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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

Joaquim Vieira

27/05/2008 na edição 487

‘Isenção e da equidistância implicam que o jornalista deve esforçar-se por atingir a objectividade, desígnio porém muito difícil de cumprir

Em complemento a uma notícia sobre a aquisição pelo Grupo Leya das editoras da Explorer Investments (pág. 41 da edição de 14 deste mês), a jornalista Ana Rita Faria escreveu um texto sob o título ‘Cada vez mais livros nas mãos de poucos’, acerca do processo de concentração em curso no sector editorial português, que suscitou do leitor Gabriel Silva o seguinte comentário:

‘Tal peça padece, a meu ver, de algumas infelicidades, pois está pejada de considerandos e opinião da jornalista. Vejam-se os seguintes exemplos:

‘Poucas foram as empresas que conseguiram escapar aos tentáculos de grandes grupos’. ‘Tentáculos’ porquê? Em termos económicos, se uma empresa se torna atractiva para outra, tal será positivo, julgo eu.

‘O primeiro sinal de alarme deu-se com a investida da Explorer Investments’. ‘Sinal de alarme’? A propósito de quê? Só pequeninas e pobretas é que as empresas são boas? Sinal de alarme seria uma empresa ter prejuízo, correr o risco de falência e não propriamente tornar-se atractiva para ser adquirida, sinal de reconhecimento do seu desempenho e mais-valia.

‘Resta agora saber quem serão as próximas vítimas’. ‘Vítimas’? Mas alguém lhes fez mal? Alguém as adquiriu contra vontade?

Parece que a jornalista terá preferência por determinado modelo económico, nada a opor, mas descrever os factos enquadrando-os nesse modelo, de forma crítica, parece-me provavelmente abusivo, e limitador das interpretações que os leitores poderiam eventualmente fazer’.

Este tema é um dos mais sensíveis quanto ao estilo de jornalismo do PÚBLICO – aliás, do jornalismo em geral. Dizem os manuais que, num órgão de informação adepto da isenção e da equidistância (conceitos ausentes do Estatuto Editorial do PÚBLICO mas decorrentes do seu Livro de Estilo, ao vincular os jornalistas a ‘elaborar as notícias da forma o mais imparcial possível, independentemente das suas convicções pessoais’ – ponto 2 dos ‘Princípios e normas de conduta profissional’), a objectividade é de rigor (ponto 7 do mesmo articulado). Mas na prática esse é um dos desígnios mais difíceis de cumprir em jornalismo.

O próprio director do PÚBLICO o reconhece, ao ser solicitado pelo provedor para se pronunciar sobre este caso: ‘As normas do Livro de Estilo resultam da doutrina de acordo com a qual um jornalista deve ser o mais imparcial possível, mesmo sabendo-se que, como ser humano, por definição subjectivo, este olhará sempre para a realidade que descreve de acordo com as suas referências e preocupações. Ou seja, mesmo fazendo um esforço para se abstrair dos seus preconceitos pessoais ou ideológicos, dificilmente deixará de dar mais importância ao que sente ser mais importante’. Resumindo, conclui José Manuel Fernandes: ‘O jornalista persegue a objectividade sabendo que esta é virtualmente inalcançável devido à sua própria subjectividade, razão pela qual deve realizar um esforço acrescido de imparcialidade’.

Circula nos últimos anos entre os jornalistas uma moda segundo a qual, sendo a objectividade utópica, o esforço para a alcançar redunda num acto hipócrita, pelo que mais transparente será cada um assumir, nas matérias que publica, a sua própria visão do mundo. O PÚBLICO, ao longo da sua história, não se pode considerar imune a esta corrente, tanto mais que admite no seu Livro de Estilo, no ponto 1.a do capítulo ‘Os factos e a opinião’, que, ‘tal como não existe objectividade em estado puro, não existem nos textos jornalísticos fronteiras absolutas entre informação, interpretação e opinião’. Uma interpretação, digamos, subjectiva desta frase abre a porta a um jornalismo opinativo, se bem que mais à frente se estabeleça que ‘a apresentação dos factos não deve ser ‘enviesada’ por forma a sugerir sub-repticiamente uma conclusão resultante da opinião particular do jornalista’ e se declare que ‘uma relação séria e leal com o leitor pressupõe o respeito pela diferença de códigos entre informação e opinião’ (ou seja, o jornalista não deve fazer passar de contrabando juízos subjectivos sob a capa da objectividade).

