Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Folha de S. Paulo

14/04/2009 na edição 533

CLUBINHO
Clóvis Rossi

Quebrar o espelho

‘SÃO PAULO – O que faz quem anda com má imagem? Se é uma pessoa normal e entende que a má imagem é produto, de fato, de atitudes incorretas ou inconvenientes, trata de corrigi-las.

Se acha, ao contrário, que a imagem ruim é injusta, trata de divulgar o máximo possível de fatos que demonstrem a injustiça e, no limite, corrijam a imagem.

Mas, se é congressista, quebra o espelho que mostra a imagem. É o que acaba de fazer o Senado, ao decretar que todo pedido de informação deve vir na forma de ofício, com prazo de cinco dias para a resposta. Quer dizer na prática o seguinte: o parlamentar é, teoricamente, representante do tal de povo, mas não se sente como tal.

Sente-se como parte de um clube fechado que não tem a menor pressa em dar satisfação ao público. Nesse ambiente porco, sou obrigado a lembrar uma coisa elementar, mas que os nobres pais da pátria perderam de vista faz séculos: jornalista, salvo os venais que também existem, não busca informação para levar para casa e contar para a mulher, o pai, a mãe, os filhos ou os amigos.

O sentido da coisa toda é repassar as informações ao leitor/eleitor. Lembro também outra obviedade que a casta esqueceu completamente: todas as informações que os congressistas detêm não são propriedade pessoal. Ele não fica sabendo disso ou daquilo nem toma tal ou qual atitude como pessoa física, mas como pessoa jurídica, como representante do eleitor.

Por extensão, tem que dar satisfações imediatas a este, diretamente ou via mídia, como acontece em qualquer lugar do mundo civilizado. E quando não acontece, a imagem do político sofre tanto que ele acaba defenestrado.

Aqui, terra sem lei e sem respeito, não. O político quebra o espelho para evitar que o público veja a imagem patética que eles construíram e querem esconder.’

 

INTERNET
Ricardo Sangiovanni

Telefônica afirma que não há mais pane

‘Após quatro dias seguidos de problemas no Speedy, serviço de conexão à internet da Telefônica, a empresa disse ontem que o sistema voltou ao normal após ter sofrido ataques de hackers de segunda a quarta-feira. A Telefônica diz que não irá cobrar pelo tempo em que o serviço ficou fora do ar ou instável.

Em nota, a empresa diz ter sofrido cinco ataques de hackers entre os dias 6 (segunda) e 8 (quarta). Ao todo, segundo a Telefônica, o serviço foi afetado por 9 horas e 50 minutos -as principais falhas na rede foram na terça-feira, com quase oito horas de instabilidade.

A empresa diz que ‘iniciou diálogos com a Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações] e entidades de defesa do consumidor’ para que a cobrança dos períodos de instabilidade seja cancelada.

Apesar de os problemas terem começado na segunda, apenas na quinta-feira a Telefônica reconheceu as panes, e disse estar sendo vítima de ‘ações de origem externa’ que afetaram a ‘infraestrutura de suporte ao acesso à internet’.

A empresa diz não ter detectado novos ataques ao sistema desde as 21h30 da quarta-feira. Ontem, porém, usuários do Speedy ainda reclamavam de lentidão e instabilidade da conexão, pelo microblog Twitter [em que os internautas contam o que estão fazendo no momento em mensagens de até duas linhas] e no site de relacionamentos Orkut.

As principais reclamações eram de lentidão para fazer downloads [descarregar arquivos] e para assistir a vídeos no site www.youtube.com, além de dificuldades para acessar sites. A empresa diz que o problema foi resolvido, e que eventuais falhas são pontuais.

O Speedy tem 2,6 milhões de assinantes no Estado, entre residenciais e pequenas empresas. Relatórios de 2006, 2007 e 2008 apontam a Telefônica como líder das reclamações feitas ao Procon.’

