores com seus respectivos pais, ainda que restrita a três personagens – Bia Corrêa do Lago (filha de Rubem Fonseca), Antonio Prata (filho de Mário Prata) e Cid Campos (filho de Augusto de Campos) – foi reveladora e interessante, além de bem-editada. A propósito, vale destacar uma pérola de Bia sobre Rubem Fonseca: ‘Ele passou a vida dizendo: pelo amor de Deus, não quero ter filho debilóide, otário, arigó…’.

Cochilo

(Programação, 13 de agosto)

No ‘a seguir’ do programa Repórter Eco desta quarta-feira, dia 13, a imagem que aparecia identificando o que o telespectador veria era da apresentadora Flávia Lippi, que já se despediu do programa e não trabalha mais na emissora.

Fora de sincronia

(Cultura é Currículo, 11 de agosto)

Quem assiste à programação da TV Cultura via TV por assinatura vive se irritando com uma persistente falta de sincronia entre áudio e vídeo, que costuma ser mais intensa na volta dos intervalos e mais perceptível quando a tela mostra, de perto, movimentos labiais das pessoas. Algo tem de ser feito para acabar com esse enorme desconforto.

Currículo difícil

(Cultura é Currículo, 11 de agosto)

No episódio sobre o Centro Cultural Banco do Brasil, mais uma dramatização inverossímil e um texto excessivamente acadêmico e inadequado para a TV. A inadequação se agrava ainda mais se considerarmos o objetivo do Cultura é Currículo, explicitado já no próprio nome. Exemplo: num determinado momento, a atriz que fazia o papel de guia de um ator que interpretava um paulista do início do século acompanhado da filha, disse o seguinte: ‘O que era mais importante para o Banco do Brasil era mostrar que o ferro e o café podiam conversar entre si. Era uma forma de unir a aristocracia paulista com a burguesia emergente dos imigrantes’. Interessante e compreensível para uma platéia da USP, por exemplo. Já para o horário nobre da TV aberta, um conteúdo como esse deveria ser muito mais trabalhado em termos didáticos.

Homenagem hesitante

(Roda Viva, 11 de agosto)

A conotação de homenagem aos 90 anos de Armênio Guedes deu um tom cerimonioso e um ritmo hesitante ao Roda Viva. Ficou uma dúvida: será que a presença do governador José Serra no estúdio – revelada no final do programa – teve alguma influência? Algumas perguntas excessivamente abrangentes e rebuscadas deixaram o velho dirigente comunista à beira da perplexidade e com uma notória dificuldade de iniciar as respostas. A longa carreira e o pensamento atual de Armênio acabaram sendo tocados de forma apenas fragmentada. E com o complicador de quase todos, no estúdio, usarem o dialeto da esquerda da segunda metade do século passado – nem sempre muito claro para as novas gerações – para encaminhar a conversa. Em vários momentos, por exemplo, Armênio falou como se estivesse em uma reunião de comunistas na clandestinidade.

***

Desafios de domingo (21/8/08)

Grade dominical da TV Cultura

Quem trabalha com TV aberta aprende a imaginar, obviamente sem qualquer rigor científico, mas baseado no dia-a-dia implacável dos resultados concretos de audiência, que, aos domingos, nos lares brasileiros que não dispõem de tv por assinatura – atualmente 88% deles – existe uma família fictícia, disputando ou compartilhando democraticamente o controle remoto da televisão, que é quase sempre a única da casa.

Muito provavelmente, de acordo com essa arriscada projeção estatística, ninguém assina jornal nessa casa fictícia. Computador, se ele existe e foi montado na sala, deve estar a serviço de apenas um dos residentes, quase certamente um jovem. Ir ao cinema não é exatamente um costume nessa casa. Menos ainda dedicar-se a leituras não diretamente relacionadas com trabalho ou estudo.

Em períodos que não sejam atípicos, como os atuais jogos olímpicos, para quem fica em casa entre a tarde e o final da noite de domingo, costumam prevalecer, nas emissoras comerciais de TV aberta, transmissões de futebol, programas de auditório dominados por um determinado tipo de música e revistas eletrônicas cuja marca registrada são os formatos ágeis de entretenimento e o ecletismo absoluto. Independentemente, claro, da relevância cultural ou da qualidade desses conteúdos.

Gostemos ou não, essa receita, diz a soma da média de audiência dominical das três principais redes comerciais, faz grande sucesso aos domingos. E o fato de a TV Cultura seguir parâmetros e compromissos de conteúdo bem diferentes dos que determinam o perfil da grade dominical das outras emissoras abertas não muda outra realidade: a de que é prioritariamente nessa casa fictícia que a TV Cultura deveria causar mais impacto e conquistar uma audiência que a tirasse dos minguados índices atuais. Refletir sobre a grade dominical da TV Cultura é, portanto, uma boa oportunidade de enfrentar esse desafio sem medos ou preconceitos.

No domingo passado, por exemplo, os acontecimentos de um dia na aldeia Waimiri Atroari, mostrados no programa ‘A’Uwe’, a vida das capivaras, destrinchada no ‘Tudo sobre animais’, a obra musical de Moreira da Silva, cantada em ‘Mosaicos’, o pensamento do filósofo e psicanalista Daniel Lins sobre a alegria, exposto no ‘Café Filosófico’, e as idéias de Antunes Filho sobre o teatro, mostradas em série especial com o dramaturgo, ocuparam cerca de cinco horas do horário nobre. Média de uma hora para casa assunto.

