Domingo, 22 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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VOZ DOS OUVIDORES >

Joaquim Vieira

11/08/2009 na edição 550

‘O provedor iniciava a sua última crónica, ‘Os ‘velhinhos’ do Restelo’, mencionando mosquitos por cordas devido ao texto ‘Um festival sem festa’, do crítico e colaborador do PÚBLICO João Bonifácio, saído no P2 de 20 de Julho. Pois com a crónica do provedor houve mosquitos por cordas e moscas por arames.

O debate estendeu-se por cartas de leitores, artigos de opinião e a blogosfera (incluindo o blogue do provedor), e em discordância com as ideias defendidas na crónica alegou-se estar ameaçada a liberdade de expressão, haver sinais de nova tendência censória e assistir-se ao ‘fim da crítica tal como a conhecemos’. João Bonifácio foi mesmo tido como uma espécie de papa da crítica, porventura infalível, em todo o caso insusceptível de, ele próprio, ser sujeito a crítica (embora as observações do provedor se dirigissem sobretudo às opções editoriais do PÚBLICO – ou à falta delas).

O provedor congratula-se com a saudável polémica desencadeada, mas, dado o rumo hiperbólico dos argumentos, gostaria de descer um pouco à Terra, já que não antevê qualquer catástrofe ou sequer a mudança de seja que paradigma for – e, à maneira de Mark Twain, acha o anúncio da morte da crítica levemente exagerado.

É forçoso esclarecer que a sua actuação se enquadra num conjunto de referências escritas das quais a essencial é o Livro de Estilo do PÚBLICO. As conclusões a que chegou decorreram, tão só e apenas, da interpretação que fez das normas contidas nesse documento, ao qual se obrigam todos os jornalistas e colaboradores regulares do jornal, como é o caso de João Bonifácio.

Uma das principais regras impõe uma separação crucial: ‘Informação e opinião têm espaços claramente demarcados no PÚBLICO’, diz-se no capítulo do Livro de Estilo sobre ‘Critérios, géneros e técnicas’, para logo depois se reiterar: ‘A diferenciação entre textos noticiosos e textos de opinião tem de ser clara aos olhos dos leitores’.

Sucede que o texto de João Bonifácio, sobre um festival de música rock realizado no Estádio do Restelo, em Lisboa, era apresentado não como artigo de opinião mas como matéria noticiosa, consistindo porém num híbrido de reportagem, crónica e crítica à actuação dos músicos. Esta circunstância criou equívocos e acabou por baralhar alguns leitores, que reclamaram dizendo que o autor devia ater-se ao relato do sucedido e não a apreciações pessoais.

Admite-se um lapso na apresentação de um texto, o que para o provedor não é dramático desde que o jornal o venha a corrigir. O director adjunto Nuno Pacheco fê-lo duas vezes em editorial, a 23 de Julho e quarta-feira última, invocando ‘um erro de paginação’ do trabalho em causa. Mas, com a resposta recebida de João Bonifácio na semana passada, pareceu ao provedor que a ambiguidade fora premeditada, logo contrária ao estabelecido no Livro de Estilo. Explicou o autor: ‘Devido à sua natureza, os festivais de Verão podem ser motivo não apenas de crítica mas também de reportagem, pelo que se opta por um modelo de reportagem e crítica. Isso não invalida que os textos dedicados a festivais sejam invariavelmente textos críticos. O facto de (…) não estarem encabeçados como ‘Crítica’ pode de facto induzir em erro os leitores, visto um texto crítico (…) ter uma amplitude de registos, recursos formais e uma vertente opinativa bastante diferentes dos de reportagem. É este o caso. Presumo que isto responda a quem afirma que eu devia ter-me limitado a reportar factos.’

Ora, assumir-se num texto assim apresentado que se gosta ou não do grupo sobre o qual se escreve, como aconteceu com João Bonifácio, não é muito diferente de um jornalista político declarar as suas preferências partidárias numa reportagem de campanha eleitoral. O próprio João Bonifácio tinha consciência dessa limitação, ao reconhecer na resposta ao provedor: ‘O Livro de Estilo não me permite escrever ‘não gosto’’. Mas foi pior a emenda do que o soneto, pois, sobre as canções do grupo The Killers, que actuou no Restelo, acabou por escrever no colectivo: ‘Não gostamos nem um bocadinho’. Tal declaração podia ser lida como a posição do próprio PÚBLICO sobre a banda, em violação da regra do distanciamento dos factos preconizada no Livro de Estilo. Explicou João Bonifácio ao provedor que se tratava apenas do recurso alternativo ao plural majestático – o que, convenhamos, pode adequar-se a um papa da crítica mas não contorna a limitação que o próprio encontrara no Livro de Estilo.

Na polémica havida, os textos de opinião a publicar na imprensa foram defendidos como matéria sacrossanta e inviolável, como se qualquer interferência constituísse um atentado à liberdade de expressão. Este é um mito que não encontra aplicação em nenhuma parte do mundo. As regras do bom funcionamento de uma publicação implicam a leitura prévia, pelos seus responsáveis, de todo o tipo de artigos, para prevenir situações de natureza penal ou cível (sobretudo quanto à reputação de pessoas e instituições e à intimidade da vida privada), de incorrecção factual ou mesmo, eventualmente, de incompatibilidade com o estilo do periódico. O próprio Livro de Estilo do PÚBLICO alarga a norma aos textos de opinião, com a lógica concordância dos autores: ‘Os textos de opinião estão também sujeitos ao respeito pela linguagem não insultuosa e não panfletária a que se obriga o PÚBLICO. (…) Em qualquer caso, toda a intervenção do jornal num texto de opinião só é admissível com prévia autorização do autor’.

