Sábado, 21 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Joaquim Vieira

07/07/2009 na edição 545

‘A manchete que desencadeou o caso hoje em análise deixou o provedor algo perplexo. ‘Parem. E estudem’, dizia o título principal do PÚBLICO de sábado 20 de Junho, sobre o recente manifesto de 28 economistas questionando os grandes projectos de obras públicas planeados pelo governo.

Havia várias razões para a perplexidade: o sabor a requentado da notícia, difundida na véspera pelas rádios, as televisões e a internet; o tom imperioso da manchete, como se representasse uma adesão implícita do jornal à mensagem do documento; a maquete, com a retrato de 26 dos subscritores (e os dois ausentes substituídos por uma silhueta negra), esteticamente muito inferior à habitual linha gráfica do PÚBLICO; a «descodificação», em toda a terceira página, de partes substanciais da declaração, à maneira de uma pitonisa do oráculo de Delfos; a ausência de opiniões contrárias, que os jornalistas não cuidaram de recolher; e a publicação integral do próprio manifesto na quinta página como publicidade paga (apenas uma coincidência – acredita o provedor –, mas que não deixava de causar desconforto a quem lesse o jornal).

Toda esta enorme redundância, para além do seu tom inegavelmente promocional (um ‘frete’, como se diz na gíria jornalística), soou ao provedor como jornalismo pífio, muito abaixo dos padrões a que o PÚBLICO habituou os leitores. Mas sabemos bem que a actividade informativa é feita de altos e baixos, e que nem sempre se consegue a manchete bombástica com que os editores da imprensa sonham todos os dias.

As complicações vieram depois. Na semana seguinte, 51 economistas e académicos de orientação oposta difundiram outro manifesto de clara réplica ao primeiro onde, pelo contrário, defendiam as virtudes do investimento público no combate à crise. O PÚBLICO impresso não deu dele notícia quando seria lógico fazê-lo, em 27 de Junho (outro sábado), mas nesse dia saía um editorial assinado pelo director, José Manuel Fernandes, desancando o novo documento que os leitores desconheciam e, por comparação, enaltecendo a proposta de debate apresentada pelo primeiro.

Mais estranho ainda, a notícia – sintética – do segundo manifesto aparecia apenas na pág. 19 da edição seguinte, de forma algo envergonhada (se a primeira era requentada, esta eram restos da véspera retirados do congelador). Ou seja, os leitores souberam primeiro dos argumentos de José Manuel Fernandes contra o manifesto e só um dia depois do seu conteúdo.

Um dia mais tarde, Rui Tavares, na sua crónica da última página, polemizava com José Manuel Fernandes pelo seu editorial e com o próprio jornal pela desigualdade na abordagem dos dois manifestos. Mas duas páginas antes, na mesma edição, José Manuel Fernandes replicava já em editorial ao colunista do PÚBLICO. Ou seja, de novo os leitores souberam primeiro dos argumentos de José Manuel Fernandes contra Rui Tavares do que dos que lhes haviam dado origem.

O director desculpará, mas estas atitudes soam ao provedor como as guerras preventivas de George W. Bush: ‘Vamos arrasá-los já, antes que façam qualquer coisa’. Não resultou na ordem internacional. Fará sentido num jornal que advoga a imparcialidade, a objectividade e a pluralidade de pontos de vista?

Evidentemente, não se discute aqui os méritos ou deméritos de cada manifesto – a que se juntou esta quinta-feira um terceiro, também ‘obreirista’, de economistas e empresários, desta vez (por rebate de consciência?) noticiado na pág. 1 do PÚBLICO – com o competente editorial de José Manuel Fernandes, anunciando a abertura pelo jornal na internet de um espaço de debate sobre os três documentos. O provedor reconhece até que, em termos puramente jornalísticos, o primeiro manifesto mereceria maior destaque, pois a iniciativa foi dos autores, limitando-se os outros a uma atitude reactiva. Mas houve um nítido desequilíbrio de tratamento que não se coaduna com a linha editorial do PÚBLICO.

Assim o sentiram muitos leitores, que reagiram em grande número. Há longos meses, aliás, que o provedor não recebia tantas reclamações a propósito de um só caso. Seriam necessárias pelo menos quatro páginas para albergar aqui a totalidade dos protestos e das explicações de José Manuel Fernandes, que entretanto o provedor solicitou. Por isso se remete a documentação integral para o blogue do provedor e se aconselha a sua leitura, já que este debate ajuda a reflectir sobre como o PÚBLICO está a aplicar o seu estatuto editorial.

‘O tratamento desigual dado aos dois manifestos causou-me, confesso, algum transtorno’, escreveu por exemplo Hélio Paulo Lopes. ‘A intromissão opinativa de José Manuel Fernandes em editorial (…) mostra algo que me transtornou: os leitores do PÚBLICO ainda não viram a opinião dessas 51 pessoas no papel de jornal mas já estão a ser inoculadas contra ela’, disse por seu lado Eunice Ferreira. E Luís Filipe Lopes considerou: ‘Foram consagradas páginas da edição impressa (…) a um dos documentos e não ao outro; essas páginas tinham mesmo uma feição exegética, explicativa, das teses defendidas’.

‘A diferença de destaque parece-me tão desproporcionada que não é suficientemente explicada por razões de ordem noticiosa, pressupondo razões editoriais que depois são tornadas claras em editorial’, defendeu Sandro Mendonça, docente universitário de Economia (não subscritor de nenhum manifesto). ‘Ao ‘manifesto dos 28’ são dados ténis para esta corrida, enquanto os outros 51 têm de correr descalços e por sua própria conta’.

