Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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VOZ DOS OUVIDORES >

Ernesto Rodrigues

21/10/2008 na edição 508

Seis meses de ombudsman

Seis meses.

Momento oportuno para este ombudsman, pretenso representante do telespectador, fazer uma prestação de contas.

No período compreendido entre 7 de abril e 13 de outubro, analisei 562 edições de 56 programas diferentes da grade da TV Cultura, elegendo, nessas análises, pelo menos 1365 tópicos que, quando considerei pertinente, tornei públicos, através desta página do site da emissora. Programas foram criticados e elogiados de forma pontual, num tom que sempre procurou ser fraterno e, acima de tudo, construtivo. Um trabalho que, devo dizer, tem sido uma das experiências mais enriquecedoras dos meus 30 anos de profissão.

Através da análise da programação, renovei e aprofundei minha crença na televisão como instrumento eficiente de promoção da cidadania no Brasil, e na TV Cultura, em particular, como uma das melhores expressões desta vocação, pela qualidade do conteúdo de sua programação. O frustrante, nesse balanço, no entanto, foi o baixíssimo retorno dos responsáveis pelos programas: 17, um número equivalente a 3,02% das análises ou a 1,25% dos tópicos que elegi. Não cito nominalmente os responsáveis por essas exceções por temer que o mérito se torne um estigma.

Este quadro de virtual clandestinidade dá razão aos que dizem que o principal desafio da TV Cultura é superar o elitismo e a soberba burocrática que ainda parecem fazer parte do DNA organizacional da emissora. E aos que dizem que o telespectador, decisivo, estratégico e fundamental nas emissoras comerciais, na TV Cultura parece representar apenas um detalhe secundário. Assim como, é lícito presumir, seu representante, o ombudsman.

Parece pesar mais o inoxidável patrimônio da imagem da TV Cultura que, de tão elogiável, inatacável e antecipadamente correta, nos dispensa a todos até do trabalho de assistir a programação atual para, desse modo, renovar nossa fidelidade e nossa admiração pela emissora. E, como quem não precisa assistir não pode ter muito do que reclamar, esse tipo de audiência, se é que podemos chamá-lo assim, acaba ensejando uma espécie de cheque em branco, um biombo inviolável para a arrogância, pelo menos em parte dos responsáveis pelo conteúdo da emissora.

Em um ambiente como esse, são poucos os que se sentem no dever de explicar, justificar, argumentar, reclamar e também apontar os erros de avaliação que certamente já cometi nesses seis meses de análise, meus pressupostos equivocados, meus cacoetes indesejáveis da TV comercial, minha falta de informação ou as interpretações equivocadas que fiz da filosofia de programação que emana dos estatutos da Fundação Padre Anchieta.

É importante ressalvar que, assim que foi definida a função de Júlio Moreno como interlocutor regular da presidência da FPA com o ombudsman, todas as demandas encaminhadas a ele e que eram diretamente relacionadas às responsabilidades do comando da emissora – como as ligações comerciais do programa Planeta Turismo, as queixas contra a publicidade infantil e a irregularidade estatutária representada pela transmissão da Missa de Aparecida – foram prontamente respondidas. Quando, no entanto, a resposta precisava vir de outras instâncias, a interlocução, quando não episódica, foi praticamente nula.

Esta situação, diga-se, configura o não cumprimento de uma diretriz claramente estabelecida em contrato e que obriga a emissora a dar retorno hábil e imediato às demandas, críticas e considerações feitas pelo ombudsman. As exceções, representadas pelo já citado retorno de 3,02% e pelo empenho de Júlio Moreno nas questões relativas à presidência da FPA, nem de longe caracterizam a interatividade desejada e contratualmente explicitada. Outra diretriz contratual que ainda não foi cumprida é a abertura de um espaço para o ombudsman na grade de programação da emissora. Neste caso, porém, cabe reconhecer que a omissão foi das duas partes.

Faço este balanço sem amargura, ressentimento ou qualquer sensação de abandono. Apenas cumpro meu dever ético e contratual de prestar contas, ao telespectador da TV Cultura, do que estou fazendo em nome dele, certo de que, de alguma maneira, com ou sem retorno interno, estou contribuindo para o aumento de qualidade e do impacto social da programação da emissora.