O facto é que, da leitura do PÚBLICO ao longo da sua existência, se conclui pela adopção de uma grande amplitude estilística que admite a introdução, em muitas peças jornalísticas, dos pontos de vista do autor, como prática normal e aceitável, sem intervenção correctiva por parte dos editores.

Assim que o provedor iniciou funações (no início deste ano), recebeu uma queixa de um leitor (apenas identificado por Nuno) acerca de um trabalho de Rita Siza (RS), correspondente deste jornal em Washington, sobre as primárias norte-americanas, publicado em 3 de Janeiro nas págs. 2/3: ‘Rita Siza classifica as propostas económicas do [então] candidato John Edwards como populistas [‘populismo económico’]. Longe de saber que a referida senhora fazia parte do painel de comentadores do PÚBLICO, gostava que me explicassem o que quer ela dizer com essa afirmação. (…) Desde quando é que o preconceito ideológico ou o diz que disse classificatório deram entrada no Livro de Estilo do jornal? Já agora, que [John] McCain seja um dos políticos mais respeitados parece-me confirmável, daí à conclusão de que é dos mais consistentes já vai um juízo de valor formulado pela jornalista comentadora’.

Ambas as jornalistas apresentam justificação para o tom ou a maioria das expressões utilizados. Explica Ana Rita Faria: ‘O propósito deste artigo era traçar um quadro da crescente concentração que o sector editorial está a atravessar, com cada vez mais editoras nas mãos de poucas e grandes empresas. Nesse sentido, expressões como ‘sinal de alarme’ ou ‘tentáculos’ pretendem transmitir uma imagem dessa realidade de crescente concentração editorial e não veicular qualquer tipo de opinião, crítica ou preferência por determinado modelo económico. (…) Quanto a ‘vítimas’, não foi empregue com o sentido de vitimização de determinados protagonistas, mas sim no sentido de ‘alvos’. Reconheço, contudo, que, para não gerar interpretações dúbias, teria sido melhor optar por outra expressão’.

E alega Rita Siza: ‘É verdade que escrevi diversas vezes que a candidatura de John Edwards insistia numa mensagem de populismo económico, nunca como analista ou comentadora, mas antes reproduzindo aquilo que era veiculado e reconhecido pelos porta-vozes da campanha de Edwards como sendo a sua plataforma política. Nos EUA, o ‘populismo económico’ está estudado e referenciado pelos historiadores e académicos desde os finais do século XIX como o movimento de defesa da lavoura e do operariado contra o patronato – os termos foram entretanto actualizados para a luta da classe média contra os poderes corporativos ou os grupos de interesse. Essa era exactamente a mensagem de Edwards, o candidato presidencial que mais falou sobre a pobreza, a desigualdade económica e a corrupção e cuja campanha assentou (como se comprova em todas as suas intervenções) na luta do ‘povo contra os poderosos’’. Quanto a McCain ser ‘um dos políticos mais consistentes dos EUA, é fácil de confirmar: a sua longa carreira no Senado foi avaliada e classificada com a nota de 82 por cento pela American Conservative Union, que publica um ranking sobre o sentido dos votos dos políticos – McCain vota consistentemente de forma conservadora’.

