Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1054
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VOZ DOS OUVIDORES >

Ernesto Rodrigues

14/04/2009 na edição 533

‘Ser ombudsman, antes de sair disparando conceitos e opiniões, é ouvir ou ler tudo o que os telespectadores dizem ou escrevem e, de alguma maneira, levar essas manifestações em conta na hora de tentar representá-los. Evitando, por outro lado, se tornar refém ou defensor compulsório das idéias e opiniões que esses telespectadores expressam.

Para ilustrar esse dia-a-dia da função, reproduzo aqui alguns trechos de emails enviados ao ombudsman de ontem pra hoje e que são diária e obrigatoriamente encaminhados às áreas corrrespondentes da emissora. Desde já informo que, além de omitir o nome dos remetentes – por estar fazendo uma transcrição livre do que escreveram – fiz uma seleção, escolhendo apenas os trechos representativos dos desafios cotidianos da minha função.

Serenata indigesta

A TV Cultura perdeu o bom senso. Não é possível que o programa Clássicos agora passe para 00:40h . Este horário é para loucos. Os que gostam estão dormindo. Pelo amor de Deus, este é um absurdo!

Contra novelas

‘Não consigo entender qual o sentido de um programa da TV Cultura abordar as novelas (seja de que canal for), salvo seja para discuti-las criticamente. O programa Vitrine fez uma matéria há algumas semanas sobre a influência de uma novela da Globo sobre várias modas e hábitos da atualidade. A abordagem foi digna de um Vídeo Show: acrítica e quase em tom de comemoração. Ora, as novelas já fazem os corações e mentes de 90% dos brasileiros; que contribuição dá a TV Cultura ao propagar esta influência ao invés de discuti-la? Será que cumpre com o seu papel de tv pública? Eu suspeito que, neste aspecto específico não’.

A favor de Rappin Hood

‘Por que não houve nenhum comentário do programa Manos e Minas com Seu Jorge, o último apresentado por Rappin Hood? Foi um ótimo programa muito alto astral.Hood sempre supreende, e sabe por que? Porque ele não é um personagem ele é ele mesmo, verdadeiro e autêntico. Agora vamos ter que aturar o Thaide (…). Fui à gravação do programa e parecia que o Thaide estava engessado, não tem o mínimo de desenvoltura e carisma ele tenta ser legal mas não consegue. Sem dúvida a comparação será inevitável, Rappin Hood é o melhor’.

Tal e qual o ombudsman

‘A questão da audiência é muito relevante, pois o programa não atende aos anseios das classes sociais citadas e caberia melhor após o horário nobre num horário que poderia ser assistido por outro perfil de telespectador. Realmente a edição, o cenário, a trilha sonora e até mesmo o apresentador latino têm uma linguagem de trailer ou até mesmo de um videoclipe, porém ela é quebrada por alguns documentários’. (Obs: email sobre a crítica do ombudsman ao programa Tal e Qual em 8 de abril)

‘A nova programação da TV Cultura ficou ótima, gosto muito dos musicais Radiola e Alto Falante. Também como jovem, gostei muito da volta do desenho Doug que assistia nos anos 90, mas sinto falta do Mundo da Lua e do Rá-Tim-Bum que são ótimos programas produzidos pela TV Cultura. Parabéns TV Cultura pela nova programação!’

Onde fica a opinião?

‘Fiquei extremamente desapontado com a decisão da emissora em retirar o programa Opinião Nacional do ar. Desconheço os motivos que levaram a esta decisão, mas, gostaria de registrar que, juntamente com o Roda Viva, ele se tornou um dos principais instrumentos de informação de atualidades. Será que não valeria a pena, se não reeditá-lo, pelo menos substituí-lo por outro na mesma linha ?’

Puro sexo

‘Tomei a liberdade de escrever-lhe porque os quadros do Angeli (no Metrópolis) nada têm a ver com o programa. Ainda se ele apresentasse sátiras decentes, tudo bem, mas trata-se de um monte de besteiras sobre puro sexo’.

