Segunda-feira, 19 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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VOZ DOS OUVIDORES >

Joaquim Vieira

04/08/2009 na edição 549

‘Nos últimos dias houve mosquitos por cordas devido ao texto’Um festival sem festa’, de João Bonifácio, publicado na pág. 8 do P2 de 20 de Julho (e na véspera no PUBLICO.PT). Tratava-se do relato crítico de um concerto do grupo norte-americano The Killers, dito de’rock alternativo’, realizado no Estádio do Restelo, em Lisboa, que é também o campo do clube de futebol Os Belenenses. O provedor recebeu uma revoada de críticas ao artigo, numa rara convergência colectiva de leitores contra um trabalho saído no PÚBLICO. As reclamações dividiam-se em duas categorias: as que discordavam das pouco abonatórias considerações de João Bonifácio sobre o espectáculo e as que se insurgiam contra o paralelismo que o autor fazia entre as actuações da equipa e da banda no local:’O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego. (…) O povo esteve manso. (…) Foi a festa possível e foi escassa como os fins de tarde futebolísticos no Restelo costumam ser’.

João Bonifácio é crítico musical do PÚBLICO. Embora não aparecesse apresentado como tal, este texto consistia na crítica ao espectáculo. Houve portanto um lapso que terá concorrido para alguns equívocos. O erro na correcta identificação do artigo foi já assumido, no editorial de 23 de Julho, por Nuno Pacheco, director adjunto do jornal. Fora essa questão, existe inteira liberdade de crítica no PÚBLICO, pelo que o provedor não se pronuncia (nem para tal possui competência) sobre as conclusões musicais extraídas por João Bonifácio, remetendo para o seu blogue tanto as queixas dos leitores nesse domínio como a resposta que entretanto o crítico entendeu dar-lhes.

Mas, a este respeito, é forçoso chamar a atenção para um pormenor (não tão pequeno como isso): João Bonifácio assume no seu artigo que não é apreciador da banda cuja actuação analisou (‘Por muito que não gostemos dos Killers – e não gostamos nem um pouco –, ao menos têm um espectáculo tão bem ensaiado que, por um instante, quase acreditamos que estamos num festival de Verão’). Alguns leitores salientaram esse aspecto, como um apenas identificado como Francisco:’Trata-se de exercício fastidioso de quem por obrigação profissional teve de ir fazer a cobertura de um evento sem a mínima motivação (…). Qualquer dia arriscamo-nos a ter jornalistas vegetarianos a fazer crítica gastronómica a uma steakhouse… Claramente não pode dar bom resultado…’

Pelo contrário, João Bonifácio assume-se como’honesto’ ao confessar a antipatia pelo grupo:’O leitor fica a saber que, apesar de não ter apreço estético pelo que ouvi, reconheço qualidade ao espectáculo, o que me parece elogio maior que o de quem já está convencido à partida. E escrevo ‘não gostamos’ (no plural) porque o livro de estilo não me permite escrever ‘não gosto’. Estou convencido de que o gosto e a honestidade do crítico são importantes numa crítica’.

Ao provedor, porém, não parece curial que o jornal envie para criticar um espectáculo quem a priori assume a sua aversão aos artistas. Não é crível que um crítico com tal parti pris consiga manter o mesmo tipo de abordagem e distanciamento que terá perante intérpretes que aprecie ou lhe sejam indiferentes. Tal atitude prejudica a igualdade de tratamento que o PÚBLICO deveria dar a todos os intervenientes nos eventos que cobre, como jornal cujo estatuto editorial defende o recurso aos’indispensáveis mecanismos da objectividade’.

Quanto às apreciações de João Bonifácio sobre o clube do Restelo e o seu público, os protestos foram mais violentos.’Os Belenenses não merecem estas palavras vindas de ninguém, muito menos de um jornal como o PÚBLICO’, escreve João Carlos Silva, que, feito sócio do clube há 28 anos, quando era um garoto, rejeita o epíteto’velhinho’. E diz José Manuel Anacleto, após anunciar ter deixado de ler o PÚBLICO por causa desta crítica:’A maneira como (…) se permitiram achincalhar um dos maiores clubes portugueses (…) e as suas largas de dezenas… de milhares de sócios e adeptos – nos quais me incluo –, não me permite olhar para o vosso jornal sem um sentimento de profunda repulsa’. Outro anónimo é ainda mais duro:’Nem mesmo com pedido de desculpas do PÚBLICO voltarei a comprar esse ‘jornal’, que permite ter jornalistas como João Bonifácio’. O sócio Tiago Pinho proclama:’Não pactuamos com desconstrutores da moral e exigimos que João Bonifácio se renda à clara e expressiva grandeza social e histórica da instituição que, infelizmente, ofendeu’. Finalmente, entre outros, um sócio antigo, Álvaro Lopes da Cruz:’Tenho 74 anos e devo ser um dos ‘velhinhos’ a quem de forma tão mal educada esse senhor se dirige. Seria boa ideia que respeitasse os mais idosos e conhecesse a história do grande Belenenses, clube com 90 anos e por onde têm passado milhares e milhares de crianças e jovens’.

