Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

VOZ DOS OUVIDORES > TV CULTURA

Ernesto Rodrigues

16/09/2008 na edição 503

(Programa Planeta Turismo)

No último dia 1º de setembro, na coluna sob o título ‘Ligações Comerciais’, tratei de queixas relacionadas à possibilidade de comercialização de pacotes turísticos a partir da interação do telespectador com o programa Planeta Turismo.

Na coluna, manifestei a opinião de que, à luz dos estatutos da Fundação Padre Anchieta, não se tratava de apenas retirar da tela o endereço de um site onde não se sabe direito onde termina o conteúdo editorial de turismo e onde começa a venda de pacotes de viagem.

Defendi também a necessidade de a TV Cultura zelar e agir para que a pauta do Planeta Turismo e a responsabilidade editorial por esse espaço da grade não tenham qualquer relação de dependência, explícita ou dissimulada, com negócios de qualquer natureza ‘linkados’ ao que se exibe no programa.

Ontem, 10 de setembro, recebi a seguinte comunicação do Secretário Executivo da Presidência da Fundação Padre Anchieta, Júlio Moreno:

‘Caro Ombudsman:

Informo que, a partir do próximo sábado, dia 13, o programa ‘Planeta Turismo’ não mais faz parte da grade da TV Cultura. Com base em queixas feitas pelos telespectadores, inclusive por seu intermédio, além de suas próprias observações, a direção executiva da Fundação Padre Anchieta tomou a decisão de tirá-lo do ar. O programa fugiu do formato adequado para exibição pela TV Cultura e infringiu a política de marketing da emissora, promovendo um site de excursões turísticas.

Atenciosamente,

Júlio Moreno’.

***

Conheça os pontos positivos e negativos da programação exibida na última semana. Saiba quais atrações da TV Cultura ganharam destaque e as que ainda podem melhorar.

Presente de aniversário

(Metrópolis, 29 de agosto)

O especial ‘Michael Jackson 50 anos’, que abriu e fechou o programa do dia em que o cantor completou 50 anos (29 de agosto), foi uma primorosa retrospectiva de sua trajetória e uma aula de edição, perfeita para TV aberta e muito adequada, em tempo, ritmo e formato, a uma revista eletrônica cultural como o Metrópolis. E o texto era tão entrosado com as imagens e sons como a voz e os passos de Michael se entrosavam com os arranjos de Quincy Jones.

Coisa de filho

(Radiola, 1º de setembro)

Não poderia ser diferente. As viagens de João Marcello Bôscoli aos arquivos da TV Cultura, uma hora ou outra, o colocariam diante de alguma preciosidade deixada pela mãe, Elis Regina, na memória da emissora. E aconteceu: o quadro Arquivo, do Radiola exibido em 1º de setembro, mostrou não apenas alguns momentos luminosos de um MPB Especial gravado por Elis em 1973, mas também sua personalidade sofrida, quase sempre à beira do desabamento em lágrimas. O que aumentou ainda mais o significado e o simbolismo desse resgate, se considerarmos que a escolha e a edição tiveram a chancela do filho.

Cultura útil

(Pé na Rua, 1º de setembro)

A crônica-enquete construída a partir da discussão da utilidade – ou não – da chamada cultura inútil foi mais um gol de placa da equipe do Pé na Rua. Além de mostrar uma ótima performance do apresentador João, o vt foi mais uma aula de edição, de humor e, principalmente, de como conversar com os jovens de maneira inteligente.

De letra

(Jornal da Cultura, 1° de setembro)

A boa crônica sobre a polêmica paradinha nos pênaltis, com direito a arquivo de cobranças memoráveis do inventor delas, Pelé, mostrou que o Jornal da Cultura pode entrar regularmente no assunto, não como programa especializado, mas como um telejornal sempre antenado com os destaques e curiosidades do esporte.