‘O director do PÚBLICO ultrapassou neste episódio os limites do aceitável’, acusa José Castro Caldas, um dos subscritores do segundo manifesto. Outro deles, Pedro Adão e Silva, afirma: ‘O que me parece questionável é o facto de o manifesto ter relevância para ser objecto de um editorial mas não para ser tratado como notícia. Esta assimetria teve consequências: negou, por um lado, o acesso a uma notícia factual sobre o conteúdo do manifesto e, por outro, impossibilitou que os leitores tomassem conhecimento com o assunto de que tratava o editorial’.

‘O director sentir-se-á confortável em comentar dois textos que tiveram tratamento tão desigual no seu jornal?’, pergunta João Miguel Geirinhas Rocha. ‘Ou ele espera que os leitores comprem dois jornais para terem acesso a todas as notícias? Ou terá José Manuel Fernandes a ideia de que os seus leitores já dispensam as notícias e se contentam com os seus comentários sobre as mesmas? Estaremos condenados a ver o jornalismo substituido por um catecismo?’ E João Sousa André explica a sua insatisfação: ‘Não discuto a opinião de José Manuel Fernandes, que a deve ter e a deve transmitir, mas considero a sua forma de abordar o debate, pela via pessoal e da desvalorização pessoal, como indigna de um director de um jornal como o PÚBLICO, (…) [a quem se ] exige respeito e educação. José Manuel Fernandes não demonstrou nenhuma destas qualidades’.

José Manuel Fernandes justifica o maior destaque dado ao manifesto dos 28: ‘Era assinado por menos pessoas mas por economistas muito mais conhecidos do que os académicos que assinam o segundo (…). A força dos nomes e o facto de ser o primeiro levar-nos-iam sempre a dar-lhe mais destaque. Mas essa questão nem se colocou, apesar de a repercussão pública dos dois manifestos ter sido radicalmente diferente: um suscitou inúmeras reacções políticas, o outro (…) passou quase despercebido’.

O director explica que houve combinações prévias com os autores dos dois manifestos e que ‘os representantes do [segundo] actuaram de forma, no mínimo, mais confusa’, além de ter ocorrido um imprevisto: ‘O valor-notícia do manifesto ficou prejudicado entretanto, pois chegou às mãos do i, que lhe deu grande destaque. A novidade perdera-se, nunca seria possível dar-lhe o mesmo tratamento que se dá a um exclusivo’.

‘Apesar de as regras terem sido quebradas, decidimos manter a combinação original’, continua José Manuel Fernandes, e aqui ter-se-á dado um imponderável: ‘[Um membro da direcção] fez seguir o texto para a secção de Economia, onde deveria ser tratado, mas não acompanhou mais o caso (…). Na secção de Economia (…) não foi entendida a urgência da publicação, pelo que deixaram o tema para a edição de domingo. Foi uma avaliação errada, porventura derivada de algum equívoco na transmissão da mensagem. Para além disso, os editores (…) não sentiram a urgência jornalística. Sexta à noite, depois de escrever o editorial e já bastante tarde, pedi para me indicarem em que página saía o texto e qual era o link na internet. Para minha surpresa, não tinha sido paginado nenhum texto nem o manifesto tinha sido colocado online. (…) No editorial mantive a chamada de atenção para a publicação integral na internet e tratei eu próprio de (…) colocar o texto online. Está lá desde as 00h09 de sábado. (…) No domingo fez-se uma notícia e remeteu-se de novo para o nosso site (onde, esclareça-se, o outro manifesto nunca foi reproduzido na íntegra)’.

O provedor interroga-se sobre se a falha relatada por José Manuel Fernandes não terá sido potenciada por falta de ‘vontade política’, isto é, aconteceu com o manifesto dos 51 mas nunca aconteceria com o dos 28. E isso diz do grau de empenho do jornal numa notícia e na outra, ou seja, da opinião que, sem o declarar, o PÚBLICO expressa sobre os manifestos.

Quanto à resposta antecipada de José Manuel Fernandes a Rui Tavares, explana o director: ‘Não por acaso, abri o ponto 2 desse editorial assim: ‘Tenho por regra não responder a colunistas no dia em que estes escrevem, e procuro mesmo nunca lhes responder’. Ou seja, ao responder ia abrir uma excepção. Porquê? Porque soube por acaso do conteúdo do texto de Rui Tavares (ele não me telefonou, como é regra os colunistas fazerem, e eu não estava a fechar o jornal) (…). Daí ter entendido responder logo, sob pena de aceitar uma discussão que laborava num equívoco: a de que tinha havido uma intenção censória do jornal’. E com uma nota suplementar: ‘Os nossos estudos indicam que a maioria dos leitores dos textos de opinião começa a lê-los pela última página (…). Não me parece provável que se possa demonstrar que (…) a maioria dos leitores leu o editorial antes da crónica de Rui Tavares’ (basta que alguns leitores o façam – como aliás o provedor – para esta explicação não ser aceitável).

O jornal reconhece a existência de erros neste processo e tem procurado emendar a mão, dando agora o mesmo relevo aos três manifestos no seu site (que José Manuel Fernandes defende ser tendencialmente mais lido do que a edição em papel – embora todos saibamos que o jornal impresso ainda é o espaço de referência por excelência). O problema é que não existe segunda oportunidade para se causar uma boa primeira impressão.’

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