Sábado, 23 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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VOZ DOS OUVIDORES >

Joaquim Vieira

03/02/2009

‘Um dos casos políticos da semana, que fez José Sócrates suar as estopinhas no parlamento, ocorreu na segunda-feira com a apresentação de um relatório sobre as mais recentes reformas do sistema de ensino em Portugal, que a propaganda governamental apresentou como sendo elaborado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), mas que não passou de uma avaliação particular encomendada pelo Ministério da Educação.

O que não obviou a que, no próprio dia, o PUBLICO.PT noticiasse, com base num despacho da agência Lusa, o ‘encerramento da cerimónia de apresentação do relatório da OCDE sobre política educativa para o primeiro ciclo’. Na edição seguinte em papel, o PÚBLICO já se precavia, falando apenas em ‘estudo internacional (…) a partir de um relatório nacional, preparado pela tutela’, mas sem antecipar o embaraço político resultante da exploração da ambiguidade pelo executivo.

Ainda reclamou, sem razão, o leitor Sérgio Brito pela escassez da ‘referência à avaliação do 1º ciclo feita pela OCDE’, classificando como ‘jornalismo de sarjeta’ a remissão da notícia para o interior do jornal. Em sentido contrário, escreveria mais tarde outro leitor, Luís Carlos: ‘Uma vez que o primeiro-ministro deixou claro na Assembleia da República que nunca referiu que o relatório era da OCDE, questiono a redacção e a veracidade desse elemento presente na notícia’. Mas na altura já a questão não se colocava.

Este é apenas um dos muitos exemplos onde se reflecte a delicadeza presente na escolha das palavras ou expressões mais adequadas para descrever certas ocorrências. No caso vertente, seria obrigação profissional dos jornalistas não tomarem por boa a atribuição, pelos assessores governamentais, da autoria do relatório à OCDE (nem a sugestão que Sócrates, na referida cerimónia, fez no mesmo sentido), ou, não o podendo confirmar, resguardarem-se citando a fonte que fazia tal imputação.

Desde a invenção da linguagem que a escolha das palavras na comunicação entre seres humanos não é inocente. A História regista mesmo conflitos e cismas com origem no uso das palavras e no que se entende como sua correcta interpretação. Ao jornalismo independente cabe a criteriosa escolha dos termos que melhor correspondem a cada situação e melhor defendem a isenção do jornalista e do seu órgão de informação. Apesar da multiplicidade de sinónimos, afinidades e aproximações lexicais que enriquece qualquer vocabulário, o rigor de muitos relatos impõe numerosas vezes a opção pela palavra certa (‘le mot juste’, na consagrada expressão francesa), e não outra de significado idêntico mas desajustada à circunstância.

Muitas das reclamações que o provedor recebe dos leitores do PÚBLICO têm a ver com a utilização alegadamente errada que os jornalistas fazem de certas palavras – e cabe falar do assunto, já que, não poucas vezes, essas objecções são pertinentes.

Um dos primeiros protestos nesse sentido recebidos pelo actual provedor foi de um leitor anónimo que chamou a atenção para a passagem de uma notícia de 17 de Abril do ano passado onde se escrevia que ‘o irmão de Avelino Ferreira Torres, Joaquim, morreu a 21 de Agosto de 1979, supostamente assassinado em Paredes’. E inquiria: ‘‘Supostamente’ porquê? Há dúvidas que mais alguém desconheça sobre o seu assassínio em 1979? O conhecimento ou ignorância do jornalista determinam o grau de veracidade e certeza sobre um facto?’ Ao contrário da atribuição à OCDE do relatório sobre o ensino básico, é público, de facto, o que sucedeu ao homem cujo corpo foi descoberto crivado de balas nesse fatídico dia de há quase 30 anos, pelo que se torna descabido mencionar a presunção de um homicídio mais do que comprovado.

Outras vezes a escolha das palavras relaciona-se com princípios de equilíbrio e não discriminação, plasmados por exemplo no 8º dos Princípios Gerais do Livro de Estilo deste jornal: ‘O jornalista do PÚBLICO recusa todos os preconceitos e estereótipos de linguagem que firam a sensibilidade comum em assuntos que envolvam idade, etnia, origem nacional, religião, opção ideológica, orientação sexual ou sexo’. Titulava o P2 na pág. 20 da sua edição de 20 de Dezembro: ‘Alguma vez enganou o seu marido?’ Para depois indicar na entrada: ‘Ao longo de 15 anos, de 1991 a 2009, esta pergunta foi colocada a milhares de norte-americanos de ambos os sexos’. Obviamente, o título certo deveria ser: ‘Alguma vez enganou o seu cônjuge?’. Mas a escolha denota sexismo, como se ‘enganar’ fosse um exclusivo feminino, de que os homens estivessem isentos.

Algumas palavras denunciam também a macrocefalia de quem produz um jornal que porém se reclama de expansão nacional. Escreve-se por exemplo, na pág. 7 do P2 de 18 de Janeiro: ‘Viveu na Figueira da Foz e mais tarde veio estudar para Lisboa’. Mas o mais adequado seria: ‘Viveu na Figueira da Foz e mais tarde foi estudar para Lisboa’.

Para os leitores habitando fora da capital, não será fácil, com efeito, aceitar a forma como às vezes se solta a linguagem de um jornal com redacção em Lisboa. ‘Poderá nevar em todo o litoral incluindo Lisboa’, titulava o PUBLICO.PT em 9 de Janeiro, e Augusto Küttner de Magalhães, do Porto, questionou com justeza a razão para se ter destacado esta cidade numa faixa de terra que vai de Caminha a Vila Real de Santo António: ‘Lisboa (…) é uma região que por qualquer motivo merece mais relevo?’