Alguns destes protestos, incluindo um da própria direcção do clube, foram também enviados à direcção do jornal, e no editorial já referido Nuno Pacheco admitia que’o Belenenses, pela sua história, actividade e prestígio, merece um público e sincero pedido de desculpas’, reassalvando porém que’a independência da crítica, desde que assinalada como tal, continuará a ser respeitada no PÚBLICO’.

O assunto poderia ser aqui encerrado, mas entretanto João Bonifácio, na resposta à solicitação do provedor para se pronunciar sobre os protestos, reivindica para si toda a razão. Só essa resposta, bastante minuciosa, não caberia nesta página, e por isso a sua integralidade é remetida para o blogue do provedor, salientando-se aqui apenas os tópicos fundamentais:’Comparei o festival com o futebol do Belenenses pela razão óbvia: (…) os resultados do Belenenses nos últimos dois campeonatos foram fracos, e o festival que ali decorreu idem (na minha opinião). (…) Querer impedir que se façam comparações inesperadas num exercício crítico é querer impedir o humano de ser humano. (…) O Belenenses (…) é dos clubes com o estádio mais vazio. E é apenas a esse facto a que a frase ‘há duas dezenas de velhinhos nas bancadas’ se refere. (…) Não há nenhum insulto, antes uma brincadeira que eu diria mesmo carinhosa: o Belenenses é o meu segundo clube, desloco-me ao Restelo três ou quatro vezes por ano e na bancada central encontro sempre grande predominância de adeptos mais idosos. Se eu usasse a expressão coloquial ‘meia-dúzia de adeptos’ já não seria ofensivo? (…) Haverá a mínima possibilidade de me concederem que pessoalmente considero a expressão ‘velhinhos’ carinhosa (…)? Será que a idade é ofensiva? (…) É óbvio que não há apenas duas dezenas de velhinhos no Restelo, mas alguém, por um segundo, não percebe o sentido da frase? (…) Não é por se tratar de cultura massificada que devemos ser condescendentes, apesar de ser essa a prática corrente. (…) Qualificar de ofensa o meu texto é pelo menos abusar da interpretação. (…) Lamento que o meu texto tenha ofendido alguns leitores, porém parece-me que não só é preciso aceitar toda uma diversidade de opiniões diferentes como também toda uma diversidade de registos. (…) Ao pedir desculpas a uma instituição que me chamou, numa carta em que se treslê o que escrevi, ‘boi’ e ‘cobarde’, o PÚBLICO está a vincular-se a esses insultos?’

Como o provedor já considerou noutras ocasiões, o PÚBLICO, que ambiciona claramente ter uma função federadora em relação à população portuguesa, deveria cuidar de não alienar os diversos grupos sociais com considerações gratuitas ou de mau gosto, eventualmente ofensivas. A responsabilidade não é de João Bonifácio, mas de um editor que deveria ter feito a leitura prévia do texto e chamar-lhe a atenção para uma passagem mais desprimorosa para os adeptos de um clube. Na esmagadora maioria dos casos, o redactor cai em si, muda o que tiver de ser mudado e o texto cumpre na mesma a sua função.

CAIXA:

Uma foto perversa

O antetítulo da crónica de José Pacheco Pereira publicada na edição de 11 de Julho dizia que,’no actual estado de degradação das estruturas partidárias, os partidos são verdadeiras escolas de tráfico de influência’, enquanto o título inquiria:’Os partidos são responsáveis pelos crimes dos seus dirigentes?’ O texto fazia alusão a diversos casos suspeitos de confirmar as teses do articulista, mas não comprovados: Freeport, BPN, abate ilegal de sobreiros, aquisição de submarinos, venda do prédio dos CTT de Coimbra. Como ilustração, era usada uma fotografia do Freeport de Alcochete. Reclamou o leitor José Alberto Tomé:’O caso parece-me grave e demonstrativo da falta de ética de quem terá sido responsável pela composição/edição da coluna. (…) A associação feita entre ‘crimes de dirigentes partidários’ e ‘Freeport’ é escandalosa, e julgo que passível de processo criminal (ou será que algum dirigente partidário – e todos sabemos a quem aquela associação título/foto se refere – já foi julgado e condenado sem que o PÚBLICO o tenha noticiado?)! (…) Não esperava tanta desfaçatez!’

Explicações de José Vítor Malheiros, editor responsável pela página:’Fui eu que pedi a foto que ilustra o texto, ainda que não a tenha visto antes da publicação (por ter chegado quando eu já tinha saído). Como o texto referia vários casos sob investigação – entre os quais o BPN e o Freeport –, pedi foto de uma dessas empresas (…). O comentário do leitor é compreensível, mas a foto, nestes casos, apenas pretende ilustrar o texto, e é natural que ‘fale’ daquilo que o texto ‘fala’. (…) Devido a problemas deste tipo (…) seria conveniente que os artigos de opinião não fossem ilustrados por fotografias, a exemplo aliás do que acontece em muitos outros jornais. A maquete dessas páginas no PÚBLICO, porém, obriga à sua inclusão’.

Na opinião do provedor, a maquete faz uma associação perversa entre o caso Freeport e os’crimes’ de’dirigentes partidários’ mencionados em título (sabendo-se que muitos leitores só lêem os títulos e vêem as imagens), pelo que, a bem da linha editorial do PÚBLICO, dever-se-ia ter encontrado outra solução gráfica, para mais quando estamos perante casos tão sensíveis na actual política portuguesa.’

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