Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Joaquim Vieira

11/11/2008 na edição 511

‘Repesca-se aqui um dos casos que ficaram para trás, a propósito de uma notícia sobre um documentário que punha em causa as explicações mais consensuais para o actual aquecimento global:

Leio no PÚBLICO de hoje, 22 de Julho de 2008, na pág. 13, numa peça intitulada «Crítica a Gore condenada no Reino Unido», assinada por Joana Azevedo Viana, o seguinte:

‘Mas, cientificamente, esta corrente está desacreditada. Tem-se provado que muitos do que a defendem são financiados por grandes empresas petrolíferas’.

A corrente que a jornalista considera desacreditada é, segundo ela, que ‘[O autor do documentário, Martin] Durkin, (…) defende que os efeitos do aquecimento global não são mais do que movimentos de equilíbrio que se repetem de milhares em milhares de anos’.

Esquecendo a confusão do texto demonstrativa da pouca segurança com que a jornalista escreve sobre um tema de real importância, saliento aquilo que pode ser considerado uma difamação: ‘são financiados por grandes empresas petrolíferas’, além da frase ‘cientificamente, esta corrente está desacreditada’.

A este propósito escrevi, recentemente, o seguinte texto que se pode ler na íntegra no link http://mitos-climaticos.blogspot.com/2008/07/explicaes-oficiais-confusas.html: ‘Para concluir, a citação abaixo destina-se àqueles – alguns intitulando-se cientistas ou investigadores – que se referem ao som das caixas registadoras a tilintar com a entrada de dinheiro pago pelas petrolíferas e que estão a esquecer-se muito convenientemente do dinheiro que, à custa dos contribuintes, recebem de políticos ignorantes. Global Warming defenders always follow three methods: a) Never discuss scientific facts, every time these are not in their favour; b) Ignore or marginalize opposition; c) If that does not work attack opponents in persona and try to smear them with everything you´ve got – ad hominem attacks.’

Ou seja, os defensores de uma tese, essa sim, refutável difamam os oponentes com o objectivo de condicionar o cérebro do cidadão comum para que este nem pense que possa haver quem demonstre cientificamente (aqui sim, aplica-se esta palavra!) que eles estão errados.

Deste modo, solicito que indague junto da referida jornalista para obter respostas às seguintes questões:

1) Como é que ela prova que, ‘cientificamente, esta corrente está desacreditada’. Cientificamente? Onde é que ela viu essa prova?

2) Como é que ela demonstra que ‘tem-se provado que muitos do que a defendem são financiados por grandes empresas petrolíferas.’ Tem-se provado? Onde é que ela viu essa prova?

Claro que estes desvios em relação a um jornalismo que se pretende sério são possíveis pela falta de abertura do PÚBLICO ao debate sobre este tema de grande relevância. Se tal não acontecesse, a jornalista provavelmente não escreveria o que escreveu. Ela própria pode ser vítima de uma propaganda sem contraditório.

Aproveito a ocasião para sugerir que o PÚBLICO diga a verdade aos seus leitores escrevendo um artigo apoiado no seguinte texto que indico no link:

http://mitos-climaticos.blogspot.com/2008/07/dramtica-confisso-e-em-portugal.html

Rui G. Moura

Resposta da editora Clara Viana, da secção Mundo:

Fui eu que editei a notícia da Joana Azevedo Viana e inseri algumas informações que a tornam mais afirmativa. Infelizmente, era uma notícia pequena, e o tema exigiria talvez mais espaço para se poder explicar o que estava em causa. Assim, não foi possível citar todas as fontes que seria desejável citar, para esclarecer o mais possível os leitores, como seria desejável. No entanto, essas fontes estão amplamente disponíveis, e o PÚBLICO tem noticiado muitos estudos e tendências relevantes ao longo dos anos.

Mando em attachment alguns documentos [não inseridos aqui] que não poderiam ser publicados na íntegra, nem amplamente citados nesta resposta, que pretende apenas ser um apanhado tão incisivo quanto possível do que está em causa. Remeto também para a edição actual da Columbia Jouralism Review (http://www.cjr.org/the_observatory/quashing_climate_dissent.php ), onde se pode encontrar um artigo, um editorial e um comentário desencadeado por um articulista de outra revista, a Slate, precisamente sobre os problemas e desafios de escrever sobre o clima, e que espaço dar aos dissidentes do consenso científico em torno do aquecimento global e das alterações climáticas.