Massaroca eleitoral

(Metrópolis, 3 de setembro)

Nem todos os momentos da crônica do Grupo Massaroca sobre o ‘candidato’ Estáquio Werneck foram inspirados, mas vale destacar a crônica dos presidentes e líderes políticos brasileiros, a ótima ‘árvore genealógica’ do personagem e as ‘propostas’ do ‘candidato’ para a cidade.

Olhar municipal

(Jornal da Cultura, 29 de agosto)

O quadro ‘De olho no voto’, mais uma vez, tocou num problema comum a todas as prefeituras – o transporte – mas com um olhar apenas paulistano. E uma das ilustrações gráficas tinha informações estatisticamente confusas: contrapunha um aumento de 6% na malha viária de São Paulo em sete anos com o número absoluto atual de veículos na capital (6 milhões). Não seria o caso de informar, também, qual o percentual do aumento da frota de veículos em São Paulo nos mesmos sete anos?

Cenário vazio

(Roda Viva, 1º de setembro)

A bancada superior vazia, no cenário do Roda Viva com a atleta Maurren Maggi, passou uma forte sensação de abandono e desprestígio. Na mesma linha, a reportagem de apresentação da entrevistada não tinha nenhum som além da voz da narradora. Faltaram os sons do esporte e pelo menos uma das proféticas declarações que ela deu muito antes de conquistar o ouro em Pequim. Faltou também, como sempre, uma pergunta dos jornalistas presentes sobre o comportamento da mídia brasileira no tempo em que Maurren foi condenada e esquecida.

Panes

(Jornal da Cultura, 3 de setembro)

O Jornal da Cultura de 3 de setembro foi especialmente assolado por cochilos operacionais. Destaque – negativo – para o áudio quase inaudível das manchetes no final dos blocos. E, principalmente, para o semblante constrangido do Vladir Lemos, que, depois de apresentar o noticiário esportivo, continuou enquadrado enquanto Heródoto Barbeiro e Michelle Dufour se despediam e encerravam o jornal sem aparecer na tela.

E a manobra?

(Manos & Minas, 3 de setembro)

A matéria sobre o campeonato ‘King of São Paulo’ de skate tinha uma pegada mais rica do que um simples registro da disputa: mostrava como os skatistas conquistaram o Vale do Anhangabaú, um lugar de onde eles costumavam ser enxotados pela PM. Pena que a matéria exagerou um pouco nos clipes conceituais graficamente trabalhados, a ponto de deixar de mostrar claramente como foram os desempenhos. Incluído o do skatista ‘Johnny’, campeão premiado no final com cetro e coroa.

***

(Almanaque Educação, 9 de setembro)

Em sua segunda edição, o Almanaque Educação – ainda que recorrendo a uma linguagem teatral que às vezes compromete um pouco o ritmo e que bem poderia dar lugar a formatos mais adequados à televisão aberta – revelou-se um conteúdo e um texto bem mais harmoniosos que os apresentados no programa de estréia. O predomínio de um tema básico (o consumo) na maiora dos quadros, a taxa consideravelmente mais alta de humor inteligente – e não brincalhão e restrito apenas ao gosto das crianças – as charges eletrônicas ágeis e muito bem-interpretados pela trupe e os videografismos criativos foram responsáveis por momentos que certamente conquistaram a atenção dos telespectadores do horário.

A trilha sonora, no entanto, continua tímida, contribuindo muito pouco para as narrativas e com arranjos típicos dos programas exclusivamente educativos do horário matinal. As performances da trupe no centro de São Paulo – no caso, um jogo relacionado ao sonho de consumo das pessoas – continuam pouco envolventes na rua e na tela, com resultados discutíveis, em se tratando de um programa de televisão.

A reportagem especial, embora afinada com o tema central, mostrando como se pode consumir de forma consciente tanto os jogos eletrônicos como os brinquedos tradicionais, mais uma vez seguiu um modelo de texto e edição que, ‘telejornalístico’ demais, não combinava muito com a atmosfera mais onírica e ficcional predominante.