***

Programação de 16 de outubro

Desequilíbrio

No Jornal da Cultura, a declaração de 2 minutos e 51 segundos do governador José Serra, que se seguiu à reportagem sobre o conflito na frente do Palácio do Governo, independentemente do conteúdo, merecia, em nome de um mínimo de equilíbrio jornalístico, algum contraponto de informação sobre a posição do comando da greve dos policiais civis, por mais notórios que tenham sido os ingredientes político-eleitorais do confronto. O desequilíbrio da cobertura, por conta da gigantesca declaração, foi evidente e lamentável.

Respeito

No Pé na rua, um gesto de consideração com o telespectador, infelizmente raríssimo na grade da TV Cultura. A informação, em caracteres, de que os programas exibidos esta semana são reprises. É a comemoração do primeiro ano do programa no ar. Parabéns pelo gesto e pelo aniversário.

Boa idéia

O Nossa Língua, ainda que mantendo um cenário, um formato e uma concepção visual de telecurso em pleno horário nobre, voltou a trilhar o caminho que lhe confere identidade, ao entrevistar o publicitário Washington Olivetto, um dos craques da propaganda mundial e, até por esse motivo, uma autoridade num determinado tipo de uso da língua portuguesa. O professor Pasquale, apesar de às vezes se render à tentação de talk-show genérico, soube explorar a experiência de OIlivetto com as transformações da língua brasileira e com a introdução do coloquialismo na publicidade.

Falta de agilidade

Em 14 de outubro, ao comentar a virtual surpresa que foi a reapresentação do Roda Viva com Paul Krugman, anunciado como Prêmio Nobel de Economia naquele dia, escrevi aqui que foi uma pena que não tenha havido agilidade da equipe do programa para providenciar uma boa chamada da entrevista (gravada semanas antes) na programação. O coordenador do Núcleo de Controle de Qualidade, Gabriel Priolli, enviou mensagem explicando que a decisão de reexibir o programa foi tomada por volta das 18 horas da segunda-feira e que, por este motivo, não houve tempo para produzir uma chamada. Foi possível apenas notificiar a imprensa, para que ela avisasse o público em seus sites, como aconteceu no UOL, por exemplo. É um explicação, mas também um sinal de que a equipe do programa e a emissora devem estar um pouco mais preparadas para reagir aos acontecimentos do dia..

Conheça os pontos positivos e negativos da programação exibida na última semana. Saiba quais atrações da TV Cultura ganharam destaque e as que ainda podem melhorar.

Dia da pizza

(De olho no voto, 7 de outubro)

A boa matéria de Renato Lombardi, mostrando a inutilidade da maioria dos 3021 projetos aprovados pela Câmara Municipal de São Paulo, foi emblemática em relação ao que acontece na maioria dos municípios brasileiros. Por isso, deu, ao especial ‘De olho no voto’ de 7 de outubro, o desejado olhar nacional que um programa de rede nacional deve ter, mesmo considerando o fato de que ele provavelmente não foi retransmitido por todas as emissoras parceiras da TV Cultura. A informação de que já foram criadas datas comemorativas absurdas como o dia da pizza e o da chuva acabou provocando um debate interessante.

Filão promissor

(Almanaque Educação, 7 de outubro)

As charges eletrônicas do programa, como a da ligação entre o adultério e as origens da cirurgia plástica, continuam sendo não apenas o ponto forte do programa, por sua vocação para o formato de televisão, mas também um dos poucos conteúdos da grade noturna da emissora que usa uma ferramenta poderosa e inteligente: o humor. Que esse humor se espalhe cada vez mais pelo programa e pela grade.

Sem filtro

(Manos & Minas, 8 de outubro)

A entrevista de Rappin Hood com o rapper Dexter, na penitenciária de Hortolândia, primorosamente editada em três segmentos ilustrados com clipes do cantor e imagens do sistema carcerário paulista, foi marcante pela emoção à flor da pele e pela contundência do entrevistado.

Muito além do teleprompter

(Metrópolis, 6 de outubro)

Destaque para a performance de Paulo Vinicius no estúdio, antecipando o saboroso VT sobre a dança e a música da francesa Yelle. O mesmo Vinicius que, despojado e irreverente, tinha ancorado uma curiosa expedição a uma casa de jazz que funciona nos fundos de um estacionamento da Rua João Moura.