O mesmo leitor havia também reclamado em 1 de Novembro pela notícia ‘Administração da Linha Saúde 24 suspende sem nota de culpa enfermeira subscritora da carta à ministra Ana Jorge’ (pág. 6), que na secção ‘Sobe e desce’ dessa edição levou à colocação da titular da Saúde, Ana Jorge, com uma seta para baixo: ‘Não é nenhum escândalo suspender sem nota de culpa (…), e não é isso que pode ser noticia! A suspensão sem perda de retribuição de um trabalhador, a ser alvo de um processo disciplinar, não implica de imediato a entrega da nota de culpa; esta será entregue posteriormente! Este procedimento existe há anos, (…) e é prática comum – quando se torna a relação de trabalho insustentável! O titulo faz crer quem o lê que foi cometida uma ilegalidade! Não é o caso, e para cúmulo, na ultima página, é feita um seta descendente, voltando-se a referir a mesma forma de possível má actuação!’

Reclamação de idêntico teor fez o leitor apenas identificado por Nuno a respeito de uma notícia sobre o encerramento da livraria Byblos em Lisboa, surgida no PUBLICO.PT de 20 desse mês, e onde se dizia que ‘os colaboradores da Byblos não tinham sido informados pela administração sobre o futuro da empresa’: ‘De quem raio é que falam quando se referem aos colaboradores? (…) Não entendo esta novilíngua, que mistura conceitos de forma acrítica e ideológica. Um ‘colaborador’ é uma coisa muito diferente de um trabalhador, que tem de cumprir ordens e um horário, de obedecer a uma hierarquia. Um colaborador é um fulano que dá uma mãozinha, e é por ser um tipo catita. Um bocadinho de rigor não lhes fazia mal nenhum. Talvez até descubram um instrumento legal chamado Código do Trabalho e não Código da Colaboração’.

Outro leitor anónimo objectou ao conteúdo da notícia ‘Colecção de obras de arte de Jorge Amado vai ser leiloada para salvar fundação’ (também com origem na Lusa), colocada no PUBLICO.PT a 15 de Novembro, na parte em que se dizia que ‘a fundação é um centro cultural e detém todo o acervo do escritor’: ‘É lastimável que um jornalista (…) confunda ‘acervo’ com ‘espólio’. O site Ciberdúvidas da Língua Portuguesa esclarece: ‘Pode dizer acervo bibliográfico para designar um conjunto de livros e documentação. Não confundir com espólio (os bens, literários ou não, que ficam de quem morre)’. Esta minha nota constitui uma chamada de atenção (…) acerca de um uso negligente da língua portuguesa (…) [n]os media, sector que detém uma significativa quota-parte de responsabilidade na manutenção e aprimoramento do nosso idioma’.

Recomendação do provedor. O vocabulário usado em matéria jornalística merece cuidada ponderação antes de passar a letra de forma. Cada palavra tem um significado próprio, e da sua escolha podem depender o rigor e a isenção de uma notícia ou de uma reportagem.

Caixa

De ‘padras’ a ‘bispas’

Numa discussão sobre terminologia, não podia faltar a linguagem religiosa, criticada pelo leitor Augusto Dias, primeiro já em 6 de Julho último: ‘O vice-mayor de Londres, Ray Lewis, foi tema da notícia ‘Vice do mayor de Londres forçado a demitir-se’ (secção Mundo). Desde logo, o título (…) merece reparo: ninguém é vice de ninguém; é-se adjunto, número dois ou substituto; ou, no caso, vice-mayor. Não seria correcto, por exemplo, dizer que Afonso de Albuquerque foi ‘vice do Rei de Portugal’. Mas é no texto que se encontra o erro mais grave e que pode mesmo prejudicar a análise do facto: é quando o referido senhor é classificado como ‘padre’. Ora, o vice-mayor de Londres é, evidentemente, um pastor protestante, como, desde logo, sugere a própria notícia, ao informar que ele é ‘vigário numa paróquia de West Ham’. Trata-se de uma falta cultural relativamente comum – o que não lhe retira gravidade – e que interessaria corrigir. ‘Padre’ é uma designação exclusivamente usada para os sacerdotes católicos e é, de forma geral, recusada terminantemente pelos ministros das religiões protestantes’.

E o mesmo leitor voltou à carga três dias depois: ‘No artigo intitulado ‘Igreja de Inglaterra aprovou a ordenação de mulheres bispo’, diz-se: ‘Desde 1994 que as mulheres podem ser ordenadas padres’. Agora não é só o caso de uma incorrecta tradução, a qual devia ser ‘sacerdote’, ‘pastor’ ou ‘clérigo’, mas o chocante de chamar ‘pai’ a uma mulher; quando muito, a sacerdotisa deveria ser chamada ‘madre’… Mas ainda mais extraordinária é a ‘invenção’ das ‘bispas’! Seguindo o mesmo critério, mulheres padres deveriam chamar-se… ‘padras’. ‘Bispo’, como é sabido, [vem] do latim ‘episcopus’; tenho grandes dúvidas sobre o latim ‘episcopa’, mas, ainda que existisse, ‘bispas’ não, por favor! Assim, entre ‘bispas’ e mulheres-’padre’, vai a terminologia religiosa do PÚBLICO!’’

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