Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Folha de S. Paulo

14/04/2009 na edição 533

CRISE
Richard Pérez-Peña e Tim Arango, NYT

Mídia dos EUA prepara cobrança de conteúdo on-line

‘Há apenas um ano, a maioria das empresas de mídia acreditava que a fórmula do sucesso na internet era oferecer conteúdo gratuito, construir uma audiência e faturar com a publicidade. Agora, com os efeitos adversos da recessão sobre a publicidade on-line, os executivos de mídia têm um desafio bem mais complicado: convencer a audiência a pagar.

Grupos noticiosos como Hearst Newspapers, New York Times Co. e Time Inc. estão preparando planos para a possível cobrança do acesso a seu conteúdo na internet. Rupert Murdoch, que um dia prometeu que ofereceria acesso gratuito ao site do ‘Wall Street Journal’, agora defende a cobrança pelo acesso a notícias on-line. ‘A ideia de que as pessoas têm direito a ler notícias de graça na web precisa mudar’, disse Murdoch na semana passada em Washington.

A agência de notícias Associated Press anunciou que pretende policiar o uso de seus artigos noticiosos em sites que publicam seu material na íntegra, de maneira a garantir que esses sites estejam pagando aos criadores do material.

Mas, das redes de TV que vendem downloads de seus programas às gravadoras que tentam conter as trocas gratuitas de arquivos, passando pelos jornais e as revistas em crise, a questão decisiva é a seguinte: como convencer os usuários a pagar por algo que se acostumaram a receber de graça?

Alguns setores conseguiram realizar essa façanha. A Coca-Cola tomou água potável como a que os consumidores recebem em suas torneiras e a filtrou. Deu ao resultado a marca Dasani, e fatura milhões de dólares ao ano com isso. Pessoas que costumavam perguntar com incredulidade por que alguém pagaria por televisão hoje são assinantes de TV paga e do TiVo. As linhas aéreas hoje cobram por refeições e até travesseiros. E alguns fãs de música que baixavam canções piratas hoje são fregueses do iTunes.

Todas essas histórias se tornaram possíveis porque ofereciam algo mais ao consumidor, ainda que apenas conveniência. ‘Com a água em garrafa, é uma espécie de esnobismo, e a percepção de um produto saudável que eles transformaram em marketing’, disse Priya Raghubir, professor de marketing na Escola Stern de Administração de Empresas, na Universidade de Nova York. ‘Com os downloads, o benefício é que os serviços pagos permitem acesso a amostras grátis de muitas canções; e os programas de TV não têm comerciais.’

‘No caso dos jornais e revistas, é preciso que haja recursos que não se possa encontrar em outros lugares, e talvez parte daquilo por que as pessoas pagariam seria o privilégio de ajudar o setor a sobreviver.’ Os grandes grupos noticiosos dizem que ainda não decidiram como proceder, mas que algumas mudanças surgirão, e logo.

‘Estamos estudando, evidentemente, maneiras de extrair pagamento dos consumidores por nossas notícias, nem que sejam doações voluntárias’, disse Bill Keller, editor-executivo do ‘New York Times’. ‘Nos próximos meses, antecipo que o ‘New York Times’ deva começar a fazer algumas apostas.’ Apenas algumas poucas empresas do setor tentaram essa transição, e os resultados não são claros. O ‘Los Angeles Times’ e o ‘New York Times’ tentaram cobrar pelo acesso a parte de seus conteúdos na internet, mas desistiram da ideia porque isso lhes custou audiência e receita publicitária.

Ao acrescentar recursos gratuitos como alertas por e-mail, blogs, fóruns de discussão e vídeos, as organizações noticiosas estão tentando persuadir os leitores de que oferecem algo de mais valioso do que os serviços de distribuição de notícias e os blogs que costumam atrair leitores on-line. Em 2006, o ‘Washington Post’ se tornou o primeiro jornal a conquistar um Emmy por seu trabalho jornalístico em vídeo.

Pacote

Eric Johnson, professor na escola de administração de empresas da Universidade Columbia, diz que se espanta pelo fato de as empresas de mídia continuarem ampliando seus sites com mais e mais serviços gratuitos. ‘Antes de acrescentar alguma coisa a um site, os responsáveis deveriam considerar que esses recursos deveriam ser parte de um pacote pelo qual seja possível cobrar.’

Trata-se de um conceito estranho para muitos dos veteranos da mídia, que cresceram em um mundo no qual as notícias e boa parte do restante do conteúdo da TV e rádio eram gratuitas, e os jornais faturam muito mais com os anunciantes do que com seus leitores.