 

João Pereira Coutinho

Obra ataca voz amadora na internet

‘A história da técnica é a história das nossas histerias. Basta consultar um manual de história e verificar o medo que nossos antepassados sentiram perante qualquer descoberta tecnológica: da máquina a vapor à invenção da telefonia sem fios, passando pela TV e pela internet, cada avanço traz um cortejo de apocalipses. Razão tinha Paulo Francis, que em momentos de maior acídia gostava de lembrar: ‘O cavalo já foi um erro’.

Andrew Keen integra-se no coro da histeria. Em ‘O Culto do Amador’, este antigo ‘yuppie’ do vale do Silício resolve matar o pai para denunciar a imoralidade da internet. ‘Imoralidade’? Leram bem: a internet destrói o tecido moral das nossas sociedades, a começar pela busca desinteressada da verdade e do bem. Num meio onde toda a gente tem uma voz, a verdade não se faz por discussão racional; mas por consenso.

Os motores de busca que todos usamos são a prova de que ‘verdade’ é tudo aquilo que os internautas elegem como verdade. É assim que a Wikipedia tem mais sucesso e autoridade do que, por exemplo, a vetusta ‘Encyclopaedia Britannica’..

Mas não só. A internet, e o culto do amadorismo que ela promove, ameaça as instituições culturais que fizeram o nosso mundo. Jornais, música, literatura ou cinema estão sendo assaltados por milhões de internautas que não respeitam os direitos autorais e roubam conteúdos sem um pingo de vergonha.

Sem falar do resto: exércitos de blogueiros em pijama que acreditam e professam um radical igualitarismo de opiniões. Na cacofonia da internet, um Ph.D. de Harvard, que passou os melhores anos da sua vida enfiado em bibliotecas, não tem mais valor intrínseco do que um autodidata adolescente, que plagia ou inventa na cave do seu subúrbio. Será possível suportar este assalto?

Keen sugere medidas destinadas a combater o monstro. ‘Não roubarás’, declara. ‘Não plagiarás’, acrescenta. E, pelo meio, o assustado Keen defende a existência de autoridades reguladoras que possam vigiar e punir conteúdos do meio que difamam ou assaltam a propriedade intelectual alheia. Tudo muito certo, muito sensato.

Formação clássica

Infelizmente, Keen se esquece do conselho mais importante de todos: a internet deve ser um complemento da nossa vida intelectual, e não o princípio dela. A ignorância que a internet comporta; a sua intrínseca boçalidade; a sua falta de valores éticos ou de conhecimentos válidos só será um perigo para quem procura na rede a fonte principal das suas informações.

Não conheço nenhum jornalista sério que, para preparar suas matérias, consulte a Wikipedia. O mesmo para qualquer acadêmico digno de nome, que jamais substituirá o contato direto com as fontes pela consulta de um blog. Diferentemente do que Keen escreve, a internet só é uma ameaça para a nossa educação tradicional se as pessoas se esquecerem da necessidade de uma educação tradicional.

Se se esquecerem, no fundo, de que, antes de ligar o computador, é necessário um sólido conhecimento do que deve ser feito, pesquisado e finalmente encontrado.

Talvez por isso a existência da internet torna mais necessária, e não menos, uma formação clássica que proteja os indivíduos da ignorância das massas. Nas mãos certas, a internet é um instrumento poderoso e útil. Nas mãos erradas, é como qualquer pedaço de tecnologia: uma ameaça destrutiva. O problema não está na internet. Está, como sempre esteve ao longo da história, em nós.

O CULTO DO AMADOR

Autor: Andrew Keen

Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges

Editora: Jorge Zahar

Quanto: R$ 39 (208 págs.)

Avaliação: regular’

 

LITERATURA
Denise Mota

Cortázar inesperado

‘Após 25 anos de sua morte, Julio Cortázar (1914-1984) reaparece inédito e em quase 400 páginas. ‘Papeles Inesperados’ (papéis inesperados), volume que tem previsão para chegar no início de maio às livrarias de todos os países de língua espanhola, reúne exemplares diversos da produção do escritor argentino, realizados da década de 30 à de 80, nos quais se encontram de poemas a autoentrevistas, de fragmentos nunca antes publicados de livros como ‘Um Tal Lucas’ (1979) a discursos e jogos de palavras.

