Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Joaquim Vieira

14/10/2008 na edição 507

‘Uma notícia ‘órfã’ sobre a demissão de um dirigente do PCP (que afinal não é passado mas eventual futuro) volta a suscitar o problema das fontes

Anunciou o PÚBLICO em 1ª pág. no dia 3, com notícia desenvolvida na pág. 10: ‘Agostinho Lopes deixa comissão política do PCP’ (no interior, o tempo verbal no título, a quatro colunas, era ‘deixou’). O texto, assinado por São José Almeida, era uma daquelas notícias ‘órfãs’ referidas pelo provedor na crónica anterior. Dizia apenas que ‘Agostinho Lopes abandonou, a seu pedido, a comissão política do PCP, que integrava desde o XII Congresso, no Porto, em 1988’, sem invocar qualquer fonte (nem sequer o habitual bordão ‘o PÚBLICO sabe…’, que os jornalistas tanto apreciam) ou mencionar um esforço para ouvir o visado.

O PCP emitiu logo um comunicado procurando desmentir o jornal, com o título ‘A propósito das falsidades e especulações do PÚBLICO sobre Agostinho Lopes’. No dia seguinte, o jornal ignorou o desmentido mas publicou palavras de Jerónimo de Sousa com idêntico sentido (embora em tom menos categórico), atribuindo à notícia ‘carácter especulativo e pouco rigoroso’.

O leitor Tiago Redondo, intitulando-se militante comunista, escreveu ao provedor considerando ‘lamentável’ a notícia, ‘que afinal se revelou ser integralmente falsa’: ‘Trata-se uma questão de enorme gravidade, não só porque envolve uma pessoa em concreto e as suas posições, (…) mas também porque a publicação destes artigos num tempo de discussão pré-congressual do PCP tem consequências objectivas’.

Não tendo visto mencionado pelo jornal o comunicado do partido, Tiago Redondo voltaria à carga: ‘A jornalista sentiu alguma necessidade de se justificar, ao escrever, numa caixa da pág. 8 [do dia 4]: ‘Refira-se que essas substituições e mudanças já estão em preparação, daí estar já consagrada a saída de Agostinho Lopes’. Porventura pretendendo dizer que a notícia do dia 3 afinal não era sobre algo que tinha acontecido, era sobre algo que virá a acontecer. Por outro lado, dizendo-nos também que, afinal, não fora o próprio que se demitira, mas que fora afastado. Em qualquer caso, a assumpção de inexactidão da notícia do dia 3 é clara. Duvido que, dúbio que seja, o conceito de ‘jornalismo interpretativo’, possa abrir portas à objectiva falsidade. (…) Teria havido vantagem em explicar aos leitores a fonte das suas informações. Nunca identificando-a pessoalmente, claro (a protecção das fontes é um princípio essencial que deve ser salvaguardado), mas pelo menos situando-nos em relação à sua origem: ‘fonte junto da Comissão Política’, ‘fonte interna do PCP’, ‘fonte do Movimento da Renovação Comunista, afastado da vida partidária há vários anos’, ou mesmo assumir: ‘especulação pessoal da jornalista’’.

Também António Rodrigues, do gabinete de imprensa do PCP escreveu ao provedor porque o jornal ‘ignorou absolutamente o esclarecimento do PCP e não mostrou qualquer interesse em confirmar a notícia junto do próprio (…), refugiando-se, de forma pouco séria, em quatro palavras alegadamente proferidas pelo secretário-geral do PCP, que terão sido extraídas de um desmentido que este fez na Assembleia da República’. António Rodrigues considera que se trata ‘de uma grosseira e descarada manipulação da realidade’.