Antes da recessão, os executivos de mídia apostavam que o futuro era a publicidade on-line, que crescia entre 25% e 35% ao ano. Mas, no ano passado, os gastos com publicidade na internet cresceram 10,6% e apenas 3,5% para as redes de TV, de acordo com um relatório do Interactive Advertising Bureau e PricewaterhouseCoopers. Para a Newspaper Association of America, que congrega os jornais dos EUA, a receita on-line caiu 1,8% em 2008.

O debate sobre ‘conteúdo gratuito’ versus ‘conteúdo pago’ é recorrente. O ‘Wall Street Journal’ começou a cobrar pelo acesso ao seu site em 1996, pouco depois que ele entrou em operação e antes que uma audiência de massa pudesse se ter acostumado a lê-lo de graça.

Antes de assumir o controle do jornal, 16 meses atrás, Murdoch disse que pretendia oferecer acesso gratuito ao site, mas, como as assinaturas on-line estão crescendo e as vendas de publicidade não vão bem, decidiu manter o acesso pago. O site do ‘Financial Times’, o FT.com, tinha mais de 1 milhão de usuários registrados em 2001, quando começou a cobrar por boa parte de seu conteúdo, ainda que muitos de seus artigos continuem livres.

‘Um ano mais tarde, tínhamos 50 mil assinantes’, diz Rob Grinshaw, o diretor-executivo do FT.com. Passados oito anos, o quadro de assinantes subiu para 109 mil, disse, uma pequena proporção do número total de visitantes do site.

‘É preciso educar as pessoas para que aceitem como norma o acesso pago’, disse Richard Honack, professor da Escola Kellogg de Administração de Empresas, na Universidade Northwestern.

Mark Mulligan, vice-presidente da Forrester Research em Londres, disse que até mesmo setores que já conseguiram sucesso em cobrar por acesso on-line, como o de música, descobriram que era necessário identificar os nichos corretos. Honack afirma que será necessário tratar a audiência e os produtos como uma série de nichos, e adaptar as ofertas aos consumidores. ‘É preciso descobrir que porção de seu produto convencerá os usuários a voltar em busca de mais.’

Tradução de PAULO MIGLIACCI’

 

LITERATURA
Ivan Finotti

Briga de Coronéis

‘Dois livros com duas visões diferentes sobre a vida e a morte de Percy Fawcett têm jogado luz sobre a trajetória desse fascinante coronel britânico que desapareceu em 1925, na região do Xingu, enquanto procurava vestígios de uma civilização extinta. Fawcett é lembrado como maior inspiração para o personagem Indiana Jones.

O problema é que um desses dois autores -o brasileiro Hermes Leal- não considera a visão do outro autor -o norte-americano David Grann- tão diferente assim da sua. Na verdade, acusa Grann de copiar seu livro e ameaça levá-lo à Justiça. ‘É sacanagem vir um cara aqui e copiar o trabalho da gente’, afirma Leal, que pesquisou a história durante cinco anos.

O norte-americano nega o plágio. ‘Essas acusações são claramente falsas e absurdas. Meu livro é baseado em anos de minha própria pesquisa e em minha própria viagem à Amazônia em 2005’, afirmou Grann, em e-mail à Folha.

Hermes Leal, 49, lançou seu ‘O Enigma do Coronel Fawcett: O Verdadeiro Indiana Jones’ em 1996, pela Geração Editorial, teve três reimpressões no país e uma edição publicada no Japão em 1999.

O norte-americano David Grann, 42, lançou em fevereiro ‘The Lost City of Z – A Tale of Deadly Obsession in the Amazon’ (a cidade perdida de Z -°uma história de obsessão mortal na Amazônia).

O livro está em sexto lugar entre os mais vendidos na lista do jornal ‘The New York Times’ e foi comprado para virar filme por Brad Pitt. A Companhia das Letras vai lançá-lo no Brasil em setembro, com a possível presença do autor.

Antes do livro, Grann havia escrito uma reportagem sobre Fawcett para a revista ‘New Yorker’, em 2005, ocasião em que visitou o Brasil e entrevistou pessoas, inclusive Leal.

‘Ele me entrevistou uma tarde em São Paulo. Depois, por e-mail, começou a pedir telefones dos meus entrevistados. Achei que não era justo e não passei os contatos’, conta Leal.