Os escritos que agora vêm à luz repousavam em um baú com documentos do autor, filho de argentinos, mas nascido na Bélgica -durante a Primeira Guerra Mundial- em razão ‘do turismo e da diplomacia’, como costumava afirmar.

Na semana do Natal de 2006, a primeira mulher de Cortázar, Aurora Bernárdez, também herdeira e guardiã de sua obra, encontrou uma série de papéis do escritor e decidiu mostrá-los a Carlos Álvarez, especialista na obra do argentino.

Com Álvarez, a viúva pôde classificar, preparar e editar o material, trabalho que durou um ano e que foi acompanhado de consultas às universidades de Princeton e Texas, nos Estados Unidos, que guardam farta documentação cortazariana.

‘Papeles Inesperados’ se compõe de materiais muito diversos, até o ponto de podermos dizer que aí está todo o Cortázar: contos, histórias de cronópios, fragmentos de livros, intervenções, discursos, artigos, autoentrevistas, poemas’, afirma à Folha o diretor de conteúdos da Alfaguara na Espanha, Juan González.

‘E o que poderia resultar caótico ou eclético demais em outros escritores termina por ser algo quase natural em alguém que fez do fragmento, da colagem literária e da mistura de gêneros uma imagem de marca.’

A versão em português de ‘Papeles Inesperados’ ainda não tem data para ser publicada, mas, de acordo com o diretor espanhol, o que se deseja é que ela seja realizada ‘o mais rapidamente possível’.

Conteúdo

Entre os inéditos contidos no volume se destacam 11 narrativas, um capítulo de ‘O Livro de Manuel’, 11 episódios em que aparece o protagonista de ‘Um Tal Lucas’, quatro autoentrevistas e 13 poemas.

Também figura o ‘Discurso del Día de la Independencia’, recitado por Cortázar a companheiros de estudo e professores em 1938, e as narrativas ‘Los Gatos’, de 1948, e ‘Manuscrito Hallado Junto a una Mano’ (manuscrito achado junto a uma mão), sobre um melômano cheio de dons. O livro traz ainda textos a respeito de amigos como o crítico Ángel Rama e reflexões sobre fotografia, escultura, música e pintura.

Da organização desses ‘papéis inesperados’, título escolhido por conta da perplexidade que causou a descoberta dos arquivos, segundo conta o diretor espanhol -’Ninguém esperava que existisse obra inédita de Cortázar’-, surgiu ainda outra publicação, ‘De Cronopios y de Famas – Tres Nuevas Historias’, lançada em edição de luxo no início deste ano (leia mais no texto à direita).

Cartas em dobro

Também os escritos privados do argentino vão ganhar mais espaço nas livrarias. ‘Depois do aparecimento de ‘Papeles Inesperados’, parece não restar mais material inédito de Cortázar, mas a nova edição que Aurora Bernárdez e Carlos Álvarez estão preparando de sua correspondência vai, no mínimo, duplicar a extensão da que foi editada anteriormente’, afirma González.

A Alfaguara planeja lançar ainda uma nova edição do livro de poemas ‘Salvo el Crepúsculo’, baseada nos manuscritos de Cortázar. O livro foi lançado em 1984, depois da morte do escritor, sem que ele houvesse corrigido as provas.

Por fim, segundo confirma González, não está descartada a digitalização da obra do autor de ‘O Jogo da Amarelinha’. ‘Os suportes mudam, Cortázar é eterno.’’

