Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Guálter George

30/11/2004 na edição 305

‘Quando candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva comprometeu-se com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) a encampar, no Governo, uma das suas lutas antigas: a instalação de um Conselho Federal de Jornalistas. Presidente da República, Lula cumpriu a promessa, um dos raros gestos nesse sentido desde quando tomou posse, encaminhando ao Congresso em agosto último um projeto que cria o tal Conselho. Foi o mote para o deslanchar de reações fortes, com muitos vislumbrando um sério risco à democracia, à liberdade de expressão etc. Tudo, por causa da possibilidade de criação de uma entidade que, em tese, só pode incomodar aos maus jornalistas, aos maus profissionais, àqueles que se utilizam da profissão para outros fins que não contribuir no processo de informação e formação dos cidadãos. É possível que sobre também, na mesma perspectiva, para maus empresários e maus diretores de jornais. Não imagino que o Conselho viria, ou virá, para eliminar definitivamente os problemas do meio jornalístico, especialmente quanto aos direitos e responsabilidades dos profissionais que nele atuam, mas, estou certo, seria, ou será, um instrumento a mais para uso no duro esforço de enfrentá-los.

O debate deu lugar ao simplismo

O pior, ao analisar o comportamento dos meios em relação à iniciativa do Governo Federal de propor a criação do CFJ, é concluir que a eles não interessa, em nenhum momento interessou, discutir de forma séria o que está sendo proposto. Ao contrário, para implantar o terror na mente das pessoas, vai-se logo à conclusão simplista de que é uma iniciativa cerceadora, que faria parte de um pacote oficial e amplo para encurralar a liberdade de expressão, faz-se ilações com outros episódios e situações que em nada se relacionam, como a quase expulsão do jornalista Larry Rother ou a tentativa simultânea de criação de uma Agência para regular a atividade do audiovisual, ou seja, os fins foram justificando os meios. Importante, imaginam os que são contra e podem conduzir o debate, é barrar a tentativa. Melhor isso do que discuti-la com a sociedade, pautar o assunto para boas abordagens jornalísticas, abrir o espaço de rádios, jornais e TVs para manifestações prós e contras. Uma típica demonstração de que faz falta um núcleo capaz de regulamentar melhor o processo de comunicação em nosso País. Um Conselho Federal tipo o que está sendo proposto, quem sabe.

Falta conquistar o que se quer manter

O Povo manifestou sua opinião contrária ao Conselho no editorial do dia 17 de setembro último. Sem novidades quanto à tese comum aos veículos de comunicação brasileiros, na qual se tenta apresentar a iniciativa como uma ameaça à liberdade de expressão, argumento que, como tantos outros largamente utilizados, não se sustenta à leitura mais acurada do texto que cria o CFJ. Ao contrário do que dizem os críticos em geral da iniciativa, uma boa parte deles jornalistas, não há porta aberta para o possível controle do que se publica ou divulga e, sabemos todos, a tal liberdade de expressão é uma meta que ainda estamos a buscar. Portanto, não há como defender hoje algo que ainda não conquistamos. Apesar de outras ações isoladas louváveis, como uma página dedicada ao assunto em matéria do dia 19 de agosto, O Povo soma-se ao lamentável esforço dos veículos brasileiros de comunicação de desinformarem o mais que puderem a sociedade acerca do assunto, deixando-a refém da versão que construíram. Lula, voltando a demonstrar sua fraqueza política e de convicções, já sinaliza com a retirada do projeto. Inclusive utilizando-o como elemento de barganha junto à oposição para desobstruir a pauta do Congresso. Triste fim.

O reordenamento que fechou escolas

Dispensa conhecimento científico ou acadêmico a compreensão do que seja o papel dos meios de comunicação quando colocados diante do discurso oficial. É obrigação inicial desconfiar dele, não aceitá-lo gratuitamente, questionar, brigar pelo ‘por que’ todo o tempo. Lamentavelmente, foi o que faltou O Povo fazer em material que apresentou na edição da última quinta-feira, dia 25, ao relatar o conteúdo de anúncio feito pela secretária de Educação Básica do Ceará, Sofia Lerche, em relação a unidades escolares atualmente integradas à rede estadual de ensino. Por razões diversas, justificáveis e injustificáveis, o Governo decidiu fechar 21 escolas, explicando a medida como fruto de uma necessidade de ‘reordenamento’. O jornal optou, mesmo diante de um assunto de notórias contradições, de evidentes prejuízos à clientela atingida, entre professores, servidores e alunos, por adotar uma linha excessivamente relatorial. Meio que assumimos aquele discurso. Por exemplo, a idéia de que o pacote de medidas determinaria o ‘fechamento de escolas’ apareceu apenas uma vez em nossos textos e em manifestação da Secretária, onde ela apenas se recusava a admiti-lo, insistindo que o que estava previsto era o ‘redimensionamento’. Puro eufemismo.

Duas chances de manchetes perdidas

Há um outro detalhe importante acerca do material que noticiou o anúncio da decisão do Governo cearense de fechar 21 escolas: o assunto não foi a manchete da edição daquele dia. Ganhou um discreto espaço na primeira página. No segundo capítulo da história, relacionado à edição da sexta-feira, dia 26, um novo problema seria detectado. Menos quanto ao material editado em si, que repunha para o leitor do O Povo parte do que lhe tinha sido negado na abordagem anterior, inclusive evitando eufemismo para falar do fechamento de escolas. Injustificável, na verdade, foi a absoluta ausência de qualquer menção ao assunto na capa do jornal, sequer em chamada discreta como a observada no dia anterior. O agravante de tudo é que nos dois dias o concorrente Diário do Nordeste deu o merecido destaque ao assunto, garantindo-lhe, em ambos os casos, tratamento de manchete principal das edições.

Redação diz que não houve orientação

O quadro determinava que uma pergunta fosse apresentada à Redação: estávamos diante de uma seqüência de infelizes coincidências ou havia algo mais justificando tanto erro de avaliação, um após o outro? Carlos Ely, diretor-executivo de Redação e ainda respondendo interinamente pelo núcleo de Cotidiano, assume que a abordagem oferecida pelo jornal não foi das melhores, negando, porém, a hipótese de que isto seja resultado de alguma orientação no sentido de amenizar a posição do Governo. ‘Concordamos que a cobertura da entrevista em que foram anunciadas as medidas apresentou falhas’, diz ele, adiantando que uma forte discussão interna procurou entender as razões dos problemas que o material apresentou. Uma discussão que, espero, nos fará mais preparados para administrar melhor situações futuras nas quais o jornal saiba apresentar uma abordagem que não deixe dúvidas quanto à sua independência em relação ao que está noticiando.’

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