Grann diz que sua pesquisa se baseia extensamente em material histórico, além de fontes inéditas. ‘Entrevistei muita gente, incluindo descendentes de Fawcett, arqueólogos e pessoas que conheci na minha viagem ao Brasil.’ O norte-americano cita o livro de Hermes Leal entre as mais de 200 fontes de sua bibliografia.

‘Não sei se vou conseguir provar algo, mas não existe memória viva dessa história.. Não há como Grann saber detalhes que escreveu, a não ser que tenha copiado’, diz Leal, que chegou a ser aprisionado pelos índios que teriam matado Fawcett em sua expedição de 1996.

Para tanto, Leal contratou uma firma de advogados especializados em direitos autorais.

‘Vamos traduzir o livro antes de tomar uma decisão de entrar ou não na Justiça. Mas as fontes de pesquisa não pertencem a um ou a outro. É preciso ver se há trechos coincidentes, e isso é subjetivo’, diz Leo Wojdyslawski, seu advogado.’

 

***

Villas Bôas tentou achar restos mortais de Fawcett

‘Dentre as diversas histórias estranhas que sucederam ao desaparecimento de Fawcett, uma das mais curiosas diz respeito a uma ossada encontrada pelo indigenista Orlando Villas Bôas (1914-2002) na região do Xingu em 1952.

O sertanista, que havia feito contato recente com os kalapalo, acreditava que fossem os restos mortais do coronel Fawcett. Mas a suspeita não se comprovou, conforme relatou o jornalista Antonio Callado (1917-1997) em um de seus primeiros livros, ‘Esqueleto na Lagoa Verde’ (1953).

Uma das hipóteses levantadas foi de que os kalapalo mataram Fawcett, seu filho Jack e um amigo de Jack chamado Raleigh Rimmell porque eles se recusaram a dormir na cabana de um dos índios por considerá-la suja demais. Esse índio, ofendido, teria matado Fawcett a bordunadas, enquanto outros flecharam Jack e Raleigh.

Seja como for, a ossada descoberta por Villas Bôas foi notícia no mundo todo. Assis Chateaubriand, dono de um império de jornais à época, convidou outro filho de Fawcett, Brian, para visitar o Brasil e os índios que teriam matado seu pai. Mas um dentista que havia tratado de Fawcett desmentiu que o crânio fosse do inglês.

Antes disso, desde o desaparecimento do coronel, em 1925, diversas expedições de busca haviam acontecido. Uma delas, patrocinada pelo jornal inglês ‘The Times’, foi realizada em 1933 por Peter Fleming, irmão do criador do ‘007’, Ian Fleming. Resultou no livro ‘Brazilian Adventure’ (aventura brasileira), que teria vendido 600 mil exemplares da Europa.

E histórias fantásticas não paravam de pipocar: em 1932, um caçador suíço relatou que tivera um encontro com Fawcett na floresta no ano anterior.

Em 1937, uma missionária americana disse ter encontrado um filho de Jack Fawcett com uma índia. A criança, branca e de olhos azuis, foi objeto de novas buscas infrutíferas.

E, finalmente, há os esotéricos da seita Núcleo Teúrgico, que acreditavam que Fawcett encontrou sua cidade perdida e lá viveu feliz até 1957, aos 90 anos, ‘quando se desmaterializou de vez’, segundo conta Hermes Leal, em seu livro ‘O Enigma do Coronel Fawcett’.

A seita não sobreviveu à morte de seu líder, Udo Luckner, em 1986. Mas sobreviveu ao fim do mundo, cuja data Luckner havia proclamado para 1982. Menos mal.’

 

***

Brad Pitt quer interpretar o coronel inglês

‘O ator norte-americano Brad Pitt, 45, comprou os direitos de filmagem do livro ‘The Lost City of Z – A Tale of Deadly Obsession in the Amazon’ (a cidade perdida de Z -°uma história de obsessão mortal na Amazônia) antes mesmo de ele estar completo.

O livro foi lançado há um mês e meio nos EUA, mas Pitt circula com uma cópia da obra desde maio de 2008. O ator a ofereceu a Fernando Meirelles no festival de Cannes no ano passado, mas o diretor brasileiro não aceitou.

Sites e jornais estrangeiros dizem que Pitt virá ao Brasil com Angelina Jolie e filhos para filmar a produção da Paramount.’