Roda Viva

‘Com certo atraso, manifesto minha decepção com o Roda Viva que entrevistou o Vice-presidente da República José Alencar. Os repórteres da mídia privada perderam um tempo precioso ao fazerem perguntas sobre Dilma e Lula, ao invés de debaterem os grandes e reais problemas do Brasil (…) Infelizmente só perguntaram abobrinhas ao José Alencar’.

Bronca digital

‘Acabei de adquirir um conversor digital. E gostaria de saber porque a TV Cultura não transmite o Guia Eletrônico de Programação aqui em São Paulo – capital’

E agora?

‘Gostaria apenas de saber se leram um email que mandei sobre o comportamento da TV Panorama afiliada da Tv Cultura aqui em Balneário Camboriu. Fernanda’

Lemos, sim, Fernanda.

Sempre.

E encaminharemos.

***

Que tal algumas semelhanças?, 8/4

Tal e Qual, 7 de abril

No momento em que o fantasma do protecionismo, da xenofobia e do indiciamento generalizado dos imigrantes assola o continente europeu, como subproduto da crise que ainda corrói as economias dos países ricos, que tal conhecer a história de um porto e de uma cidade da América do Sul onde as filas eram de empregadores interessados em acolher, alimentar e contratar imigrantes que fugiam da fome e da crise econômica na Europa? Esta instigante ironia histórica era apenas uma das contextualizações que poderiam ter sido feitas pelo Tal & Qual, a partir do mini-documentário que o programa exibiu no dia 7 de abril.

Poderia, mas não foi feita. E a este ‘engessamento’ de conteúdo decorrente do compromisso do Tal & Qual de simplesmente exibir, sem qualquer adaptação editorial, os documentários participantes do projeto TAL (Televisão América Latina), somou-se um modelo arrastado, burocrático e linear de narrativa que, infelizmente, pode ter espantado, pra longe dessa bela história, um contingente expressivo de telespectadores.

No caso do mini-documentário exibido no último bloco, uma reportagem da série paraguaia ‘Lugares da minha cidade’, o Tal e Qual acabou testando ao limite do inimaginável a índole bolivariana ou a capacidade do telespectador da TV Cultura de se interessar por assuntos e temas distantes de sua realidade. O tema era a restauração da igreja paroquial da cidade de Assunção e a edição tentava combinar um texto laudatório e cheio de cerimônias com imagens sucessivas de portais, colunas, paredes, altares e vitrais, tudo ao som de uma solene música sacra.

O que o programa teve de potencialmente mais próximo do que seria um conteúdo de TV aberta interessante para o telespectador da Cultura foi mais um episódio de outra série argentina, ‘Escritores en primera persona’, desta vez um perfil do escritor peruano Mario Vargas Llosa recheado de recursos de linguagem adequados, como imagens do álbum de família do entrevistado, participação da escritora Karina Macció, enquete com leitores e muita contextualização sobre o papel e a importância dele no boom literário latino-americano dos anos 60.

O horário de exibição, porém, certamente não deve ter ajudado. Programar um conteúdo como esse do Tal e Qual para o horário nobre pode ser, como deve ter sido, um tiro no pé em termos de impacto, repercussão ou, em última análise, audiência. Vale repetir: para se ter uma idéia da facilidade com que um programa com essas características pode ser abandonado pelo telespectador no horário nobre, basta tentarmos imaginar como se comportaria, diante dele, uma família das classes C, D e E que tivesse apenas um aparelho sintonizado em TV aberta – caso de 88% dos domicílios de São Paulo.

Para completar o cesto de dificuldades que o projeto do Tal e Qual continua tendo pela frente, o programa ainda tem uma abertura que, no texto e nas imagens, é uma contradição em si. O texto: ‘Tal, Televisão América Latina – o intercâmbio entre canais de TV, instituições educativas e culturais e produtores independentes dos 20 países da América Latina de origem ibérica. Conteúdos baseados nas diferenças, abrindo espaços e expondo a América Latina com nossos próprios olhos’.

