Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Guálter George

28/12/2004 na edição 309

‘Os arquitetos Joaquim Cartaxo e Romeu Duarte Júnior acusam O Povo de parcialidade no noticiário que tem oferecido ao leitor no acompanhamento da discussão sobre o processo de revisão e adequação do Plano Diretor de Fortaleza, o chamado projeto Legfor, do qual ambos participaram em importantes coordenadorias. Na visão deles, as matérias que o jornal publicou ‘privilegiaram a opinião de leigos ou de profissionais que não têm competência para emitir pareceres técnicos sobre o assunto’. Além de critérios de conteúdo objetivo, como este, valem-se, em documento encaminhado ao Ombudsman, de conclusões resultantes de uma análise cujos fundamentos são mais subjetivos. Por exemplo, eles consideram indicador de parcialidade as matérias virem sendo editadas nas páginas de Política, ‘quando o caderno de Cidades é mais apropriado para noticiar as questões concernentes ao assunto’. Citam o caso da edição do dia 12 passado, na qual apontam matéria publicada sob o título principal ‘as amarras da gestão Luizianne’, que estaria repleta dos desvios que têm marcado, para os arquitetos, a abordagem do O Povo. O caso citado inclui uma crítica à idéia de se permitir a construção de edifícios com até 15 andares no bairro do Pirambu, feita por uma representante do Núcleo de Habitação e Meio Ambiente da ONG Cearah Periferia, classificando a medida como ‘própria da especulação imobiliária’. Acontece, dizem eles, que a criticada possibilidade ‘é um dispositivo hoje já em vigor, constante no Plano Diretor de 1992, não sendo, portanto, uma proposta original do projeto Legfor’.

O texto que Cartaxo e Romeu assinam é longo, detalhado, tenta mostrar que o processo de mudanças em torno do Plano Diretor foi amplamente discutido com a sociedade fortalezense e, em vários trechos, questiona a opção editorial do jornal de basear suas matérias na opinião de leigos ‘ou pessoas que se movimentam pelo interesse político partidário’. A situação teria sido decisiva, dizem, para o desenvolvimento de um ‘debate capenga, irracional e eivado de posições que não têm qualquer sustentabilidade no campo do conhecimento da arquitetura e do urbanismo’.

Para redação, técnicos e leigos tiveram espaço

As queixas dos arquitetos foram repassadas à Redação, que as respondeu através do editor-executivo de Conjuntura, Erick Guimarães. Para o jornalista, faltam ‘fatos concretos capazes de subsidiar a crítica à parcialidade do jornal. Em tudo que publicamos, o outro lado estava presente e, inclusive, o próprio Joaquim Cartaxo foi fonte em matéria da repórter Daniella Cronemberger’. Erick lembra que os questionamentos à proposta têm sido feitos por entidades como o Instituto dos Arquitetos do Brasil e Instituto de Geógrafos do Brasil e por técnicos como José Bozarchiello, geógrafo e professor da Universidade Federal do Ceará. Além do que, diz, ‘as observações de leigos não poderiam ser desconsideradas. Pelo contrário, refletem segmentos importantes da sociedade a quem devemos ouvir’. Outro ponto respondido é quanto à escolha da editoria de Política para publicar o material: ‘é um critério editorial, definido pela Redação e tornado público ao leitor desde o início da campanha eleitoral’.

Técnicos ou leigos, todos fazemos parte

Imagino ter levado ao conhecimento do leitor, nos tópicos anteriores, o fundamental do que dizem os dois lados no tiroteio verbal que protagonizam. Uma análise fria do que O Povo tem publicado demonstra que a existência de falhas na cobertura, aqui ou ali, em uma matéria ou outra, não tira o mérito do acompanhamento que tem feito do debate sobre o novo Plano Diretor. O estranho, nas críticas assinadas pelos arquitetos, é que eles queixam-se do espaço que o jornal oferece à participação dos ‘leigos’. Nós, no caso, que não somos técnicos, mas moramos na cidade e sofreremos os efeitos das mudanças, para o bem e para o mal, contempladas na proposta em tramitação na Câmara Municipal de Fortaleza. Com certeza, se o que temos publicado apresenta erros e problemas, a garantia de espaço para a manifestação de representantes de segmentos sociais diversos não é um deles.

Os alvinegros enxergam três cores no jornal

Por falar em parcialidade, quem também anda reclamando do O Povo neste tocante é uma parte da torcida do Ceará. A discussão não é nova, a acusação muito menos. Leitores descontentes procuraram o Ombudsman ao longo da semana para manifestar sentimentos de revolta, até, com episódio mais recente que confirmaria, para eles, uma tendência pró-Fortaleza (o time) do jornal e de seus jornalistas. O problema, na verdade, teria nascido pouco mais de dois meses atrás, no dia 7 de outubro, quando estampamos na manchete de capa uma decisão judicial que conferia ao Fortaleza o título de campeão cearense de 2002, ganha no campo pelo Ceará. Na crítica interna daquele dia, questionei a escolha da manchete, até um assunto interessante para ser o destaque de uma página, ganhar chamada discreta na capa, nunca para ser apresentado como o principal daquela edição.

Manchete um dia, no outro um fato sem importância

João Flávio Nogueira Júnior, Ricardo Gabriel, Rodrigo Melo e Felipe Leitão Rocha estão entre os leitores e alvinegros (mais estes do que aqueles) que encaminharam mensagens fortemente críticas. O problema, para eles, é que O Povo deu manchete a uma decisão de Primeira Instância em outubro e praticamente desconheceu, no dia 18 passado, que a justiça aceitara embargo declaratório do Ceará, abrindo uma nova etapa do processo que pode levar até 10 anos para chegar à sua definição. O prazo é observado em pelo menos duas das mensagens recebidas. A notícia que pareceu favorecer o Ceará veio através de uma secundária que ocupou discreto espaço em página de Esporte. Pior ainda é que, ao publicar matéria com um dia de atraso em relação ao concorrente, nós ainda anunciamos uma provável perda de prazo pelo advogado do Ceará, Clark Leitão, ameaça que os torcedores/leitores garantem inexistir. Pra quem acompanha tudo sob o ritmo da paixão, é coisa demais pra achar que não tem o dedo do Fortaleza ajudando a teclar cada letra. Pedi uma manifestação da Redação acerca do assunto, mas, nada chegou até o fechamento da coluna, em plena véspera de Natal, sexta-feira passada.’

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