Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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VOZ DOS OUVIDORES >

Guálter George

03/08/2004 na edição 288

‘Juraci Vieira de Magalhães é o atual prefeito de Fortaleza. Um homem de 38 anos de vida pública, conforme faz questão de ressaltar. Ao longo desta trajetória, diz ter conseguido compreender a importância da imprensa como meio de fortalecimento do regime democrático. Um tempo que também lhe teria dado condições de entender quando um órgão de comunicação está, ao seu juízo, cumprindo os postulados capazes de dar ao cidadão ‘o direito de analisar os fatos com isenção’. Em carta assinada que encaminhou ao ombudsman na última terça-feira, através de sua assessoria, Juraci faz um duro desabafo contra O Povo, jornal que considera não vir atendendo aos tais postulados e que acusa de, ultimamente, sistematizar a publicação de informações de aspecto negativo sobre a sua gestão, ‘algumas sem apuração necessária e outras dando tratamento superficial a aspectos que mereceriam uma mais objetiva contextualização’. De uma análise feita sobre o noticiário do jornal entre 1º e 23 de julho, o Prefeito aponta 20 exemplos do que considera tratamento inadequado a eventos relacionados à administração fortalezense, a ele próprio e ao seu PMDB.

A fonte deu carona ao repórter

No entanto, o texto sai da simples defesa para o ataque quando Juraci Magalhães, em dado trecho, afirma o seguinte: ‘a freqüência com que meus opositores protagonizam, com generosa exposição neste veículo, notícias de viés depreciativo em relação à Prefeitura de Fortaleza, abre espaço para que o público reflita se é possível o jornal estar sendo usado, involuntariamente ou não, por interesses alheios aos dos leitores’. O mais forte viria na seqüência, onde o Prefeito questiona qual seria a reação do leitor ao saber que ‘em uma visita de vereadores oposicionistas na Secretaria Executiva Regional III, que resultou em manchetes com denúncias sobre queima de medicamentos (caso em que as explicações da Prefeitura foram sobrepostas e minimizadas pelo tom apelativo e emocional dos textos), os repórteres do O Povo haviam se retirado do local no veículo dos denunciantes e não nos da própria empresa, como caberia proceder, caso ainda se pretendesse preservar, pelo menos no plano das aparências, algum traço de isenção’.

A Redação rebate e explica

A Chefia da Redação, em texto escrito que encaminhou, rechaça os ataques do Prefeito à cobertura e confirma, embora tentando justificar, que repórter e fotógrafo que estiveram cobrindo a visita à SER III voltaram de carona em carro de um dos vereadores. Quanto às queixas, o argumento é que ‘não há qualquer direcionismo na cobertura dos assuntos pertinentes à Prefeitura. Entendemos ser natural que, em ano de eleição, os temas que dizem respeito à cidade (por conseqüência à Prefeitura) assumam proporção maior dentro dos órgãos de imprensa’. Na análise dos 20 exemplos escolhidos por Juraci Magalhães, o comando da Redação do O Povo observa ‘que a grande maioria é formada por matérias de caráter factual, relatam fatos que são do conhecimento público e não resultam de um suposto maniqueísmo do jornal’. Quanto à carona, explica-se que a equipe chegou ao local em veículo da empresa e ‘aceitou a carona de volta por uma situação excepcional: foi expulsa antes do término da fiscalização, numa situação de ameaça, e, como o carro de reportagem não estava lá na hora, a oferta foi aceita’. Na nota, a Redação diz ‘não aceitar a acusação de estar promovendo uma cobertura aética e imparcial’, valendo-se do ‘sentimento dos leitores’ para reforçar sua posição.

Ser e parecer que é

As vinte manifestações que o prefeito de Fortaleza extraiu do noticiário do O Povo para reforçar sua tese apenas parcialmente parecem lhe servir como gostaria. Analisados os exemplos um a um, vê-se, muitas vezes, o jornal sendo acusado de executar uma ‘estratégia de desgaste’ apenas por abrir espaços à opinião de seus articulistas, como acontece com o caso citado de uma análise feita pelo colunista Fábio Campos na edição de 13/07. Em outros mais, a releitura do material apontado permite se constatar, na linha dos argumentos apresentados pela Chefia da Redação, que pouco existe nos textos do jornal além de uma objetiva reprodução dos fatos, ou seja, se prejuízo há à administração ele não pode ser creditado ao veículo da informação. O problema é o fato, em si. Grave, para O Povo, é o fato de o seu repórter sair no carro dos denunciantes após cobrir a visita à Secretaria Executiva Regional III, que resultaria em manchete do dia 21 último sobre desperdício de medicamentos. O momento exige o máximo de atenção do jornal para que a relação com as fontes se mantenha no nível em que fique delimitado de maneira clara o interesse de cada um diante do fato. O nosso não pode ir além de torná-lo público, oferecendo ao leitor a notícia a mais limpa, livre de qualquer influência possível.

O fato, confirmado pela Redação, deu brecha à dúvida que o Prefeito levantou. Não que represente, em si, um atestado de que a matéria atendeu ao interesse das fontes que deram carona ao repórter que assinaria a matéria transformada, dia seguinte, na manchete da edição. O problema é que a simples possibilidade de dar margem a interpretações outras já representa um desgaste que o planejamento da cobertura deveria considerar. O episódio deixa claro que ‘ser’, apenas, não nos basta.’

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