Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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VOZ DOS OUVIDORES >

Ernesto Rodrigues

30/06/2009 na edição 544

‘Um dos telespectadores que protestam contra o programa ‘Manos e Minas’ voltou à carga após a análise publicada aqui sob o título ‘Tudo junto e misturado’, desta vez de forma mais preconceituosa. O tom predominante do email dele – cuja agressividade não reproduzo por princípio – é o de que o programa não estaria contribuindo para a boa formação dos jovens que o assistem. A resposta a esta ‘acusação’ eu prefiro deixar por conta do email que recebi, também após a publicação da análise, da editora-chefe do programa, Maria Amélia Rocha Lopes.

Caro Ernesto,

Escrevo em função de ter lido seu comentário – Tudo Junto e Misturado – sobre o Manos e Minas. Nossa equipe aplaudiu seu texto. Você deve imaginar a dificuldade e o fio da navalha que é manter este comprometimento com a cidadania, sem nos tornarmos os donos da verdade ou professorais e, especialmente, sem perder o foco de que, afinal, estamos fazendo um programa de televisão.

Como as emissoras abertas não costumam contemplar especificamente este público – jovem da periferia – Manos e Minas é uma novidade também para nós que atuamos nele. É no convívio com as platéias que lotam nossas gravações – colégios de periferia, jovens do Cingapura, comunidade dos bairros, centros de apoio à criança e ao adolescente, programa da família – que colhemos subsídios para descobrir o que esta faixa de população tão carente gostaria de ver na televisão. Temos claro que o foco das nossas reportagens e o conteúdo musical do programa devem mesmo arrepiar uma determinada faixa de público – aquela que não depende de um programa de televisão para ter lazer.

Manos e Minas, mais do que ‘tentar adivinhar’ o que a periferia quer, procura trazer para dentro da TV o que essa mesma periferia produz culturalmente. A quantidade de e-mails que recebemos dos nossos jovens telespectadores mostra que este é o caminho. Já há na Universidade de São Paulo tese de mestrado sobre o nosso programa. Isso se repete em universidades particulares. Há vários colégios que contemplam os melhores alunos com a possibilidade de ir ao Franco Zampari assistir às gravações. Isso não é pouco. Esse público se orgulha de ‘uma TV como a Cultura’ mostrar a periferia sem preconceito. A periferia que mostramos – com todas as suas agruras, que não deixamos de lado – é também um lugar onde nascem músicos, artistas plásticos, poetas, trabalhadores… Isso é maior do que qualquer manifestação de preconceito/racismo.

Ao criticar este tipo de pensamento você nos presta uma ajuda inestimável. Acho que só o fato de Manos e Minas incomodar alguns preconceituosos, já justifica a existência do programa. A chamada cultura popular, afinal, está no centro da discussão. E a TV Cultura saiu na frente.

Um abraço,

Maria Amélia Rocha Lopes – Editora-chefe Manos e Minas

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Direto da poltrona, 25 de junho

Noite de 24 de junho. Quatro programas. Quatro expressões dos caminhos, desafios, contradições e impasses diante dos quais os responsáveis pelo conteúdo da TV Cultura poderiam – ou deveriam – se debruçar, em sua missão de não apenas oferecer qualidade, como sempre, mas também de obter um espaço e uma competitividade maiores no campo onde é possível conquistar novos telespectadores: o impiedoso horário nobre da TV aberta.

No caso do Ecopratico, a equipe do programa, ao fazer um retrospecto dos episódios da primeira fase, deu um exemplo perfeito do uso moderno e eficiente da linguagem e dos recursos da televisão, com todas as suas potencialidades. Havia ritmo, fotografia, vinhetas gráficas criativas, edição envolvente e trilha apropriada, como no momento em que a dupla de apresentadores e os especialistas da equipe repassaram cinco dos dez ‘ecocritérios’ do programa – água, alimentação, ecossistema, estrutura e consumo – através de uma seleção de bons momentos dos episódios já apresentados.

Em relação ao conteúdo, e episódio teve mais objetividade e riqueza de informação do que os anteriores. E um pouco menos das tentativas nem sempre bem-sucedidas de dramatização comportamental ecologicamente correta, que comprometeram um pouco certas passagens dos primeiros programas. Ainda assim, apesar de excessos de conceituação como o de considerar o vazamento de água de um quitinete do Edifício Copam um fato ‘redundante, elíptico, crítico…’, e da falta de clareza sobre a qualificação profissional dos responsáveis pelo seu conteúdo – a ‘especialista em sustentabilidade’ Zuzu e o ‘arquiteto sustentável’ Xico – tratava-se de um programa de televisão puro-sangue.

