Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > DIÁRIO DE NOTÍCIAS

José Carlos Abrantes

28/12/2004 na edição 309

‘A objectividade da fotografia existe, mas coabita com zonas de subjectividade.

‘Ver para crer’, dizia São Tomé, fazendo uma ligação directa entre as imagens e a verdade. Ainda hoje o olhar é considerado fonte primeira de conhecimentos e de informações. A imprensa compreendeu isso depressa e usou a força das imagens para tornar a informação mais apelativa e credível. A fotografia de reportagem é ainda mais «espelho» do que a informação escrita. Faz-nos crer que é o próprio mundo. De facto, a imagem contém algumas características deste, como as formas dos objectos e das pessoas. Isto não acontece com as palavras. A imagem fotográfica passa pela objectiva da câmara. O objecto ou pessoa fotografada como que «imprime» na película os seus traços, deixando marcas físicas da sua presença.

Essa objectividade da fotografia existe mas coabita com zonas de subjectividade com que os fotógrafos operam sobre o mundo que registam. Os enquadramentos e modos de fotografar têm significados. Por exemplo, quando são abertos, como no caso de uma fotografia de Cavaco Silva no lançamento de um livro (capa do DN, de dia 3). Nela se capta aquele político e outros participantes no evento. Com este plano aberto, abrangendo os fotojornalistas em actividade, mostra-se a forte mediatização da sua presença, o que não poderia ser obtido com um enquadramento fechado. Outras vezes faz planos mais apertados caso de uma foto do Presidente da República, na capa de dia 10, acompanhada do título O que vai na cabeça de Sampaio. Este enquadramento apertado chama a atenção para o peso da decisão de Jorge Sampaio. Tira a fotografia em picado (a olhar para baixo) ou em contrapicado (a olhar para cima) no jornal de ontem, domingo, o balão de uma criança tinha um autocolante de um dos candidatos às eleições da Ucrânia. A presença da criança, símbolo de futuro, e a importância do acto democrático foram bem destacados pela posição mais baixa do fotógrafo no momento da tomada de vistas. Pode focar ou desfocar personagens ou objectos (capa de dia 21). Nesta imagem, acentua-se a responsabilidade do primeiro-ministro, bem visível na imagem, sob a vigilância do Presidente da República, que aparece desfocado: o título refere-se à derrapagem do défice. O fotojornalista tem a possibilidade de dar maior ou menor profundidade de campo à situação ou usar, a posteriori, facilidades acrescidas das tecnologias digitais, nem sempre usadas de forma transparente (ver * em «Bloco-Notas»). E tem ainda muitas outras soluções para representar o que vê. Tudo isto está no coração da parte fotográfica do jornalismo, o fotojornalismo. Na imprensa procura-se, sobretudo, obter efeitos de real.

A fotografia de imprensa tem vários níveis de leitura. Um semiólogo francês, Frédéric Lambert *, identifica quatro 1) o nível dos efeitos de real que provoca, 2) o do reconhecimento cultural, 3) o nível simbólico e 4) a retórica utilizada.

Os efeitos de real são sobretudo provocados pela perspectiva frontal das imagens, ou seja, o leitor vê tal como veria o fotógrafo. Estes efeitos são também provocados pelo instantâneo uma fracção de segundo antes ou uma outra depois, teriam dado uma imagem diferente. Há ainda o reconhecimento cultural: quaisquer das personagens já referidas, que ilustra- ram primeiras páginas, são de fácil reconhecimento público. O terceiro nível, simbólico, pesa nestas leituras: por vezes as imagens já não representam apenas as personalidades, factos ou ocorrências, ganhando um estatuto convencional que lhes é atribuído socialmente. A fotografia tem, por último, uma retórica própria, que nos leva, por exemplo, a procurar contrastes entre os seus elementos: preto e branco, algo que «está em movimento» e que se opõe ao que está parado, o nítido e o desfocado, o mundo da guerra e o mundo civil, os homens e as mulheres, os poderosos e os oprimidos. Uma fotografia contrastada ganha vivacidade. A foto que ilustra a luz verde às negociações com a Turquia no Parlamento Europeu (capa de dia 16) é um bom exemplo: cores diferenciadas, homens e mulheres, votos de «sim» e de «não», posições de corpo díspares, posição frontal que coloca o leitor na posição do fotógrafo. Um momento, uma fracção de segundo em que o Parlamento Europeu foi assim, naquele sector.

E que as fotografias referidas bem revelam, dando-nos a ilusão do real. São assim as imagens.

* Lambert, Frédéric, Quatre niveaux de lecture d´une image photographique de presse, in Le photojournalisme informer en écrivant avec des photos, Paris, Centre de Formation et de Perfectionnement des Journalistes, 1990, pp 39-42.’

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