Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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VOZ DOS OUVIDORES > TV CULTURA

Ernesto Rodrigues

24/11/2009 na edição 565

‘Em mensagem endereçada ao diretor de produção Marcelo Amiky, tratando da coluna de 16 de novembro (‘Fora de hora – II’) sobre a reação dos telespectadores às imagens repugnantes contidas na série ‘Trabalho Sujo’, do projeto Cultura Discovery, André Rossi, gerente de programação da Discovery Networks para o Brasil, fez algumas considerações que merecem ser levadas ao conhecimento dos telespectadores da TV Cultura.

A primeira consideração, apesar de ser estrategicamente mais importante para um canal comercial do que para uma emissora pública como a TV Cultura, merece registro e diz respeito aos índices de audiência da série ‘Trabalho Sujo’. Com a palavra, André Rossi:

‘É uma série de fato um pouco polêmica, mas nossa audiência para ela sempre foi muito alta. Continuamos com ela na grade em TV paga, com a quinta temporada por estrear em breve. O apresentador Mike Rowe é um jornalista de formação, que optou por um estilo ‘gonzo’, no qual ele se entrega às matérias de forma a viver a realidade de profissões difíceis, esquisitas, inglórias’.

Os telespectadores que protestaram contra a exibição da série pela TV Cultura poderão argumentar que a emissora, por ser pública, não pode se basear apenas no potencial de audiência dos conteúdos na hora de montar sua grade de programação. Certíssimo. Uma outra consideração de André Rossi, no entanto, merece, na opinião deste ombudsman, uma reflexão mais aprofundada. É a defesa que ele faz da legitimidade do conteúdo da série ‘Trabalho Sujo’, dizendo:

‘O programa tem algumas cenas bizarras, não há o que discutir, mas traz a oportunidade de refletirmos sobre o trabalho feito por pessoas simples e que não é valorizado por ninguém. A discussão seria sobre se é ou não interessante refletirmos, por exemplo, a respeito de pessoas que são obrigadas a trabalhar com o nosso lixo de cada dia ou a limpar o chiqueiro onde os porcos que nós vamos comer são criados’.

André informa que existe um ‘público cativo’ de tv paga para a série, mas respeita a posição dos que têm restrições à exibição desse conteúdo, reconhecendo que ‘o universo de tv aberta é outro e o da TV Cultura, bem diferente e com sensibilidades que vocês precisam considerar’.

A alteração da posição da série ‘Trabalho Sujo’ na grade da TV Cultura – agora sendo exibida aos domingos, às 19h, com reprise às sextas, 20h – resultou num aumento de audiência significativo para os padrões do horário e da emissora. Mesmo assim, este ombudsman entende que um conteúdo com imagens tão controversas deve ser programado para outro horário. Até porque há sempre espaço e horário, mesmo nas emissoras públicas, para a maioria dos programas feitos com qualidade técnica, competência, responsabilidade editorial e um mínimo de compromisso com o interesse público.

Trauma

Falando em horários adequados, a exibição do clip ‘Kids’, da banda MGMT, dentro do Programa Novo, com insetos gigantescos e horripilantes arrancando um bebê em estado de choque de um berço e uma seqüência de aparições de monstros enquanto a pobre criança é levada pelas ruas, à parte os dotes artísticos pra lá de discutíveis da obra, foi certamente traumática para mães e filhos pequenos que estavam diante de tvs sintonizadas na TV Cultura no início da noite de 18 de novembro.

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Faltou a polêmica, 18 de novembro

A careta instigante do apresentador Felipe Aaukay, logo depois da menção da colega Andrea Couto a uma grande polêmica em torno do lançamento do filme ‘Lula, o filho do Brasil’ foi um recurso ousado e válido, na abertura do Metrópolis de 17 de novembro. A reportagem que se seguiu, no entanto, não entregou o que foi prometido.

Foi eficiente e interessante no que dizia respeito ao filme em si, mostrando entrevistas de Glória Pires, do ator estreante Rui Ricardo Dias e do diretor Fábio Barreto sobre a biografia cinematográfica de 12 milhões de reais que abriu o 42º Festival de Cinema de Brasília. Também fez um instigante resumo dos destaques, entre os mais de 300 longas de ficção e documentários que serão exibidos no festival. Mas a tal polêmica em torno do filme não foi sequer mencionada.

