Segunda-feira, 20 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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VOZ DOS OUVIDORES >

Joaquim Furtado

05/10/2004 na edição 297

‘Síntese da crónica, publicada a semana passada, nesta coluna: Acácio Barradas, jornalista, orador num colóquio, queixou-se que Clara Raimundo, jornalista estagiária que cobriu o evento para o Público, não reproduzira, na notícia que fez, declarações suas com as quais pretenderia demonstrar a existência de interferências no jornal, ditadas pelos interesses económicos da empresa.

A apreciação feita nesta coluna – que incluiu a reprodução das cartas divergentes de ambos os jornalistas – viria a ser referida, nos dias seguintes, nas páginas virtuais de um blogue (1). E essa referência, por sua vez, viria a provocar um comentário de Rogério Santos, também ele ‘blogger’ (2). Professor Universitário, doutor em jornalismo, autor de várias obras no domínio dos ‘media’, Rogério Santos assistira ao colóquio que está na origem do caso. E achou dever intervir, expondo a sua visão.

É o que se reproduz aqui, em benefício de uma melhor interpretação dos factos, como testemunho qualificado:

‘Temos de destrinçar entre o que se produz nas notícias e a percepção tida na audiência que consome os jornais ( ou a rádio ou a televisão ). Eu ouvi Acácio Barradas nesse encontro da Associação Abril em Maio relatado na notícia. A minha versão dos acontecimentos acaba por não ser favorável a Acácio Barradas. Parece que ele pretendeu o linchamento da jovem jornalista. Acácio Barradas fez uma crítica activa aos patrões dos media. Deteve-se mais nos jornais da Lusomundo do que no Público. Isto é, contou mais pormenores do Diário de Notícias do que deste. A meu ver fez a observação do tema segundo um dos ângulos da questão – o poder dos jornalistas versus a força do marketing. Quer nos apoiemos num ângulo ou no outro, não podemos esquecer a existência de um e do outro. A jornalista estagiária procurou reproduzir o que disse esse jornalista sénior, a partir de apontamentos escritos que tinha em cima da mesa, mas aos quais ela não acedeu. Escrever o que outrém disse e acentuar exactamente o que esse outrém quis acentuar parece-me uma tarefa sempre difícil de gerir. E a resposta da jornalista, que o provedor reproduziu, é lapidar: ela não pretende chegar a um lugar cimeiro no jornal pela simples razão que se vai embora em acabando o estágio. Esta afirmação é objectiva mas muito dura’.

Mas se esta é a substância do comentário de Rogério Santos, há nele uma outra dimensão que vem a propósito observar: há dois ou três anos, se quisesse prestar o seu testemunho, Rogério Santos teria escrito para o provedor, ou para o jornal e aguardaria que os critérios destes divulgassem o seu contributo. Hoje, em vez desse caminho ‘tradicional’, escolheu intervir através de um veículo que lhe garante automaticamente a difusão da mensagem: a blogosfera, esse novo mundo que habita o mundo novo que é a Internet e que, cada vez mais se apresenta como incontornável aos ‘velhos’ mundos da comunicação (3).

Dos efeitos da sua vitalidade crescente começa a haver todo o tipo de exemplos, quer no estrangeiro quer em Portugal, obrigando a reflexões e análises de que é exemplo recente, um texto da autoria de José Pacheco Pereira (4).

Afirma o colunista: ‘Os jornalistas, principalmente da imprensa escrita, vão hoje buscar imensa coisa aos blogues, umas vezes citam, outras não, e os leitores dos jornais desconhecem a importância dessa contribuição. Ainda recentemente uma notícia de primeira página do Público teve origem num blogue. O jornal demorou uns dias a referir a fonte, mas depois fê-lo quando por todo o lado na blogosfera havia protestos. Num blogue, essa ausência de citação seria impossível porque a cultura do hipertexto torna a citação do outro um elemento identitário da blogosfera’.