Estando a situação prevista no regulamento do jornal, o provedor não percebe a indignação causada pela sua sugestão de que os editores procurassem, em articulação com João Bonifácio, alterar uma passagem do seu texto que os adeptos do Belenenses (o clube de futebol que joga no Restelo) poderiam considerar insultuosa – para mais tratando-se de questão formal, sem nada a ver com a essência da crítica. Afinal foi essa frase (‘O Belenenses joga e há duas dezenas de velhinhos nas bancadas, nem uma palha bule, é um sossego’) que deu origem a toda a controvérsia.

Não que seja ofensa grave (se é que é ofensa, o que só um tribunal decidiria), mas nenhuma falange de apoio a um clube desportivo, cuja natureza reside no culto do vigor físico, aceitará de ânimo leve tão redutora descrição. Para mais, tratou-se, ao que tudo indica, de erro factual: João Bonifácio admitiu ao provedor que o Belenenses ‘pode ser dos clubes que mais adeptos levam ao estádio em termos brutos’, nem todos pertencendo certamente ao mesmo escalão etário. Para um jornal como o PÚBLICO, não parece um principio válido impedir que a verdade se intrometa numa boa metáfora.

Houve quem reclamasse por o provedor não levar em linha de conta o carácter eventualmente insultuoso das reacções de muitos adeptos do Belenenses, assim como da sua própria direcção em carta enviada ao PÚBLICO. Poder-se-ia responder que um insulto postal não possui o carácter de outro difundido num meio de comunicação de massas, ou até que um insulto em reacção a outro não torna este virtuoso – mas o ponto não é esse. O provedor é o defensor dos leitores do PÚBLICO, não dos seus jornalistas e colaboradores, pelo que a forma como os cidadãos usam a palavra para reagir às matérias publicadas pelo jornal é absolutamente indiferente ao exercício do seu múnus.

Este é o normativo que enforma a acção do provedor. Poderiam ser outras as regras? Evidentemente. Para felicidade de todos nós, que vivemos em liberdade de imprensa, há publicações de toda a forma e feitio – e para mais todos podem hoje publicar na internet tudo o que lhes vier à cabeça. Mas para isso o PÚBLICO deveria possuir outro estatuto editorial, outro Livro de Estilo e outro contrato com os leitores – e, já agora, outro provedor.

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Não há artigos grátis

‘Compro o PÚBLICO diariamente desde que foi lançado’, escreve a leitora Maria Pires. ‘Durante muitos anos, por o considerar um óptimo jornal. No últimos, infelizmente, já apenas por o considerar o menos mau dos jornais portugueses. [Na edição de] sábado 1 de Agosto, com chamada à primeira página e indicação de ‘Grátis em Agosto’, vem ‘O Melhor das nossas reportagens’ do caderno P2. Acho indecente a repetição das reportagens (que só faria sentido num carderno especial) e inacreditável a ‘lata’ do ‘grátis’. (…) Para quem compra o jornal diariamente, em vez de grátis, é pagar duplamente pela mesma coisa. E vou deixar de adquirir o PÚBLICO de sábado durante Agosto, pois sinto-me defraudada (…) com um caderno que, em vez de novos artigos e reportagens, traz reportagens que eu já li em edições anteriores’.

Sobre esta operação de reciclagem de matérias, explica o director do PÚBLICO: ‘A decisão de publicar um best off (…) surgiu na sequência da solicitação de muitos leitores, que mesmo tendo lido um ou outro texto não os tinham guardado. Outros não tinham lido, pois a maioria (…) não lê o jornal todos os dias. Ao reeditarmos esses textos num papel melhor e com melhor qualidade de impressão, oferecendo esse bónus sem cobrar mais pela edição de sábado (apesar dos custos acrescidos), sentimos que não era excessivo falar de oferta ‘grátis’, até porque recompilações deste tipo, habituais em jornais um pouco por todo o mundo, costumam ser vendidas à parte’.

O provedor considera pertinente a reclamação, já que esta opção editorial despreza os leitores mais leais ao PÚBLICO, que pagam duas vezes pelo que já leram e em contrapartida não têm direito a novos conteúdos no P2. Poder-se-ia falar em ‘bónus’ se o prato de comida requentada se somasse a outro acabado de confeccionar. Mas, ao substituí-lo e exigir aos leitores o mesmo dinheiro, não há nada de grátis neste almoço espiritual (sendo a maioria indiferente à qualidade do papel e impressão).

Não se estará por isso a dar menos com a ilusão de que se dá mais? José Manuel Fernandes responde: ‘Não se está a dar menos, pois dão-se mais páginas. É verdade que alguns leitores, ou mesmo muitos, terão lido já parte daqueles conteúdos, mas para a esmagadora maioria não é ‘menos’. Sendo que há no P2 especial conteúdos novos, os das páginas fixas [passatempos e listas de programas de TV, espectáculos e farmácias de serviço]. Mas a razão essencial é que, com os recursos que temos num mês como Agosto, produzir dois P2 num mesmo dia não era possível humana e financeiramente. Na melhor das hipóteses faríamos um misto de P2 normal e P2 especial, (…) nem carne, nem peixe. (…) Todo o feedback que recebemos dos leitores foi positivo, (…) à excepção dessa mensagem que foi só para o provedor’.’

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