Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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VOZ DOS OUVIDORES >

Ernesto Rodrigues

18/08/2009 na edição 551

‘Tomo a liberdade de transcrever, para ampliar o debate e comentar em uma coluna próxima, o texto enviado a mim por Fernando Moraes Fonseca Jr, do Núcleo de Educação, após a publicação, aqui, no dia 30 de julho, do texto ‘A TV Cultura é mesmo a TV que faz bem?’.

‘Olá Ernesto

É sempre bom se deparar com uma crítica intelectualmente honesta e bem fundamentada. Seu texto é incisivo e sem meias palavras: questiona nossa capacidade de operar adequadamente os instrumentos que temos para a consecução da nossa missão institucional. Vai além: questiona nossos pressupostos de ação, concepções de comunicação, cidadania, cultura e mesmo nossos modelos mentais.

Seu texto chega ao ponto culminante quando afirma, no penúltimo parágrafo, que ‘a tarefa de conquistar esse telespectador comum com o conteúdo da TV Cultura […] , não pode ser considerada, a priori, impossível ou absurda, como querem alguns. Muito menos pode ser expurgada como se fosse uma vergonhosa concessão artística e intelectual. Conquistar o telespectador, em vez de entregar o ‘ignorante ingrato’ à baixaria e dormir em paz com a consciência, é obrigação, compromisso e pressuposto da existência da TV Cultura.’

A consecução dessa tarefa depende, sobretudo, de conhecermos melhor o sujeito que queremos conquistar (como sinteticamente coloca o Heródoto em sua mensagem), já que não podemos duvidar de nossas capacidades técnicas, jornalísticas, artísticas etc. No sentido apregoado pela missão da Fundação Padre Anchieta, a programação da TV comercial aberta está (é?) péssima. As exceções só confirmam a regra. No entanto, é para lá que a atenção da maioria da audiência se volta. Tomando a mesma referência, a programação da TV Cultura é muito melhor do que a da TV comercial aberta. No entanto, a audiência quase que a ignora. Nossa missão seria então incompatível com muita audiência? Não é provável. Se for legítimo supor que somos capazes de produzir o que for necessário, então a explicação mais provável para a dificuldade de audiência é que não tenhamos suficientes bons conhecimentos e boas hipóteses sobre o sujeito que pretendemos conquistar, esse sujeito-que-queremos-espectador. Por isso nossa programação não é suficientemente boa para envolvê-lo, encantá-lo e vinculá-lo com o que aqui é produzido e veiculado.

Para realmente conhecer melhor esse sujeito não poderemos permanecer acorrentados às nossas próprias convicções de quem ele seja, do que quer e precisa; tampouco podemos esperar que ele seja capaz de nos dizer de forma clara e direta. Todo bom professor conhece bem os perigos de um e de outro caminho quando organiza seu curso, suas aulas, e tem perante si questões similares no processo de seleção de conteúdos e estratégias pedagógicas: quem é o sujeito para quem preparo este curso? O que ele quer? O que ele precisa? Como criar uma boa experiência de aprendizagem capaz de promover sua vinculação com o conhecimento em tela?

Nossas convicções falham porque são plenas de fantasias e projeções e os desejos manifestados diretamente pelo sujeito-que-queremos-telespectador como regra não conseguem ir além dos lugares que ele já conhece. O que procuramos fica além de uma coisa e outra. Nosso sujeito-que-queremos-telespectador talvez nunca manifeste desejo de conhecer a vida de Goya do mesmo modo que os alunos não desejam, a priori, aprender as características químicas dos Lantanídeos. Num e noutro caso, conduzí-los até lá, instigar em seus desejos algo além é a chave do sucesso porque resulta na efetiva contribuição com o desenvolvimento de suas potencialidades emocionais, cognitivas, culturais e cidadãs.

Este, portanto, é um dos nossos mais importantes desafios: desenvolver uma atitude que permita conhecer melhor o sujeito para quem trabalhamos, o sujeito-que-queremos-espectador, uma atitude mais generosa e respeitosa com ele, mais científica e menos corporativa. Seu trabalho coloca uma grande responsabilidade em suas mãos: nos ajudar nessa empreitada assumindo a voz daquele que quase sempre fala de modo lacônico, pela ausência.

Embora entender o sujeito-que-queremos-audiência seja, sem dúvida, o primeiro passo para a superação do mal-estar da baixa audiência, sozinho ele não será suficiente: será necessário, ainda, que esse conhecimento seja transformado em uma programação correspondente suficiente boa. Por conta disso, neste ponto, proponho ir um pouco além.

Se as fórmulas de sucesso da TV comercial aberta não nos servem, resta então seguir as trilhas incertas e desafiadoras da inovação. Não há como inovar verdadeiramente sem correr riscos: o risco do ridículo, do inapropriado, do fracasso, do desperdício. Se a aversão ao risco for maior do que o ímpeto pela inovação ou caímos no lugar-comum da tv comercial aberta ou, não sei se pior, ficamos perdidos em algum interstício da audiência com uma programação que não é suficientemente boa. Esse não-lugar é o lócus da nossa crise de identidade, dos questionamentos sobre nossa ‘natureza’ e ‘propósito’.

Decorre, portanto, que em nosso caso, o risco maior é não inovar. Aliás, inovar poderá ser um dos métodos para conhecer melhor esse sujeito-que-queremos-audiência. Mas inovar de fato requer determinadas condições: a inovação não surge apenas da cabeça de um iluminado: surge de um contexto bem mais amplo de condicionantes e indutores. Há aspectos históricos, sociais, tecnológicos e até mesmo geográficos envolvidos nos processos de inovação, muitos dos quais se colocam além dos muros desta instituição e do alcance de nossa vontade. Mas há condições intra-institucionais e sobre elas podemos atuar para instalar as condições apropriadas para a inovação.

Trata-se de uma questão ampla que obviamente não vamos aqui esgotar e sobre a qual certamente gostaríamos de ouví-lo. Entretanto, a despeito dos inúmeros aspectos, dois merecem atenção imediata: (1) o impulso pela inovação tem origem no instinto de sobrevivência e de superação e (2) o ambiente de inovação é um ambiente de aprendizagem. Há um caráter motivacional implicado nos processos de inovação e há um entorno do ambiente que os condiciona. Dos sujeitos, a inovação exige disposição de aprender (que pressupõe menos apego ao já conhecido e mais afinidade com a curiosidade). Das instituições exige políticas capazes de promover, conviver e dar suporte à experimentação.

Enfim, compartilho com você (e com o pessoal do Núcleo Cultura Educação a quem copio esta mensagem) essas reflaxões que seu texto provocou concluindo que precisamos enfrentar de forma radical os desafios de conhecer efetivamente esse sujeito-que-queremos-espectador e instalar as condições apropriadas para a inovação.

Grande abraço

Fernando Moraes Fonseca Jr’

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