 

TELEVISÃO
Sylvia Colombo

Jack Bauer vira réu no sétimo ano de ‘24 Horas’

‘Jack Bauer está no banco dos réus. Nos EUA de Barack Obama, ‘24 Horas’ -cuja sétima temporada começa nesta terça- transforma-se e tenta se encaixar à história com ‘h’ maiúsculo. Vivido por Kiefer Sutherland, o agente federal cuja estratégia para buscar terroristas resumia-se a agir quase sempre fora da lei -torturando e matando-, terá de responder por seus crimes.

Coerente com sua ética pessoal, porém, ele não se arrepende do que fez e responde a perguntas de um senador diante de um júri que avalia seu comportamento nos últimos anos. E vai confirmando, sem remorso, que extorquiu informações de modo ilegal, sequestrou e matou, embora tudo isso resultasse na salvação de milhares de vidas americanas ameaçadas por diferentes ações de redes terroristas.

Pelo andar da carruagem, Jack (Sutherland) deve ir mesmo parar atrás das grades. Porém, subitamente, um novo e mais terrível ataque aos EUA é anunciado. As portas do tribunal são abertas a pontapés. E o FBI resgata Bauer da humilhante sessão, pedindo que o agente veterano volte à ativa -como no clichê dos clássicos romances policiais.

A nova crise tem características e um contexto com o qual, aparentemente, apenas Jack poderá lidar. Porém, ele é imediatamente avisado de que não poderá cometer os abusos do passado. E, para isso, uma jovem, bela e habilidosa oficial é colocada para atuar junto a ele nas investigações. É dela a responsabilidade de não deixar que Bauer saia barbarizando como de costume.

Ética em xeque

Essa agente é Renee Walker, vivida pela atriz Annie Wersching, que falou à Folha, por telefone. ‘Minha personagem parte de uma posição bastante segura, mas, ao conhecer Jack, sua ética é posta em xeque.’

Isso acontece porque Walker aos poucos vai percebendo que a seriedade da crise é tamanha, e seus meandros tão complexos, que apenas as soluções extremas de Jack podem levar aos verdadeiros culpados. ‘Aí começa um movimento duplo. Ele mostra-lhe que seus meios obscuros, apesar de cruéis, são essenciais, uma vez que o próprio governo está infiltrado por terroristas. Enquanto isso, ela faz com que Jack volte a prestar atenção ao seu lado mais humano’, diz.

Assim como nas temporadas anteriores, a ameaça terrorista não vem de uma única fonte. Até para dissipar as críticas ao seriado, de que apresentaria uma visão estereotipada e preconceituosa do Islã e de certos países, o roteiro sempre coloca entre os protagonistas do ‘Mal’ algum indivíduo ou organização norte-americanos.

No caso em questão, os ataques -que envolvem sequestros de avião e uma invasão à Casa Branca- são planejados pelo ditador de um país africano imaginário, ocupado pelos EUA. A logística das operações, porém, depende de um grupo armado de ultranacionalistas, baseado em Washington.

Inovação

Quando ‘24 Horas’ surgiu, em 2001, não foi só o contexto político e o medo que se generalizou depois dos ataques do 11 de Setembro que impulsionaram a audiência do seriado. Também o formato inovador criou um novo tipo de suspense televisivo. Com um infernal reloginho que aparece e apita entre uma cena e outra, a história acontece em tempo real.

Cada episódio corresponde à uma hora de um dia na vida dos EUA, de Jack Bauer e dos espectadores -sim, se você está na sétima temporada sem perder nenhum episódio é sinal de que já passou seis dias inteiros vendo Jack e suas façanhas…

‘Essa estrutura deu uma força incrível para o elemento-surpresa’, diz Wersching. A atriz acrescenta que os sinais de romance entre ela e Jack vão crescer ao longo da temporada. Mas alerta: ‘Há algo no ar, mas é difícil pensar em sexo quando se está tentando salvar o mundo. Ou não?’.

24 HORAS

Quando: terça, às 22h, na Fox

Classificação indicativa: não recomendado a menores de 14 anos’

 

Laura Mattos

‘E24’ é reality show em hospitais públicos de SP

‘‘Quero meu pai, quero meu pai!’, grita uma dentista que acabou de capotar o carro em uma avenida da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. Ela implora aos bombeiros para não ser colocada na maca e não ir de ambulância ao hospital.

A cena faz parte de ‘E24’, que a Band estreia na terça-feira, às 22h15 (livre). Já no primeiro episódio, devem ir ao ar ainda os casos de um senhor de 99 anos que sofreu parada cardíaca e de um aposentado que enfiou uma faca no abdome para tentar se matar -no fim, todos ficaram bem e tiveram alta.

