Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

Joaquim Furtado

04/01/2005 na edição 310

‘A regra, entre a generalidade da imprensa de tradição anglo-saxónica, é praticar a separação entre o que é notícia e o que é comentário. ‘Uma relação séria e leal com o leitor, pressupõe o respeito pela diferença de códigos entre informação e opinião’, estabelece o Livro de Estilo do Público.

Por conhecer este princípio, o leitor Carlos Duarte escreve ao provedor, dizendo que não lhe parece que o jornal, ‘do ponto de vista gráfico, esteja a diferenciar correctamente os artigos de opinião das notícias’. E aponta a página 46 do caderno Local Porto de 26 de Dezembro.

A questão foi endossada ao director-adjunto Manuel Carvalho (M.C.), que caracteriza a página: ‘A Semana Local é uma secção na qual se faz um balanço crítico, logo necessariamente opinativo, sobre a actualidade do Porto e do Norte do país. É um espaço que existe desde os primeiros anos do jornal e que, apesar de ligeiras actualizações, mantém o mesmo conceito e o mesmo grafismo da origem’. Pelo que M.C. não vê razões para o reparo do leitor: ‘Mesmo para quem não esteja habituado às rotinas do Caderno Local do Público, a Semana Localobedece a todos os critérios gráficos a que recorremos para diferenciar os textos noticiosos dos opinativos. Basta, a propósito, referir a grafia em itálico do título e o uso de uma fotografia do seu autor, recursos que se usam exclusivamente nos textos de opinião’.

A página é constituída por seis comentários de tamanhos diferentes: sobre possíveis candidatos à Câmara do Porto, vereadores municipais, o primeiro-ministro, e um secretário de estado. Comentários. Alguns com as conhecidas setas de avaliação positiva ou negativa. Todos assinados pelo jornalista Nuno Corvacho. Uma página, de resto similar, à ‘Semana Política’, editada aos sábados no caderno nacional. Excepto no ‘cartoon’, existente nesta, e na fotografia do jornalista, que… não existe na ‘Semana Política’. O critério do leitor criticaria, portanto, ambas. E havendo apenas opinião na página, o que Carlos Duarte reclama é que ela esteja graficamente assinalada, como sendo um espaço de opinião. M.C. refere que a ‘antiguidade’ da secção e distintivos como o itálico e a foto do jornalista (que, como vimos, pode não sê-lo), asseguram a identidade da ‘Semana Local’.

Na verdade, nenhum leitor poderá confundir qualquer dos textos da pág 46 com uma notícia (nem Carlos Duarte, cujo reparo é a prova disso). Bastava, pois, um sinal convencional explícito, ainda que por uma razão meramente formal.

Mais substancial é um segundo tema em que o mesmo leitor sugere ao provedor ‘uma clarificação quanto ao posicionamento do Público nas próximas eleições autárquicas na cidade do Porto’, já que – considera Carlos Duarte – ‘é do conhecimento geral que a edição Norte/Porto apresenta uma tendência anti-Rui Rio’. (Parece implícita na interpelação do leitor, uma dificuldade no relacionamento institucional entre o autarca e o Público, a qual – como disse ao provedor M.C. – se encontra já completamente ultrapassada).

Quanto à apreciação do leitor, o director-adjunto do jornal rejeita-a: ‘o jornalismo crítico a que o Público habituou os seus leitores faz com que, por vezes, se confunda a atenção prestada às polémicas do quotidiano com uma `tendência´ deliberada a favor, ou contra’. E exemplifica, dizendo que o jornal já antes fora ‘acusado de estar `contra´ Fernando Gomes ou `contra´ Nuno Cardoso’, o mesmo tendo acontecido ‘em Lisboa quando o município era liderado por João Soares’. M.C. refere que ‘em nenhum momento do mandato de Rui Rio o Público deixou de acolher os seus pontos de vista, de divulgar as principais acções do seu executivo ou de lhe solicitar entrevistas’, ao mesmo tempo que nunca deixou de ‘trazer para o debate as decisões que causaram profundas polémicas na cidade’. E sobre a opinião publicada por jornalistas, editores ou directores, M.C. afirma que ‘as opções políticas de Rui Rio ora foram criticadas, ora elogiadas, de acordo com a análise livre e subjectiva de cada um’. E desmente, em conclusão, ‘a existência de qualquer `tendência´ pró ou contra Rui Rio’, afirmando que ‘no Porto, como no resto do país, os jornalistas do Público obedecem aos mesmos princípios e à mesma atitude profissional’ .

São esses princípios – editoriais – que estão na base da conduta do jornal em momentos de clivagem da opinião pública, como é o caso de eleições. Autárquicas, como refere o leitor, ou outras. E uma vez que, em Portugal, entrámos em ano de eleições, olhemos para o geral da questão.

Importantes jornais internacionais tomam posição a propósito de grandes questões, através de textos editoriais. As recentes eleições nos Estados Unidos, bem como a intervenção deste país no Iraque, exemplificam essa prática. Há dois anos, o ‘New York Times’ entendeu que a sua credibilidade passava por dizer ‘não à guerra’, tal como, grande parte da imprensa norte- americana (e não só) se afirmou a favor de um dos candidatos (Bush e Kerry) nas recentes eleições presidenciais.

Como em outros países europeus, esta prática não é seguida em Portugal.

‘O Público – esclarece o seu director, José Manuel Fernandes (J.M.F.) – não toma posição formal (…) com recomendação de voto, como é tradicional nos jornais anglo-saxónicos. Nesses também existe uma maior distância, regra geral, entre a área de opinião/editoriais e a redacção propriamente dita (…) Por isso não daremos qualquer indicação de voto nas próximas eleições, como nunca o fizemos até hoje. Mesmo sendo os editoriais assinados pelos autores, o que permite que por vezes expressem opiniões distintas de forma mais ou menos clara’.

Em Março de 2003, por ocasião da crise iraquiana, o jornal sentiu necessidade de clarificar que não tomava posição ‘tal como não tomou noutras crises ou eleições’ e sublinhar que as opiniões surgidas em editoriais assinados ‘não condicionam nem a busca de objectividade e a exigência de rigor na informação (…) nem o pluralismo das opiniões’.

J.M.F. reconhece que em situações deste tipo é ‘por vezes muito difícil conseguir um bom equilíbrio, o que leva muitos leitores a protestar’, bem como partidos, umas vezes porque esses partidos perdem ‘a distância em relação às opções editoriais’ , outras porque ‘nem sempre os textos são equilibrados’, havendo que tomar especiais medidas: ‘um dos cuidados que costumamos ter para evitar entorses é fazer rodar os jornalistas que cobrem os líderes ao longo da campanha’, para evitar que se envolvam involuntariamente. No entanto, a inevitável subjectividade obriga por vezes a certos ‘equilibrismos editoriais que são mais políticos do que estritamente editoriais’, citando J.M.F. a atenção ao número de vezes que os candidatos surgem na capa ou e a preocupação em fazer rodar as reportagens de abertura da secção’.

No fundo o que está em causa – tome-se ou não posição, já que a imprensa que o faz se obriga, igualmente, à isenção informativa – é a melhor forma de afirmar a credibilidade do jornal, discutindo-se se a objectividade possível é mais ou menos conseguida e reconhecida pelos leitores, numa ou noutra opção.

Quanto ao Público, os exemplos citados mostram que foi necessário reafirmar as suas posições editoriais em determinados momentos. Fazê-lo, por definição, a propósito de cada acto eleitoral, poderia ser um bom princípio.’

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