A edição, em ritmo de trailer, sugere uma temática moderna, cosmopolita e geograficamente variada, além de enfoques comportamentais e urbanos. Talvez, considerando-se o enorme distanciamento existente entre os países latino-americanos, fosse o caso de o projeto exibir conteúdos mais baseados em semelhanças, em vez de diferenças das quais muitos de nós nem sequer nos damos conta. O nome do programa, por exemplo, nem precisaria ser mudado.

***

O que se diz e o que se vê, 7/4

Altos e Baixos, março de 2009

Num momento em as páginas da mídia impressa paulista voltam a ser pontilhadas por artigos e entrevistas sobre o que a TV Cultura deve ou não fazer para conquistar mais audiência e relevância social, não deixa de ser oportuno usar o espaço desta coluna para publicar uma seleção que, no entender deste ombudsman, é bem representativa dos altos e baixos da programação da emissora ao longo do mês de março.

A seleção não tem a pretensão de ser a única – no que elogia ou no que critica – mas nos oferece o benefício de verificar, pontualmente, que fazer televisão, em especial uma televisão comprometida com a qualidade e o exercício eficiente da cidadania, depende bem menos do que se escreve sobre esse enorme desafio e muito mais do que fazem diariamente os profissionais atualmente responsáveis pelo que vai ao ar.

Esses profissionais erram, acertam, brilham e derrapam. Diariamente. Sem chance de dizer hoje não dá. Até por isso, deveriam ser ouvidos com atenção e respeito quando, na ribalta das ilustradas e cadernos-dois, muitas vezes sem que se ligue a televisão, discute-se que destino deve ser dado ao que eles fazem.

Obs: a seleção abaixo ficará disponível, a partir de amanhã, na seção ‘Altos e Baixos’ desta página.

ALTOS

Jornalismo sustentável

Repórter Eco, 25 de março

O Repórter Eco sobre a água, além de merecer com todas as honras o adjetivo ‘especial’ com que foi apresentado, deveria, depois da exibição na íntegra para seu público cativo, o que aconteceu na noite de 25 de março, ser ‘fatiado’ – no bom sentido – e ‘exportado’ para outros programas jornalísticos (ou não) da grade da TV Cultura, para que os telespectadores menos atentos ou militantes da causa ambiental pudessem desfrutar das ótimas matérias apresentadas. A reportagem de Cláudia Tavares sobre o engenheiro paulistano Takeshi Imai, que diz estar ‘pagando os pecados’ do tempo em que trabalhava com pulverizadores e desenvolveu uma técnica para fazer chover onde é necessário, é caso típico de um encontro perfeito do que é importante com o que é interessante do ponto de vista telejornalístico.

Discussão oportuna

Metrópolis, 24 de março

Fez bem o Metrópolis ao não se contentar com o registro meramente colunístico da festa de premiação do 5º Prêmio Fiesp/Sesi-SP do Cinema Paulista, aproveitando o evento para medir a temperatura da classe em relação às mudanças anunciadas na Lei Rouanet, que, aliás, poderiam ser tema de uma pauta especial do programa. De quebra, o telespectador teve o registro de um raro desabafo de Fernando Meirelles, premiado por seu ‘Ensaio sobre a cegueira’, contra os críticos.

Talento para a tela

Radiola, 23 de março

Valeu a pena ver de novo, no Radiola exibido em 23 de março, um gol de placa: no quadro ‘Entrevista’ do Radiola, o músico e radialista Daniel Daibem deu uma extraordinária demonstração do potencial que tem de ir além do rádio e de começar a pensar seriamente – obviamente se este for o desejo dele – em trabalhar na televisão. Sua marcante e divertida linguagem corporal, o envolvente tom coloquial que ele usa para falar de música e os conceitos simples e brilhantes com os quais nos conduziu pela aventura da música fazem de Daniel uma espécie de profissional pronto para falar regularmente sobre o tema em qualquer emissora de TV.

