Sábado, 21 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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ENTRE ASPAS >

Eu vos declaro

14/07/2009 na edição 546

Paul Sousa, de 41 anos, cresceu nas ruas, foi apresentado à heroína aos 15 e nos 24 anos seguintes entrou e saiu da prisão por diversas vezes. Jennifer Keen veio de um lar estável, mas foi sexualmente violentada por um parente e, aos 16, já era viciada em anfetaminas, maconha e álcool. Os dois se conheceram nos Narcóticos Anônimos, em Sacramento. A história de amor e redenção do casal – agora, livre das drogas e estudando – foi contada na seção de eventos sociais e casamentos do New York Times na edição do dia 28/6, junto a outros diversos anúncios de casamentos – todos mais tradicionais que o deles.

Em geral, a seção traz histórias de casamentos mais ‘comuns’ e, por isso, alguns leitores não gostaram da mudança de tom, observou o ombudsman Clark Hoyt, em sua coluna de domingo [12/7/09]. ‘Vocês estão querendo dizer aos jovens que está tudo bem em gastar metade de suas vidas com drogas e, de alguma maneira, tudo vai se resolver como mágica?’, disparou o leitor Richard S. Emrich. Outros disseram que, em geral, a página era vista com um espaço para casamentos de famílias tradicionais, o que não era o caso de Sousa e Jennifer. Mas teve quem considerasse a história de amor inspiradora. ‘Gostaria de ver mais histórias de casais sem títulos acadêmicos e nomes tradicionais. Jennifer e Paul fizeram o meu dia’, escreveu a leitora Susan Lulic Enholm.

Estudo

A coluna de casamentos e eventos sociais do NYTimes sempre foi um ponto de destaque do jornal. O material é usado como estudo sociológico para se refletir sobre a ascensão de novas elites e o declínio das antigas, o aumento da diversidade no país e a mudança dos papéis das mulheres. A coluna é divulgada online e também está em um novo livro, Weddings of The Times (Casamentos do NYTimes, tradução livre). A polêmica seção já foi tema até de um cartum da New Yorker, no qual a madrinha dizia à noiva: ‘Não importa se ele não é o homem dos seus sonhos. O NYTimes vai estar lá’. Em 2002, o escritor Timothy Noah, da Slate, escreveu um artigo pedindo o fim da coluna, alegando que o espaço servia apenas a uma pequena aristocracia. Em 1990, no entanto, ele próprio teve seu casamento registrado pelo diário.

Mesmo com tanta polêmica – ou até por conta dela –, cerca de 200 casais submetem por semana anúncios de casamentos ou cerimônias de compromisso. A cada domingo, são publicados no máximo 40 eventos, além de um vídeo no sítio do diário. Para isso, é preciso concordar com três páginas de regras e submeter-se a uma rigorosa checagem de fatos. Todos os envolvidos em um casamento são entrevistados e são solicitadas algumas provas documentais, como títulos e outros certificados. O editor responsável por esta coluna, Robert Woletz, afirma que é impressionante como as pessoas sabem pouco sobre os membros de sua família, como, por exemplo, a atual profissão do pai.

Realizações

A escolha das histórias fica a cargo de Woletz. ‘A premissa básica é que estamos buscando por pessoas que tiveram realizações em suas vidas. Não importa em que campo’, explica. Jennifer e Sousa mudaram suas vidas e, por isso, foram selecionados. Ao longo do tempo, os personagens diversificaram-se, mas ainda prevalecem noivos e noivas com educação superior e profissões de prestígio.

As regras são necessárias, mas ainda apresentam falhas. Elas foram determinadas em 2001, um ano antes de o NYTimes começar a publicar anúncios de união de pessoas do mesmo sexo, e serão modificadas em breve para evitar problemas como o que ocorreu com Debbie Grossman e Cara Jeiven. As duas foram informadas de que o anúncio sairia publicado na edição de 14/6, dia em que 125 convidados estariam reunidos em uma cerimônia feita pelo rabino que fez o bat mitzvah de Debbie.

No entanto, devido à checagem de fatos, o diário descobriu que as duas haviam se casado no civil duas semanas antes. A regra é clara: o jornal só divulga cerimônias que ocorreram nos seis dias anteriores ou no domingo da publicação, com o relógio passando a correr no dia ‘do evento formal’. Como Nova York não permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Debbie disse que ela e Cara viram a grande celebração com a família como o evento principal e o breve casamento civil como uma mera formalidade. Mas o diário interpreta a união legal como o evento formal e deixará isto claro nas novas regras.

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