José Manuel Fernandes encara porém estas situações de forma diferente: ‘É para mim claro que o texto a que se refere Gabriel Silva violou as regras do bom jornalismo e não cumpriu com o recomendado no Livro de Estilo O caso em apreço não remete para nenhum valor fundamental da vida em sociedade [área onde o Livro de Estilo admite que o jornalista ‘não está obrigado à neutralidade’], pelo que se exigiria sempre uma leitura mais distanciada e não adjectivada ou valorativa da compra da Oficina do Livro [uma das editoras da Explorer Investments] pelo Grupo Leya’. Quanto ao outro caso: ‘Podemos considerar um adquirido que Hitler, Estaline ou Salazar governaram de forma ditatorial, se bem que existam enormes diferenças entres estes regimes, mas já é mais discutível que possamos classificar o ex-candidato presidencial John Edwards como um populista ou que classifiquemos, numa notícia ou reportagem, as políticas de José Sócrates como, digamos, neoliberais (algo que julgo nunca ter acontecido, a não ser quando se cita alguém com essa opinião)’. (Recomenda-se a leitura no blogue do provedor da resposta completa de José Manuel Fernandes, que devido à sua extensão não pode ser aqui reproduzida integralmente).

Recomendação do provedor. Não existindo a objectividade em estado bacteriologicamente puro, é desejável que o PÚBLICO a tenha como meta, pelo que se aconselha aos seus jornalistas e editores seguir com mais atenção, rigor e exigência as indicações do Livro de Estilo nessa matéria.

CAIXA:

Revisão, precisa-se

Na sua permanente luta contra a praga da discordância verbal em frases contendo como sujeito o pronome relativo ‘que’ (recordemos ter Camões escrito em Os Lusíadas ‘Era este Catual um dos que estavam corruptos pela Maumetana gente’ e não ‘Era este Catual um dos que estava corrupto pela Maumetana gente’), o provedor regista mais alguns casos recentes retirados da leitura ocasional do PÚBLICO: ‘É daquelas coisas que acontece e contra a qual ninguém pode fazer nada’ (P2, 24 de Maio, pág. 16); ‘Uma das razões que tem levado os supervisores financeiros a olhar à lupa para o grupo’ (20 de Maio, pág. 41); ‘Um dos empresários que se mostrava mais agastado com a situação’ (PUBLICO.PT, 13 de Maio); ‘Uma mulher chora a morte de um neto numa das escolas que colapsou’ (17 de Maio, pág. 17 – legenda de foto); ‘Um dos vários livros que preserva frases dessa época’ (P2, 10 de Maio, pág. 5); ‘É daquelas coisas que mais profundamente afecta o inultrapassável ego de Mourinho’ (2 de Maio, pág. 38); ‘Um dos descompassos que contribuiu para reforçar o sentido do trajecto’ (P2, 24 de Abril, pág. 9); ‘Uma das ideias que caiu’ (P2, 20 de Abril, pág. 7); ‘Na verdade é uma das formações que melhor merece essa classificação’ (P2, 14 de Abril, pág. 9); ‘O escândalo sexual coloca em causa a carreira de um dos homens que transformou a Fórmula 1’ (6 de Abril, pág. 33); ‘José António Camacho não é daqueles treinadores conhecidos por ser um mestre de táctica’ (11 de Fevereiro, pág. 31).

Publicada em 25 de Maio de 2008

DOCUMENTAÇÃO COMPLEMENTAR

Explicações de José Manuel Fernandes:

As normas do Livro de Estilo resultam da doutrina de acordo com a qual um jornalista deve ser o mais imparcial possível mesmo sabendo-se que, como ser humano, por definição subjectivo, este olhará sempre para a realidade que descreve de acordo com as suas referências e preocupações. Ou seja, mesmo fazendo um esforço para se abstrair dos seus preconceitos pessoais ou ideológicos, dificilmente deixará de dar mais importância ao que sente ser mais importante. Isto não significa que tenha um ‘agenda’ ou que deixe conspurcar os seus textos em função das suas prioridades políticas, antes que nunca se consegue abstrair por completo do que é e do que sente. Ao filtrar o que é mais importante num simples press-release qualquer jornalista deve avaliar o que nele é mais relevante para aqueles a quem se dirige, acto que implica um julgamento naturalmente subjectivo.

