Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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ENTRE ASPAS >

Gazeta Mercantil

03/03/2009 na edição 527

EMBRAER
Costábile Nicoletta

A Embraer mandou a democracia para os ares, 2/3

‘A governança corporativa é uma forma de democratizar a relação das empresas de capital aberto com os seus chamados stakeholders (jargão do mercado de capitais para designar os públicos de interesse de uma organização, tais como acionistas, empregados, fornecedores, governo e comunidade). Talvez por isso grande parte das companhias ainda relute em aplicá-la de fato, embora assuma formalmente esse compromisso perante instituições como a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Um exemplo disso vem sendo dado pela Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) desde dezembro do ano passado, quando o repórter Júlio Ottoboni, correspondente d a Gazeta Mercantil em São José dos Campos – cidade paulista que abriga a sede da companhia —revelou que a fabricante de aeronaves pretendia despedir 4.273 empregados.

Em vez de prestar esclarecimentos sobre o assunto — como é de esperar de uma indústria desse porte e com tamanha projeção internacional —, a Embraer preferiu tentar desqualificar o trabalho do jornalista, tachando publicamente a informação de leviana, ao mesmo tempo em que pressionava os editores deste jornal a dizer quem havia contado a Ottoboni o plano de cortar 20% de sua força de trabalho. ‘Espero que vocês tenham dignidade de se retratar’, disse uma integrante da equipe de comunicação da Embraer. ‘Temos muitas reservas em relação ao trabalho do Júlio’, continuou.

De fato, Ottoboni passou a ser um proscrito na Embraer, como se isso expiasse a responsabilidade da empresa perante o fato. Ao comparecer a uma cerimônia em que a fabricante de aeronaves recebeu a diretoria de um cliente internacional — para a qual toda a imprensa foi convidada —, o repórter da Gazeta Mercantil ficou sabendo que não era bem-vindo. Isso ficou expresso nos olhares das pessoas que recepcionavam os jornalistas e também nas frases que ouviu nesse dia dos funcionários da companhia, que continuaram pressionando o jornal a tomar alguma medida contra seu repórter.

Em 19 de fevereiro, a Embraer admitiu que a reportagem escrita por Ottoboni estava correta, ao enviar ao mercado um comunicado no qual explicava que, em decorrência da crise econômica, cortaria 20% de seus 21.362 empregados. Faltou lhe, porém, a dignidade de retratar-se que cobrara da Gazeta Mercantil e sobrou-lhe um ranço que remonta ao período em que era estatal e o País vivia um regime autoritário, em que a sonegação de informações era o menor dos males.

Na quinta-feira passada, 26 de fevereiro, o jornal preparava a reportagem sobre um contrato de US$ 147,6 milhões conquistado pela filial francesa da Embraer para reformar 43 jatos da Força Aérea Brasileira (FAB), cujo extrato de dispensa de licitação havia sido publicado na edição do Diário Oficial da União (DOU) de 20 de fevereiro, um dia após o anúncio das demissões da fabricante de aeronaves.

Os repórteres da Gazeta Mercantil tentaram saber por que a encomenda da FAB não seria executada em São José dos Campos e se isso não poderia poupar uma parte dos empregos extintos.

A Embraer, novamente, não se manifestou. Os jornalistas tentaram, também, obter esclarecimentos com o Ministério da Defesa, que remeteu o assunto ao Comando da Aeronáutica. O pedido de informações foi feito primeiro por telefone e, depois, a pedido dos militares que conversaram com o repórter da Sucursal de Brasília do jornal, por correio eletrônico.

A princípio, os militares tentaram demovê-lo do objetivo de publicar a reportagem no dia seguinte, alegando que ela ficaria mais completa com os dados que seriam fornecidos pela Aeronáutica posteriormente. O repórter explicou que o texto teria de sair no dia seguinte, sexta-feira, 27 de fevereiro, e esperou as respostas às suas perguntas até as 21 horas da quinta-feira, dia 26, quando a página do jornal onde constou a reportagem foi concluída.

Apesar de não ter se manifestado, a Aeronáutica não gostou de ler isso e queixou-se com o repórter, que lhe ofereceu novamente espaço no jornal para prestar esclarecimentos. Mas, em vez disso, o militar com quem o jornalista conversou disse que ‘seria melhor tratar o assunto com outros veículos de comunicação’.