 

TELEVISÃO
Fábio Grellet

Atriz cega e macaco são novidades da novela das 7

‘Encontros e desencontros amorosos, inveja, disputa pelo poder -ingredientes como esses, comuns nas novelas, não poderiam faltar em ‘Caras & Bocas’, trama que estreia na segunda, na Globo, com Flávia Alessandra e Malvino Salvador nos papéis principais. Mas a nova novela tem pelo menos duas novidades: um macaco pintor e uma atriz cega.

‘É a primeira vez no mundo em que uma atriz cega na vida real fará o papel de uma cega na ficção’, anuncia o autor da trama, Walcyr Carrasco. A curitibana Danieli Haloten, 28, cega desde os 17 devido a um tipo de glaucoma, é formada em artes cênicas e jornalismo. À procura de trabalho, ela havia encaminhado e-mail ao autor da novela. ‘Sem ter a menor ideia da existência dela, eu havia criado uma personagem cega.

Aí abri minha caixa de e-mails e li o recado dela. Pedi para ver seus trabalhos, gostei e a chamei para o papel’, diz Carrasco. No dia-a-dia, a atriz conta com a ajuda de um cão-guia, que a acompanha há quatro anos. Mas, durante as gravações -em que interpreta Anita, irmã do personagem de Malvino Salvador-, ela teve que se virar sem esse auxílio. ‘No começo foi meio difícil me adaptar ao estúdio. Tudo precisa ser bem marcado para eu não cair.

É diferente do teatro porque os cenários são desmontados e montados de novo o tempo todo e não dá tempo de eu me adaptar’, diz a atriz, que recebe os roteiros em braile. Outra surpresa da novela é Kate, um chimpanzé fêmea que faz o papel de Xico, o macaco pintor. ‘Ele está na trama justamente para desmistificar o universo das artes, de maneira engraçada’, conta o autor.

O diretor Jorge Fernando explica que na maior parte do tempo são utilizados truques e efeitos especiais para dar ao telespectador a impressão de que o macaco está na cena. ‘Temos gravado com o animal seguindo as leis e com acompanhamento de veterinários’, diz Fernando.

Os demais ingredientes da trama são os de sempre. A história se passa em São Paulo e gira em torno do conturbado relacionamento entre Gabriel (Salvador) e Dafne (Alessandra). Eles se conheceram num curso de pintura, começaram a namorar, mas foram separados. Os dois se reencontram 15 anos depois e, embora ainda se gostem, vivem às turras devido ao temperamento de ambos.

CARAS & BOCAS

Quando: estreia seg., às 19h15

Onde: TV Globo

Classificação: não informada’

 

Folha de S. Paulo

Cultura estreia minissérie com João Miguel

‘A minissérie ‘O Louco dos Viadut os’, dirigida pela cineasta Eliane Caffé (de ‘Narradores de Javé’), abre amanhã a terceira fase do projeto Direções. A coprodução da TV Cultura e do Sesc se propõe a experimentar novos formatos para a teledramaturgia.

Nesse módulo, serão exibidas seis minisséries de quatro capítulos cada. Os episódios vão ao ar semanalmente. Além de ‘Louco’, há outros dois trabalhos assinados por diretores de cinema: ‘O Amor Segundo B.

Schiamberg’ (de Beto Brant) e ‘Trago Comigo’ (de Tata Amaral). Do teatro vêm Maucir Campanholi, Rodolfo García Vázquez e André Garolli, que respondem, respectivamente, por ‘Unidos do Livramento’, ‘Além do Horizonte’ e ‘João Miguel’.

‘Louco’ casa ficção e documentário no registro do vaivém de personagens pelas margens de ringues de boxe instalados (de verdade) embaixo de viadutos de São Paulo pelo treinador Garrido. A diretora Eliane Caffé conta que boa parte da dramaturgia só tomou forma no set, a partir de contribuições do elenco -liderado por João Miguel (‘Estômago’), que interpreta um morador de rua repentista.

O LOUCO DOS VIADUTOS

Quando: amanhã, às 22h

Onde: na TV Cultura (reprise no SescTV, segunda, às 22h)

Classificação: não informada’

 

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