Conteúdos legítimos, sem dúvida. Não é precipitado dizer, no entanto, que, devido ao peso dos formatos, à natureza não muito eclética dos assuntos, à falta de conexão imediata dos temas com a atualidade daquele domingo e, principalmente, ao tempo colossal destinado a eles em termos de televisão, dificilmente aquela tv da casa fictícia ficou sintonizada na TV Cultura.

Não querer refletir sobre essa situação, confiando apenas na legitimidade da escolha temática e sem preocupações com a dosagem de tempo para esses temas, é continuar contando apenas com públicos ‘militantes’ e comprovadamente reduzidos. E com a prestigiosa e também comprovadamente rarefeita audiência das classes mais abastadas. Isso, claro, se elas não estiverem na praia, no sítio, no cabo, na Internet, no teatro, no DVD, no cinema ou, convém nunca esquecer, nos braços despretensiosos do Faustão.

***

O que deu errado? (20/8/08)

(Roda Viva, Ayann Hirsi Ali, 18 de agosto)

Os índices de audiência do programa Roda Viva desta segunda-feira, dia 18, com a escritora Ayann Hirsi Ali – uma personagem inegavelmente interessante por sua luta contra a opressão das mulheres, pelas ameaças que sofre dos radicais islâmicos e pelo fato de ter sido a mais famosa entre milhões de muçulmanas submetidas ao sombrio ritual da extirpação de clitóris – não foram tão bons quanto se esperava.

Quem entende do assunto, dentro da TV Cultura, acha que a audiência baixa possa ter tido alguma relação com o fato de o programa ter sido falado em inglês, com legendas em português. E com a interminável pergunta-tese feita, logo no início do programa, por Demétrio Magnoli, um dos entrevistadores convidados. Como Ayann Hirsi Ali foi eficiente e clara em suas respostas, não decepcionando quem queria conhecer mais seu perfil e seu pensamento, é bastante provável que os fatores citados tenham mesmo pesado na audiência modesta.]

Para enfrentar esses problemas, duas sugestões foram dadas e, espero, já devem ter sido aproveitadas na entrevista gravada ontem, dia 19, com a escritora Samantha Power, biógrafa do falecido embaixador brasileiro Sérgio Vieira de Mello, para ser exibida na próxima segunda-feira, dia 25. Uma delas é o uso de letras maiores nas legendas, para atenuar a tradicional falta de disposição ou incapacidade dos telespectadores brasileiros em relação a esse recurso. E uma ênfase maior na preparação dos entrevistadores convidados, reforçando seu papel de ilustres coadjuvantes e reiterando o pedido para que suas perguntas sejam mais curtas e objetivas.

É muito animador perceber que as duas sugestões para enfrentar dois problemas tão típicos da TV aberta no Brasil tenham partido de dentro, e não de fora, da TV Cultura.

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Um puro-sangue (19/8/08)

(‘Luta na terra de Makunaima’, a ser exibido quinta, 21 de agosto)

Às vezes o ombudsman pode – e deve – trabalhar com o que ainda vai ser exibido, desde que não esteja envolvido de alguma maneira com o programa. E a feliz decisão da emissora de reprisar, nesta quinta-feira, dia 21, o documentário ‘Luta na terra de Makunaima’, é uma oportunidade não só de se analisar mas também de recomendá-lo com entusiasmo.

Qualquer que seja o lado, quem está cheio de certezas sobre a polêmica em torno do conflito na reserva Raposa Serra do Sol será certamente surpreendido e impactado, minuto a minuto, pela aula de jornalismo que é este documentário. Aula porque o roteiro de Aldo Quiroga e a direção de Luiz Carlos Azenha não deixaram de contemplar, de forma equilibrada e abrangente, todas as faces da questão, apresentando, sem instrumentalizações, todos os pontos polêmicos e todos os personagens relevantes desta questão emblemática brasileira.

Do prefeito arrozeiro Paulo César Quartieiro a líderes indígenas como o tuxáua Dejaci Belquior da Silva, passando pelo presidente da Funai, o general ex-Comandante Militar da Amazônia, o ministro Ayres Britto, índios pró e contra a demarcação contínua, comerciantes, militantes dos dois lados e representantes da Polícia Federal, Funai, Incra e Cimi. Do ponto de vista de conteúdo, um trabalho impecável.

Em termos de formato, embora o documentário seja um genuíno trabalho para tv aberta, há alguns problemas como a falta de uma abertura na qual os autores contextualizassem a importância, a riqueza e a atualidade do trabalho. E alguns vazios de texto ou trilha sobre imagens que não tinham nenhuma informação ou emoção especial.

Mas há muito mais o que destacar em qualidade, além da admirável abrangência das reportagens e entrevistas: a bela vinheta, a exibição das imagens originais do ataque à Fazenda Depósito – e o registro do momento em que elas foram mostradas a uma comunidade indígena – o flagrante da prisão do prefeito Quartieiro, o choro do índio Dejaci, as preciosas imagens de arquivo da Comissão Rondon e da Expedição Grunberg, e o espetacular clipe de encerramento.

Vale a pena conferir.’

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