O exemplo do Vox Populi

Especial Cultura Elis Regina, 19 de março

Apesar da cenografia algo esquisita para os padrões de hoje – um entrevistador de óculos escuros, diante de monitores com a imagem da entrevistada no switcher da emissora – Elis foi colocada diante de questões polêmicas através de perguntas feitas por gente da rua, jornalistas e artistas. Por conta desse formato, ela revelou, sem retoques, suas desavenças com outros músicos, seus desafetos e, por exemplo, a opinião devastadora que tinha sobre os musicais de TV da época. Isso tudo sem que o programa deixasse de ter, também, ao lado de algumas interpretações históricas da cantora, momentos hilariantes. Um deles foi a interminável gargalhada de Elis diante da mulher que, entrevistada na rua, quis saber se os dentes dela eram verdadeiros ou se ela usava dentadura. Quem, no estúdio, teria coragem de fazer uma pergunta dessas à cantora? O espírito livre e eclético do Vox Populi continua sendo, por essa e por outras, uma referência e uma inspiração para quem quiser criar conteúdos de qualidade para televisão.

Dose certa

Cultura é Currículo, 19 de março

O episódio da série ‘Cultura é currículo’ sobre a Estação Pinacoteca, uma competente viagem de câmera, edição e texto que mostra tudo que esse espaço oferece aos paulistanos sobre arte e História do Brasil – incluindo o Memorial da Resistência – não usou o recurso da dramatização, presente em outros momentos do projeto. Por isso, talvez tenha sensibilizado um número maior de telespectadores. O tom mais de documentário em pílulas – e menos de programa didático voltado para o público infanto-juvenil – tem uma vantagem: atinge aquela parcela do público adulto que teve educação precária ou inexistente, sem deixar de despertar o interesse em boa parte dos jovens.

Muito além do jardim

A’Uwe, 18 de março

‘A educação é a melhor alternativa pra se comunicar e para se defender’. A abertura de Marcos Palmeira, com uma flecha em uma mão e uma caneta na outra, fazendo uma comparação entre as duas ‘armas’ de que os índios brasileiros dispõem para defender sua própria integridade, não foi apenas exemplo perfeito do que poderia ser feito com mais frequência no início de vários programas da TV Cultura. Foi também uma sinalização muito benvinda de que o que estava para ser exibido era um documentário que iria além da visão de ‘jardim antropológico’ que permeia muitos trabalhos e que tanto afasta, da causa indígena, importantes contigentes da opinião pública brasileira. O documentário ‘Educação escolar indígena’, produzido por Lucy e Paula Barreto, da LC Barreto com patrocínio da Petrobras, não tem, notoriamente, ambições estéticas ou narrativas revolucionárias. E seu conteúdo – a luta dos índios por uma educação que não os massacre culturalmente – não é novidade para os militantes e simpatizantes mais intensamente envolvidos com a causa indígena. Em compensação, a corretíssima captação de áudio, a direção de fotografia profissional, a preocupação didática, os depoimentos enxutos, a existência de uma narração quase sempre em português que dispensa o fardo das legendas, o uso de imagens arquivos marcantes relacionadas aos índios brasileiros, a trilha sonora quase sempre envolvente e o roteiro seriamente preocupado com o ritmo e a gramática da TV aberta, tudo isso certamente contribuiu, salvo se este ombudsman for categoricamente desmentido pelo Ibope, para que o A’Uwe ampliasse um pouco mais o seu público.

Pirataria sem tapa-olhos

Metrópolis, 18 de março

O Metrópolis de 18 de março teve um momento certamente gratificante para o telespectador: a façanha do grupo Massaroca, que, ao construir uma crônica certeira sobre a polêmica em torno da pirataria na Internet, não caiu nem no discurso oportunista e algo policialesco da indústria do entretenimento nem no convite inconsequente, irresponsável e também oportunista dos que defendem o download irrestrito e o salve-se quem puder, no que diz respeito aos direitos autorais. A síntese desse olhar agudo e ao mesmo tempo divertido dos massarocas foi o momento em que o personagem pirata adverte um interneteiro com o seguinte slogan: ‘Pirataria ilegal é crime’