Aparentemente, Pacheco Pereira refere-se ao caso que, entretanto, também o leitor Gabriel Silva (5) expusera ao provedor. Ou seja, que fora após a publicação ‘de um texto no blog http://doportugalporfundo.blogspot.com sobre ofacto de um juiz da relação relator do caso Paulo Pedroso ter ligações ao PS’ que, dois dias depois, a jornalista Isabel Braga escreveria ‘um texto no Público, com a mesma informação, sem citar a fonte, artigo que veio a ser chamado para a capa’.

O facto de a notícia repetir um erro factual contido no blogue é para Gabriel Silva a prova de que o blogue fora a fonte da jornalista.

Convidada a pronunciar-se sobre a questão, Isabel Braga afirma que nunca foi sua intenção ‘ocultar’ a origem das informações, notando que a viria a referir: ‘na segunda notícia, citei o blogue, também sem ter uma grande certeza se era esse o caminho certo, fi-lo apenas porque achei que era justo’.

Perante estas situações, Isabel Braga interroga-se ‘o que é que se faz com uma informação lida num blogue? Não se sabendo quem são os seus autores, faz-se o mesmo que se faz com uma informação anónima, recebida pelo telefone, ouvida na mercearia, no metro, numa esquina: se se considerar relevante, investiga-se e se se verifica que é verdadeira publica-se. Foi o que eu fiz, investiguei, confirmei e publiquei’.

No fundo, as dúvidas de Isabel Braga podem ser o início da reflexão que Gabriel Silva propõe: ‘o impacto inovador que os blogs vieram introduzir nas relações da imprensa com as fontes, dos blogs como vigilantes, complemento e antecipação à imprensa escrita’.

A experiência é ainda escassa para encontrar, ou até para procurar, novos códigos. Os blogues não são todos iguais. Uns (assinados por nomes conhecidos da vida pública) serão mais credíveis, ou até responsabilizáveis, do que outros. Mas se ambos podem ser – porque, pelos vistos, são cada vez mais – fonte para os jornalistas, então não se vê que não sejam citados como tal, uma vez feito o trabalho de confirmação, indispensável para os blogues como para outras fontes.

Isto na perspectiva, mais comum, do blogue enquanto potencial fornecedor de informação útil para a imprensa. Porém o escândalo que envolve a CBS, em cujo prestigiado programa ‘60 minutes’ Dan Rather apresentou documentos cuja autenticidade viria a ser posta em causa por blogs (6), está aí para mostrar novos desafios.

(1) – ‘Blogouve-se’ (http://ouve-se.weblogger.terra.com.br), do jornalista João Paulo Menezes, dedicado à observação crítica, aliás muito estimulante, do jornalismo que se faz nos diversos meios de Comunicação Social.

(2) – http://industrias-culturais.blogspot.com

(3) – Ver ( no blogue de Rogério Santos… ) o estudo ‘O fenómeno dos blogues em Portugal’, realizado no âmbito da tese de licenciatura em Comunicação Social, no Instituto de Ciências Sociais e Políticas, de Joana Baptista.

(4) – ‘Media-esfera, blogosfera e atmosfera’, PÚBLICO, 16 de Setembro de 2004

(5) – ‘blogger’ de ‘Blasfémias’ (http://ablasfemia.blogspot.com)

(6) – ‘A revista Editor & Publisher [15/9/04] destacou a importância dos blogs políticos no questionamento da autenticidade do material conseguido por Rather. Editores ouvidos pela publicação discordam com relação a qual é o limite de credibilidade que esses sítios ainda poderão alcançar, mas são unânimes em admitir que a grande imprensa não pode mais ignorá-los’. ( Do texto ‘60 minutes, O calvário de Dan Rather’, publicado em 21/9/2004, no site do ‘Observatório da Imprensa’ , organização brasileira de acompanhamento de acompanhamento dos ‘media’).’

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