Na matéria que registrou os 50 anos da morte de Heitor Villa-Lobos, feita em cima de um depoimento interessante e conciso do antropólogo Paulo Renato Guérios, ao som de peças tocadas pelo violonista Paulo de Tarso Salles e pelo pianista Alexandre Pascoal, em edição ilustradas por fotos de arquivo do compositor, só faltou o crédito de música, letra e voz na versão do ‘Trenzinho Caipira’ que ilustrou o clipe final. Uma pena, já que é exatamente a obra do trenzinho, juntamente com as bachianas, a grande porta para o público menos especializado conhecer e se interessar por trabalhos menos famosos de Villa-Lobos.

A reportagem sobre a exposição da Rota da Seda, no Museu de História Natural de Nova York, mostrou que é sempre bom para o telespectador ver rostos e vozes diferentes em um programa como o Metrópolis. Mesmo que as participações diante da câmera e as narrações ainda contenham um certo percentual de timidez e hesitação que, aparentemente, no caso do correspondente Nô Mello, pode ser trabalhado e, quem sabe, superado.

E se alguém quiser uma prova da importância dessas identidades audiovisuais em uma equipe, basta lembrar da participação competente e carismática, como sempre, do repórter e apresentador Cunha Jr na matéria do mesmo Metrópolis sobre o Movimento Elefantes, que reúne nove big bands que se alternam em apresentações semanais no centro de São Paulo.

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O mapa do caminho, 17 de novembro

Passadas as primeiras semanas, uma certa febre interativa, a overdose de YouTube, as idéias e fórmulas que emplacaram e as que nem tanto, o Programa Novo começa a ganhar um formato que, se não se configura como uma nova revolução de linguagem na televisão brasileira, sustenta-se cada vez mais na receita que, mais dia menos dia, acaba sempre prevalecendo no mundo do entretenimento, com ou sem Internet ou twitter: de um lado, conteúdo e carisma de quem produz. De outro, interesse e identificação de quem assiste.

Na edição de 16 de novembro, estavam lá duas reportagens – uma incursão de Rodolfo na convenção que reuniu fãs da série ‘Guerra nas Estrelas’ e o registro da encenação com bonecos gigantes feita pelos grupos Osgemeos e Plasticiens Volants no centro de São Paulo. Elas não tinham o padrão e o acabamento das matérias do extinto Pé na Rua, referência inevitável, pela coincidência de horário, formato e público desejado. Mas davam informações novas, sob a ótica bem-humorada – e cada vez mais característica – da equipe do programa. Não eram apenas uma citação de conteúdos alheios.

A entrevista com o roqueiro ‘agrocore’ Landau – um divertido personagem que tinha boas histórias, independentemente do juízo que façamos sobre sua música – foi mais um momento do programa que só confirmou a importância de outra receita básica da televisão: a de que uma entrevista pode ser mais interessante que o entrevistado. Ou menos interessante, como a gente não se cansa de comprovar, infelizmente, em qualquer emissora, no Brasil ou no exterior.

Sinal dos tempos, e muito bom, entre clipes musicais, dicas da Internet e da redação e outros ingredientes já tradicionais de um conteúdo de televisão voltado para o público jovem, foi o olhar crítico do Programa Novo para outra febre, a do twitter, com um quadro em que os apresentadores do programa ‘interpretaram’ mensagens de relevância pra lá de discutível de usuários famosos da nova ferramenta como William Bonner, Preta Gil, Oscar Filho e Adriane Galisteu. Benvinda irreverência.

O programa, ao que tudo indica, vai encontrando seu caminho, por mais que possa estar incomodando certos telespectadores mais tradicionais da TV Cultura que, num tom quase escandalizado, têm enviado emails para este ombudsman reclamando da ausência de compromissos mais visíveis e explícitos com a cultura tradicional e a formação dos jovens.

Série ‘Trabalho Sujo’

Transcrevo e agradeço resposta dada à coluna intitulada ‘Fora de hora-II’, de 16 de novembro, pelo diretor de produção da Fundação Padre Anchieta, Marcelo Amiky:

‘Ernesto,

São pertinentes e importantes as considerações dos telespectadores por você encaminhadas. Já negociamos com a Discovery e substituímos a exibição dominical do ‘Trabalho Sujo’ pelo ‘Grandes Documentários’, limitando o programa a uma exibição semanal às sextas-feiras, que, por contrato, não podem ser substituídas. Vamos aguardar o final do contrato em dezembro para rever a questão e a parceria.