Apreciados os factos, o provedor formou a convicção de que a notícia possui fundamento, embora errada na escala temporal: ou seja, Agostinho Lopes não deixou a Comissão Política, mas não deverá ser reconduzido no próximo Congresso (marcado para daqui a mês e meio). O problema é que as notícias não se fazem com base em convicções, mas sim ou na observação directa do jornalista ou na consulta de fontes credíveis que ele deve esforçar-se por identificar da forma mais aproximada possível (é uma reclamação legítima do público, conforme faz Tiago Redondo).

Por isso o provedor perguntou a São José Almeida se não acharia curial, por um lado, invocar pelo menos uma fonte de informação e, como é também de norma, confirmar a notícia junto do próprio Agostinho Lopes. Resposta da jornalista: ‘A existência de fonte anónima está implícita. Se o jornalista escreve é porque teve fonte, não sonhou nem inventou. Essa é a regra. Penso, aliás, que é relativamente ridículo usar formulações como ‘soube o PÚBLICO junto de fonte…’ Quanto a citar Agostinho Lopes, é certo que o podia ter feito; no entanto, considerei primordial ouvir a direcção do PCP [na notícia original só é ouvido António Rodrigues, que se limita a dizer: ‘Não há comentários a fazer’]’.

Já antes a jornalista havia explicado ao provedor: ‘Fiz a notícia com a segurança e a confiança nas fontes contactadas. (…) Sublinho que respeitei todas a regras (…). Quanto ao desmentido, creio que a direcção do PÚBLICO e os editores da secção optaram por referir as palavras de Jerónimo de Sousa (…), o que, na minha opinião, é não só legitimo como recomendável: afinal, é o líder do partido e a cara do PCP’. São José Almeida particulariza ainda que ‘não havia razão para duplicar o secretário-geral e o comunicado, e seria absurdo ignorar que o secretário-geral do PCP tinha falado sobre o assunto’.

Falar de um não implicaria ignorar o outro: parece de resto ao provedor que o PÚBLICO deveria ter por princípio publicar todas as reacções oficiais a notícias suas, mesmo que em simultâneo as tente rebater, se for caso disso. De alguma forma, o director do PÚBLICO reconhece-o aliás, ao ser questionado pelo provedor sobre a mesma matéria: ‘O texto do segundo dia, apesar de citar correctamente Jerónimo de Sousa, que desmentiu a informação nos mesmos termos que a nota do PCP, devia ter-se referido à existência desta (…). É uma falha que a direcção admite’.

A jornalista não responde directamente à interpelação de Tiago Redondo quanto a dar-se como passado algo que, afinal, é prospectivo, mas frisa ‘que o jornalismo político é também antecipação e análise’. José Manuel Fernandes, admite porém ‘um erro no título (…), pois pode levar a concluir que já ocorreu algo que só sucederá no próximo Congresso do PCP’.

Quanto à questão de fundo, justifica o director: ‘A experiência da direcção com a jornalista autora da notícia é que esta, quando toca a notícias sobre o PCP, tem fontes à prova de bala. Há muitos anos. Confiamos na informação e estamos convictos de que, no próximo Congresso, a eleição dos órgãos dirigentes nos dará razão. Neste caso, que eu saiba, a direcção não utilizou a possibilidade criada pelo Livro de Estilo de perguntar à jornalista que fontes tinha consultado, designadamente se tinha contactado o próprio ou militantes muito próximos. A notícia surgiu tarde e, face às (boas) experiências anteriores, não sentimos que isso fosse necessário’.

Ficamos assim informados de que existem no PÚBLICO dois tipos de jornalistas: os infalíveis, que estão dispensados de mencionar a origem das informações que publicam, e os outros, sujeitos à terrena condição de que errar é humano, e que portanto se presume deverem invocar as fontes em que sustentam o seu trabalho. Tendo estudado jornalismo in illo tempore, o provedor não aprendeu esta divisão, nem lhe consta que tenha sido entretanto introduzida nos manuais. Mas acha que ao longo da História os homens considerados infalíveis nem sempre produziram bons resultados. Não será o mesmo no jornalismo?’

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