Costábile Nicoletta é jornalista e editor executivo da Gazeta Mercantil’

 

 

***

Do Portal Imprensa (http://portalimprensa.uol.com.br)

 

EMBRAER
Wilson da Costa Bueno

Demissões, comunicação interna e responsabilidade social, 2/3

‘Ninguém ignora que estamos em crise e que a marolinha era apenas mais um esforço oficial para tapar o sol com a peneira. Mas tudo tem limite nestas horas e, como se costuma dizer, é na adversidade que se podem identificar as boas famílias, as boas empresas e os bons governos.

O jogo já está sendo jogado e é fácil perceber que muitas organizações não têm conseguido manter o disfarce (as máscaras são comuns em tempos de Carnaval) e têm jogado por terra o seu discurso de responsabilidade social, de comunicação estratégica, de sustentabilidade etc.

Temos insistido na tese de que, com raras exceções, o discurso empresarial é cínico e hipócrita, mas agências de publicidade, de comunicação, de assessoria de imprensa e Relações Públicas, a serviço de grandes e excusos interesses, continuam desfilando releases e campanhas para promover uma cidadania de araque, o marketing verde (a transgenia que chegou, infelizmente, à comunicação organizacional brasileira) e a demagogia de governos e autoridades.

O episódio mais emblemático desta falta de responsabilidade social e das mazelas da comunicação interna ocorreu recentemente na Embraer, uma empresa de tecnologia de ponta e que, como se pode ver, tem uma gestão de pessoas de fundo de quintal. Demitiu numa penada só 4.200 funcionários, sem qualquer informação prévia, sem diálogo com o Sindicato e, segundo o noticiário, traindo até o Governo e o BNDES que a sustentam faz tempo.

O relato dos funcionários, entrevistados pelos jornais que cobriram amplamente o processo de demissão em massa, é contundente. Todos foram pegos de surpresa, na troca de turno, uma verdadeira punhalada nas costas, típica de empresas autoritárias, que passam o ano inteiro veiculando releases para proclamar sua competência técnica e que se ‘fecham em copas’ nos momentos de crise. Comunicação interna? Nenhuma porque, na prática, só conseguem se ‘comunicar’ (???) em tempos de bonança, com aquele discurso grandiloqüente, cheio de adjetivos, oba-oba de executivos e dirigentes que cultivam o próprio ego e que não estão nem aí para os que efetivamente carregam a empresa nas costas.

A Embraer é o exemplo da empresa que se traveste de comunicação moderna, mas que ainda respalda a sua comunicação interna numa cultura organizacional não transparente, não democrática e que, como a maioria das organizações brasileiras, mantém o discurso hipócrita habitual. Certamente, em seu vídeo institucional, está lá para todo mundo conferir: ‘os nossos colaboradores são o nosso maior patrimônio’!

Evidentemente, a Embraer não foi a única a cometer este desatino de demitir milhares de funcionários e sucedeu à Vale (que teve um lucro fabuloso e continua torrando dinheiro em publicidade), a empresas do sistema financeiro (você acredita na Febraban?) e mesmo a empresas de comunicação que posam de ‘Criança Esperança’ e se locupletam na grana que vêm do espetáculo danoso do BBB, festival de mediocridade e de mau gosto, que, no fundo, é a sua face verdadeira. Pra não falar de algumas montadoras, que andam correndo o pires para não pedirem falência, fazendo recall todo dia porque não conseguem produzir com qualidade, mas experts em lobby junto ao governo buscando ter acesso às suas tetas generosas.

As demissões em massa evidenciam, de maneira dramática, o processo capenga de comunicação interna das nossas organizações, que continua sendo a ‘gata borralheira’ da comunicação empresarial. É, reconhecemos, mais fácil contar vantagem quando se está por cima (muitas corporações se vangloriam mesmo quando estão no fundo do poço, como algumas montadoras), mas a competência em gestão e em comunicação só pode mesmo ser avaliada em momentos de crise.