Atenciosamente,

Marcelo Amiky’

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Fora de hora II, 16 de novembro

A experiência dos últimos dezesseis meses indica que, pelo número de emails críticos que este ombudsman vem recebendo sobre a série ‘Trabalho Sujo’, do projeto Discovery Cultura, o programa está longe de agradar a todos. O telespectador Adriano Marchiori, de Campinas, por exemplo, se diz um admirador da TV Cultura, mas protesta:

‘Ficar assistindo esse cara espremendo cloaca de filhote de galinha na tv e outras tantas nojeiras é um absurdo. A programação quanto à pesca no Alaska e outras curiosidades sociogeográficas tudo bem, mas esse dia-a-dia de gringo creio que nem os gringos gostam’.

Valdir Garbin, telespectador de São Paulo, vai na mesma linha: ‘Já há dias venho me contendo. Mas não me contive. Acabo de ver uma chamada na TV Cultura sobre um programa da Discovery, que trata sobre um indivíduo coletando lixo! Cadê a Cultura? Coletar lixo? Será que não existe nada melhor para transmitir ao público?’

Newton Ribeiro, outro telespectador de São Paulo, pede a intervenção deste ombudsman para que as séries sejam retiradas do ar, acrescentando: ‘Eles trituram os caranguejos vivos e fazem outros tipos de crueldades com os animais. Meus filhos estão querendo moer nossos cachorros, gatos e tudo que é bicho. A TV Cultura enlouqueceu?’

No dia 28 de setembro, num texto sob o título ‘Fora de hora’, esta coluna já tinha manifestado preocupação com a série ‘Trabalho sujo’, argumentando que o assunto não era dos mais desejados para um horário em que muitos telespectadores estão à mesa do jantar. Na mesma coluna, este ombudsman dizia que a simples descrição do conteúdo de um dos episódios da série já seria um teste para estômagos mais sensíveis: a aventura de um biólogo maluco em uma caverna com milhões de morcegos, suas toneladas de fezes e outros penduricalhos repugnantes; o manuseio da lama misteriosa de um pântano de Nova Jersey e o dia-a-dia de uma fábrica especializada no corte e no desentranhamento de toneladas diárias de peixe, um processo cujos resultados são um dito ‘milkshake’ fedorento que dá nojo só de olhar e um ‘pão’ feito de sangue e pó de peixe.

Vale repetir, aqui, a convicção manifestada na coluna de setembro de que a parceria da TV Cultura com o Discovery Channel é muito positiva, se considerarmos o currículo de qualidade e relevância cultural do canal americano e o impacto potencial de seus programas nos milhões de lares brasileiros onde só existe transmissão de TV aberta e um aparelho receptor. O problema, portanto, na opinião deste ombudsman, se circunscreve à discutível relevância da série ‘Trabalho sujo’ e, principalmente, à infeliz coincidência de suas imagens repugnantes com a hora do jantar da maioria dos telespectadores.

Até porque o Discovery Channel, como lembra Mario Delio, outro telespectador que criticou a série, tem coisas bem mais interessantes pra serem mostradas. ‘Da mesma época’, lembra Mario, ‘o Discovery tinha programas que transcendiam o puro lazer como Ideias e Invenções, verdadeiro marco da TV Mundial’.

HDTV

Transcrevo email de Ednilson Moreira Silva acreditando que o problema que ele descreve – e as explicações que a área técnica da emissora deverá dar – interessarão a outros telespectadores que são fãs da TV Cultura e acabaram de comprar uma TV de alta definição (HDTV):

‘Sou telespectador da TV Cultura SP canal 02, há aproximadamente 30 dias o sinal tanto digital como HDTV não está nada bom, ficando a maioria das vezes muito ruim, a imagem digitaliza, o que não ocorria antes (a imagem e som eram ótimos). As demais emissoras estão com a transmissão ótima. Estou no bairro de Moema (Pássaros) em um edifício com 16 andares, sendo que a antena fica no 18º (o 17º é apto do Zelador).

Não há nenhum problema com a antena que sofre manutenção preventiva, o meu aparelho de TV é de ‘42 Full HD’ com conversor digital integrado. Enfim, o sinal da Cultura SP/SP é que não está bom para essa região o som continua bom, mas a imagem…

Grato, Ednilson.’’

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