Alto astral

(Pé na rua, 7 de outubro)

O Pé na rua fugiu da mesmice, na hora de mostrar os bastidores engraçados das gravações de João e Gabi. As inserções videográficas bem-humoradas e a trilha afinadíssima com os imprevistos registrados só deixaram ainda mais evidente o altíssimo astral que cerca o trabalho dos dois apresentadores, reforçando a empatia da dupla com o público do programa.

Faltou a reflexão

(De olho no voto)

A boa idéia do De olho no voto de mostrar prefeitos eleitos com nomes curiosos ou engraçados como Bananinha, Biscoito, Chico Pipoca, João da Égua, Mamão, Mané, Peixinho, Testinha e Toninho da Padaria, entre outros, foi interessante, mas ficou apenas no pitoresco, descolada do debate. Os vereadores convidados e o professor Carlos Mello, outro participante do debate, poderiam ter sido instados a interpretar o significado do sucesso eleitoral desses nomes. O mesmo poderia ter acontecido no programa seguinte, com os convidados Floriano Pesaro e Netinho de Paula, quando Layla Dawa comentou a eleição do palhaço Pimpão para a prefeitura de Catanduvas.

Engraçado ou preocupante?

(Jornal da Cultura, 6 de outubro)

O Jornal da Cultura, em sua nova fase, marcada por inegáveis saltos de qualidade em termos de formato, linguagem visual, abrangência jornalística e volume de informação, mostrou, com a crônica sobre os planos de Hugo Chávez permanecer no poder, que também pretende fazer humor quando o noticiário permitir. A escolha do assunto, no entanto, foi, no mínimo, discutível. Primeiro porque crônica começou ‘séria’ e, de uma hora para outra, ao som da música ‘ele é o bom, é o bom, é o bom’, se tornou, digamos, uma charge eletrônica. Em segundo lugar, porque uma parte respeitável dos telespectadores não deve ter achado graça alguma na idéia do presidente venezuelano continuar atropelando a democracia até 2021.

Assim assim…

(Roda Viva, 6 de outubro)

A lógica do resultado das eleições. Não poderia haver tema mais apropriado para um Roda Viva, no dia seguinte às eleições municipais. O entrevistado convidado, o sociólogo Alberto Carlos Almeida, lançando o livro ‘A cabeça do eleitor’, também prometia, principalmente por causa da polêmica causada pela obra anterior, ‘A cabeça do brasileiro’. O resultado, no entanto, pode ter frustrado parcialmente pelo menos parte dos telespectadores, devido a um certo relativismo – e uma falta de hierarquização – nas respostas de Alberto Carlos.

Falta de comunicação

Balanço Social, 6 de outubro

Uma edição do programa Balanço Social inteiramente dedicada à condenação explícita da publicidade dirigida às crianças no horário infanto-juvenil da televisão não mencionou nem o fato de a TV Cultura ser uma das emissoras que exibem esse tipo de conteúdo nem a decisão da mesa TV Cultura de acabar com a publicidade infantil a partir de janeiro de 2009.

***

Saída antropofágica (16/10/08)

(’Entrelinhas’ versus ’Intérpretes do Brasil’)

A partir de hoje, quando for oportuno e pertinente, pretendo dar, ao telespectador, a oportunidade de ele conhecer textos e análises internas que fiz antes da criação desta página do ombudsman. Para começar, reproduzo trechos de um texto de 1º de maio no qual comparo uma edição do Entrelinhas à série Intérpretes do Brasil. Os programas passaram, mas creio que a análise continua atual por tratar do maior desafio da TV Cultura: o aumento de seu impacto social. O texto:

Mais uma vez, o ‘Entrelinhas’ usa o que a televisão tem de melhor em termos de recursos de narrativa – texto apropriado à gramática de TV, música, tratamento videográfico de fotografias e edição ágil – para fazer uma crônica sobre o movimento antropofágico, 80 anos depois do manifesto de Oswald de Andrade. Merece destaque a capacidade que o texto teve de definir e contextualizar o movimento, permitindo que expressões como ‘retorno ao Brasil desconhecido’ e ‘deglutição das estéticas estrangeiras’ não ficassem perdidas e sem sentido.