Risco válido

Roda Viva, 16 de março

A entrevista com o presidente da GM, Jaime Ardila, ao Roda Viva transcorreu quase toda num fio de navalha editorial. De um lado, deu oportunidade ao telespectador de ver como a gigante americana está tentando sobreviver às suas contradições e à crise, além de saber o que pode acontecer no mercado brasileiro de carros e empregos. De outro, abriu espaço para um ousado executivo que, longe de ser bobo, aproveitou a arriscada exposição para literalmente vender o peixe, os modelos, a qualidade e o futuro feliz que, segundo ele, espera os clientes da GM. A boa audiência do programa – maior até que a do programa anterior, com o técnico Dunga – foi um indício de que valeu a pena correr o risco editorial. Até porque ninguém agüentaria ficar muito tempo assistindo – ou, no caso, ouvindo – propaganda de automóvel.

Mais Carol

Vitrine, 14 de março

O texto correto, a narração elegante e a passagem competente da correspondente Carol Campos no bem-editado perfil de Paulo Szot, o primeiro ator brasileiro a ganhar o Tony, o ‘Oscar’ do teatro americano, deve ter deixado muito telespectador do Vitrine na expectativa de novas matérias novaiorquinas da repórter.

Por trás da graça

Pé na Rua, 10 de março

Que ninguém se engane: por trás do estilo ágil, jovial, aparentemente clipado – no sentido negativo de fragmentação – e despudoradamente alegre que, na opinião deste ombudsman, torna o Pé na Rua uma referência de linguagem entre os programas atuais da TV Cultura, há uma gramática, uma narrativa construída de forma clara, precisa e inteligível – o que é brutalmente importante num tipo de comunicação no qual não temos, pelo menos por enquanto, como um fazer replay instantâneo, como fazemos com os olhos nas páginas de um livro ou de um jornal. Exemplo: a enquete ‘Qual é o seu grande sonho?’, no programa de 10 de março. Há, é claro, quem proponha linguagens heterodoxas ou alternativas. Mas para nos aventurarmos nelas com algum êxito, é preciso saber, primeiro, contar muito bem uma história em televisão. Isso a equipe do Pé na Rua sabe.

Quem sabe, sabe

Entrelinhas, 9 de março

Sem nenhum demérito para a simpática reportagem sobre a livraria Shakespeare and Company, de Paris – uma espécie de inspiração para tantas livrarias que se tornaram espaços de cultura, performance, música e gastronomia – para o registro do livro que resgata a trajetória de Joãosinho Trinta, para o bem-editado perfil de Andrea Del Fuego do escritor Manoel Carlos Karam e para a entrevista de Alice Ruiz, o destaque da edição do Entrelinhas exibido em 9 de março foram os cenários exuberantes escolhidos e montados para a gravação dos textos lidos pela apresentadora Paula Picarelli. Aqueles fundos cheios de cores vigorosas e formas elegantes eram tão bonitos que mereciam crédito. Tanto para o local quanto para o responsável pela luz e pelo enquadramento.

Bravo!

Canteiro de Obras, 9 de março

A belíssima imagem final do programa – a silhueta de duas bailarinas fazendo evoluções de aquecimento por trás da cortina, diante de um público ainda desatento e barulhento, antes do iníco do espetáculo – foi um emblema do saboroso mergulho dado pelo telespectador no mundo de trabalho, suor, dedicação e disciplina que está por trás de uma companhia de dança. No caso, esse telespectador teve também o privilégio de acompanhar, através de um competente e sensível making of, o nascimento e os primeiros passos da recém-fundada São Paulo Companhia de Dança. Depois de um início um tanto engravatado e pontilhado de declarações oficiais em torno da cerimônia de lançamento – o que deu a impressão de que se tratava de um vídeo institucional e, possivelmente, espantou uma parte dos telespectadores – o programa passou a fluir com classe, elegância e ritmo de edição quando a narrativa ficou por conta dos depoimentos dados pelos profissionais responsáveis pela implantação do projeto.

