Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

Joaquim Furtado

11/01/2005 na edição 311

‘O título desta crónica anuncia o termo das minhas funções como provedor do leitor, tal como ‘pontos de partida’ assinalara o seu início, em Janeiro de 2004. Passou um ano, que é o período contratual (renovável por mais um) estabelecido pelo estatuto que regula o exercício do cargo, no Público.

Sendo, embora, tempo bastante, enquanto experiência profissional, devo explicar – por respeito à transparência que procurei nesta coluna – que termino esta colaboração em face de outros compromissos profissionais que prejudicariam o exercício da função. Este facto liga-se às duas primeiras notas do balanço que faço nesta crónica: por um lado, que foi com muito gosto e entusiasmo que aqui escrevi semanalmente; por outro que, a meu ver, o cargo pode exigir uma dedicação profissional total, dependendo de quem o ocupa.

Isto significa que não só reforcei a convicção de que o provedor faz falta ao leitor e ao jornal, como formei a ideia de que o seu papel acaba até por corresponder a um conceito funcional mais alargado. A sua acção não se esgota nem nas áreas que a vocação lhe atribui, nem nos textos que assina na coluna dominical. Na verdade, é fora dela que se realiza boa parte da actividade do provedor, o que resulta num trabalho de estreitamento das relações entre quem lê o jornal e quem o escreve. Para muitos leitores, o provedor é mais do que aquilo que o estatuto prevê e determina (seja por desconhecimento, seja por interpretação das suas verdadeiras funções). É alguém que com facilidade se contacta directamente, na esperança de uma resposta não conseguida em instâncias ‘inacessíveis’ do jornal. Estejam em causa aspectos de índole deontológica ou técnica – como é da função – ou de qualquer outra natureza.

A reafirmação da validade da figura do provedor, toca na objecção dos mais cépticos: a de saber da sua eficácia, assunto que também mereceu referências na correspondência que recebi. Em boa parte, a questão parece-me falsa. Por eficácia pretende entender-se a eliminação dos erros, a mudança de inércias instaladas, a transformação de rotinas negligentes em obsessões deontológicas, tudo como resultado automático da actuação do provedor. Também duvido dessa eficácia, sobretudo que ela se projecte em linha directa e proporcional aos reparos e às recomendações do provedor.

No entanto, talvez pela ingenuidade inveterada que muitos atribuem aos ‘ombudsmen’, acredito que nenhum jornalista gosta de ver publicamente reprovada a sua competência técnica ou a sua conduta ética, que a nenhum director agrada ser criticado no seu jornal e que nenhum editor aprecia que questionem a sua autoridade profissional ou hierárquica. Por isso acredito que reparos e críticas, repetidamente afirmados, acabem por ter algum efeito. De dissuasão que seja.

Reconhecer um erro que não seja uma simples gralha, pedir desculpas por falta de qualidade jornalística ou violação de princípios consagrados, ter que explicar e justificar assuntos que não costumam sair das paredes das redacções, talvez não devesse custar tanto, mas custa e incomoda. Confirmei isso no relacionamento com a redacção. Para lá da cordialidade generalizada, que foi a regra, também houve desdém pelo reparo do leitor, incompreensão por esse reparo merecer crédito, mal disfarçada arrogância. Se não custasse e não incomodasse, os jornais estavam cheios de pedidos de desculpa expressos de forma espontânea. E não estão. Em contrapartida, alguns foram publicados, ao longo do ano, nesta página e também na correspondência, não pública, mantida com os leitores. De outra forma nunca teriam existido.

Acredito que a ‘simples’ publicação regular de erros e culpas do jornal, no âmbito de uma reflexão séria é, em si mesmo, um facto positivo e potencialmente transformador. Suficiente, por si só, para justificar a existência do provedor, enquanto factor de regulação, articulado com outros órgãos e instrumentos como os conselhos de redacção, o código deontológico ou os livros de estilo. Mas, evidentemente, que há medidas concretas, exequíveis, por vezes simples, que o provedor aponta e espera ver acolhidas. Como anunciara, tentei desempenhar as funções pensando, simultaneamente, como leitor e como jornalista, afinal como deve fazer quem escreve nos jornais, a pensar nos seus naturais destinatários.

Por iniciativa própria ou por intervenção dos leitores (a que sempre dei prioridade), a coluna ocupou-se de uma variedade de temas que não cabe enumerar, desde certos sinais de cedência ‘comercial’ em algumas manchetes e títulos nem sempre suportados pelas respectivas notícias, até à insuficiente vigilância quanto à distinção clara entre informação e opinião, passando pelo crescente abuso do recurso a fontes confidenciais em informações que não o justificam.

Esta última uma questão que, como outras, levou grandes títulos internacionais a alterar os seus códigos de conduta, num ano em que jornais, igualmente prestigiados, alteraram os seus formatos tradicionais. Uns e outros procurando contornar crises de credibilidade e de vendas ou seja, procurando chegar aos leitores.

E, na verdade, é só nesse encontro que o trabalho do jornal ganha justificação, cabendo-lhe não frustrar o natural desejo de participação dos leitores. Muitos e-mails ou cartas que chegaram à caixa do correio do provedor eram recursos de quem pretendia expôr pontos de vista ou reagir a opiniões publicadas. Leitores que queriam fazê-lo no seu jornal que, afinal, faz do debate de ideias uma característica que o distingue no panorama da imprensa diária portuguesa. Incluo esta pretensão naquilo que defini como os direitos dos leitores, a que prometi dedicar especial atenção enquanto provedor. Sem demagogia e sem ignorar dificuldades, defendi a vantagem de reformular o espaço e a forma, destinados à participação dos leitores, enquanto fontes de notícias, opiniões e ângulos de debate, porventura mais próximos do cidadão comum.

Não se devendo esquecer a este propósito que, cada vez mais, os cidadãos dispõem de meios alternativos de comunicação abertos pela ‘internet’ e, dentro dela, pela blogosfera, onde podem aceder a um espaço público sem depender dos meios tradicionais. Com a previsível alteração do relacionamento entre leitores e jornais. Mas a partir daqui é o futuro.

Através dos leitores que me contactaram ao longo de um ano, dos jornalistas que colaboraram com a função que desempenhei, do director José Manuel Fernandes e de toda a direcção que sempre cooperaram com o provedor e integralmente respeitaram a sua independência, agradeço ao Público.’

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