Seria ingenuidade achar que o assunto e o formato são populares e competitivos para o horário em que o programa foi exibido (domingo, início da noite). Mas este Entrelinhas foi um exemplo do que acontece quando televisão e cultura andam juntas, uma gostando da outra, o conteúdo enriquecendo o veículo e o veículo tornando o conteúdo interessante e saboroso para os telespectadores (ou parte deles). Se existe algum caminho para aproximar, na televisão aberta, os temas mais complexos e sofisticados da grande massa, este programa parece estar na direção certa.

Falando em direções, o episódio da série ‘Intérpretes do Brasil’, exibido logo depois do Entrelinhas, tinha um formato bem mais difícil para o telespectador médio, apesar do indiscutível valor intelectual do perfil do caipira brasileiro, feito por Antonio Cândido. Em que pesem o bom enquadramento, o brilho e a fluência elegante de Antonio Candido – que definiu o caipira como ‘um bandeirante atrofiado’ – o programa é uma espécie de dissertação filmada, bem ilustrada por imagens, mas sem entrevistador, sem planos alternativos, sem trilha sonora e sem intervenções – narrações introdutórias de contextualização, depoimentos, trechos de músicas, inserções pertinentes de jornalismo, ficção e artes plásticas, videografismos etc – que fazem parte do instrumental narrativo da televisão.

Tudo bem, a proposta do projeto Intérpretes do Brasil era essa mesmo: filmar intérpretes ilustres do Brasil interpretando. Mas daí para tratar o resultado como um produto adequado para exibição no horário nobre de TV aberta é algo que merecia uma discussão maior, dependendo, é claro, dos objetivos da programação da TV Cultura. Este Intérpretes do Brasil é um programa que pede uma disciplina e um compromisso que o telespectador brasileiro médio não tem e dificilmente vai desenvolver, considerando o nível cultural predominante e tipo de relação que ele mantém com a televisão.

A solução talvez passe pelo caminho ‘antropofágico’ adotado pelo Entrelinhas.

***

No pique (13/10/08)

Metrópolis

O Metrópolis tem sido uma espécie de fio terra diário do telespectador com a vida cultural de São Paulo e do Brasil, em seu sentido mais amplo e democrático. Reportagens como a da apresentação da banda McFly, em São Paulo, conseguiram colocar o telespectador no meio do show e da impressionante histeria das fãs adolescentes do grupo. Na outra ponta do espectro de seu público, em vez do registro mecânico e telegráfico que costuma predominar na mídia em geral, quando o assunto é anúncio Prêmio Nobel de Literatura, o Metrópolis nos deu um perfil bem mais rico de Jean-Marie Le Clézio, com direito a uma análise do professor Augusto Massi e até um trecho do romance ‘O africano’.

Os três apresentadores, por sua vez, têm um papel importante na química com o telespectador, não só pela voz, o texto e o tom, mas também pelo estilo. Seja em entrevistas-perfil como a que Domingas Person fez com Liv Ullmann ou em performances divertidas de estúdio como a de Paulo Vinicius, antecipando com uma dança uma saborosa reportagem sobre a cantora francesa Yelle. O mesmo Vinicius que, despojado e irreverente, ancorou uma curiosa expedição a uma casa de jazz que funciona nos fundos de um estacionamento da Rua João Moura.Vale destacar também a qualidade da maioria das edições, especialmente em reportagens sobre artes plásticas e adjacências, como a que foi feita sobre os tatuadores, grafiteiros e artistas plásticos da exposição Trimassa.

E temos a ‘editoria’ de humor do Metrópolis, com os shows de criatividade – e de adequação à TV – dos humoristas do quadro ‘Comédia ao vivo’. A engraçada destruição da reputação do café, de Maurício Meirelles, e a crítica à publicidade, de Bruno Motta, mostram que esse formato merece espaço cativo no programa. Pena que o grupo Massaroca, outra atração dessa ‘editoria’, esteja atravessando uma fase um tanto irregular.

E temos ainda o tradicional banho de teatro e cinema para todos os gostos, com resenhas atraentes e bem-editadas que incluem desde filmes mais ‘difíceis’ da 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, a ‘jumbos’ de Hollywood como o último Ridley Scott.

O que mais se poderia esperar de uma revista eletrônica diária de cultura e entretenimento?

Que continue assim, sem perder o pique.’

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