Varejo criativo

Publicidade, 3 de março

Os adversários radicais da presença de qualquer tipo de publicidade na televisão poderiam prestar atenção na peça que o Instituto Akatu está veiculando na TV Cultura. A embalagem do anúncio é típica da propaganda barulhenta e pouco sofisticada de varejo, muito comum no horário nobre, mas o que se vê é iogurte vencido, mamão mofado, peixe fedido, maminha estragada e mexerica passada seguidos de um hilariante jingle que diz que ‘um terço de tudo que você compra vai direto para o lixo’. Dificilmente outro formato de comunicação causaria tanto impacto para conscientizar o telespectador sobre as possibilidades de redução do desperdício de alimentos.

Galeria popular

Sr. Brasil, 3 de março

Não poderia haver, pelo menos na teoria, mistura mais arriscada, em termos de televisão: um palco de auditório longe das câmeras e meio na penumbra, uma tela relativamente pequena acoplada a um projetor conectado a um laptop, a pintura como tema e um público – no auditório e em casa – mais acostumado com MPB e música sertaneja do que artes plásticas. Apesar de todas essas contra-indicações de formato, o Sr. Brasil de Natal, reexibido no dia 3 de março, foi um exemplo de como podem ser elásticos os formatos para a TV. Aconteceu na bela homenagem de Rolando Boldrin à vida e à obra de Cândido Portinari.

Em dois momentos do programa – antes e depois da apresentação do cantor Luís Melodia, estrela da noite – muitos telespectadores do Sr. Brasil que nunca foram a um museu ou jamais folhearam livros de arte tiveram uma real oportunidade de saborear e se emocionar com aqueles cangaceiros, índios, crianças, vaqueiros, peões, palhaços, circos, praças, coretos, igrejas e sertanejos retirantes que já fazem parte da história da pintura latino-americana e mundial. Quem disse que o popular e o erudito são incompatíveis? Quem disse que uma tv pública não pode ser uma ponte entre esses dois mundos?

BAIXOS

Torcidas e distorcidas

Jornal da Cultura, 30 de março

Duas manchetes do Jornal da Cultura de 30 de março podem ter deixado pelo menos parte dos telespectadores com a sensação de que alguém, na equipe do jornal, estava especialmente impaciente com a lentidão com que a economia brasileira, Lula incluído, e a seleção brasileira, Dunga também, estariam indo para o buraco. Uma das manchetes dizia: ‘A imagem do presidente Lula já começa a fazer marola. A popularidade dele voltou a cair. Uma nova pesquisa mostra que a aceitação pessoal do presidente desmoronou, perdendo oito pontos de avaliação positiva’. A outra manchete afirmava: ‘Brasil joga como time pequeno e só se salva porque tem o melhor goleiro do mundo. De volta do fiasco no Equador, a seleção já treinou hoje para o jogo contra o Peru quarta-feira’.

Elogios arriscados

Manos e Minas, 28 de março

Os quadros e reportagens que completam a receita de conteúdo do Manos & Minas deixam o programa ainda mais iidentificado com o formato da telinha, com o ‘Interferência’ de Ferréz e as ótimas videoreportagens de Rodney Suguita. Na edição de 28 de março, Rodney, além de contar a história de grafiteiros que ganham a vida trabalhando para as escolas de samba de São Paulo, fez um retrato nu e cru do drama diário do transporte coletivo em São Paulo, acompanhando a Diarista Maria das Graças Teixeira. A reportagem, como outras anteriores, tinha o diferencial de mostrar periferia como ela é, do jeito que ela parece aos que vivem nela, sem o olhar às vezes paternalista e cheio de dedos da imprensa tradicional. Pena, no entanto, que o impacto da história da personagem e de suas frases (‘Se você for parar e pensar, você chora, mas lágrima não paga dívida’) tenha sido acompanhado não de um complemento jornalístico com a palavra – suspeita ou desmoralizada que fosse – de uma autoridade do setor de transportes em São Paulo, mas de uma vaia do auditório encomendada pelo próprio apresentador. O problema – ou o perigo – não é a vaia, tônico imprescindível da democracia. É a encomenda. Até porque, como disse um entrevistado da platéia, ‘tempo dá (pra chegar ao trabalho de ônibus), mas seu psicológico fica afetado’. Houve ainda uma espécie de elogio contido à transgressão quando Rappin Hood sugeriu que o rapper Sombra falasse dos tempos em que ‘passava muito debaixo de catraca’.