Logo depois do Ecopratico, o programa A’Uwe mostrou a primeira parte do documentário ‘Crianças da Amazônia’, da brasileira Denise Zmekhol, uma produção norte-americana que, além de recontar a história de Chico Mendes, mostra como estão os índios que Denise conheceu e fotografou em outra ida à região, 15 anos antes.

Apesar da impecável qualidade técnica das imagens e da edição – estimulada por uma abertura em que uma lupa de fotógrafo percorre slides dos indiozinhos fotografados, criando a expectativa sobre como estariam eles depois de 15 anos – e do recurso a um instrumento infelizmente raro nesse tipo de trabalho – o da narração em off, no caso da própria Denise – ‘Crianças da Amazônia’, pelo ritmo da narrativa, por seus silêncios suecos pontilhados de sons da mata, pelo enfoque histórico, enciclopédico e sem atualidade jornalística – mais apropriado, portanto, a públicos menos informados sobre o assunto do que o brasileiro comum – não consegue fugir de sua vocação de documentário (só) para cinema. E ainda assim, destinado a plateias específicas, em ambientes educacionais ou militantes.

Mais tarde, logo depois dos dois programas ao vivo da noite da TV Cultura – Jornal da Cultura e Metrópolis – outras impropriedades, não de conteúdo, mas de formato, estiveram reunidas na edição do Cultura Mundo que mostrou o documentário ‘Robert Louis Stevenson – A Ilha do Tesouro’, um perfil do autor de ‘O estranho caso do Dr.Jekil e Mr. Hyde’ (ou ‘O médico e o monstro’).

Apesar do texto providencial de abertura, lido pela simpática Alessandra Calor, e da inquestionável qualidade desta produção da BBC, infelizmente, por conta da narração em inglês com legendas, da inexistência de maiores contextualizações para o público brasileiro, do formato ainda pouco assimilado por aqui – o ‘docudrama’, que mescla documentário com passagens reconstituídas com dramaturgia ‘muda’ – da temperatura britânica da narrativa e da desafiadora distância do tema e do personagem em relação ao tipo de telespectador médio que forma a maioria do público de TV aberta, o programa teve, provavelmente, pouca chance de ser competitivo em seu horário de exibição. Não se trata, é sempre bom repetir, de condenar o tema e restringir a qualidade de conteúdo. Trata-se, isso sim, de traduzir eficientemente esse tema difícil para o ambiente da televisão brasileira.

O quarto programa que cito foi exibido antes dos três mencionados acima. E entra neste texto por ter contribuído involuntariamente para a análise e o debate que proponho aqui. Com o humor de sempre e a habitual competência para fazer conteúdos para televisão, o Pé na Rua, no quadro ‘No escurinho do cinema’, mais do que celebrar uma alternativa cultural da sociedade moderna, deixou claro como a experiência do cinema não tem quase nada a ver com a de assistir televisão. E como, acrescento eu, repetindo coluna anterior, não adianta a gente achar que a TV é uma espécie de projetor de filmes (documentários incluídos) doméstico. No cinema, como na citação que o Pé na Rua fez da personagem de Débora Falabella em ‘Lisbela e o prisioneiro’, ‘a luz vai se apagando devagarzinho, o mundo lá fora vai se apagando devagarzinho, os olhos da gente vão se abrindo e daqui a pouco a gente não vai nem lembrar que está aqui’. Na televisão, todos nós sabemos, não é bem assim.

Uma jovem entrevistada no quadro ofereceu, também involuntariamente, uma pista para todos os que têm a responsabilidade de enfrentar os desafios e contradições que citei aqui. No caso, a dica é de conteúdo que vale tanto para o cinema quanto para a televisão:

‘Se for uma coisa parecida comigo, que tem a ver com a minha vida, eu entro no filme como se eu tivesse participando dele’.