Infelizmente em boa parte dos nossos cursos de comunicação que formam profissionais que irão atuar nessa área falta espírito crítico, mesmo porque muitos docentes abrem mão de seu compromisso e agem como empregados e prestadores de serviços de empresas do mercado ou governos. Há coleguinhas da Academia que continuam sugerindo aos seus alunos que façam TCC (trabalhos de conclusão do curso) sobre a responsabilidade social (???) da indústria tabagista, sobre a comunicação transparente (???) das empresas de transgênicos, sobre o marketing verde (santa hipocrisia) das empresas agroquímicas, mineradoras e de papel e celulose. Gente que não enxerga um palmo adiante do nariz e que afronta o seu papel de docente e profissional em nome de clientes e patrões socialmente irresponsáveis.

Não há dúvida de que o espetáculo horroroso da Embraer continuará se repetindo por aqui porque muitos dos nossos empresários e executivos de RH (não passam de chefes de pessoal, de capatazes modernos) continuam atrelados a modelos ultrapassados de gestão de pessoas, vistas apenas como mão-de-obra. Não há dúvida também que a comunicação interna permanecerá refém desta cultura retrógrada que enxerga a comuni- cação como risco e não como oportunidade, avessa ao diálogo, à transparência e à divergência de opiniões.

Se os colegas dos jornais, revistas, internet, rádio e televisão tivessem maior discernimento, passariam, de agora em diante, a ser mais críticos com os releases que se originam dessas empresas, que proclamam venda de aviões para o exterior, festejam lançamentos de automóveis, a chegada de medicamentos milagrosos, acreditam que os transgênicos que vão matar a fome do mundo, e que os agrotóxicos são sustentáveis (veneno puro) etc. Se fossem menos ingênuos e mais conscientes, boicotariam coletivas destas empresas que só são convocadas em momentos de bonança e que minguam ou desaparecem, quando a crise se avizinha.

Espera-se que o Governo realmente modifique sua postura em relação a estas empresas predadoras, que demitem sem dó, mesmo depois de assaltarem o cofre público a juros subsidiados e que a sociedade guarde na memória o nome das organizações que, para preservarem seus lucros fabulosos, colocam a cabeça de seus funcionários e famílias a prêmio.

Só resta torcer para que essas empresas não sejam convidadas para apresentarem seus cases ‘bem sucedidos’ de comunicação interna ou de responsabilidade social nos eventos da área e que não sejam contempladas com prêmios por entidades que mantêm executivos dessas empresas em suas diretorias e que não se sentem envergonhadas de premiar os seus próprios dirigentes.

Fica a lição: há empresas que insistem em afirmar que sua comunicação voa em ‘céu de brigadeiro’ mas escondem a arrogância e o autoritarismo debaixo do tapete. Só competência técnica, recordes de exportação não valem. Precisamos de RHs e empresários que tenham mentes abertas, socialmente responsáveis e não meras cabeças de fuselagem, roncos de turbina e trens de pouso. A comunicação democrática requer menos logística e mais diálogo, menos engenheiros de precisão e mais transparência.

Nossa solidariedade aos colegas que foram demitidos sumariamente, em particular os da Vale , da Embraer, da Aracruz, dos bancos e das montadoras. Aos que lá permanecem, a certeza de que não devem confiar nos dirigentes, nos que chefiam os setores de RH e, em muitos casos, nem mesmo em determinados sindicatos que têm, gradativamente, vestido a roupa do peleguismo explícito. Em respeito aos colegas, por que não jogar fora os próximos house-organs que repetirão o mesmo discurso hipócrita, o mesmo cinismo empresarial de sempre? Desconfiem , mobilizem-se porque os empresários predadores continuam à solta.

Reproduzo, em homenagem aos colegas da Embraer, o depoimento de um dos funcionários demitidos à Folha de S. Paulo de 20/02/2009 (ele se identificou como Márcio mas teve receio de dizer o sobrenome): ‘ Estou sem chão. Não sei o que vou fazer agora… Acredito que a empresa tinha alternativas. Não houve prejuízo até agora. Fizeram isso (corte) para não reduzir a margem de lucro dos acionistas’.

Os aviões da Embraer (excelentes) continuarão voando. Mas a sua gestão de pessoas e sua comunicação interna entraram em parafuso e se partiram em pedaços. Vale o ditado: ‘por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento’. Um dia os cães irão morder os fundilhos desta caravana empresarial que continua desafiando a modernidade.

* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. Editor de 4 sites temáticos e de 4 revistas digitais de comunicação.’

 

 

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