Discriminação

Vitrine, 28 de março

O Vitrine fez bem em registrar a virtual expulsão das equipes de televisão da coletiva de Roberto Carlos, por conta do contrato de exclusividade do cantor da TV Globo. Fica como reflexão, no entanto, uma pergunta: não seria o caso de não ter ido lá? Ou de não exibir a reportagem (que ficou fraca), depois da ‘expulsão’? Ou ainda de apenas contar que o programa e a emissora não puderam participar da entrevista?

Derrapadas 1

Vitrine, 21 de março

Na reportagem do Vitrine de dia 21 de março sobre a onda indiana provocada no país pela novela Caminho das Índias, infelizmente sobrou uma crase indigesta no título ‘Visita à uma família indiana’. No mesmo programa, houve outro momento não de português errado, mas exemplar do que acontece quando uma produção de imagens é limitada como a da matéria sobre a autobiografia do ator Jonas Bloch. Ao interminável passeio de Jonas e do apresentador pela Avenida Paulista seguiu-se uma edição tão pobre em opções de imagens que teve até slow motion (mudo) dos dois conversando para cobrir um trecho da narração.

Derrapadas 2

Ombudsman, 27 de março

Foi falha minha – pela qual peço desculpas – não ter especificado o segundo dos dois (únicos) erros gramaticais que encontrei no perfil de Fernando Henrique Cardoso exibido no início Roda Viva de 23 de março e, usando o plural, ter permitido a interpretação de que o texto continha várias ou, pior, muitas incorreções. Não tinha. Em relação ao fato de Fernando Henrique ter corrigido o mesmo texto durante o programa, apontando erro nas datas de criação da URV e da troca de moeda, o editor Sérgio de Castro reconheceu o equívoco de ter dito que a URV foi criada em 30 de março de 1994, mas esclarece que, no que diz respeito à criação do real, sua opção foi usar o mês de junho, ‘pois foi em 30 de junho de 1994 que o então ministro da Fazenda, Rubens Ricúpero, anunciou a criação da nova moeda’.

Interessante, difícil e fechado

Zoom , 14 de março

Este Zoom foi, inegavelmente, um especial à altura da importância de Glauber. Pena que não houve um preocupação maior do programa não apenas com os telespectadores não iniciados – aqueles que se vêem diante de um mito do cinema brasileiro sem ter condições ou instrumentos para entendê-lo – mas também com os que, conhecedores de cinema, gostariam, em vez de apenas homenagear, também de discutir a obra glauberiana de forma mais clara e intelectualmente menos religiosa. A falta de uma contextualização maior que ‘segurasse’ os não iniciados e de um olhar menos arrebatado que despertasse o interesse dos que questionam a importância do Cinema Novo fica ainda mais gritante se lembrarmos que o diálogo dos filmes de Glauber com as características do veículo televisão vai do sofrível ao impraticável.

Alguém poderá argumentar que a obra de Glauber é mesmo muito complexa e que qualquer tentativa de construir pontes entre ela e o telespectador médio de TV aberta, explicando e contextualizando mais o que foi exibido pelo programa, seria inútil ou desrespeitosa. Pode ser, mas resignar-se diante dessa dificuldade e confinar o cineasta a uma igreja de poucos devotos blindada contra críticas talvez seja tornar ainda mais inalcançável a utopia brasileira que com que ele tanto sonhou. Ou, como diria o personagem de Jardel Filho em ‘Terra em transe’: ‘Estão vendo o que é o povo. Um imbecil, analfabeto e despolitizado. Já pensaram Jerônimo no poder?’