Colocando os temas de outra forma, o jornalista persegue a objectividade sabendo que esta é virtualmente inalcançável devido à sua própria subjectividade, razão pela qual deve realizar um esforço acrescido de imparcialidade.

Para o leitor perceber melhor, um exemplo concreto: ajuizar se, num jogo de futebol, houve ou não grande penalidade. Sabemos que duas pessoas imparciais, alheias às paixões clubísticas, podem ver e rever a jogada e não estar de acordo porque podem divergir sobre, por exemplo, se houve mão na bola intencional ou bola na mão involuntária. Sendo o caso claro – a bola bateu na mão de um defesa dentro da grande área –, a leitura sobre se essa ocorrência deve ou não dar origem a uma grande penalidade pode diferir conforme a experiência do observador não apaixonado. Basta – imaginemos – que tenha jogado como defesa e protagonizado uma situação semelhante. Contudo, se podemos imparcialmente não chegar a acordo, e isso é legítimo, aquilo que as regras do jornalismo interditam é que sejamos parciais em função da nossa opção clubística.

Feito este brevíssimo enquadramento, é para mim claro que o texto a que se refere o leitor Gabriel Silva violou as regras do bom jornalismo e não cumpriu com o recomendado no Livro de Estilo. O caso em apreço não remete para nenhum valor fundamental da vida em sociedade, pelo que se exigiria sempre uma leitura mais distanciada e não adjectivada ou valorativa da compra da Oficina do Livro pelo Grupo Leya.

É certo que o jornalismo permite diferentes graus de subjectividade, mas estes têm de ser claros para o leitor. O texto de uma notícia deve ser o mais imparcial possível e não deve estar contaminado por qualquer preconceito (como, por exemplo, o de que é melhor existirem pequenas editoras do que grandes grupos editoriais). Uma notícia mais detalhada poderia ouvir opiniões diversas sobre essa ocorrência, exigindo o Livro de Estilo que os juízos qualitativos devem sempre ser atribuídos fontes identificadas (um pequeno editor, por exemplo), não devendo passar ‘de contrabando’ no corpo da notícia. Já num trabalho de análise – ou naquilo a que na imprensa anglo-saxónica se designa por news analysis – o jornalista tem a possibilidade de, mesmo sem escrever um comentário onde exprime as suas opiniões, seleccionar as opiniões que se enquadram melhor na sua própria análise, assim a sustentando.

Infelizmente estas distinções, muito claras na imprensa anglo-saxónica, nem sempre são respeitadas no PÚBLICO, ocorrendo por vezes que a adjectivação numa notícia ultrapassa o limite do que temos por adquirido. De novo, um exemplo: podemos considerar um adquirido que Hitler, Estaline ou Salazar governaram de forma ditatorial, se bem que existem enormes diferenças entres estes regimes, mas já é mais discutível que possamos classificar o ex-candidato presidencial John Edwards como um populista (com já aconteceu numa notícia do PÚBLICO) ou que classifiquemos, numa notícia ou reportagem, as políticas de José Sócrates como, digamos, neoliberais (algo que julgo nunca ter acontecido a não ser quando se cita alguém que tem essa opinião).

A recente remodelação gráfica do jornal procurou encontrar fórmulas que permitam ao leitor distinguir de forma clara o que é uma notícia, uma reportagem, uma análise ou um comentário, mas a verdade é que nem sempre isso é bem concretizado, e há mais textos onde, contra o que estabelece o Livro de Estilo, a adjectivação do jornalista transforma o que devia ser uma notícia seca (eventualmente acompanhada de um comentário claramente separado pelo estilo e pelo grafismo) quase num texto de opinião.

Aí já não há a desculpa da subjectividade – há o erro da leitura parcial, para não dizer facciosa.

JMF’

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