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Noite ilustrada, 24 de junho

‘Quem cala, não conserta’. O título da manchete da abertura, em forma de resposta editorializada do Jornal da Cultura ao presidente Lula por seu ataque à imprensa e sua sugestão de que a crise no Senado não é tão grave assim, pode ter confundido muitos telespectadores. Além disso, o título poderia ser muito mais sustentável, jornalisticamente falando, se houvesse, ao longo do JC, uma declaração gravada sequer de algum brasileiro acima de qualquer suspeita que tenha ficado, como muitos, estarrecido com a posição do presidente da República. E a edição confusa da cobertura do presidente misturou alhos – as boas imagens da maquete eletrônica da anunciada obra de revitalização da zona portuária do Rio de Janeiro – com bugalhos – a declaração de lula, criticando a imprensa pela ‘predileção pela desgraça’ e minimizando a crise no Senado. Em nome da clareza, teria sido melhor separar as duas notícias, mesmo com Lula aparecendo nas duas.

Na matéria da repórter Juliana Barletta sobre o aumento de casos da gripe suína, ficou esquisita – e deu margem a todo tipo de interpretação – a falta de uma nota explicativa para o grande tumulto que acontecia atrás do governador José Serra no momento em que ele respondia à pergunta dos repórteres sobre os casos da doença em São Paulo.

Oportuna a reportagem de serviço de Jô Miyagui que o Jornal da Cultura colou à notícia e às imagens da jovem belga que teve o rosto coberto por 56 tatuagens em forma de estrelas. Isso é tudo que um bom telejornal sonha ter: agilidade e estrutura para aprofundar e explicar os chamados assuntos do dia.

Sozinha e sem ingredientes atuais que poderiam ser facilmente pescados no arquivo recente da emissora, a reprise da matéria do correspondente Jaime Spitzcovsky, em 23 de junho de 1993, sobre a Rússia pós-comunista, não funcionou muito, mesmo fazendo parte da séria ‘40 anos da TV Cultura’.

Cara nova

A identificação – ou não – dos telespectadores de um determinado programa com os apresentadores habituais desse programa é, em qualquer TV aberta do planeta, um fator poderoso e, muitas vezes, decisivo no sucesso ou fracasso das produções. Tanto que, como também é muito comum, a maioria das emissoras costuma dar algum tipo de satisfação, ao consumidor, sobre o sumiço de âncoras tradicionais ou do surgimento de caras novas no estúdio. O destino e a importância do Metrópolis no cenário da mídia eletrônica brasileira não estão, é claro, em cheque. Mas não custava nada o programa explicar a participação de Felipe Aaukay ao lado de Domingas Person na ancoragem da edição de 23 de junho. Até porque o apresentador habitual do programa, Cunha Jr, aparecia em uma reportagem sobre colecionadores de bonecos.

Oportuna, abrangente e bem-editada a reportagem do Metrópolis sobre o novo episódio da polêmica sobre Wilson Simonal, desta vez por causa da reportagem especial da Folha de S. Paulo sobre as relações do cantor com os órgãos de repressão da ditadura.

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Sem air bag, 26 de junho

‘Temos que ter princípios e temos que defender esses princípios. Mas em política internacional, se nós não defendermos esses princípios com um mínimo de pragmatismo, é melhor ficar em casa. O mundo é cheio de pecados. E se nós só formos nos reunirmos com pessoas virtuosas, talvez nem precisemos nos reunir’.

Com esta e outras declarações, o chanceler Celso Amorim mostrou, no animado Roda Viva de 22 de junho, que deixa praticamente duas alternativas para quem tem a chance de acompanhar suas performances diante das câmeras: torcer o nariz para a sua postura às vezes arrogante, a falta de disposição para a autocrítica e a retórica monolítica e intransigente na defesa da política externa do governo Lula. Ou tirar o chapéu para esta política externa, para a maneira quase apaixonada com que ele a defende e para sua postura de peito aberto para dar respostas que, em sua maioria, não são comprometidas pelas platitudes e airbags semânticos que costumam adornar a linguagem dos diplomatas. Seja para discordar ou concordar com ele.

Os entrevistadores Cláudia Antunes (Folha de S. Paulo), Roberto Lameirinhas (Estadão), Mac Margolis (Newsweek) e o embaixador Rubens Barbosa, além do âncora Heródoto Barbeiro, cumpriram o importante papel de não deixar de fora temas importantes como a eleição iraniana, as relações do Brasil com o governo Barack Obama, a questão cubana, a ‘morte’ do G8 e o crescimento do poder do G20 e dos chamados Brics, o Paraguai de Fernando Lugo, a Bolívia de Morales e a Venezuela de Chavez. Foi durante as intervenções do embaixador Rubens Barbosa, no entanto, que o programa – e o comportamento ligeiramente mais irônico e reativo do entrevistado – mostraram claramente, ao telespectador, como se posicionam as duas correntes atuais do Itamaraty.