Um instante, maestro!

Noites Clássicas, 3 de março

Para os telespectadores iniciados em música erudita, a estréia do programa Noites Clássicas, com o concerto da Orquestra Acadêmica, sob regência do maestro Ronald Zollman, em gravação realizada no auditório Claudio Santoro, em julho de 2008, durante o Festival de Inverno de Campos do Jordão, foi uma benvinda retomada de um tipo de conteúdo do qual uma fração atuante do público da TV Cultura vinha sentindo muita falta e, aliás, deixando esta reivindicação muito clara em vários email enviados a este ombudsman. Já para aquele telespectador apenas potencialmente interessado em música clássica – como muitos de nós fomos em algum momento da vida – a forma com que o Noites Clássicas entrou no ar – uma vinheta clássica, seguida da Suíte Romeu e Julieta, de Sergei Prokofiev – foi muito pouco estimulante. Faltou um rosto conhecido que, com duas ou três frases de apresentação, chamasse a atenção desse telespectador não muito disciplinado para a importância do novo programa. Faltou também uma contextualização do concerto da noite, que poderia ser feita com outras duas ou três frases de especialistas em música clássica como, por exemplo, os jurados do programa Prelúdio, facilitando, seduzindo e puxando pela mão os telespectares mais hesitantes diante da viagem musical erudita. Até porque havia uma primeira audição mundial de um encontro da música com a literatura machadiana – ‘Olhos de Capitu’e ‘Modinha para Machado’, de João Guilherme Ripper – sobre a qual os telespectadores só foram informados no início do segundo bloco, por meio de caracteres. É claro que tais providências não transformariam o Noites Clássicas num fenômeno de audiência. Todos sabemos que o tipo de conteúdo do programa não é para muitos, definitivamente. O que se propõe aqui é que a emissora pelo menos facilite e incentive a iniciação de quem contempla essa possibilidade e está com um controle remoto à mão. Afinal, ninguém, incluindo os iniciados que hoje não precisam desse tipo de mão estendida, nasce pronto para saborear, sinceramente, um concerto de música clássica.

***

Novos rumos, 6/4

Nossa Língua, 6 de abril

Na forma e no conteúdo, o novo Nossa Língua representa uma estimulante correção de rumos em direção ao que o programa e sua equipe têm de diferente e especial: o conhecimento do português e, como foi possível verificar na estreia deste 6 de abril, a capacidade de levar o telespectador a viajar pelos segredos e sabores da nossa língua sem deixar de assistir televisão.

O reforço do ótimo Felipe Reis na condução das entrevistas com visitantes do Museu da Língua Portuguesa, nas tabelinhas de estúdio com o professor Pasquale e, principalmente, no hilariante telejornal que noticiou ‘a morte do trema’, abre uma avenida de possibilidades de transmitir informação de qualidade sobre a língua com humor de primeira. O museu, aliás, poderia ser, por tudo o que tem, representa e provoca nas pessoas, uma espécie de parada semanal do Nossa Língua. Até porque não parece existir lugar onde se respire mais, e com mais deleite, a língua portuguesa.

Outra qualidade do novo Nossa Língua foi a de não perder seu foco diferenciado, dos momentos didáticos como o do quadro Jogo Rápido às entrevistas feitas pelo professor Pasquale na redação da Folha de S. Paulo. Vale destacar também o design mais limpo dos videografismos e a decisão do programa de incrementar o script com citações cinematográficas – no caso, o trecho do filme ‘A hora da estrela’ – e com a ‘Liga Portuguesa’, um desenho animado promissor, apesar de ainda compreensivelmente em busca de identidade.

Se a resposta do público não tiver, com o tempo, o mesmo tamanho das mudanças, este ombudsman ousa dizer que não será por inadequação do novo formato à TV, por falta de criatividade ou por uma postura burocrática em relação ao uso da língua portuguesa. Muito pelo contrário.’

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