Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Guálter George

16/03/2004 na edição 268

‘O tom indignado do interlocutor, do outro lado da linha, deixava claro que o jornal O Povo dera uma pisada solene na bola, daquelas que nem mesmo o estresse de uma Redação consegue explicar. A voz reclamava, com toda razão, de matéria que publicamos na edição do último dia 10, quarta-feira passada, sobre o assalto a uma loja de celulares no centro de Fortaleza onde um nome era indevidamente citado. A citação era indevida porque expunha uma pessoa ao risco de uma retaliação evidente, ao apontá-la como a vítima de um assalto a mão armada que, na delegacia, reconhecera pelo menos um dos dois responsáveis pela ação. Ou seja, com nome e local onde trabalha, estava ali à disposição do acusado, àquela altura em liberdade – até onde sei ainda hoje solto pelas ruas de Fortaleza –, a sua ‘ameaça’. Expus, no comentário interno, a ligação que recebera e reforcei a crítica àquele procedimento do jornal, injustificável, inclusive, diante de outros cuidados normalmente adotados, alguns, até, que considero excessivos.

Um começa e o outro termina

Por exemplo, é comum termos matérias hoje que apelam à utilização de nomes fictícios para relatarem situações reais. Costumo questionar tal prática sempre que a detecto considerando, por exemplo, um prejuízo à informação, que termina truncada, sem clareza quanto a um dos seus elementos fundamentais. O jornal acaba criando uma dificuldade para melhor compreensão do fato pelo leitor. Não há razões para se mudar agora o entendimento, comum a todo jornalista, de que uma boa notícia tem na clareza um de seus atributos indispensáveis. Considero que o leitor, diante de uma informação que expõe um nome fictício, portanto, de uma pessoa que na verdade não é aquela à qual está se referindo, pode encontrar motivos para pôr em xeque todo o conteúdo que a envolva. Ou seja, pode transformar tudo numa grande ficção.

O risco que é do jornalismo

O problema é complexo, já que não diz respeito apenas a razões editorais. Existe uma fundamentação jurídica, primeiro, e econômica, a seguir, como fatores de justificativa para o cuidado excessivo que se opta por adotar na maioria dos casos. Por um lado alega-se que as pessoas precisam ser protegidas, normalmente são histórias que levam a constrangimentos, riscos etc. Por outro, a prática expõe o medo da empresa de enfrentar processos, especialmente cíveis (que contemplem cobranças indenizatórias), como se correr riscos não fosse intrínseco à atividade jornalística. Avalio que a alternativa que utilizamos, e desconheço outro jornal no Brasil que faça o mesmo, transfere o problema para o leitor, quando a nós competiria resolvê-lo. A justificativa de proteger as fontes, evitando que elas próprias ou parentes próximos passem por constrangimento, é insuficiente para impedir que a questão seja colocada em debate para uma solução que seja definitiva. Certo é que apelar para ficção está longe de representar o melhor caminho a seguir, tratando-se de um veículo de informação e que, como tal, precisa ter a exatidão como uma das marcas de tudo que publica.

Uma clareza pela metade

Diretor-Executivo da Redação do O Povo, o jornalista Carlos Ely não enxerga os mesmos problemas que eu na opção que se faz hoje pelo uso de nomes fictícios. Segundo ele, desde que o texto deixe claro se tratar de uma opção do jornal, conforme a orientação passada aos editores, o leitor entende as razões e costuma compreender o esforço de proteger a fonte. ‘Tenho convicção de que colocar as iniciais de um garoto, na maior parte dos casos, é caminho para levar à sua identificação, expondo-o’, diz, adiantando que o procedimento ainda não está no Guia de Redação e Estilo do jornal, mas deve constar na pauta de uma próxima iniciativa de atualização.

De olhos bem abertos

A fase de pré-tudo que vivenciamos, quanto ao processo eleitoral que ainda está pra deslanchar, costuma exigir mais vigilância do que quando a campanha oficialmente começa e a própria Justiça passa a atuar como mediadora das forças em disputa. Na instância que me cabe, tento alertar a Redação quanto aos deslizes que o jornal vai cometendo, impondo-se o risco de parecer simpático a candidatura ‘a’ ou ‘b’. Por exemplo, é inaceitável que se fique reproduzindo em qualquer espaço os resultados de enquetes feitas aos montes, em todo lugar, sobre a performance dos que hoje se apresentam como quase candidatos. Na quinta-feira passada, dia 11, a coluna Sonia Pinheiro relatou a ampla maioria obtida pelo pré-candidato do PMDB Aloísio Carvalho em consulta realizada no Iate Clube entre dez pessoas. A performance do atual secretário de Finanças é de deixar qualquer um espantado: 80 por cento das intenções de voto ali manifestadas foram em favor do seu nome.

Da primeira à última página

Chamei atenção para a nota no comentário interno. Trago minha preocupação à discussão externa porque entendo que ao leitor interessa que o jornal se comporte na próxima campanha reproduzindo algumas atitudes importantes observadas na última disputa. Por exemplo, quanto às pesquisas, tratando-as com o máximo de critério e evitando qualquer tipo de manipulação, voluntária ou involuntária. É preciso deixar claro que o fato de a informação sair numa coluna dita social não exime o próprio jornal da responsabilidade pela publicação, já que ele precisa ser observado dentro do seu todo. Uma regra que valha apenas para um setor, uma editoria ou um núcleo deixará de ter eficácia como esforço de obtenção de uma postura equilibrada do veículo. A menos que não se queira buscar esta postura equilibrada.’

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