O responsável pela secção de documentários do Channel 4 britânico, Hamish Mykura, é citado pelo jornal The Guardian de 21 de Junho dizendo que o documentário de Martin Durkin foi encomendado ‘para apresentar o ponto de vista da pequena minoria de cientistas que não acredita que o aquecimento global é causado pela produção de dióxido de carbono de origem antropogénica’ [produzido pelo homem]. O organismo regulador do audiovisual britânico concluiu que no documentário o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), um grupo de milhares de cientistas que trabalham sob a égide da ONU para avaliar o que está a acontecer em termos de aquecimento global e do seu impacto no planeta, ‘foi tratado de uma forma injusta’, bem como o antigo conselheiro para a ciência do Reino Unido, David King, e outro cientista, Carl Wunsch. ‘O programa fez algumas alegações significativas sem oferecer hipóteses apropriadas e oportunas de resposta’, diz o organismo regulador, concluindo que o Channel 4, com a exibição do documentário ‘The Great Global Warming Swindle’, quebrou as regras de imparcialidade em temas ‘de grande importância política e industrial num tema importante que está em discussão em termos de políticas públicas’.

Portanto, o parecer do organismo regulador britânico que é o objecto da notícia e as declarações de responsáveis do Channel 4 reconhecem que o documentário representava uma visão minoritária na comunidade científica. O consenso científico é obtido através da discussão dos melhores especialistas nas várias ciências implicadas no aquecimento global e nas alterações climáticas – nomeadamente, sob a égide do IPCC.

Remeto o leitor para os últimos relatórios do IPC. Foram divulgados em 2007 e estão disponíveis no site www.ippc.ch para download. Recordo também que o IPCC foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz de 2007, como reconhecimento da importância do seu trabalho, juntamente com Al Gore, pelo seu trabalho de divulgação e alerta para as alterações climáticas.

O trabalho do IPCC tem sido amplamente divulgado nos meios de comunicação social de todo o mundo, e igualmente no PÚBLICO.

Por outro lado, e isto entronca também com a segunda questão colocada pelo leitor, há bastante investigação e documentação sobre as tácticas usadas pelos cépticos do clima para tentarem desacreditar a ciência (envio documentação em anexo que fala disto [também não inserida aqui]), sobretudo nos Estados Unidos. Assemelham-se aos meios usados por outras correntes de negação da investigação científica, como os criacionistas, que não aceitam a teoria da evolução através da selecção natural, ou até as tácticas usadas pela indústria tabaqueira para, durante anos, negar os efeitos funestos do tabaco sobre a saúde. Por exemplo, um dos lemas dos criacionistas nos EUA é ‘ensine-se a polémica’ nas escolas, quando não há qualquer polémica nem qualquer dúvida entre os biólogos de que a teoria da evolução é a melhor explicação para o que se vê na natureza. Digo a ‘melhor explicação’ e não a explicação definitiva, porque a ciência é assim mesmo: não tem explicações definitivas ou dogmáticas, o consenso científico vai evoluindo, em torno das hipóteses e explicações que melhor descrevem a realidade.

Concretamente quanto à acusação de que muitos dos que defendem o cepticismo sobre o clima são financiados por grandes empresas, remeto o leitor para o relatório da Union of Concerned Scientists sobre o tema, e também para as investigações levadas a cabo nos EUA sobre a interferência na redacção de relatórios sobre temas ambientais (nomeadamente as alterações climáticas) feitas por elementos da administração Bush ligados à indústria petrolífera. Em causa estão, por exemplo, relatórios da Agência de Protecção Ambiental (EPA na sigla em inglês) e dos Centros de Controlo e Prevenção das Doenças (CDC). Estes casos tiveram ampla cobertura nos melhores jornais norte-americanos, como The New York Times e The Washington Post, por exemplo, ou até nas secções de notícias das mais prestigiadas revistas científicas, como a Nature e a Science.

Clara Barata

NOTA DO PROVEDOR. Podendo haver fundamento no que afirma a editora do PÚBLICO, a notícia em causa, na passagem que deu origem à reclamação (‘Mas, cientificamente, esta corrente está desacreditada. Tem-se provado que muitos do que a defendem são financiados por grandes empresas petrolíferas.’), não cumpre uma das disposições do Livro de Estilo do jornal: a menção das respectivas fontes. Dado, para mais, que se trata de matéria polémica (e que pelo menos a primeira frase é de natureza opinativa, o que segundo o Livro de Estilo implica identificação da fonte), a qual não foi obtida sob garantia de confidencialidade, seria forçoso que a notícia informasse qual a sua origem.’

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