Estão previstos para este semestre entre 13 e 20 episódios, a depender da audiência.

Versão de original da Argentina, o programa acompanha atendimentos emergenciais em hospitais públicos da capital, além do resgate do Corpo de Bombeiros. Criado e realizado pela produtora argentina Cuatro Cabezas, a mesma do humorístico ‘CQC’, ‘E24’ já teve seis temporadas na Argentina, três na Espanha, duas no Chile e uma na Itália, sempre em instituições públicas.

Em São Paulo, está sendo gravado há dois meses no Instituto Dante Pazzanese e nos hospitais do Mandaqui e Pedreira, além dos casos atendidos por uma equipe de bombeiros. O acordo foi feito com secretarias do governo do Estado, que determinou onde as filmagens poderiam acontecer. A produtora tenta conseguir autorização para gravar em outros locais, principalmente no Hospital das Clínicas.

E é justamente nessa ‘parceria’ inevitável com o governo que mora o principal problema de ‘E24’: o programa acaba não tendo liberdade de fato para mostrar as mazelas da saúde pública. Ao contrário, nos três casos assistidos pela Folha o que se vê é sempre uma imagem positiva do atendimento e médicos transformados em heróis. A família do senhor de 99 anos, por exemplo, faz elogios rasgados ao Mandaqui (‘Independentemente do que acontecer com meu avô, não tenho do que reclamar do hospital, dos médicos e enfermeiros’).

Diretor de todas as versões do ‘reality’, inclusive a brasileira, o argentino Mariano Feijoo, da Cuatro Cabezas, admite que o programa não tem como foco fazer uma denúncia dos problemas da saúde pública.

‘Podemos eventualmente exibir alguma dificuldade, como a falta de lugar para um paciente dormir, mas tratamos de deixar uma mensagem positiva e focar o esforço dos médicos’, diz Feijoo, que aproveitou para ‘elogiar’ os hospitais paulistanos: ‘São melhores que os argentinos’.’

 

Bia Abramo

Roda da fortuna do ‘Big Brother’

‘‘SÃO TUDO falseta’ (sic), disse a loira, sobre seus colegas de confinamento. Como se fosse alguma surpresa, Ana Carolina, a última eliminada antes da final da última terça-feira, expressou aquilo que todos devem pensar de todos no ‘Big Brother’. Apesar do, digamos, ultracoloquialismo da formulação, não deixa de ter sua expressividade.

É claro que, no mundo dos reality shows, as categorias de verdade ou falsidade estão de pernas para o ar.

Nada mais falso do que a verdade que se inventa jogando 14 pessoas diferentes para competirem durante três meses com o propósito de eliminar os concorrentes, de modo que um deles, ao final, seja premiado com um dinheiro que nenhum deles fez por merecer. Ao mesmo tempo, nada mais verdadeiro do que esse desejo avassalador de estar exposto de corpo e alma e ainda ser ‘pago’ para isso.

Ganham, no final, aqueles que conseguem seguir de pé nesse terreno instável de verdades e mentiras e, ao mesmo tempo, exibir algum fator de atração suficiente para que os telespectadores, de forma meio espontânea, meio induzida pelo conjunto do espetáculo, ajudem a mantê-los no programa.

Nessa nona edição, ruim de audiência, mas campeã de faturamento publicitário, ganhou Max -homem, classe média mais ou menos ajeitada, com pretensão de artista. A não ser pela profissão, tem sido esse o perfil básico dos ganhadores -foram sete homens contra duas mulheres a ganhar; alguns declaravam histórias pregressas de dificuldades, mas todos, quando entravam no jogo, estavam nessa faixa social.

É como se, pelos mecanismos que parecem aleatórios das sortes e azares que acontecem nos três meses que passam trancados, no fundo coubesse ao espectador escolher aqueles que estão pré-selecionados pela roda da fortuna. Às mulheres resta o papel de coadjuvantes, namoradas, animadoras de torcida e, em apenas dois casos até agora, uma sobrevida de celebridade de fato depois de findo o programa.

Uma falseta, em suma, como acertou Ana Carolina, mesmo errando na concordância. No capítulo que encerrou o programa, Pedro Bial afirmava que os verdadeiros manipuladores são ‘vocês’, referindo-se aos participantes. Nada mais verdadeiramente falso -ou seria falsamente verdadeiro? Como já se sabia e ficou ainda mais patente nessa edição, o que importa mesmo são as cotas publicitárias -essas sim, verdades polpudas e incontestes, mais ainda que a quantidade de pessoas que assistem ou não, que aderem ou não ao programa. O resto é sermão.’