Do lado de Amorim, os que estão no governo e levam à frente a campanha do Brasil por uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, defendem o aumento do número de embaixadas e diplomatas no exterior, procuram fazer do presidente Lula um protagonista importante em todos os organismos internacionais existentes e exercitam, ao limite do inimaginável, o pragmatismo da chamada política de estado – o que incluiu a ginástica do chanceler de explicar a desastrosa declaração do presidente Lula sobre a eleição iraniana e de considerar, notoriamente sem a veemência de outros momentos da entrevista, que a Venezuela é uma democracia. Do lado de Barbosa e fora do governo, os que questionam a ‘campanha custosa’ ao Conselho de Segurança da ONU, os prejuízos internos e econômicos da renegociação de Itaipu com o Paraguai, as recentes derrotas brasileiras na disputa de cargos internacionais e a eficácia da atuação do Itamaraty em tantas frentes econômicas e diplomáticas.

Para o telespectador, o programa foi uma importante oportunidade de ele se posicionar em relação a todas essas questões. Com dois reparos que, aliás, também podem ser aplicados às últimas edições do Roda Viva: a proporção frustrantemente baixa de perguntas feitas pelos telespectadores e que são feitas ao entrevistado durante o programa, e a forma atropelada e impertinente com que o âncora às vezes tenta conduzir a entrevista, principalmente quando o entrevistado, como no caso de Celso Amorim, não abre mão do direito de completar uma resposta.

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Incentivo à reflexão, 22 de junho

O formato foi, por assim dizer, standard. Mas estava claro que a proposta não era fazer uma grande produção sobre a anunciada reformulação da Lei Rouanet e a atual política de incentivos culturais do governo federal. O que não quer dizer que o foco não tenha sido quase sempre preciso, tematicamente abrangente, editorialmente equilibrado e, acima de tudo, bastante adequado a uma característica fundamental que muitos documentários financiados pela mesma Lei Rouanet – e exibidos nas emissoras públicas – não têm: linguagem, ritmo e tratamento para TV aberta.

A escalação de Cunha Jr para a ancoragem do programa, ainda que previsível, em função de sua condição de apresentador de um programa que lida diariamente com a produção cultural e de entretenimento, foi perfeita e certamente atraiu, para este ‘Especial Cultura’, muitos telespectadores regulares do Metrópolis. Sem a ancoragem de Cunha Jr, boa parte desses telespectadores provavelmente trocaria de canal ao ouvir expressões como ‘lei de incentivo cultural’, e ‘renúncia fiscal’.

Outro ponto positivo foi o uso competente, na edição, do vasto arquivo de imagens da TV Cultura, na hora de ilustrar a polêmica sobre os critérios do Ministério da Cultura na aprovação de projetos culturais, o debate sobre o papel dos departamentos de marketing, as desigualdades regionais e setoriais na distribuição dos incentivos e o risco de dirigismo cultural contido (ou não) na proposta de reformulação que o governo federal está preparando. Foi um pouco confusa, no entanto, a tentativa do programa de lidar com os números, percentuais, alíquotas de imposto e faixas de isenção relacionadas ao tema.

Apesar de praticamente todos os setores da produção cultural brasileira terem sido representados e defendidos – através de entrevistas com o Ministro da Cultura, Juca Ferreira, o secretário de Cultura de São Paulo, João Sayad, o crítico José Roberto Teixeira Coelho, o consultor Leonardo Brand, o ator Ney Piacentini, o coreógrafo Ivaldo Bertazzo, o ator Odilon Wagner, Ivan Ferraro (vice-presidente da Associação de Produtores de Disco do Ceará) e Ricardo Juliani, diretor do Núcleo de Animação do Ceará – bem que o programa poderia ter um pouco mais da perspectiva pura e simples de um personagem que nem sempre é levado em conta nessa discussão: o público.

Perguntar não ofende

Transcrevo, fazendo minha a indagação mais que pertinente de uma telespectadora:

‘Gosto muito da programação de vocês, porém, nas sextas-feiras, são passados filmes excelentes, mas todos com legendas. Considerando a hora em que são exibidos, não dá para ficar lendo. E tem mais: algumas pessoas (como eu), se lêem legendas não conseguem ver as cenas. Desculpe, mas eles poderiam ser dublados. Deixem a tecla ‘SAP’ para os puristas. Acontece a mesma coisa com documentários que são passados às quartas-feiras. É muito caro fazer uma dublagem de qualidade?’

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