No final da matéria, aliás, houve falta de clareza na brincadeira em forma de crítica na qual uma integrante da trupe do programa vendia cd’s, camisetas e bolsas térmicas com a marca do Almanaque Educação. Era uma brincadeira, claro, mas uma parte dos telespectadores terminou achando, com certeza, que as mercadorias estão mesmo à venda.

O quadro Escola Mundo Afora, sobre a Expedição Vagalume, também não combinou nada com a proposta ‘majoritária’ de conteúdo do programa, pelo enfoque burocrático e pelo texto voltado muito mais ao público adulto envolvido com ONGs e ações de responsabilidade social.

Vale destacar o quadro ‘Quando eu crescer’, que não tinha nada a ver com o tema central do programa mas mereceu estar logo na abertura, pela ótima interação da atriz Ligia Cortez com o menino Daniel Benoliel Teixeira, no passeio ‘vocacional’ que deram pelas dependências de um teatro.

***

(Roda Viva, 8 de setembro)

A comparação ficou previsível: o Roda Viva com Fernando Meirelles foi como um filme bem realizado, daqueles que prendem o público até o final.

Lillian Witte Fibe conduziu bem a entrevista, fazendo algumas intervenções que contribuíram para torná-la descontraída e reveladora. Os especialistas convidados – Luiz Carlos Merten, Rodrigo Salem e André Nigri – não deixaram que a condição de críticos de cinema os fizesse cair na tentação das perguntas-teses que costumam comprometer tanto o ritmo e o conteúdo do programa. E Fernando Meirelles, com sua simpatia contagiante e sua notória paixão pelo que faz, falou de forma envolvente, franca e bem-humorada sobre criação, mercado, tecnologia, bastidores, polêmicas e mitos do cinema.

Sem exagerar na irresistível abordagem mundana da tribo do cinema, mas também sem se perder em enfoques excessivamente semiológicos da sétima arte, o programa foi um caso exemplar em que seus três pilares – entrevistado, entrevistadores e âncora – funcionaram de forma harmoniosa e competente.

Pena que, a exemplo do ruído que prejudicou o Roda Viva gravado com Maurren Maggi, a bancada superior do cenário estivesse vazia, o que passou, de novo, a desconfortável sensação de que ninguém teve interesse de estar ali naquela posição privilegiada.

E houve ainda, infelizmente, um outro ruído, este literal, que atrapalhou. Foi a enorme chiadeira de microfone que comprometeu pelo menos duas intervenções do jornalista Rodrigo Salem. Neste caso, caberia perguntar: se o programa foi gravado, não seria o caso de, em vez de seguir em frente, o diretor de tv determinar uma breve interrupção e pedir que um operador de áudio fizesse os ajustes necessários no microfone de Rodrigo?

***

(Manos & Minas, 3 de setembro)

A participação da banda Nação Zumbi renovou a salutar característica do Manos & Minas de, sendo uma produção voltada para TV aberta e assistida em praticamente todo o país, não permitir que o programa se torne um gueto de rappers paulistanos. E a edição de 3 de setembro, além de acolher o som instigante e as letras elaboradas da banda pernambucana feita de herdeiros do falecido Chico Science, exibiu, logo no início, uma reportagem que permitiu ao telespectador menos especialilizado conhecer as origens sociais, as idéias e os laços culturais de seus integrantes.

Ajudaram muito, neste caso, as imagens de um documentário que registrava a ida do Nação Zumbi a Paris em 2003 e também um passeio dos músicos da banda pelo bairro de Peixinhos, na periferia de Olinda, onde tudo começou. ‘A gente também tem fome de tecnologia, de cultura e de comida’, disse o percussionista Gilmar Bola 8, ao falar das letras marcadas pela questão social.

‘Nação Zumbi, Peixinhos, tudo nosso!’, resumiu Rappin Hood, ilustrando a ótima idéia de incluir o Nação Zumbi na receita do Manos & Minas.’

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