 

MEIO AMBIENTE
Michael Kepp

Debate aquecido

‘Parte da mídia de massa, inicialmente cética sobre as advertências apocalípticas dos ambientalistas sobre o aquecimento global, hoje os ataca por continuar chamando a atenção para o problema.. Sua estratégia é tão transparente quanto um truque de um mágico ruim.

Sempre que um grupo verde organiza um protesto ou patrocina um evento para aumentar a consciência sobre a mudança climática, essa mídia se concentra nos gases do efeito estufa (GEE) emitidos por suas atividades para afirmar que ele faz parte do problema, não da solução.

Essa estratégia foi usada por uma apresentadora do telejornal da TV Cultura e por uma reportagem do jornal ‘O Globo’ para criticar um recente protesto do Greenpeace.

O foco das críticas foram as GEEs emitidas por um engarrafamento causado quando ativistas da ONG estenderam uma faixa enorme na ponte Rio-Niterói para fazer um alerta sobre o aquecimento global para os integrantes do G20.

Efeito reverso

Essa foi a estratégia usada por alguns grupos de mídia dos EUA para criticar a Hora da Terra, um evento ocorrido em 28 de março e patrocinado pelo Fundo Mundial pela Natureza.

Em todo o mundo, luzes e aparelhos elétricos não-essenciais foram desligados em residências e em pontos marcantes, entre 20h30 e 21h30, para aumentar a consciência sobre como o uso da eletricidade alimenta o aquecimento global.

Alguns jornais disseram que o planejamento da Hora da Terra aumentou as emissões de GEE mais do que elas foram reduzidas por apagar as luzes.

Do mesmo modo, o canal de notícias Fox News chamou a atenção para as altas contas de eletricidade e as extensas viagens de avião do ativista contra o aquecimento global Al Gore.

Se Gore acreditasse em sua causa, afirmou a rede, usaria lâmpadas e aparelhos que poupam energia e voaria menos.

Algumas reportagens adotaram uma posição semelhante ao notar que os participantes de conferências internacionais sobre mudança climática aumentam as emissões de GEE ao viajarem de avião.

Lógica estranha

Usando essa lógica, todo ativismo ligado à mudança climática deveria acabar porque aumenta as emissões de GEE.

Por essa lógica, todos os ativistas ambientais são poluidores irresponsáveis.

Se isso fosse verdade, por que as ONGs que participam de conferências ambientais compram créditos de carbono -por exemplo, investindo em projetos de redução de GEE- para neutralizar as emissões lançadas pela ida a esses eventos?

ONGs como o Greenpeace também fizeram da redução do desflorestamento da Amazônia uma campanha central porque, se incluirmos as emissões de CO2 do desmatamento, o Brasil é o quarto maior emissor de GEEs do mundo, depois de China, EUA e Indonésia.

Em 2007, o Greenpeace e oito outras ONGs pressionaram o governo para adotar seu Pacto de Desmatamento Zero, um plano para conter a destruição da Amazônia até 2015.

O governo o recusou por causa dos custos e de suas metas antidesmatamento, mas em dezembro de 2008 lançou seu próprio Plano Nacional de Mudança Climática, com metas mais modestas.

Bomba-relógio

Parte da grande mídia ignora esses esforços da mesma maneira que tende a não divulgar indústrias poluentes que se recusam a mudar para processos de produção menos poluentes e produtos de maior eficiência energética.

São essas indústrias e países, como os EUA e a Austrália, que se recusaram a assinar o Protocolo de Kyoto, e não os grupos verdes, os culpados pelo aumento das emissões de GEE.

Muitas reportagens não nos lembram que, embora as ameaças de recessão global ou de uma bomba terrorista sejam mais imediatas que as representadas pelo aquecimento global, ele também é uma bomba-relógio com consequências muito mais devastadoras.

A reportagem de ‘O Globo’ também não nos contou que a Polícia Rodoviária, que bloqueou a ponte Rio-Niterói para deter os manifestantes, foi a principal causa do engarrafamento de 18 quilômetros.

Por isso, se você foi um dos motoristas irritados que empacaram na ponte durante o protesto, seria mais produtivo se concentrar em sua mensagem -de que nosso tempo está acabando- do que em seu mensageiro inconveniente.’

 

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